A generosidade sempre é vista como uma virtude, mas… tem uma hora em que ela fica demasiada e vira um problema, ou sinaliza a manifestação de um mecanismo de defesa chamado “formação reativa”, que significa “exagero para o lado oposto de algo visto – pelo Superego – como errado”.
O exemplo clássico da formação reativa – que pode também estar ligada à generosidade – é a “bonzinhice”. Quando uma criança aprende que “ter raiva é muito feio”, e se sente ameaçada de desamparo quando se mostra raivosa, ela pode desenvolver um exagero do contrário, uma bondade excessiva que às vezes é caricatural. Lembrando que, assim como a generosidade, a bondade – quando na dose certa – também é uma virtude.
Mas, quando sabemos que a generosidade “passou de giro” e se tornou problemática? Não é difícil de perceber: é a partir do momento em que o princípio de troca justa não está mais operando. O nosso desejo inato de justiça só nos deixa tranquilos quando o dar e receber se equilibram na balança que é seu símbolo. A injustiça nos incomoda com o ressentimento e a raiva, que nos moverão para o acerto de ponteiros.
Mesmo nas pessoas mais generosas – São Francisco de Assis, por exemplo – esse princípio da boa troca funciona. A célebre oração dele diz que “é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado”, ou seja, mesmo que a retribuição venha dos céus, a pessoa está trocando, sua generosidade tem retorno.
Até na situação completamente assimétrica da paternidade, em que os filhos recebem muitíssimo mais do que os pais ganham de volta, a generosidade deles é paga pela noção de projeto bem-sucedido: ver os filhos crescerem saudáveis e sairem do ninho independentes e autônomos.
Já vimos que essa generosidade sem retorno visível gera raiva em quem a recebe (ou se torna direito adquirido, parasitismo ou predação). Mas o que é seu causador? Que origem ela tem? Se é formação reativa, estaria reagindo a quê? Qual é seu retorno invisível?
A pista é procurar a “coisa feia”, o antimodelo moral que se instalou no Superego da pessoa. Podem ser vários, como a mesquinharia, a avareza, o egoísmo, adjetivos que causam horror e que a pessoa neutraliza com um excesso de doação.
Seu espelho sedutor é a pessoa querer se tornar no modelo de perfeição, uma das faces do “Eu Ideal” que também mora no Superego. O “dadivoso”, “mão aberta”, “altruísta”, que podem ser coisas boas, mas se exagerados viram irritantes afirmações de superioridade, causadores de raiva mal digerida.
Uma fonte de generosidade exagerada é o horror ao sentimento de dívida, em que o antimodelo seria o “aproveitador”, o “parasita”, o caloteiro. Nessa formação reativa pouco comum que atinge os de caráter obsessivo, o super-generoso foge do horror de se imaginar cobrado, de se ver apontado como devedor.
Ela pode se manifestar até na pontualidade excessiva (“chegar sempre cinco minutos antes”), em que qualquer atraso seria visto como dívida, causando o mesmo horror de deixar os outros esperando.
Mas esse tipo de generosidade também pode levar a um vício sadomasoquista, em que o dadivoso se torna uma “vítima dos ingratos” e desenvolve um gozo dessa condição, parecido com o do vitimismo: a nobreza do martírio, aquele que “sofre nas mãos dos outros, por ser bom”.






