segunda-feira, 23 de março de 2026

ORIGENS DO FEMINICÍDIO, DA MISOGINIA E DA HOMOFOBIA



A Guerra dos Sexos começa quando a sociedade deixa de ser tribal-cooperativa e passa a ser agrária-hierárquica; nesse processo, o sexo vira moeda, a mulher vira suspeita, e o desejo vira vigilância.

Daí nasce a misoginia como forma histórica de controle da filiação, da herança e da escolha sexual. A mulher não é pensada como naturalmente traidora; ela é culturalmente construída como potencial traidora, porque o sistema precisa controlar a incerteza que ela representa para a ordem da propriedade e do amparo.

E a extensão disso à tribo LGBT é direta: o mesmo mecanismo que pune a feminilidade na mulher pune a feminilidade no homem gay, e pune ainda mais violentamente quem rompe a fronteira do gênero, como travestis e mulheres trans. 

Em outras palavras, a hostilidade contra LGBT não é um fenômeno separado da misoginia; muitas vezes ela é a mesma lógica, deslocada para outros corpos. O alvo é o desvio da norma masculina dominante, sobretudo quando esse desvio é lido como feminino, passivo ou indisciplinado.

O Superego entra aí como a história da tribo internalizada: primeiro como medo de desamparo, depois como culpa, vergonha e ridículo. 

A criança aprende a obedecer o senso comum da microtribo familiar, e a escola amplia isso em forma de homogeneização, bullying e hierarquia entre pares. Quem sofreu a humilhação aprende, muitas vezes, a repassá-la; quem foi submetido, aprende a desejar o lugar do submetedor.

Então, a fórmula geral seria esta:

A Revolução Agrícola concentrou poder, herança e vigilância; disso nasceu a microtribo familiar, dela nasceu o Superego, e dela se alimentam a misoginia, a homofobia e a transfobia como técnicas históricas de controle do desvio.








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sexta-feira, 20 de março de 2026

ENCONTRO ERÓTICO (perfis de desejo)

 




O desejo de encontro erótico é

. o principal resultado do “comando do DNA”, aquele que leva à sua replicação;
. é o mais forte fruto do nosso desejo maior (desejo de prazer);

Por esses motivos, resulta que o desejo de encontro erótico é o mais trabalhoso de se conhecer, pois no caso da nossa espécie, a complexidade de seus indivíduos forma um número considerável de perfis únicos. Ou seja, a espécie tem seu comportamento erótico com dois comandos: o do DNA e o do indivíduo.

Como o propósito da Psicanálise do Superego é aumentar o comando do indivíduo, é tirá-lo ao máximo da posição de marionete, seja da cultura/Superego, seja do DNA, o começo de conversa será o conhecimento desse desejo, começando pela orientação sexual.

ORIENTAÇÃO SEXUAL

Vamos combinar as duas escalas de orientação, partindo da Kinsey, que é a mais simples.
O usuário pesquisa nela o seu tipo, e então segue para a escala Klein para entender as sutilezas da manifestação de sua orientação sexual.

1. Base Kinsey (0 a 6)
• Tipo zero: heterossexual sem nenhum desejo homoerótico
• Tipo 1: hétero com eventual desejo/prática homoerótica
• Tipo 2: hétero com frequente desejo/ prática homoerótica
• Tipo 3: chamado de “bissexual”, pela frequência equivalente de desejo / prática homo/hétero
• Tipo 4: homossexual com frequente desejo / prática hétero
• Tipo 5: homo com eventual desejo / prática hétero
• Tipo 6: homo sem nenhum desejo hétero

Cada tipo funciona como um eixo principal — o ponto de partida para entrar na escala Klein.

2. Camadas Klein

Para cada tipo Kinsey, você pode aplicar:

• Atração sexual
• Comportamento sexual
• Fantasias sexuais
• Preferência emocional
• Preferência social
• Estilo de vida
• Autoidentificação

Pense nisso em três tempos (passado, presente, ideal), revelando o dinamismo interno de cada tipo.

3. Capacidade Circunstancial (aplicável aos tipos 0 e 6)

Essa dimensão reconhece que, mesmo em perfis de desejo exclusivo (hetero ou homo), pode haver expressão erótica oposta eventual, ativada por circunstâncias que sejam de vínculo afetivo, contexto social ou emocional profundo.

A partir de situações e consequências como:

• Tipo de vínculo (afetivo parental, institucional, emocional intenso)
• Contexto (prisão, internato, relação terapêutica, acolhimento)
• Expressão (afetiva, erótica, transitória, não repetível)
• Impacto (transformador, pontual, obsoleto, persistente)

Essa expressão circunstancial foi:

• Iniciada por acolhimento
• Sustentada por fusão emocional
• Encerrada sem conflito interno
• Reintegrada como parte da narrativa pessoal

Perfis do Desejo de Encontro Erótico
(Examine quais seriam suas preferências)

Eixo Perfis / Tipologias
Postura - Ativa (controle)- Passiva (entrega)- Alternada (com predominância ativa/passiva)

Orientação - Heteroerótico- Homoerótico- Bissexual- Nuances Klein/Kinsey (fluidez, contexto)

Modalidade de Excitação - Sensorial- Imaginativa/por fantasias - Verbal- Performática

Dinâmica Psicológica - Narcísica (autoafirmação)- Objetal (foco no outro, com desejo de interação afetiva)- Transgressiva- Ritualística

Estilo de Vinculação - voltada para o encontro e a pessoalidade - Distanciada (autonomia)- Ambivalente (oscilação)

Expressão Corporal/Estética - Exibicionista- Voyeurista- misturada - Estético/Erótico

Ritmo e Intensidade - Explosivo (urgente)- Contemplativo (voltado para o carinho, sem necessidade de finalização)- Intermitente (picos e pausas)


ENCONTROS AFETIVOS

 


Para entender o perfil de seu desejo afetivo, vamos examinar alguns tipos. Lembrando: não haverá divisões estanques entre os tipos de desejos afetivos; poderá haver misturas percentuais, portanto eles podem ser pontuados de zero a dez.

Perfis de Desejo de Encontro Afetivo

1. Do desejo Romântico ao “amor companheiro”.
• O amor companheiro pode ser visto como quando o encontro afetivo buscado é de muita intensidade, sem que precise ser enquadrado em categorias sociais fechadas, como namoro ou casamento. Ele tem intensidade, mas não tem idealização. Ele tem vontade de real conhecimento do outro, ele tem consideração pelo outro, e respeito pelas zonas de desencontro. “Meu/minha melhor amigo/a” é um típico exemplo desse desejo.
• Voltado para a construção de vínculos amorosos com intensidade emocional e idealização.
• O desejo romântico pode incluir elementos de exclusividade, paixão e projeto de vida em comum.
• Nem sempre envolve desejo sexual, mas sim o anseio por intimidade emocional profunda.

2. Desejo Erótico
• Tem no prazer corporal sua primeira motivação, o que pode levar a outros tipos de interação afetiva.
• Pode estar misturado e mesmo ser despertado por outras zonas de encontro.
• Pode existir sem vínculo emocional, mas também pode se entrelaçar com o desejo romântico.
• Às vezes é confundido com amor, mas tem motivações distintas. Mas pode ser uma via para o amor: o desejo erótico é capaz de dar tolerância e aceitação para diferenças e desencontros.

3. Desejo Amistoso
• Busca por companheirismo, empatia e apoio mútuo.
• Não envolve hierarquia nem erotismo, mas sim afinidade e confiança.
• Pode ser tão profundo quanto o amor romântico, mas com outra linguagem afetiva.
• Pode ser tão ou mais profundo que o amor romântico, mas sem os riscos de idealização que o amor romântico contém.

4. Desejo de Cuidado ou de Ser Cuidado
• Pode se manifestar como desejo de proteger ou de ser protegido.
• Reproduz, de algum jeito, a relação paterno/materno filial.
• Envolve acolhimento, segurança e entrega.
• Aparece em vínculos terapêuticos, espirituais ou em relações assimétricas (como mentor/aprendiz, paterno/materno / filial).

5. Desejo Espiritual ou Transpessoal
• Busca por conexão que transcende o eu e o outro.
• Reproduz conexões familiares idealizadas (“queridos irmãos”, p.ex.)
• Pode se expressar em vínculos com crenças no divino, com a natureza ou com comunidades espirituais.
• O afeto aqui é canalizado para algo maior, muitas vezes com sensação de fusão ou transcendência.

6. Desejo Narcísico
• Voltado para o outro como espelho de si mesmo.
• A adoração do outro funciona como alívio da baixa autoestima que o Superego do narcisismo produz em quem sofre dele. Equivale ao “desejo de plateia”.
• O afeto é buscado como validação ou admiração.
• Pode parecer amor, mas está mais ligado à autoimagem e à necessidade de reconhecimento.

7. Desejo de Pertencimento
• Surge da necessidade de fazer parte de um grupo, família ou comunidade.
• O afeto é distribuído coletivamente, com foco na aceitação e inclusão.
• Muito presente em contextos sociais, culturais, religiosos e políticos.






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quarta-feira, 18 de março de 2026

NEGOCIAÇÃO SEXUAL – PERFIS MASCULINOS



Como a revolução agrícola instalou nas mulheres um Superego que exige delas uma “pureza sexual” que só cederá para uma “oferta honesta de compra”, tipo casamento etc., a maior parte dos perfis masculinos de negociação sexual tem a ver com o tipo de moeda que eles vão usar.

Mas curiosamente esses perfis servem tanto ao desejo hétero quanto ao desejo homoerótico.

Tipos principais:
1. Papai / filhinho / cafajestes (moedas centrais)
• Papai: professor, provedor, salvador – a moeda é amparo (saber, dinheiro, proteção, “eu cuido de você”). 
Este é o tipo mais comum, pois parte do pressuposto amparador que está seguro de que sua posição é “naturalmente necessária”.
• Filhinho: adolescente eterno, devoto – a moeda é dependência (carência, pedido de colo, adoração, “me cuida, me escolhe”). 
Esses são mais raros, mas encontram parceiras maternais, ou mais frequentemente parceiros do perfil papai, cuja caricatura prostituída é o “sugar daddy”.
• Cafajeste do mal: moeda é engano (promessa fraudulenta de status, casamento, exclusividade, com descarte pós sexo).
Não há exemplo melhor do que o Don Juan, ou seu símile italiano, o “Don Giovanni”, da ópera de Mozart.
• Cafajeste do bem: moeda é desejo explícito e simétrico (eu quero, vejo que você quer, proponho encontro sem embalagem).
Este tipo é fascinante por recriar a abordagem sexual dos caçadores-coletores ancestrais, que viam a mulher com o mesmo direito ao desejo sexual que eles.

2. O esteta
O esteta pode ser definido assim:
• Moeda de troca central: visibilidade e capital erótico-estético.
• Ele oferece ao parceiro: ser visto, exibido, valorizado como “corpo bonito”, “mulher/homem incrível”, “peça rara”.
• Em troca, ele obtém: acesso a corpos/estilos que reforçam o próprio narcisismo (“olhem com quem eu fico”), cenas “instagramáveis”, performances sexuais que ele curadoria.
• Ele pode aparecer tanto em modo papai (“eu te transformo, eu te produzo, te dou um estilo”) quanto em modo cafajeste (“você é mais um troféu na minha coleção”).
Ele existe como subvariante narcísica do papai (o que embeleza/cura o objeto) ou como subvariante do cafajeste (o colecionador de corpos).

3. O camarada
• Quando o camarada opera como “ficante honesto”, com amizade, afeto e sexo sem promessa enganosa, ele se aproxima do cafajeste do bem: reconhece direitos iguais ao desejo sexual.
• Quando há construção de vida compartilhada, apoio mútuo, projeto comum, ele encarna o “amor companheiro”: troca igualitária e cooperativa também na cama (sexo como extensão da parceria, não como moeda de compra).

Sinceramente, esse último é o que mais admiro.








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terça-feira, 17 de março de 2026

DEMOCRACIA E TIRANIA: ORIGENS PSICOLÓGICAS

 


Eu estava refletindo sobre o poder do medo de desamparo implantado em nós pelo DNA, em contraste com o desejo de conhecer / entender. Do último, veio a ciência e o uso da razão na busca da verdade.

Mas esse desejo pode se dar plenamente por satisfeito com absurdos, se o preço de cancelar a racionalidade for perder o amparo.

Um líder religioso ou político com quem a massa se identifique e através do qual se sinta amparada pode dizer e explicar com toda a insensatez e irracionalidade que a massa não hesitará em aderir sem qualquer questionamento.

Ah, e no processo também se perde o conceito iluminista de “indivíduo”: em troco de amparo há um claro retorno à massa.

O Iluminismo teve, a meu ver, como principal fator, a liberação da tirania que a prensa de Guttemberg permitiu: ao facilitar a leitura da Bíblia por todos, ele nos tirou do “rebanho de ovelhas” que precisavam da interpretação centralizada das escrituras. Agora o indivíduo tinha amplo acesso ao saber.

Vejo no surgimento das IAs o mesmo potencial democratizante do saber.

Com o Iluminismo, veio a democracia, reinaugurada depois de 2.000 anos pela Revolução Americana. Democracia precisa de indivíduo. Tirania requer massa apavorada confiando na salvação do líder.

Como estamos vendo hoje com Trump e congêneres… 






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segunda-feira, 16 de março de 2026

O APRENDIZADO DE ORELHADA

 

Sim, aquilo que se escuta é a principal fonte de aprendizado da humanidade. Você só dá ouvidos se dá atenção; e só dá atenção ao que te atrai; e só se atrai por aquilo que te afeta, que te desperta alguma emoção; e a atenção, somada à emoção, é o melhor fixador de memória que existe: onde estava você quando as Torres gêmeas foram atacadas? Você não vê tudo em sua mente?

“Ah, mas aprender de orelhada? Não é a mesma coisa”. Tem razão: muitas vezes é melhor. É hora de aprender a respeitá-lo. A garotada cada vez lê menos, mas é capaz de aprender muito pelo que ouve e pelo que conversa - desde que tenha alguém interessante para ouvir, ou com quem conversar. 

Tenho a impressão de que o golpe fatal desferido sobre os livros foi a obrigatoriedade de lê-los na escola. A meninada parou de ler por birra às imposições chatas dos pais/colégios.

E não é algo relativo à inteligência, tipo, “ah, os inteligentes lerão”. Não! Tenho encontrado gente brilhante (sempre poucos, claro), nascida em torno do milênio, que nunca abriu um livro na vida, mas são curiosos com o que eu tenho a dizer, e que aprendem pra valer com isso.

Nunca me mandaram ler um livro, na vida: eis porque me tornei leitor. Pela curiosidade (motivação), porque eles estavam ao meu alcance (meios) e porque eu dedicava tempo para eles; quase o mesmo tempo que a garotada dedica às telinhas (oportunidade). 

Não é a inteira verdade: um dia, eu estava estudando história; minha mãe chegou e disse: “Vai estudar história, menino!” Foi o que bastou para eu tacar um Pato Donald dentro do livro, e fingir que estudava. Por birra…
Tive preciosos mestres de orelhada: 

. meu querido ex-cliente Arno Viero, doutor em filosofia da lógica, me ensinou sobre a ética aristotélica e o conceito de liberdade, em Espinoza, Gödel e sua “lógica fuzzy”, de onde tirei “o valor da primeira impressão”.
.Leandro Konder, meu comunista gentil, me ensinou sobre Marx; 

.Márcia Cabral, aluna de Cláudio Ulpiano, me produziu a aversão irremediável aos filósofos franceses contemporâneos; 

.Carlos Eloy Alonso me levou para um grupo em que se debatia psicologia evolucionista. 
.Fernando Gewndsznajder, que me apresentou à epistemologia de Karl Popper e seu princípio de refutabilidade, e mudaram para sempre o rumo da psicanálise que faço.

São alguns dos múltiplos exemplos do que aprendi sem ter aberto um livro. Adorei quando meu irmão me contou sobre o que tratava Marco Aurélio, em suas “Meditações”; foi assim que me tornei um estoico sem ter que lê-lo. 

De fato, eu leio pessoas que foram capazes de ler livros chatos, tipo Kant, Espinoza e Schopenhauer; eu as sugo, parasito… e elas adoram a simbiose. É o que faço hoje com meus alunos. Se isso lhes despertar a vontade de ler as fontes, tanto melhor.

Viva a orelhada! Minha escola dos sonhos não imporá leitura a ninguém. Quem quiser ler o fará por gosto.







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quarta-feira, 11 de março de 2026

LEIS ERRADAS DO SUPEREGO

 


Quem nasceu com caráter obsessivo e não foi rico e mimado na infância costuma sofrer com a “lei do desperdício” adestrada em seu Superego: “não pode jogar dinheiro fora!” A lei em si não está errada, o erro mora em seu rigor absoluto.

Isso faz com que a pessoa não apenas cole um resto de sabonete no novo (economizando assim algo da ordem de dez centavos), mas também não consiga jogar fora – ou passar adiante – uma compra que não a satisfez. “Comprou? Agora usa!”

Uma antiga anedota conta que o português comprou um pacote fechado que lhe foi vendido como contendo mariolas. Quando abriu o pacote em casa, viu que ele era de barrinhas de sabão de coco…, mas ele as comeu mesmo assim, para “aproveitar o vintém”.






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