sábado, 22 de março de 2025

O AMIGO PERGUNTA SOBRE PSICOPATAS


“Já ouvi você dizer que se o psicopata não tivesse Superego ele podia se dedicar a polir maçanetas, por exemplo. Me explica a psicopatia então?”

Francisco Daudt: A psicopatia é outra doença que a psicanálise não alcança. Suas características (falta de empatia; manipulação; ausência de culpa ou remorso; comportamento impulsivo sem medir consequências; charme superficial; desrespeito por normas sociais) sugerem que ela funcionaria como o mais alto grau de narcisismo.

É senso comum dizer que o psicopata não tem Superego, mas não entendo assim. Ao contrário: já disse que o narcisismo traz consigo um Superego especialmente cruel, que impele a uma constante defesa de suas acusações desqualificantes da pessoa (“você é mesmo um merda”). 

Imagine-se isso num psicopata! Se o psicopata não tivesse Superego, ele poderia se dedicar a outras coisas na vida, em vez de ter que desafiá-lo o tempo todo.


terça-feira, 4 de março de 2025

“COM UM TIRANO NA CABEÇA” - A PSICANÁLISE DO SUPEREGO E SUA HISTÓRIA

 


Mas por que o mal-estar com o pai seria traumático? É óbvio, está diante de nossos olhos, mas como é tão comum e básico, nós não vemos: concentração de poder, e de poder de amparo. 

Nossa espécie nasce tão necessitada de amparo, que pagamos qualquer preço para tê-lo. Se alguém tem o monopólio do nosso amparo (como na paixão, p.ex.), esse alguém adquire um poder sem igual sobre nós: vamos querer agradá-lo, vamos fazer qualquer coisa para que ele não nos abandone, não nos desampare, acima de tudo vamos temê-lo. 

É dai que vem a expressão “temor a Deus”: ele concertava todo o amparo. É só lembrar o que ele fez com Adão e Eva: desobedeceram? Desamparados para sempre…

Essa concentração de poder tem a ver com a política: no governo tirânico, só há um poderoso, e todos o temem. Na democracia, os poderes são três, eles conversam entre si e vigiam para que ninguém se torne monopolista, inibem candidatos a tirano: os direitos são iguais.

(Do meu livro em andamento).




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

A MELHOR CONTRIBUIÇÃO DA FERNANDA TORRES AO BRASIL…

 


A MELHOR CONTRIBUIÇÃO DA FERNANDA TORRES AO BRASIL…

…é sua capacidade de autogozação. A leveza com que ela ri de si mesma influencia nosso senso comum a valorizar o não levar-se a sério.

Ela pode ganhar o Oscar por um drama, mas já ganhou meu coração por fazer um lindo marketing do “tirar drama” em cada aparição pública que nos faz sorrir. 

Ela abranda o Superego nacional!



domingo, 23 de fevereiro de 2025

O AMIGO PERGUNTA SOBRE TRAUMA

 



“O trauma é sempre um acontecimento impactante?”

Francisco Daudt: Não. Existem dois tipos de trauma que levam a doenças psíquicas: o trauma original e o trauma atual. O trauma original mal é percebido, pois ele se estende por muito tempo, é uma ameaça surda e muda de desamparo. O trauma atual é sim impactante e momentâneo.

Vamos de exemplo que fica mais fácil. Suponha um clima ruim entre os pais e uma criança. Por algum motivo, ela é rejeitada pelos pais (ou por um deles, ou por quem a ampare na infância: tem que ser um amparo importante). Essa rejeição não é muito explícita, e muito menos explicada. É só um clima ruim com momentos piores. A criança se sente no Processo de Kafka: acusada de algo que ela nem tem ideia do que seja, nem lhe é explicado; mas ela sabe que está marcada.

Esse climão é o trauma original. Veja que ele nem é muito consciente, nem muito claro, nem nada. Ele é um “cozimento em banho-maria”. A criança se sente injustiçada, a injustiça provoca raiva, uma raiva que ela não pode ter, caso contrário será desamparada. 

Para agravar, há a tensão da perplexidade, da coisa intrigante e assustadora, aquilo que é claramente importante mas não entendemos, e por isso nos assombra. Essa indigestão mental recebe o nome de TRAUMA ORIGINAL.

Um dia, uma barata entra voando em casa e vai pra cima dela. A partir desse dia ela passa a ter fobia de baratas. 

Esse é o trauma atual: ele pegou aquele drama incompreensível do trauma original e deu-lhe sentido: “Ah, agora eu sei qual é o meu problema: não é nada com meus pais, imagine, eles me amam. Meu problema são as baratas”. O TRAUMA ATUAL é o desencadeante da neurose.

É esquisito, mas a doença neurótica acaba sendo um alívio, um mal menor administrável (basta fugir das baratas) que substitui o maior, impossível de administrar.

(Do texto base da Psicanálise do Superego do aplicativo DrDaudtAI)



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

VÍCIO EM ACUMULAÇÃO


Um de seus motivadores parte da ideia obsessiva de que algo pode ser ainda útil, um dia, e pode inabilitar a casa para outros usos que não o de depósito. Há sempre uma explicação racional para isso.

Nos EUA, não é incomum que cadáveres de acumuladores sejam descobertos, sepultados por seus objetos. Lembrando: a linha que separa o hábito do vício é o dano causado. Vício causa dano. Atualmente, com as compras online, o vício da acumulação costuma vir junto com o vício do consumo compulsivo.

Outro componente importante, talvez o principal, do vício da acumulação, é a postergação, ou procrastinação: o jogar fora pode ser uma tarefa imposta pelo Superego, diante da qual a transgressão vira “ah, dane-se, depois…” É claro que, quanto mais a acumulação aumenta, mais vontade de postergar sua solução aparecerá.

Um agravante para essa postergação é a boa intenção de preservar o meio-ambiente através do descarte seletivo, pois ele dá tanto trabalho que a vontade de deixá-lo para depois aumenta.



O QUE ESTÁ A NOSSO ALCANCE?

 


Tolerância dentro das relações pessoais. Querer ouvir a outra parte. Não querer exterminá-la. Não aceitar o convite para o ódio. Parece fraco? Pense bem: nosso alcance são as pessoas do nosso convívio, familiares, amigos, gente com quem tivemos bom encontro afetivo.

Como todos, também fui alcançado pelo acirramento político do “nós contra eles” nas minhas relações pessoais/familiares. Tenho me esforçado para não julgar, não falar mal, procurar outros assuntos a partilhar, outras zonas de encontro, áreas de diálogo.

Não há como converter crentes, é só desgaste, é uma sedução para nos pormos na posição do Superego.

Outra coisa é a hora de votar, ou quais políticos apoiar.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

PALMADA

 


O AMIGO PERGUNTA 

“Palmada forma Superego? O que forma o Superego?”

FD: É curioso, mas o senso comum impôs aos pais duas coisas que não existiam na minha infância: o horror ao castigo físico, como se fosse alguma espécie de crime, e a obrigatoriedade de “ser amiguinho” dos filhos, de dizer-lhes “eu te amo” o maior número de vezes possível.

Não adianta fazer a defesa da palmada: nesses tempos patrulhados, ela não voltará nunca mais. Porém… havia nela virtudes, que eram a clareza entre crime e castigo (“eu fiz merda - eu levei palmada”), a dosimetria da penalidade era justa (nenhuma palmada machucava, só assustava; a pena se encerrava no ato, não haveria caras e bocas depois, não durava mais que seu segundo, não havia prolongamento nem “clima”).

Não havia na palmada o principal elemento formador do Superego: a ameaça velada de desamparo que o silêncio, o gelo e a cara fechada trazem. Eles contêm uma falta de clareza, uma falta de relação crime/castigo que produzem efeitos duradouros: como a dosimetria da pena é injusta (“tudo isso só porque eu deixei cair a xícara?”), o ressentimento/raiva despertados não são claros, não há advogado de defesa, paira um sentimento de dívida, de estar em falta, de medo de que “não gostem mais de mim”. É o desamparo. É ele que vai formar o Superego, por medo inconsciente do desamparo.

Ok, tiraram a palmada de cena, mas… não houve substituição educativa justa e clara como a dela.

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Quando ao “eu te amo”, nenhuma criança nascida até os anos 1960 jamais ouviu essa frase dos pais. Ela era desnecessária. E pior, quando a frase é dita pela boca, mas a atitude diz o contrário, só causa confusão e desconfiança nos filhos.

Aqui vai o depoimento de Marcelo Rubens Paiva sobre sua mãe Eunice, hoje tão famosa por causa do filme “Ainda estou aqui”:

“Ela não exercia seu afeto por meio de afagos, mas pela praticidade. Nunca me disse “eu te amo, filhinho”. Mas eu sabia que ela me amava, orgulhava-se de mim, sem demonstrar.”