O choro é a primeira reação humana diante do incômodo. O bebê não tem outro recurso: não fala, não se mexe direito, não sabe sequer o que o incomoda. Só pode chorar.
E o choro tem uma função muito precisa, que é incomodar os pais. “Como parar esse choro?” E passam a procurar o que faça aquilo cessar. É fome? É frio? É a fralda? É colo? Por tentativa e erro, os pais vão descobrindo, e o bebê vai aprendendo, através deles, o que queria, até aprender algo mais funcional e prático, tipo, falar “estou com fome”.
Daí se deduz: o choro, desde sempre, é a manifestação do incômodo impotente. Chora-se quando não há mais nada a fazer. E esse registro nos acompanha pela vida afora.
. O choro da impotência momentânea
O adulto tem palavras, tem braços, tem meios de agir. Mas há momentos em que tudo isso falha, e ele se vê de novo diante de um incômodo contra o qual não pode nada. Aí o corpo volta à primeira resposta que conheceu: chora.
O exemplo mais claro é o choro da perda irreparável. O que se pode frente à morte? Os choros de tristeza têm a ver com perdas: do amor, da juventude, da falta, das esperanças, da presença etc.
Outro típico é o choro de raiva impotente. A injustiça que não se pode reparar, a humilhação que não se pode revidar, a frustração que não tem a quem se dirigir.
Durante muito tempo eu pensei no choro como uma manifestação de pena de si mesmo. Não gostava dessa formulação, e hoje entendo por quê: pena de si mesmo soa como uma crítica sobre nossa fraqueza.
Impotência é outra coisa. Ela descreve uma condição. Quem chora não está se lamentando; está dizendo, com o único recurso que sobrou, que não há outro recurso.
. O choro da impotência passada
E agora chego ao choro de que eu mais gosto, que mais me comove: o choro de felicidade.
Quem nunca estranhou isso? Por que choramos justamente quando as coisas dão certo? A resposta, para mim, é esta: o choro de felicidade é o choro pelo choro que não foi chorado, o choro da dor que passou.
Enquanto a dor durava, chorar era um luxo que não dava para ter, porque era preciso aguentar, resolver, seguir em frente. Quando a dor acaba, o choro guardado finalmente tem licença para sair. É um choro de grande alívio. É um choro que celebra que, de alguma maneira, um incômodo longamente suportado foi resolvido.
O pai chora quando o filho sai bem da cirurgia, não durante as horas de espera. O atleta chora na vitória, não nos anos de treino. Quem passou semanas angustiado à espera de um exame chora quando o resultado é bom.
Em nenhum desses casos se chora propriamente de alegria. Chora-se a dor de antes, agora que se pode. A mãe que entrega a filha no altar chora por toda a criação que carregou, por todo o trabalho que teve, por tudo o que suportou sem chorar.
E há o choro de reconhecimento, de que eu gosto muito: a pessoa homenageada, premiada, que se sente enfim percebida. Também ela chora pelo que não chorou antes. O reconhecimento funciona como uma testemunha que chegou atrasada, mas chegou.
. O choro diante da beleza
Há ainda o choro da beleza, que segue a mesma lógica. A vida tem sua feiura, uma espécie de dor de fundo, crônica, que nem percebemos que suportamos. De repente, uma música, um verso, uma obra nos dão uma forma para essa dor, e encontrar essa forma é reconhecimento.
A beleza abstrata, a música instrumental, as artes em geral podem fazer chorar pelo vislumbre de que “a vida é mais do que se vê”. A beleza nos faz chorar porque revela, por contraste, o quanto vínhamos aguentando.
Quando Chico Buarque diz que "a saudade é o revés de um parto / a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu", ele fala de uma dor diante da qual não há nada a fazer. Quem ouve chora porque o verso nomeia, com exatidão, saudades que levava sem saber dizer. O artista chora por nós, e nos dá licença para chorar junto.
A poesia, com seu poder de síntese, pode numa frase tocar nossos sentimentos guardados: “é o choro da dor que acabou…”







