terça-feira, 18 de junho de 2024

O AMIGO PERGUNTA : PSEUDOCIÊNCIA?

 



De Renato Capper : “O que você acha do que a Natália Pasternak disse sobre a psicanálise, que ela é uma pseudociência?”

Francisco Daudt: Acho que só temos a lhe agradecer: ela funcionou como o menino da fábula que disse “o rei está nu”. Ela nos fez um grande bem quando botou o dedo num assunto precioso para quem é psicanalista e tem aspirações iluministas e racionais: que tipo de conhecimento é a psicanálise?

Se há um reparo a fazer no que ela disse, seria que a psicanálise não é, nem pode ser (pelo menos por enquanto) uma ciência. Eu quero que ela seja uma protociência, um conhecimento que ambiciona ser científico, mas ainda não pode ser, dada a complexidade da mente humana.

Algo como um dia foi a alquimia, a primeira tentativa de abordar aquilo que se tornou a química: ainda muito em fase de observação, experimentação e hipóteses, algumas (ou muitas) viagens na maionese, algumas (ou muitas) embriaguezes delirantes, mas… com alguns (ou poucos) pesquisadores - nos quais me incluo - com genuíno desejo iluminista de razão, de lógica, e da humildade própria ao espírito científico: ainda não sei se o que observo é verdadeiro ou falso, mas quero muito saber, quero muito testar, quero muito dar a cara a tapa.

Esse “dar a cara a tapa” é o princípio de Karl Popper, meu filósofo da ciência predileto. Ele dizia que, no método científico, as hipóteses precisam estar vulneráveis à refutação, a que lhes apontem os erros: se elas forem sobrevivendo a essa peneira, têm chances de ser verdadeiras, mas… continuarão como alvo de questionamento, nunca se afirmarão como verdades absolutas.

Ele foi o legado de Freud: ele, no final da vida, foi deixando de lado o “Freud explica” em favor do “Freud investiga”; deixando de lado as interpretações para, como diz o título de um de seus últimos trabalhos, “Construções em análise”.




quarta-feira, 12 de junho de 2024

EFEITO PAC - QUANDO A FALTA DE EMPATIA VEM DO TDAH

 


Um relato curioso de consultório me fez ver que nem toda falta de empatia é resultado de narcisismo. 

Ou, assim como existe o “narcisismo de tumulto mental” (a cabeça está tão alugada que não sobra espaço pra mais ninguém), o TDAH também pode promover esse tumulto, e incapacitar a pessoa para a empatia.

O relato, que vou chamar de “efeito Pac”:

“Pac" é o nome do cachorro que mora na casa do Gustavo, e que adora ele. Um dia eu fui levar o Gustavo na casa dele, ele só tinha que pegar uma coisa, de modo que eu fiquei embaixo do prédio, esperando no carro. 

Pois ele demorou VINTE MINUTOS! Tive que interfonar pra saber o que tinha acontecido. Aí voltou. “O que houve?” Ele:

1. não tinha se dado conta da demora e ficou envergonhado quando eu disse que tinha ficado esperando por vinte minutos. 

2. me explicou que quando ele entrou em casa, o Pac fez tanta festa pra ele, que ele ficou lá brincando… e se esqueceu de mim! Melhor dizendo: eu sumi de sua cabeça até que disseram pra ele que eu estava no interfone.”

Entendi que o “efeito Pac” não é nenhuma sacanagem, nem descaso, nem desinteresse, nem desamor: ele é parte do TDAH, que o TDAH atrapalha a empatia (ter o outro em mente, lembrar dele, se interessar por ele). 
O TDAH aumenta por si só o índice de narcisismo da pessoa, sem que isso implique narcisismo genético, muito mais grave. 

Mesmo porque o apenas portador de TDAH não tem a assinatura do narcisismo genético: a permanente necessidade de se afirmar como foda, por medo de ser merda.



terça-feira, 11 de junho de 2024

TIRAR O DRAMA FAZ PARTE DA CURA

 


Todas as orientações terapêuticas começam por tirar ou relativizar o drama. O fato de se fazer diagnóstico do problema é o meio principal de se tirar o drama, pois se a aflição de origem desconhecida é dramática, a aflição que se entende e que se pode curar não é dramática.





terça-feira, 28 de maio de 2024

O SUPEREGO SE PARECE COM DEUS PAI

 


Não se trata de fé, ou de crenças religiosas, mas de como minha cabeça de criança, formado que fui por família católica fervorosa, entendeu esse personagem meio esquecido e pouco falado: Deus Pai.

Ele tudo via. Sua representação mais conhecida era a de um enorme olho dentro de um triângulo. Não adiantava tentar esconder nada dele, nem mesmo nossos mais íntimos pensamentos. 

Ele não só via, mas julgava com severidade, através de seus dez mandamentos impossíveis de serem cumpridos ao pé da letra (por exemplo:“amar a Deus sobre todas as coisas”? Mais que a meu pai e mãe? Eu deveria sentir culpa a cada onda de amor por eles, sem nenhuma correspondente ao Criador?). 

Se houvesse transgressão por “PENSAMENTOS, palavras, obras e omissão, o destino era um só: a eternidade no fogo do inferno! Ele mesmo havia expulso Adão e Eva do paraíso. Não só os dois, mas todos os seus descendentes, nós, os “degredados filhos de Eva”. Não havia dosimetria de pena comparável em toda a história humana.

Pois quando fui entendendo da mente humana, vi uma semelhança enorme entre o Deus Pai e o Superego: 

1. Ambos estão “acima de mim” (Superego significa exatamente isso, em latim).

2. Ambos “tudo veem”, até nossos mais íntimos pensamentos.

3. Ambos tudo julgam com a pena que nos causa a maior angústia: o desamparo, o degredo, a expulsão do paraíso, essa que é o verdadeiro inferno na Terra.

4. Ambos causam culpa, “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa” em caso de transgressão das tais leis.

Não admira que fosse tão fácil e compreensível, para o menino que fui, acreditar na existência desse Deus Pai: ele morava em minha cabeça… como meu Superego.


terça-feira, 21 de maio de 2024

VÍCIOS: O PODER DO GATILHO

 


O cliente está há mais de vinte anos sem beber. Ele não tem bebida em casa, deixou de frequentar os antigos cúmplices de botequim, vive uma vida tranquila e produtiva, mas…

…comprou uns lenços umedecidos com álcool que são um sucesso para limpar seus óculos. Como ele é obsessivo, empreende esse ritual com certa frequência. E deu pra cheirar o lenço assim que termina a limpeza: uma longa e profunda prise.

Foi o bastante para começar a pensar de novo em bebida. A olhar as garrafas de whisky nas prateleiras do supermercado. A namorar a ideia de que, talvez, “um pouquinho não fizesse mal”.

Entendeu o que estava acontecendo: quando há vício em substâncias, o gatilho permanece. Nem é preciso muito “duro” para que a ideia do “Dreher” apareça. Basta o cheiro…




segunda-feira, 13 de maio de 2024

DOMÍNIO-SUBMISSÃO, O VÍCIO DO MIMADO

 


Vício de domínio-submissão é uma compulsão danosa de ter outros sob seu poder, ou de se entregar submisso a esse poder, ou as duas coisas aplicadas a pessoas diferentes.

O vício de domínio-submissão é derivado da relação que temos com nosso Superego desde o início.

Como o Superego é formado absorvendo leis e valores impostos na base da chantagem (“ou aceita, ou eu te desamparo”), mantemos com ele essa relação de submissão ou de rebeldia, de vingança contra suas imposições, como é o caso dos obsessivos contraculturais, como se fosse uma tentativa de dominá-lo, em vez de submeter a ele, mas que continua prisioneiro dele, só que pelo avesso.

Uma modalidade de vício de domínio-submissão especialmente perversa é a induzida pela falta de autoridade de pais que mimam os filhos: eles se põem submissos aos filhos por “medo de que os filhos não venham a amá-los”, ou por medo de “serem opressores”, ou por confundir mimo com “o amor que devem ter pelos filhos”.

Nesse caso, os pais fazem de seus filhos pequenos tiranos, viciados desde a infância no domínio-submissão inverso: os pais submissos aos filhos. A doença do mimo é o vício de domínio-submissão inverso.

Novamente, as relações de domínio-submissão podem não ser viciosas se não causarem dano. A própria relação que tivemos com nossos pais e amparadores da infância não deixa de ser de domínio-submissão, dada a discrepância de poderes que ela continha.

Mas a submissão por confiança (como a que temos com um cirurgião que nos opera, p.ex.) é diferente da submissão por medo de desamparo, e é essa diferença que vai começar a estabelecer a fronteira entre saúde e vício.

O problema dessa fronteira entre domínio-submissão por confiança e a por medo é que essa, a por medo, é nossa relação com o Superego desde o início.

Se nossos pais usaram mais da autoridade do saber (a autoridade baseada no convencimento e no respeito a inteligência da criança), eles transmitiram valores para a pessoa da criança, para seu Ego.

Se a autoridade usada foi a de imposição por medo do desamparo, esses valores foram para o Superego, e vão formar base para possíveis doenças neuróticas e viciosas pela vida afora, com três vícios mais típicos daí derivados: o vício de domínio-submissão, o vício sadomasoquista básico e o vício sadomasoquista fodão-merda.


“DEPOIS, DEPOIS…” : O VÍCIO DA PROCRASTINAÇÃO

 


Não há cenários melhor para examinar o uso de drama pelo Superego, de como o Superego é capaz de transformar a menor coisa num “duro”, num sacrifício a ser combatido com o “dane-se” do vício, fazendo dessa menor coisa um drama: “ah, que horror, que drama, tenho que lavar a louça!” 

O que torna irresistível aquela palavrinha que equivale ao “dane-se”: “Depois, depois eu faço…”

Todos os vícios são fruto de uma guerra entre a construção e o imediatismo; todos os vícios obedecem a uma linha de montagem.

O mundo externo pede preparo, aprendizado e construção para que se lide bem com ele, a coisa é necessária, mas não é imediata nem pronta.

Se a construção for monopolizada pelo Superego, por cobrança, por imposição, por chantagem moral e por drama (“faça isso, senão ninguém vai gostar de você!”), haverá uma pressão enorme para tocar um “dane-se” para o Superego, em favor de um prazer imediatista, que virá de várias formas: dos vícios de substâncias e dos de comportamento (sexuais ou não).