(Esclarecimento inicial: falo em “vício de calorias” e “vício de domínio e submissão” em sentido figurado, para destacar a força sedutora desses arranjos; não se trata aqui de uma descrição nos termos formais dos transtornos por uso de substâncias ou comportamentos aditivos.)
A Revolução Agrícola funcionou como
A Revolução Agrícola funcionou como um grande vício em calorias: seduziu o Sapiens com alívio e abundância imediata, em troca de submissão crescente a uma hierarquia que controla o “tóxico” e produz o mal-estar da civilização.
Pequeno sumário
Ao descobrir que grãos caídos geravam mais grãos e que era possível plantar, criar rebanhos e estocar comida, o Sapiens foi seduzido por um alívio enorme: não precisar mais vagar todos os dias em busca de alimento.
Esse “traficante de calorias” oferecia carboidrato e caloria concentrados, previsíveis e ao alcance das mãos, ativando poderosamente o circuito dopaminérgico de recompensa.
Como em qualquer vício, o benefício imediato parecia compensar, de longe, o custo futuro: em troca da segurança alimentar, a espécie aceitou a sedentarização, a convivência forçada com estranhos, o surgimento de hierarquias rígidas e, com o tempo, um profundo mal-estar ligado à submissão à nova ordem.
Condensação ampliada
A metáfora do vício ilumina com precisão a transição agrícola. O “tóxico” aqui não é uma substância ilícita, mas um pacote de calorias fáceis: grãos que se renovam ano após ano, rebanhos que podem ser controlados, depósitos de alimento que “compram” futuro.
Isso produz um alívio poderoso: não é mais necessário levantar cedo para caçar ou caminhar longas distâncias para colher; o risco de passar fome diminui, a previsibilidade aumenta.
O circuito dopaminérgico reage exatamente como diante de uma droga: a recompensa rápida, concreta e repetível captura o organismo e reduz a sensibilidade aos custos abstratos e distantes.
Nessa dinâmica, o controlador do tóxico ganha poder sobre o viciado. Quem domina a terra fértil, o grão e o estoque de calorias passa a ter ascendência sobre aqueles que dependem disso para viver.
Tal como o usuário de droga que aceita pagar preços crescentes — dinheiro, saúde, dignidade, liberdade — para manter o acesso à substância, as populações agrícolas vão aceitando, em prestações históricas, os custos da nova ordem: perda de mobilidade, sujeição a chefes, desigualdade de status, naturalização de punições e violências. O jogo de domínio-submissão, que antes podia ser episódico, torna-se condição permanente de existência.
É nesse contexto que se instala uma hierarquia estável, ausente nos pequenos bandos de caçadores-coletores. O monopólio do tóxico (alimento estocado) se traduz em poder político (tiranos, Estados), legitimado por narrativas religiosas (Deus como fiador da ordem), reproduzido em escala doméstica (patriarca) e, por fim, internalizado como superego.
A espécie não paga apenas com o corpo; paga também com a estrutura psíquica. Um dos “preços da droga” é a própria civilização com seu mal-estar: renúncias, culpas, medos e obediências que passam a ser o pedágio subjetivo para ter acesso à segurança e à proteção oferecidas pela nova forma de vida.
Em termos crús, o Sapiens aceita ser viciado em calorias e, em troca, entrega-se ao poder do traficante — e é dessa entrega que nascem a hierarquia e o superego tirânico que descrevo na Psicanálise do Superego.

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