quinta-feira, 8 de outubro de 2026

SOBRE O CHORO

 


O choro é a primeira reação humana diante do incômodo. O bebê não tem outro recurso: não fala, não se mexe direito, não sabe sequer o que o incomoda. Só pode chorar.

E o choro tem uma função muito precisa, que é incomodar os pais. “Como parar esse choro?” E passam a procurar o que faça aquilo cessar. É fome? É frio? É a fralda? É colo? Por tentativa e erro, os pais vão descobrindo, e o bebê vai aprendendo, através deles, o que queria, até aprender algo mais funcional e prático, tipo, falar “estou com fome”.

Daí se deduz: o choro, desde sempre, é a manifestação do incômodo impotente. Chora-se quando não há mais nada a fazer. E esse registro nos acompanha pela vida afora.

. O choro da impotência momentânea

O adulto tem palavras, tem braços, tem meios de agir. Mas há momentos em que tudo isso falha, e ele se vê de novo diante de um incômodo contra o qual não pode nada. Aí o corpo volta à primeira resposta que conheceu: chora.

O exemplo mais claro é o choro da perda irreparável. O que se pode frente à morte? Os choros de tristeza têm a ver com perdas: do amor, da juventude, da falta, das esperanças, da presença etc.

Outro típico é o choro de raiva impotente. A injustiça que não se pode reparar, a humilhação que não se pode revidar, a frustração que não tem a quem se dirigir.

Durante muito tempo eu pensei no choro como uma manifestação de pena de si mesmo. Não gostava dessa formulação, e hoje entendo por quê: pena de si mesmo soa como uma crítica sobre nossa fraqueza.

Impotência é outra coisa. Ela descreve uma condição. Quem chora não está se lamentando; está dizendo, com o único recurso que sobrou, que não há outro recurso.




. O choro da impotência passada

E agora chego ao choro de que eu mais gosto, que mais me comove: o choro de felicidade.

Quem nunca estranhou isso? Por que choramos justamente quando as coisas dão certo? A resposta, para mim, é esta: o choro de felicidade é o choro pelo choro que não foi chorado, o choro da dor que passou.

Enquanto a dor durava, chorar era um luxo que não dava para ter, porque era preciso aguentar, resolver, seguir em frente. Quando a dor acaba, o choro guardado finalmente tem licença para sair. É um choro de grande alívio. É um choro que celebra que, de alguma maneira, um incômodo longamente suportado foi resolvido.

O pai chora quando o filho sai bem da cirurgia, não durante as horas de espera. O atleta chora na vitória, não nos anos de treino. Quem passou semanas angustiado à espera de um exame chora quando o resultado é bom.

Em nenhum desses casos se chora propriamente de alegria. Chora-se a dor de antes, agora que se pode. A mãe que entrega a filha no altar chora por toda a criação que carregou, por todo o trabalho que teve, por tudo o que suportou sem chorar.

E há o choro de reconhecimento, de que eu gosto muito: a pessoa homenageada, premiada, que se sente enfim percebida. Também ela chora pelo que não chorou antes. O reconhecimento funciona como uma testemunha que chegou atrasada, mas chegou.

. O choro diante da beleza

Há ainda o choro da beleza, que segue a mesma lógica. A vida tem sua feiura, uma espécie de dor de fundo, crônica, que nem percebemos que suportamos. De repente, uma música, um verso, uma obra nos dão uma forma para essa dor, e encontrar essa forma é reconhecimento.

A beleza abstrata, a música instrumental, as artes em geral podem fazer chorar pelo vislumbre de que “a vida é mais do que se vê”. A beleza nos faz chorar porque revela, por contraste, o quanto vínhamos aguentando.

Quando Chico Buarque diz que "a saudade é o revés de um parto / a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu", ele fala de uma dor diante da qual não há nada a fazer. Quem ouve chora porque o verso nomeia, com exatidão, saudades que levava sem saber dizer. O artista chora por nós, e nos dá licença para chorar junto.

A poesia, com seu poder de síntese, pode numa frase tocar nossos sentimentos guardados: “é o choro da dor que acabou…”


EM BUSCA DE UMA VIDA MAIS FELIZ

 


Felicidade não é um lugar aonde a pessoa chega, finca uma bandeira e pronto, acabou. É mais um jeito de viajar. Se a felicidade vem de se desenvolver meios de realizar os próprios desejos, falta entender como se vai atrás dela.

Dá para resumir assim: a pessoa precisa conhecer os próprios desejos e o que atrapalha esses desejos. Depois, tirar os atrapalhadores do caminho e aprender a procurar circunstâncias favoráveis, ou seja, que ajudem o desejo a se realizar e que não tragam de volta aquilo que atrapalha. Parece simples no papel. Na prática, é o trabalho de uma vida.

O que é desejo
Quando se fala em desejo aqui, não é aquela vontade de uma coisa específica, tipo “quero um doce” ou “quero um carro novo”. Isso são objetos de ocasião. O desejo de que se trata é mais fundo: é aquilo que nos move, aquele impulso que põe a pessoa em direção ao mundo, que a faz sair da cama, procurar gente, querer saber das coisas.

O desejo raiz é o desejo de prazer. E prazer, por sua vez, é a satisfação de um desejo, que pode vir em intensidades bem diferentes, desde um prazer pequeno do dia a dia até os mais intensos. O prazer sexual é o maior exemplo, e também o mais importante para a espécie humana, por um motivo bem concreto: é ele que mantém a humanidade existindo. Sem ele, ninguém estaria aqui para conversar sobre felicidade.

Só que o prazer não anda sozinho. Ele tem três desejos que trabalham a seu serviço, os desejos acessórios:
• o desejo de justiça;
• o desejo de conhecer e entender;
• o desejo de controle e ordenação.

Esses três funcionam como uma espécie de equipe de apoio. Eles trazem a tranquilidade que a busca do prazer exige. A justiça deixa as contas acertadas com os outros, e ninguém consegue curtir a vida em paz com uma dívida mal resolvida ou uma injustiça engasgada. O conhecimento ajuda a pessoa a entender o que faz bem a ela e o que não faz. E o controle e a ordenação garantem um ambiente minimamente organizado e seguro, onde dá para respirar.



Mas eles não são só ferramentas. Esses desejos são, eles mesmos, fonte de muito prazer. Quem já sentiu a satisfação de ver uma injustiça corrigida, de finalmente entender uma coisa que estava confusa, ou de deixar a casa (ou a cabeça) arrumada, sabe do que se está falando.

Cada pessoa tem esses desejos em pesos diferentes. Uma é movida principalmente pela curiosidade; outra não sossega enquanto as coisas não estiverem justas; outra precisa de ordem para funcionar. 

Essa combinação particular forma o que se pode chamar de perfil único de desejo. Cada um tem o seu. E esse perfil orienta os encontros pessoais que mais importam para ela, sejam afetivos, intelectuais ou eróticos, e também orienta a realização pessoal fora dos encontros: o trabalho, os projetos, os interesses que a pessoa cultiva sozinha.

O primeiro passo: recuperar a capacidade de buscar
Antes de sair pesquisando o próprio desejo, a pessoa precisa ter condições de pesquisar. E o grande inimigo dessas condições tem nome: o drama. Ou seja, a situação dramática, urgente, que não deixa ninguém pensar direito.O drama vem de duas fontes, e as duas fazem o mesmo estrago.

A fonte interna são as doenças psíquicas. Todas elas são dramáticas. São compulsivas, repetitivas, ocupam a mente o tempo todo, aquilo que popularmente se chama de “alugar a cabeça”. E causam dano, à própria pessoa e muitas vezes a quem está em volta.

A fonte externa são as circunstâncias. Um chefe tirânico. Uma família opressiva. Um grupo que impõe o senso comum e quer enquadrar todo mundo no mesmo molde. Relações que alimentam vícios em vez de ajudar a sair deles.

Seja de dentro ou de fora, o efeito do drama é sempre o mesmo: ele empurra a pessoa para a reatividade, e não para a reflexão. Ela deixa de pensar e passa só a reagir. Perde a inteligência e o comando da própria vida. E, em vez de mudar a circunstância que a oprime, fica só procurando alívio, um alívio que nunca resolve.
E tem uma armadilha ainda pior. O drama seduz a pessoa a fazer o papel de Superego dos outros: cobrar, julgar, apontar o dedo. O oprimido se seduz a ser opressor, de passar de merda a fodão. 

Isso dá um alívio momentâneo, uma sensação de estar por cima. Só que esse alívio tem um preço: ele reforça o próprio Superego da pessoa. Quem vive julgando os outros acaba ficando cada vez mais preso às mesmas leis com que julga. E o ciclo se fecha.

Por isso, o começo da busca é sair do drama. É descobrir em que circunstâncias, internas e externas, a inteligência da pessoa fica mais livre para funcionar.

O filósofo espanhol Ortega y Gasset disse isso de um jeito que ficou famoso: “Eu sou eu e a minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo.” Não existe busca de felicidade que ignore as circunstâncias. Ninguém floresce num terreno envenenado só por força de vontade.

Um trabalho para a vida inteira: desadestrar o Superego
Por trás de todo sofrimento psíquico existe uma briga: de um lado, um desejo; do outro, uma lei do superego.
Um exemplo: a pessoa sente raiva do pai. Essa raiva pode ser perfeitamente legítima, nasce de um desejo de justiça, porque o pai fez alguma coisa errada com ela. Mas, lá atrás, ela aprendeu que “é errado ter raiva de pai”. Então a raiva fica proibida. 

Só que proibir um desejo não faz ele desaparecer: ele vai procurar outra saída. E, nesse caso, a saída pode ser uma neurose fóbica, um medo que aparece sem explicação aparente, mas que no fundo é a raiva disfarçada.
Muitas dessas leis do superego são simplesmente idiotas. Às vezes o problema está no conteúdo, como em “é errado sentir raiva”, que é uma lei ruim por si só. 

Mas o ponto mais importante é outro: a imposição é sempre idiota, mesmo quando o conteúdo da lei é correto. Pense em “você tem que ser honesto”. Ser honesto é ótimo. Mas o “tem que” vai tirar da pessoa a escolha. Ela passa a ser honesta por obediência, e não porque entendeu por que a honestidade vale a pena para ela.

Então a meta não é trocar uma lei ruim por uma lei boa. Isso seria só trocar de dono. A meta é sair da obediência e passar para o desejo e a compreensão. É a pessoa fazer o que faz porque quer, porque entende e acha bom, não porque alguém, um dia, mandou.

E esse trabalho não termina. As leis idiotas têm o mau hábito de voltar, em fases diferentes da vida, com roupas novas. Por isso desadestrar o superego não é uma etapa que se cumpre e se deixa para trás: ele acompanha todas as etapas da busca.

O passo a passo
1. Sair do drama. Reconhecer e reduzir as fontes de drama, tanto as internas (as doenças) quanto as externas (as circunstâncias), para recuperar a inteligência e o comando da própria vida.

2. Pesquisar o desejo. Conhecer seu próprio perfil de desejo: quanto pesa o prazer, quanto pesam a justiça, o conhecimento e a ordenação, e que encontros e realizações combinam com essa mistura.

3. Construir circunstâncias favoráveis. Procurar ambientes e relações em que o desejo possa se realizar e que não tragam de volta aquilo que atrapalha.

4. Ao longo de todo o caminho, desadestrar o superego. Trocar, aos poucos, o “tenho que” pelo “escolho”.
Ninguém precisa fazer essa viagem sozinho. O aplicativo é um parceiro nesse caminho, na busca de uma vida mais feliz. 


terça-feira, 6 de outubro de 2026

SOBRE A FELICIDADE

 



A felicidade não é um lugar absoluto, um estado a que se chega e onde se fica. É uma maneira de viver. Como diz um antigo dito, ela não é uma estação de chegada, e sim uma maneira de viajar.

Ela depende de duas coisas que se alimentam uma à outra:
1. conhecer os próprios desejos;
2. desobstruir os processos que levam à realização desses desejos.

Quem conhece o que deseja consegue identificar o que trava o caminho até a realização. Quando o caminho se abre, o desejo fica mais claro. Como isso é uma construção constante, felicidade é a própria viagem ser prazerosa, e não uma meta alcançada.

Por isso a fórmula de Thomas Jefferson, na Declaração de Independência americana, é tão precisa. Ele não garante um direito à felicidade, o que seria impossível. Garante um direito à busca dela. O que se pode assegurar a alguém é a liberdade de percorrer o caminho, não a chegada.




Em termos dopaminérgicos, na neuroquímica cerebral, a felicidade tem parentesco com o caça-níqueis. O caça-níqueis é uma caricatura do processo: reduz tudo a uma repetição mecânica de tentativa e erro. 

Mas o caminho da felicidade também se constrói assim. Erra-se, acerta-se, descobre-se, encontram-se jeitos, retiram-se empecilhos. Essa construção, com suas expectativas, erros e acertos, é em si dopaminérgica, ou seja, causadora de prazer de realização.

Esse é o lado positivo do que o caça-níqueis explora. Ele imita o prazer da caça e da coleta de nossos ancestrais, em que o resultado nunca era garantido e a própria busca já mobilizava o organismo para o prazer da brincadeira.

No vício, a incerteza fica girando no vazio em torno de si mesma. Na felicidade, a incerteza serve a um caminho que vai sendo construído, que se aprende com o tempo e que dá prazer na própria construção.

Na ilustração abaixo, da direita para a esquerda, John Adams. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin escrevendo a Declaração de Independência.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

RAIVA NOS RELACIONAMENTOS

 


Quando digo que a raiva é o que nos move para buscar justiça, que a reação normal frente a injustiça é a raiva, sempre ouço isso:

“Ah, mas raiva é muito forte…”

Mas resolvi chamar de raiva uma família inteira de sentimentos, dos mais leves aos mais intensos. O que eles têm em comum é que todos reagem a uma sensação de injustiça.

Quando alguém diz que está ‘chateado’, ‘magoado’ ou ‘indignado’, está falando de raiva com outro nome. Só que esses nomes soam aceitáveis, enquanto a palavra ‘raiva’ soa feia, para o senso comum. É por isso que isso que o Superego censura a raiva.

Portanto resolvi descrever os graus da raiva, do mais fraco para o mais forte:

Leves
• incômodo, desconforto
• chateação, aborrecimento
• contrariedade, desagrado
• impaciência, irritação
• implicância, birra, “ranço”
• frustração

Médios
• mágoa, ressentimento
• desgosto, amargura
• indignação
• zanga, “estar bravo”
• rancor, despeito
• exasperação

Fortes
• revolta
• ira, cólera
• fúria, “estar possesso”
• ódio (o mais forte e provavelmente o mais ligado a doenças vingativas).

Palavras que disfarçam a raiva porque soam mais “educadas”:
• “Estou decepcionado.”
• “Fiquei sentido.” / “Fiquei ofendido.”
• “Estou estressado.” / “Estou nervoso.”
• “Estou de saco cheio.” / “Estou por aqui.”
• “Fiquei de cara.” / “Fiquei injuriado.”
• “Não engoli isso.”
• “Isso me tirou do sério.”

CIÚME E INVEJA, AS RAIVAS MAIS COMUNS NOS RELACIONAMENTOS

1. Um espectro só

Ciúme e inveja não são coisas diferentes. Os dois fazem parte da mesma família, a da raiva. E a raiva é a reação natural de quem sofre uma injustiça. Nesse caso, a injustiça que os dois denunciam é sempre a mesma: um roubo.

Só que ninguém se sente roubado do que não considera seu. Por isso, por baixo do ciúme e da inveja, está a ideia de propriedade. Sem o "isso é meu", não há roubo, e sem roubo não há essa raiva.

O que separa um do outro é o quanto de comparação entra na história. No ciúme, a queixa é "mexeram no que é meu". Na inveja, a coisa vai mais longe: "fulano vale mais do que eu, e isso rouba o meu próprio valor".

O ciúme olha para a coisa. A inveja olha para o outro e se mede com ele.

2. A escala do ciúme

O ciúme tem degraus, do mais inocente ao mais perigoso.

- O ciúme leve.
É o zelo com as próprias coisas. A pessoa chega em casa, vê o quadro torto na parede e sente aquele incômodo: alguém mexeu ali. Aqui o título de propriedade é real, o quadro é dela mesmo, e a reação é simples: endireitar o quadro. Esse "mexeram nas minhas coisas" é a base de todo ciúme.

- O ciúme de posições.
Aqui já não é um objeto. É um lugar que deram à pessoa, e que ela passa a tratar como se fosse dela. O exemplo clássico é o reizinho da casa, o filho único mimado, que de repente vê chegar a irmã caçula. O trono estava garantido, e agora aparece uma concorrente.
- O ciúme de pessoas.
A relação vira coisa, e o parceiro vira propriedade. O detalhe importante é que agora o título de propriedade é imaginário. Ninguém é dono de ninguém, mas a pessoa se sente dona.

- O ciúme patológico.
Aqui se juntam as duas coisas: o roubo e a comparação. Não é só "mexeram no que é meu". É "e ainda preferiram o outro a mim". É uma ferida dupla, e é justamente essa ferida que pode chegar ao feminicídio.

O princípio que amarra tudo isso é simples: quanto mais se coisifica o outro, maior o ciúme. E o contrário também vale. Quanto mais se respeita que o outro é alguém singular, com vida própria, menos ciúme sobra. Porque quem tem existência própria não pode ser roubado. Não dá para roubar o que nunca foi de ninguém.

3. A inveja: a ponta do espectro

A inveja é o ciúme levado ao extremo, onde a comparação passa a ser tudo.

Ela é vivida como humilhação. O outro tem qualidades melhores, coisas melhores, e a pessoa se sente diminuída por isso. E aí está o curioso: o roubo é imaginário. O outro não tirou nada de ninguém. Mas quem inveja se sente roubado mesmo assim.

Por isso dá para chamar a inveja de uma "injustiça injusta". Ela reclama de uma injustiça que não existe, pede vingança e, para se vingar, comete uma injustiça de verdade. É o sujeito que passa a chave no carro novo do vizinho. O vizinho não roubou nada dele, “só a autoestima”, mas ele sai dali tendo feito uma espécie estranha de justiça: um estrago real.


4. De onde isso vem: a propriedade

Quando a gente olha para os caçadores-coletores, vê que eles tinham relações mais intensas e menos intensas, claro, mas não tinham essa exclusividade idealizada e cobrada que a gente conhece.

Também tinham pouca coisa. Pouca propriedade, pouco ciúme, e um ciúme brando. Algo como o orgulho de quem fez uma ferramenta caprichada e vê outro querendo usar. Um incômodo, não um drama.

Foi a cultura da propriedade que inflou o ciúme. Com ela, o outro vira coisa, e o lugar que ele me dá vira direito adquirido. "Você me deu esse lugar, então agora ele é meu."

5. Duas distinções importantes

- Luto não é ciúme.
No luto, a pessoa diz "perdi", e o que vem é tristeza. No ciúme, ela diz "me roubaram", e o que vem é raiva. Perda é uma coisa, roubo é outra.

- O luto do desencontro.
É aquela decepção de todo dia: com pessoas, com políticos, com ideologias em que a gente acreditou. Isso também é tristeza, e não roubo. Ninguém tirou nada da gente. Só não era o que se esperava.

6. O desenvolvimento: fases orgânicas do desenvolvimento e guerras culturais

Aqui entra uma distinção entre o que é natural e o que é imposto pela cultura.

- As fases verdadeiras do desenvolvimento das zonas erógenas, a oral e a fálica, são naturais. Vêm do próprio amadurecimento do corpo, acontecem de qualquer jeito.

- As guerras culturais: as supostas fases anal e a genital são reação a imposições culturais. Nelas, a cultura invade uma propriedade que é legitimamente da criança: o próprio corpo.

A chamada “fase anal” não tem nada a ver com zona erógena. O ânus é zona erógena para uma minoria da população (menos da metade).
Freud a chamou de “fase anal-sádica”, porque que a criança se vingaria dos pais desobedecendo a “educação para uso do banheiro”. Mas isso só acontece se essa educação for imposta. Se for apresentada como conveniência para a criança, não haverá vingança.

Se a coisa lhe é imposta, aí nasce um ciúme justo, porque o roubo é de verdade. Só que a criança não pode brigar com quem cuida dela, porque precisa desse amparo. Então a raiva é engolida, reprimida.

- A tal “fase genital” mostra que a guerra genital não acaba na infância. Ela seria a idealização da passagem à “maturidade” do prazer genital, com romance, casamento e outras imposições culturais. Ela continua na vida adulta. A monogamia exigida pega a variedade natural das ligações humanas e enfia tudo num formato idealizado único. E isso, por si só, já é um roubo.

7. Ciúmes comuns entre os casais

- O "me engana que eu gosto". Funciona como uma trégua. Todo mundo sabe que a exclusividade do desejo sexual é um mito, que as masturbações existem para além do desejo entre os dois, mas ninguém fala disso, e assim a paz se mantém.
- O ciúme de vingança. É o raciocínio do "se ele me trata como propriedade, eu também vou tratar ele como propriedade". Um coisifica, o outro devolve, e a coisa vai escalando.

- A saída. É negociar sem retaliar e ir descoisificando a relação, devolvendo a cada um a sua existência própria.

8. Na clínica
- O critério para tornar a coisa um assunto tratável é o dano.
Se a ilusão ampara a pessoa e não faz mal a ninguém, o analista não tem por que se meter.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

COMO O SUPEREGO MANTÉM SEU PODER

 


O ponto de partida é o adestramento pelo qual passamos, na infância.

Sem perceber, a pessoa aprende as leis do Superego, mas mais do que isso, aprende a ser adestrada pelo medo do desamparo. A partir daí, essas leis passam a funcionar como verdades que não entram em discussão. 
A defesa que desenvolvemos contra a pressão do Superego pode mudar, mas a base do sistema de adestramento continua intacta.

1. Nas doenças 
- Nas neuroses, a lei fica escondida. O automático da pessoa dribla a ameaça que ela faz por meio do deslocamento: o conflito muda de assunto e aparece como sintoma. Ela sofre com esse novo assunto, sem enxergar nem questionar a lei que está por trás dele. Exemplo: “não tenho raiva do meu pai, meu problema é o medo de barata”.

- Nos vícios, a lei aparece, mas há duas maneiras de lidar com ela. 

Uma é o “dane-se, vou fazer”, mais nítido no início do vício de substância (p.ex., “ah, cocaína faz mal? Dane-se, vou cheirar”). 

A outra é aderir à lei de maneira exagerada, especialmente no vício comportamental (p.ex., “ah, no mundo só existem fodões e merdas? Então vou ser fodão, custe o que custar”)

- No vício de substância, desafia-se a proibição. A pessoa diz “dane-se”, mas desafiar a ordem não é o mesmo que examinar a lei e deixar de acreditar nela. O mal que a cocaína faz continua sem questionamento. Depois, o ciclo de fissura e alívio toma conta da situação, e a pessoa nem pensa mais na lei.

- No vício comportamental, abraça-se a lei errada com força. “Só existem fodões e merdas? Então vou ser fodão”. “Só existem dominadores e dominados? Então vou ser dominador.” 

A pessoa não põe essa divisão em dúvida: quer conquistar o lado de cima, mesmo que o caminho passe por ser oprimida e buscar poder pela nobreza do martírio, como no vício sadomasoquista (p.ex., “sou vítima, por isso sou mártir, sou superior”).

- O sistema se mantém porque suas leis não são realmente questionadas. Na neurose, a lei fica fora de vista; no vício de substâncias a lei aparece e é renegada, “dane-se, vou usar”; ou no comportamental, se adere a ela com força. A pessoa dribla, desafia ou abraça a lei, mas continua presa à estrutura que ela impõe.
- A síntese é esta: “Na neurose, o deslocamento encobre o conflito; no vício, a ilusão de escolha encobre também o aprisionamento.” 

É assim que o Superego mantém seu poder.



2. Mais um jeito pelo qual o Superego mantém seu poder

Do gosto à obrigação: 
A passagem central é do “eu gosto” para o “eu tenho que”.

Uma atividade que começou por gosto vai aos poucos se encostando no circuito de adestramento do Superego e é absorvida por ele: começa com o “eu estou gostando de malhar” e vai virando “eu tenho que malhar”.

Nesses casos, a lei pode ser errada pela forma, não pelo conteúdo. A mudança está em deixar de agir pelo gosto, e pelo valor reconhecido naquilo, para agir sob cobrança.

- Não é uma malícia planejada pelo Superego. É o automático do adestramento: uma experiência nova entra num circuito antigo de exigência, julgamento e obrigação.

- O ponto de virada é quando a pessoa passa a se levar a sério. Já não está apenas fazendo uma atividade; está provando seu valor. O erro deixa de fazer parte da brincadeira e passa a ameaçar quem ela acha que tem que ser. O gosto é sequestrado pelo ideal de perfeição que mora no Superego, o que Freud chamou de “ideal do Ego”.

- O drama é a habitual via de entrada para esse funcionamento. A pessoa que brincava de malhação começa a se levar a sério, e a brincadeira vira drama: prova de valor ou desvalor, teste de superioridade ou de inferioridade.

- Assim, o Superego mantém seu poder também sobre o que é saudável. Não precisa impedir a atividade nem eliminar todo o prazer: basta que o gosto fique subordinado à obrigação de provar valor. A brincadeira vira um julgamento de si mesmo. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A PAIXÃO COMO UM CAÇA-NÍQUEIS

 


. A mecânica básica.

O sistema neuroquímico que evoluiu para motivar nossos ancestrais caçadores-coletores para a caça e a coleta — recompensa incerta, às vezes se acha, às vezes não, e quando se acha há um pico de dopamina, vale dizer, de prazer — é estruturalmente idêntico ao mecanismo psicológico que sustenta o caça-níqueis e a paixão amorosa: às vezes se acerta, as vezes se erra.

A paixão não é amor calmo: é esforço, frustração e esperança combinados num único circuito, exatamente a arquitetura de um caça-níquel. E não é força de expressão: a própria palavra "paixão" vem do latim *passio*, de *pati* (sofrer, padecer) — a mesma raiz de "paciente" e "compaixão" —, o que já denuncia que o fenômeno nunca foi acolhimento tranquilo, mas sim o ciclo aflitivo de altos e baixos.

. Por que os caçadores-coletores tinham o mecanismo “caça-níqueis”, mas não a paixão.
A dopamina do prazer de recompensa variável já existia e era plenamente ativa na busca de alimento — o funcionamento ótimo da coleta e da caça descreve a procura de comida exatamente como exploração de recompensas imprevisíveis, a mesma base neuroquímica do caça-níquel. 

O que não existia era a condição social que reproduz esse mecanismo para dentro do vínculo entre parceiros ou entre pais e filhos, eles eram tranquilos: com o cuidado infantil distribuído entre múltiplos cuidadores do grupo (avós, irmãos mais velhos, o bando inteiro), o amparo era abundante e constante, não escasso e intermitente — logo, não havia ali o ingrediente de incerteza e insegurança que aciona o sistema de recompensa. 

Com essa ampla cadeia de apoio as crianças não viviam no medo do desamparo, não eram adestradas para a dependência de aprovação, e assim mais tarde as relações entre parceiros amorosos eram leves e cooperativas, sem posse exclusiva nem escassez artificial. Sem escassez, sem montanha russa e sem caça-níquel na relação. Com amor e afeto, mas sem paixão.

. A virada agrícola.
Com a Revolução Agrícola, o cuidado infantil passou a se concentrar em poucos adultos (o casal nuclear), o que sobrecarrega esses adultos de trabalho e irritação. 

Esse desgaste transforma o desamparo — a retirada momentânea de amparo — numa ferramenta de adestramento infantil, comparável à da domesticação de cães em direção à submissão: a criança aprende que o afeto do cuidador não é garantido e que sua obtenção exige esforço, e é "treinada" nesse ciclo de tensão-alívio.
Começou o adestramento semelhante ao caça-níqueis: insegurança do prêmio, só que o prêmio aqui é o amparo, e a criança “não decidiu brincar de caça-níqueis”, ela foi criada nesse ambiente.

Some-se a isso o surgimento há 10 mil anos da propriedade privada e da herança, que passam a exigir certeza de paternidade e, portanto, vigilância e tensão pela posse exclusiva do parceiro, com a angústia do ciúme — o segundo ingrediente que fecha a arquitetura da paixão romântica como hoje a conhecemos.

. Do adestramento à vida adulta: a neurose de transferência.
O adulto formado nesse regime de amparo-desamparo infantil não escolhe livremente por quem se apaixona — ele é atraído sem saber, de forma compulsiva, por padrões semelhantes aos que viveu na relação com os pais, que reproduzem a estrutura de tensão-alívio da própria infância. 



É a compulsão à repetição: o inconsciente busca reencenar a história original, mesmo que dolorosa, porque é isso que reconhece como amor, e porque a esperança de corrigir a infância, de receber o amparo que lhe faltou, coloca a mecânica do caça-níqueis de volta. 

Por isso a paixão frequentemente aparece dirigida a parceiros instáveis, difíceis ou inconstantes — são justamente eles que mantêm a máquina de esperança e frustração em funcionamento. 

Um vínculo estável e constante, por mais desejável racionalmente, tende a não sustentar paixão, porque falta a ele a variável de incerteza que dispara o sistema de recompensa: é a diferença, bem estabelecida na neurociência do vício, entre "querer" (a dopamina da antecipação incerta) e "gostar" (o prazer já obtido, mediado por outros circuitos) — a paixão vive do querer, não do ter/gostar.

. Um vício comportamental, não químico — e por isso passível de ser compreendido.

A paixão funciona no mesmo circuito neuroquímico dos vícios de substância, mas sem o ciclo rápido que estes desenvolvem (tolerância, abstinência biológica, necessidade de aumentar a dose), que tornam o vício como um processo independente e desligado de uma história de vida.

Em termos de investigação psicanalítica, isso é uma vantagem sobre o vício de substâncias, pois a paixão permanece inteiramente amarrada à história pessoal que a produziu — pode ser rastreada, entendida e, no limite, desativada quando se reconhece com clareza a origem e o mecanismo do próprio jogo. 

. Síntese.
A paixão romântica-erótica, no seu jeito compulsivo e tormentoso que conhecemos, não é uma presença constante ao longo de nossa história — é a mesma dopamina antiga da caça e da coleta, do acerta e erra do caça-níqueis, recanalizada pela concentração de poder de amparo – da aldeia inteira para apenas um casal – que a agricultura impôs à família nuclear.

Igualzinho à paixão, que põe nosso amparo completamente nas mãos de uma pessoa só.


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A PSICANÁLISE DO SUPEREGO: SEUS “RIOS AFLUENTES”

 


Estou levantando as contribuições que recebi ao longo da vida para construir minha Psicanálise do Superego. 
1. Digo, primeiro, que a mais óbvia é a de **Freud**: ele investigou o reprimido e me abriu a porta para eu investigar o repressor.

2. Vejo, em segundo lugar, minha origem em **medicina clínica** como uma influência que perpassa toda minha pesquisa e clínica: aprendi ali a buscar o diagnóstico e a buscar a cura, a perceber a doença como algo alheio à pessoa e a desejar erradicá-la, curá-la — e levei esse gesto, sem perceber por muito tempo, para dentro da psique.

3. Reconheço, em terceiro lugar, a influência da **psicologia evolucionista**, principalmente de David Buss, que me ensinou a pensar o controle interno como algo selecionado ao longo da história da espécie. 

4. Somo a isso, em quarto lugar, minha leitura da **história evolutiva das espécies** — sobretudo através do Sapiens de Yuval Harari e de Richard Dawkins — que me deu o mapa de como esse mecanismo de controle se propagou culturalmente ao longo dos milênios, como um replicador.

5. Considero, em quinto lugar, dois **filósofos** centrais: Ortega y Gasset, com sua questão das circunstâncias que me constituem, e Spinoza, com o conhecimento dos cordéis que me manipulam — ligado à pequena margem de liberdade que conquistei na vida através desse conhecimento.

6. E chego, em sexto lugar, à **Revolução Americana e à Declaração de Independência**. Fico encantado com essa história porque é a primeira revolução que não substituiu uma tirania por outra. Sei que foi Thomas Jefferson quem redigiu o texto, dentro do Comitê dos Cinco, e que foi ele quem alterou a tríade de Locke — vida, liberdade e propriedade — para vida, liberdade e busca da felicidade. Entendo a igualdade que a Declaração proclama não como igualdade entre pessoas, que não existe, mas como igualdade perante a justiça, igualdade de direitos e de oportunidades — uma afirmação racional, não uma ilusão.

7. O fechamento que proponho
Digo, então, que a felicidade, do ponto de vista da minha psicanálise do superego, é o exercício da busca da satisfação dos desejos singulares — um desenho próprio para cada pessoa, que só posso conquistar fora da tirania do superego. 

Penso que essa busca da democracia, externa e interna, é o próprio processo de cura: um desmonte da tirania que não a substitui por outra tirania, mas por uma democracia em que todos têm lugar na bancada parlamentar, até mesmo o Superego, e devem expressar suas demandas através de falas claras.

Afirmo que a felicidade é busca, nunca posse, porque esse é um processo interminável, e é no próprio processo que está a felicidade — não num estado final a ser alcançado. 

Fecho, assim, o arco do meu inventário: a felicidade-processo, a democracia-processo e a análise-processo são, na minha tese, a mesma estrutura repetida em duas escalas — individual e social. 

Nenhuma delas é um estado a ser possuído como algo pronto; todas são um exercício a ser mantido. E é justamente por não transformar a cura num novo ideal opressor — o de "ter que estar curado", "ter que ser feliz" — que evito reinstaurar, no lugar do superego tirânico, uma nova tirania disfarçada de libertação.

Não existe um dia em que eu possa dizer “já estou curado, já livre, já feliz” sem correr o risco de que essa própria frase se torne, ela mesma, uma nova ordem do adestrador.