– sentimentos de perda / lutos
Luto: o sentimento que decorre da perda – objetiva ou subjetiva – de algo, ou de alguém, em quem, ou em que, a pessoa fez grande investimento de tempo, de afeto, de custos. Ou seja, algo, ou alguém muito importante para a pessoa.
O mais óbvio é o luto diante da morte de pessoa querida. Mas há outras formas de luto, como o de gente viva, de status social, de condições pessoais muito prezadas, de pets muito queridos etc.
Vamos ver aqui formas de lutos inerentes ao avanço da idade.
1. O ponto de partida: a velhice como acúmulo de lutos
Luto é o sentimento ligado a perdas de algo – ou de alguém – que foi alvo de muito investimento de valores pessoais, seja de tempo, de investimento emocional, de dinheiro etc.
Logo, luto = investimento + perda
O critério de velhice aqui usado não parte de uma idade objetiva, parte de uma visão de si mesmo, dentro da realidade vivida pela pessoa. Pois o luto ligado à idade acontece em diversos tempos da vida, inclusive a infância.
Um exemplo caricatural disso é o das profissões que dependem do corpo jovem, como a de modelo, bailarina, ginástica olímpica, ídolo infantil/adolescente, atleta de alto rendimento etc. Em todas elas haverá o momento de perda e sua dura transição.
A velhice é atravessada por múltiplos lutos sobrepostos. O luto da imortalidade (que bate forte em datas redondas como os 70 anos) é apenas um deles — e nem sempre o mais difícil.
2. O inventário ampliado dos lutos
Além dos lutos clássicos da idade (aparência, desejo, atratividade, funcionalidade, segurança financeira, independência, agilidade, memória), foram acrescentados:
• Papéis sociais (perda da identidade profissional)
• Parentalidade ativa (saída dos filhos, síndrome do ninho vazio)
• Pares afetivos e/ou profissionais (rarefação da rede social)
• Corpo erótico (deixar de desejar e de ser desejado)
• Futuro como horizonte aberto (o tempo vira “o que resta”)
• Utilidade (passar de quem dá para quem recebe)
• Reconhecimento social (invisibilidade do velho)
• Projeto de si (acerto de contas com o que se quis ser)
2. A leitura pelo Superego
Boa parte desses lutos atinge funções que o Superego transformou em condições de valor pessoal. É o chamado “luto do personagem”. A pessoa atribuía seu valor ao papel que desempenhava, seja como profissional quanto pessoal.
Quem se identificou rigidamente com ser produtivo, desejável ou indispensável sofre não só a perda objetiva, mas o desabamento da imagem que sustentava a autoestima.
4. A aposentadoria como luto da identidade
Caso emblemático: abre-se um vazio que a pessoa não sabe preencher, produzindo um tédio muito específico. Parece com o luto do personagem.
5. A semelhança com a adolescência
O tédio do aposentado é estruturalmente parecido com o do adolescente. Ambos foram expulsos de uma economia psíquica que funcionava e estão numa zona intermediária: “em que investir minha vontade, meus desejos e meu tempo?”.
6. A diferença crucial entre as duas crises
A adolescência é crise com um futuro vislumbrado, a “vida de gente grande”. A aposentadoria é crise sem roteiro — uma “adolescência sem turma”, sem rito de passagem, sem promessa cultural para vinte ou trinta anos de vida “sem rumo certo”.
7. O tédio da transição
Assim como na passagem da infância para a adolescência, quando frente à perda de graça dos velhos brinquedos, o desejo ainda não descobriu seus novos objetos, a aposentadoria pode trazer o mesmo tipo de tédio: “e agora? Onde haverá coisa interessante para fazer?” É uma transição que dá trabalho (e que deveria ser antecipada, antes que a aposentadoria chegasse).
9. O luto da atratividade sexual e como ele é cruel para as mulheres
A diferença entre os sexos nesse luto vem da biologia, não da cultura. Enquanto o desejo masculino é despertado pelos sinais visuais de fertilidade (que declinam na menopausa), o desejo feminino é despertado pela admiração (que pode aumentar com o tempo). Daí Sean Connery ter sido considerado sexy aos 80, sem que coisa semelhante aconteça com mulheres.
10. A injustiça biológica dupla para a mulher
A mulher perde a atratividade visual e perde também a própria capacidade de excitação, porque os hormônios da libido caem na menopausa.






