terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

IMPOTÊNCIA POR FALTA DE PAZ

 


O desejo está lá, mas a ereção não. O desejo de prazer, que é o nosso principal desejo, conta com a ajuda de três outros desejos voltados para produzir a paz necessária para que o prazer se realize.

Como o prazer necessita de entrega para acontecer, e como a entrega precisa de paz e boas circunstâncias para acontecer, os outros prazeres precisam entrar em ação.

São eles:
a. Desejo de controle / ordenação: se o ambiente não está “sob controle”, se alguém pode aparecer, se a porta não está fechada, se o telefone não está no mudo, se o ar-condicionado não está funcionando, se você não deixou a casa em ordem, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo.
Lembrando: o desejo de controle se move pelo incômodo da insegurança.

b. Desejo de justiça: se você se sente injustiçado pela pessoa parceira, se você guarda mágoas e assuntos não resolvidos, se não há bom acerto entre vocês, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo. Lembrando: o desejo de justiça se move pelo incômodo da raiva, da mágoa, da revolta, do ressentimento.

c. Desejo de conhecer / entender: se você não sabe qual é a da pessoa parceira, se há um grau de desconfiança nela, se você não sabe bem sobre o lugar onde vocês estão, se você não sabe bem sobre seus desejos e o que quer no sexo, se você não sabe bem negociar com o outro, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz no sexo.

Lembrando: o desejo de conhecer / entender se move pela curiosidade, pela perplexidade e pela insegurança, ele anda em pareceria com o desejo de controle.





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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SOBRE O CHORO

 



“Como a psicanálise do Superego entende o choro?”

Francisco Daudt: Como uma revivência da nossa primeira maneira de expressar desconforto impotente.
Um bebê vive um ciclo muito básico de confortos e desconfortos. No conforto ele dorme ou até sorri. No desconforto, sua única maneira de reagir é chorando. O choro da criança causa desconforto nos pais, que buscam achar um jeito de atendê-la.

À medida que crescemos, vamos desenvolvendo maneiras de resolver nossos desconfortos e assim o choro vai-se tornando mais raro. Mas… há aqueles momentos em somos remetidos à impotência original diante de abalos sérios, como perdas irreparáveis, injustiças incorrigíveis, dores e desamparo, e aí só nos resta chorar.
Mas, você me perguntará, e o choro de felicidade, o choro diante da beleza da arte, do belo gesto, o choro da mãe que entrega a filha em casamento, o choro de orgulho dos pais na formatura do filho?

É o choro de alívio, de descanso. Um choro que chora tudo o que não foi chorado antes: “só deus sabe o trabalho que essa criança me deu, e agora minha missão está cumprida”.

Diante da beleza da arte, da música, da poesia etc., há um alívio diferente, o de nos vermos libertados momentaneamente da miséria e da pequenez da condição humana, que não nos é consciente o tempo todo, mas sabemos que está lá.

Isso tudo misturado ao encantamento e ao prazer que a estética nos produz, um momento em que nosso desejo de ordenação e paz se realiza.

A Psicanálise do Superego se vale de diversas fontes: da história da humanidade e da psicologia evolucionista inclusive. Sobre o choro, essas são essas as principais.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE O CHORO

 




“Como a psicanálise do Superego entende o choro?”

Francisco Daudt: Como uma revivência da nossa primeira maneira de expressar desconforto impotente.
Um bebê vive um ciclo muito básico de confortos e desconfortos. No conforto ele dorme ou até sorri. No desconforto, sua única maneira de reagir é chorando. O choro da criança causa desconforto nos pais, que buscam achar um jeito de atendê-la.

À medida que crescemos, vamos desenvolvendo maneiras de resolver nossos desconfortos e assim o choro vai-se tornando mais raro. Mas… há aqueles momentos em somos remetidos à impotência original diante de abalos sérios, como perdas irreparáveis, injustiças incorrigíveis, dores e desamparo, e aí só nos resta chorar.
Mas, você me perguntará, e o choro de felicidade, o choro diante da beleza da arte, do belo gesto, o choro da mãe que entrega a filha em casamento, o choro de orgulho dos pais na formatura do filho?

É o choro de alívio, de descanso. Um choro que chora tudo o que não foi chorado antes: “só deus sabe o trabalho que essa criança me deu, e agora minha missão está cumprida”.

Diante da beleza da arte, da música, da poesia etc., há um alívio diferente, o de nos vermos libertados momentaneamente da miséria e da pequenez da condição humana, que não nos é consciente o tempo todo, mas sabemos que está lá.

Isso tudo misturado ao encantamento e ao prazer que a estética nos produz, um momento em que nosso desejo de ordenação e paz se realiza.

A Psicanálise do Superego se vale de diversas fontes: da história da humanidade e da psicologia evolucionista inclusive. Sobre o choro, essas são essas as principais.
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

SOBRE TÉDIO E APRENDIZADO DOS DESEJOS

 


A adolescência como “o momento de tédio”

Existe uma transição biológica entre os desejos de criança e os desejos da adolescência: os hormônios sexuais adentram à questão.

A criança tem um predomínio do desejo de conhecer e entender que é muito satisfeito em suas brincadeiras, e aplicado em sua criatividade de reencenar o que aprende. Portanto, uma criança dificilmente conhece o tédio, que é o vazio, o não encontro dos objetos de seu desejo.

Mas a entrada dos hormônios sexuais, na adolescência, muda tudo. A demanda de prazer não encontra seus objetos de satisfação, principalmente porque a pessoa não conhece seus desejos e não tem um fácil campo de pesquisa.

É quando entra o tédio, a resposta incômoda do desejo que não sabe como se satisfazer.

A tendência é ir para os prazeres imediatistas da comida, das drogas e das telinhas. O risco é o conflito com os pais que não entendem essa situação. O mau humor e a depressão rondam o adolescente. As cobranças dos “deveres” aumentam, o adolescente não vê sentido na escola, na família, nos antigos amigos. Não à toa existe o apelido de “aborrecente”. De fato, ele está aborrecido e aborrece por causa do seu estado de desorientação.





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domingo, 4 de janeiro de 2026

COMPLEXO DE ÉDIPO X MARCAS NEGATIVAS DA NOSSA CRIAÇÃO

 


Freud percebeu nas histórias de seus clientes uma ligação apaixonada com a mãe e uma competição com o pai. Um viés erótico do grude. Mas eu não vejo assim.

Essa é uma das diferenças entre a psicanálise freudiana e a Psicanálise do Superego. Na época de Freud, havia essa coisa de filhos grudados nas mães e com medo do pai, o que o levou a ver nisso o conflito básico que levava à criação do Superego, à absorção das leis do mundo, a que ele chamou de “a dissolução do complexo de Édipo”.

Mas, em cinquenta anos de clínica, só encontrei um caso de cliente que teve fantasias eróticas com a mãe. Inúmeros casos de “grudados com a mãe e contra o pai”, mas não eroticamente.

De modo que concluí que, sim, a infância e a criação deixam marcas fortes e negativas que vão produzir doenças psíquicas mais tarde (ou mais cedo, já que as fobias atingem muito as crianças), mas que essas marcas não vêm de conflitos eróticos mãe / filhos (ou raramente vêm). 

Por isso tendo a chamar o tradicional complexo de Édipo de “as marcas negativas da criação”.


FORMAÇÃO DO SUPEREGO DE ACORDO COM OS SEXOS

 


Somos adestrados, desde pequenos, para comportamentos que não se choquem com o senso comum nem deem trabalho aos pais. Esses comportamentos ficarão registrados no Superego, que os cobrará e os vigiará dando-nos choques da mal-estar a cada transgressão.

O senso comum contém diversas concepções de valores e de comportamentos “certos” que serão transferidos para o Superego, esse nosso “controle remoto”.

Entre essas concepções estão as de masculinidade e de feminilidade: as crianças serão adestradas para adquirir esses “comportamentos certos”, e para se sentirem angustiadas se deles se afastarem, pois nesses casos seus superegos lhes darão choques de adestramento (culpa, vergonha, ridículo e angústia, todos eles relacionados ao medo do desamparo).

Todo o adestramento do Superego para os dois sexos está voltado para a valorização sexual.
Os modelos masculinos visam que os meninos se tornem “machos alfa”, cobiçados sexualmente.
Os modelos femininos visam que as meninas se tornem “de um homem só”, inibindo a sexualidade delas para que elas possam garantir a seus machos uma prole legítima, não bastarda.

As concepções do senso comum para masculinidade e para feminilidade são baseadas em modelos e em antimodelos que visam esses resultados.
Vejamos então:

Superego da Masculinidade
Modelos
A ideia geral dos modelos em que os meninos devem se encaixar é totalmente sexual: “seja um macho alfa”

Força física e moral (“aguenta firme como um homem”)
Firmeza emocional (“homem não chora”)
Competitividade (“você é um vencedor ou um perdedor?”)
Coragem (“afinal, você é um homem ou um rato?”)
Ter grana / ser um vencedor (“que mulher vai te querer se você for pobre?”)
Desempenho (“tem que mandar bem, tem que performar, tem que ter pau duro”)
Dominação (“tem que ter pegada, tem que ser quem manda”)

Antimodelos

O principal antimodelo que o Superego tem para os homens é a mulher: “não se pareça com uma mulher”, diz o Superego.
Na infância, “mariquinha” e “mulherzinha” (nunca “viadinho”, que virá depois, no colégio)
Na adolescência, “viadinho”, e congêneres, como “boiola” etc. O curioso é que o termo não é sinônimo de gay, é sinônimo de gay afeminado. O gay másculo passa despercebido.

É importante entender que isso explica por que a homofobia é principalmente uma patrulha superegoica contra ter-se “coisas de mulher”, que ela não está ligada ao medo ou à aversão do contato erótico com outros homens.

SUPEREGO DA FEMINILIDADE 
Totalmente voltado para a restrição da sexualidade e “valorização do passe” da mulher como fêmea exclusiva, “futura mãe dos meus filhos”, “casadoura”, “uma santa” etc. 

A função histórica é ter-se certeza de não estar criando filhos bastardos que mais tarde herdarão seus bens.

Modelos 
“Menina comportada” diz respeito à reserva e à modéstia, termo equivalente a “menina exemplar”, “santinha”, “delicada”, “recatada”

Mais tarde, o termo “mulher honesta” só significa uma coisa: não é devassa, não é puta. Quando se chama um homem de honesto, ninguém pensa em conduta sexual. 

Antimodelos
Praticamente todos derivados de prostituta.

Na infância: “Menina sapeca”, “assanhada”, “oferecida”, “saliente”.

Mais tarde: “galinha”, “saidinha”, “leviana”, “piranha”, “mulher com um passado” (como se todos nós não tivéssemos um passado, mas no caso, os “pecados sexuais” estão implícitos), “mulher safada”, “rodada”.






quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A SÍNDROME DO COITADISMO - Entrevista para a revista "Super Saudável"

 


Adenile Bringel

Quem vive reclamando da vida, se faz de vítima para familiares, amigos e no trabalho e procura encontrar sempre um culpado para os seus problemas pode estar sofrendo da síndrome do coitadismo. Em geral desconhecida pelos médicos, a síndrome pode levar ao estresse continuado e até mesmo à depressão. Segundo o psiquiatra Francisco Daudt, a síndrome do coitadismo é um problema de saúde pública porque atinge milhares de pessoas e provoca forte angústia causada pelo sentimento de culpa. Nesta entrevista exclusiva, o médico que atua desde 1978 com psicanálise explica como e porquê a síndrome deve ser tratada para evitar males para a saúde da mente e do corpo.


O senhor afirma que a síndrome do coitadismo é um problema de saúde pública. Por quê? 

É um problema de saúde pública do aspecto mental, da saúde mental da população. É curioso porque, quando se fala em prevenção de doenças, em geral se pensa em tratamento de água, em rede de esgoto, em vacinação, e dificilmente se pensa em prevenção de perturbações mentais. Por exemplo, temos um problema de saúde pública que é a depressão que, seguramente, é a provável maior causa de absenteísmo e abandono de trabalho deste século. E a depressão é uma resposta do organismo ao estresse continuado que, por sua vez, é gerado por uma situação de angústia continuada. As angústias são medos. E podemos ter angústia de ameaça física, de ameaça da perda do amor das pessoas queridas, angústia de solidão, de abandono e de se dar mal na vida. E, finalmente, existe uma angústia significativa, que é a angústia de sentimento de culpa. Curiosamente, a síndrome do coitadismo entra na angústia de sentimento de culpa, porque o coitadismo é um aproveitamento do papel de vítima para fazer com que o outro se sinta culpado.

O coitadismo está presente em todos os setores da sociedade? 

O coitadismo vira uma espécie de praga, uma espécie de doença, por isso falo em síndrome, que é a coleção de sintomas e sinais sem conhecimento de causa específica. No caso, temos sintomas e sinais de pessoas que se apresentam como vítimas da sociedade, sutilmente sugerindo que alguém é culpado da situação de miséria dela e deve indenizá-la de alguma maneira. E isso pode ocorrer de forma macro, por atitudes de governos, por exemplo, e micro, nas famílias ou mesmo no ambiente de trabalho. Essa culpa, despejada continuamente em cima da população de diferentes formas, vai gerar uma angústia que pode ser muito prejudicial à saúde mental, ao equilíbrio mental. Porque o sentimento de culpa é a mais poderosa arma de manipulação pessoal que o ser humano inventou. Se você se sentir culpado diante de alguém poderá chegar ao requinte de pedir por favor para se ajoelhar na frente da pessoa para pedir perdão, de tão aflitiva que a angústia de sentimento de culpa é. Tem um inglês que gosto muito, chamado John Stuart Mill, que propôs a ética utilitarista. Basicamente, ele dizia A síndrome do coio seguinte: “Eu quero que você seja feliz, porque a sua infelicidade atrapalha a minha felicidade.” Essa lógica pode ser usada no dia a dia para evitar a culpa provocada por aqueles que têm a síndrome do coitadismo. 

Em geral, indivíduos pouco otimistas ou que não são felizes com a própria vida têm mais tendência de desenvolver a síndrome do coitadismo? 

Posso afirmar que toda família tem pelo menos um coitadista, que é aquela pessoa que vive se lamentando, se fazendo de vítima e que, no fundo, está querendo dizer que “você que está ouvindo isso tem o papel de me tirar dessa tristeza”. Mas o indivíduo não quer sair da tristeza, porque se alimenta da tristeza e, se estiver feliz, não conseguirá fazer chantagem emocional. Para entender o caminho do coitadista podemos avaliar o chantagista emocional, cuja intenção é que o outro se sinta culpado pelo estado dele. E, sentindo-se culpado, vai ter de pagar alguma coisa. E o fruto dessa chantagem é a extorsão emocional. Como não se fala do sentimento de culpa como um problema de saúde pública, as pessoas não se dão conta de que estão se sentindo culpadas e de que estão sendo ‘chantageadas’. Portanto, o coitadismo é uma moléstia que nos acomete socialmente e também na micropolítica familiar e profissio - nal, quando um indivíduo que tra - balha com a gente acha que temos de fazer o nosso trabalho e o dele. E um dos grandes instrumentos des - se sentimento de culpa é a sutileza.

A pessoa que se faz de vítima tem consciência ou usa isso como fuga, refúgio e estratégia sem perceber a maldade implícita nesta ação? 

A má intenção é muito rara. É di - ferente do psicopata, que tem uma intenção malévola, sabe que é ma - lévola, sabe que é transgressora, sabe perfeitamente o que está fa - zendo e não tem um pingo de con - flito com isso. O coitadista é muito mais o fruto de uma cultura e de uma absorção lenta de uma atitu - de que dá resultado do que um pla - nejamento. Dificilmente uma mãe pensa: “quando eu ficar idosa vou chantagear os meus filhos para que eles me sirvam”. Eu tenho certeza de que isso jamais passou pela ca - beça dela. Curiosamente, o coita - dista frequentemente já foi vítima de coitadismo, assim como os pais espancadores frequentemente fo - ram crianças espancadas. O mais comum é que passem essa atitude adiante, porque estão imersos em uma cultura de violência física (no caso dos agressores), assim como o coitadista esteve imerso em uma cultura de violência psicológica, de violência emocional. Esses chanta - gistas seguramente foram chanta - geados. É comum no consultório eu detectar tendências coitadistas de clientes, mas nunca como sintoma principal, porque o coitadismo não leva uma pessoa a um consultório de psicanálise.

Em geral, o coitadista tem noção da situação que está vivendo e das suas atitudes? 

Não! Jamais. O indivíduo vem para o consultório por sofrimento próprio, por conflito, e eu detecto uma atitude coitadista e digo: “A sua depressão é um problema. Mas você está utilizando a sua depressão para manipular os seus filhos. Então, vamos cuidar da sua depressão e você acaba com essa prática, porque está afastando os seus filhos de você, porque ninguém aguenta sentimento de culpa por muito tempo.” 

Quem tem a síndrome do coitadismo costuma ter algum outro problema, como depressão ou transtorno de ansiedade, por exemplo? 

É claro que o coitadista precisa ter algum sofrimento. Se não tiver nenhum sofrimento não pode utilizar o seu sofrimento para chantagear, por culpa, o próximo. No entanto, esse sofrimento não precisa ser um transtorno psíquico, não precisa ser uma depressão. Mas algum sofrimento o coitadista terá e, se não tiver, inventará, porque a pessoa pode fazer drama por qualquer coisa. 

E a pessoa que faz drama de qualquer coisa frequentemente é deprimida. Mesmo que não tenha sido diagnosticada com depressão? 

Sim. Acontece uma coisa muito interessante no consultório. Algumas vezes, digo para o meu paciente que vou prescrever um medicamento. E o paciente diz que não precisa de remédio. E é verdade, ele não precisa mesmo! Mas o remédio é para a mãe dele! E aí, medicando a mãe, a metade dos problemas do meu paciente acabam, porque, muitas vezes, o sentimento de culpa em relação à mãe acaba por desencadear as angústias que trazem as pessoas ao consultório de Psiquiatria. 

É claro que o coitadista precisa ter algum sofrimento. Se não tiver nenhum sofrimento, não pode utilizar o seu sofrimento para chantagear, por culpa, o próximo.

As mães têm mesmo esse poder de manipulação em relação aos filhos? 

Eu falo frequentemente calcado em estatísticas. E é do conhecimento de todos que as mães com mais de 50, 60, 70 anos foram pessoas mais dedicadas ao lar e à família do que a uma profissão e a uma vida própria. Decorre que o microuniverso de manobras dessas pessoas são seus descendentes, são seus familiares. Por isso que, estatisticamente, acabamos falando da mãe manipuladora. É claro que se a mãe tiver vida própria não vai sugar, ‘vampirizar’ a vida dos filhos e dos familiares. Em inglês tem uma expressão que é ‘Get a life!’, ou seja, arranje uma vida para viver e deixe de ficar vivendo a vida dos outros. Quando uma mãe acredita que os filhos e a família são extensões dela, e não tem vida própria, está propiciando a porta aberta para a manipulação coitadista. 

O coitadismo pode gerar uma doença física? 

Física não, mas mental sim. Porque o coitadismo é uma variante sutil do sadomasoquismo, que consiste em alguém se entreter em fazer os outros sofrerem e sofrer junto. Em geral, quando as pessoas pensam em sadomasoquismo lembram de botas de cano alto, chicote, couro, tachas, mas isso é o sadomasoquismo caricato. O sadomasoquismo mais comum, mais sutil, é frequentíssimo nas nossas vidas. Um exemplo típico são casais que não se separam porque não conseguem e, ao mesmo tempo, se sentem carcereiros e prisioneiros um do outro. Por terem um rancor enorme um do outro vão se jogando farpa o tempo todo, vão se maltratando sutilmente. Frequentemente, um parece cruel e o outro parece vítima. Isso é um sutil sadomasoquismo, que é uma doença mental porque consome energia vital.

Quem é otimista, ama a vida que tem, é feliz e gosta de dar risada, entre outras atitudes positivas no dia a dia, tem menos possibilidade de virar um coitadista? 

Uma pessoa como a que você acabou de descrever dificilmente será deprimida e, mesmo que fique deprimida em algum momento da vida, por causa do estresse ou de alguma perda importante, jamais será coitadista. Agora, eu vou revelar um segredo: os médicos vivem falando de hormônios como dopamina e serotonina, mas a verdade é que não sabemos direito o que se passa na química cerebral. E quanto aos antidepressivos, que funcionam tão lindamente, também não sabemos direito porque funcionam assim. É dureza para um médico dizer ao paciente que não sabe, que não tem resposta para um questionamento. Mas não sabemos um monte de coisas e, entre elas, não sabemos exatamente qual a química cerebral envolvida com a depressão, por exemplo. Claro, sabemos que a tendência depressiva tem um componente genético, tem um componente hereditário alto. Os depressivos crônicos, em geral, têm outros exemplos na família. Depressivo circunstancial, hoje em dia, é muito mais fácil de ser tratado e, realmente, temos como tirálo dessa situação. Já os depressivos crônicos requerem muito cuidado e acompanhamento, porque a doença não vai desaparecer nunca.

Como os médicos podem diferenciar uma depressão crônica de uma depressão circunstancial?

 Frequentemente, a depressão crônica tem início na infância. Por exemplo, eu tive um paciente que, desde os dois anos de idade, tinha crises de enxaqueca brutais. As crises de enxaqueca o acompanharam pela infância afora e ocorriam geralmente às segundasfeiras. Na adolescência, a enxaqueca passou e surgiu a depressão. Portanto, a enxaqueca era a manifestação pouco elaborada da criança em relação à sua doença depressiva. E depressão na adolescência, assim como a depressão repetida, sugere uma tendência a uma depressão crônica. 

O tratamento da depressão crônica é um acompanhamento para a vida inteira. Quem vive ao redor dos coitadistas também tende a desenvolver algum tipo de doença? 

Pode. É curioso, porque o coitadismo gera raiva e estresse para a vítima do coitadista, que acho que é um estresse que grande parte da população brasileira sofre hoje em dia, que é o estresse de raiva contida. 

E o estresse da raiva contida pode gerar problemas físicos, caso não seja devidamente acompanhado e tratado? 

Na verdade, os problemas físicos mais comuns gerados pela raiva contida são gastrite, úlcera e problemas gastrointestinais, que estão muito relacionados ao estresse. Antes de ser psicanalista, eu atuei como médico clínico por algum tempo e atendia muitos pacientes com queixas de problemas intestinais, como a síndrome do intestino irritável, em decorrência do estresse. Esses problemas têm total relação com o estresse, mas não têm tanta repercussão em termos de saúde pública. Esse estresse de raiva contida sobre o qual estou falando causa mais perturbação de comportamento, porque deixa as pessoas facilmente irritáveis. 

Os problemas físicos mais comuns gerados pela raiva contida são gastrite, úlcera e problemas gastrointestinais, muito relacionados ao estresse.

O coitadismo tem cura? 

Tem. Porque as perversões não resistem à exposição ao sol. Se for possível mostrar com clareza que uma determinada atitude é perversa, maligna, maléfica, a pessoa pode perfeitamente mudar o seu comportamento. Eu disse no começo da nossa conversa que o coitadista, em geral, não tem má índole e, quando cai em si, quando lê sobre isso e percebe que está tendo aquele comportamento, costuma dizer: “eu não quero isso para mim, isso é muito ruim”. Isso já é metade do caminho para a cura. 

Como os médicos que não estudam a mente humana podem ajudar o seu paciente a enxergar que está se comportando como um coitadista? 

É muito difícil para um médico diagnosticar coitadismo se nunca ouviu falar disso, porque é uma moléstia da saúde mental. O importante é que os médicos leiam sobre isso e percebam que têm pacientes assim. E, para ajudar esses pacientes, o primeiro passo é dizer: “o senhor ou a senhora tem uma doença sim, mas repare que tem feito uso da sua doença para constranger e conduzir os seus familiares. Eu aposto que o senhor não faz isso por mal, mas isso pode afastá-los ainda mais. E isso é uma consequência de que o senhor não está aplicando a sua vida em uma coisa do seu interesse genuíno, em algo que lhe dê alegria e prazer de viver”. Então, o médico diagnostica e mostra uma saída. Não é para diagnosticar e deixar o paciente culpado por ser coitadista, mas mostrar que tem uma saída e ajudá-lo a encontrar esse caminho.

A síndrome do coitadismo deve ser tratada como um desequilíbrio psiquiátrico? 

A psicoterapia pode ajudar muito o coitadista a mudar esse comportamento. Mas, como eu já disse anteriormente, um coitadista não vai à psicoterapia buscar alguma ajuda, a menos que tenha um conflito com a sua prática coitadista. Se o paciente não tiver conflito, jamais irá. 

O que podemos fazer para que essa síndrome não se dissemine em nossas vidas? 

Basicamente, devemos fazer tudo de forma consciente. Tornar-se consciente de que a síndrome existe e de que é maléfica, que prejudica quem faz e quem recebe. Não é algo para ser demonizado. O próprio coitadista, que está imerso na doença, se perceber e disser que não quer mais isso, vai cuidar e tornar-se mais consciente. Então, a última palavra é tornar-se consciente.


(Entrevista para a revista "Super Saudável", 2015)