quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SOBRE O LADO PROBLEMÁTICO DA PAIXÃO

 


1. Paixão como sedução do Superego

“Paixão” vem do latim “passio”, sofrimento — como na Paixão de Cristo. 

O Superego não opera apenas por acusação, ele também seduz.

A paixão é um dos momentos de sedução do Superego: a pessoa se ilude achando que encontrou, na outra pessoa, o ideal do próprio eu, e que sua vida está resolvida a partir dali. 

O gatilho que a dispara é um estímulo mínimo, o “fulmine” italiano, é como um raio: uma troca de olhar, um gesto, uma aparência.

Por isso a paixão é sempre suspeita de ser encenação de uma neurose de transferência: a esperança de ter afinal o reconhecimento e o acolhimento nunca recebidos dos pais é transferida para o objeto da paixão. Quase nunca dá certo. 

Mas estamos falando da paixão doença. Nem toda paixão é assim. A questão não é binária (ou paixão, ou indiferença), é percentual: existe um espectro que vai do interesse forte, baseado em afinidades, de bom encaixe de desejo, capaz de uma aproximação realista e construtiva, até a ilusão delirante fabricada pelo Superego, essa sim, a mais provavelmente complicada, destinada à frustração.

2. Os três marcadores da neurose de transferência

Aluguel mental, compulsão mais forte que a pessoa, e sofrimento. Esses três juntos chancelam que está em curso uma neurose de transferência, não um simples interesse.

A neurose de transferência é aquela das relações repetidas e intensas com pessoas de mesmo perfil, e que nunca acabam bem. O que está ali transferido é a história de frustração afetiva da criança com seus pais. O que a faz escolher gente parecida, o que leva a frustrações parecidas. A motivação é que “agora vai dar certo”, a motivação é sempre a esperança.

A maior caricatura que conheci da paixão foi a máquina caça-níquel dos cassinos: a promessa de fortuna imediata, a devoção das tentativas sem fim, as migalhas eventuais, a esperança doentia, o aluguel mental, a frustração inevitável, mas… “já ouvi dizer que alguns foram felizes para sempre” é uma lenda difícil de desmentir.

3. Meu experimento clínico pessoal

No começo da minha carreira, com o cliente no divã e eu em silêncio atrás dele, uma quantidade impressionante de clientes se apaixonava por mim. Na época, eu achava que “isso fazia parte da análise”. Era a postura de silêncio e distância que me colocava num pedestal misterioso e idealizável, com função parecida à dos pais. A frieza clássica da técnica psicanalítica que eu tinha aprendido produzia a própria paixão de transferência, que depois seria "examinada" como se fosse só “coisa da cabeça do cliente”. 

Só que eu não tinha moral para examinar uma transferência que minha própria postura havia fabricado. Quando o divã foi trocado pela poltrona, o cliente face a face, o silêncio virando conversa em língua de gente, nunca mais houve uma paixão de transferência. Nunca mais.

4. Da majestade ao par de investigação

A mudança do divã para a poltrona é a mudança de uma postura da majestade de pedestal do “Grande analista tradicional” para a humildade do investigador. Senso de humor e auto gozação — admitir publicamente que ainda não se entendeu um sintoma — transformam o cliente em parceiro de investigação, não em súdito de um oráculo. A cooperação substitui domínio.

5. Paixão como vício, não como neurose

A paixão de transferência tem mais a ver com vício de domínio-submissão do que com neurose. O apaixonamento intenso ativa o mesmo circuito dopaminérgico de recompensa que a dependência química e produz os mesmos marcadores clínicos de vício: euforia, fissura, tolerância, abstinência e recaída.

6. Todo vício é vício de domínio-submissão

O Superego já é, por natureza, uma relação de domínio-submissão interna: ele domina o Eu pela culpa e exige obediência. Mas também seduz pela promessa de poder. Todo vício torna essa mesma arquitetura em acontecimento externo, com a submissão prometendo uma “esperança de domínio” e seduzindo a pessoa com isso.

7. Como o vício e o Superego se tornam automáticos

"Deu duro? Toma um Dreher": no início, a substância alivia uma dureza externa real. Com o tempo, ela se torna autônoma — passa a fabricar sua própria dureza, a abstinência, e seu próprio alívio, dissociada das condições externas reais. 

A pessoa inventa justificativas dramáticas (“não posso suportar que meu time perdeu. Preciso encher a cara!”) para disfarçar que o motor já gira sozinho. Cada repetição dessas só faz aumentar o automático do processo.
O Superego segue a mesma lógica: submissão, revolta, transgressão, culpa… e nova submissão.

8. A origem do adestramento

Esse circuito nasce de um adestramento precoce de obediência, baseado no medo do desamparo e na corrida atrás do agrado do amparador — o mesmo princípio básico usado no adestramento de cães e de humanos. 
A presença confiável de uma base segura desliga esse alarme imediatamente, seja com um analista parceiro acolhedor, seja com amigos de verdade. Mesmo sem que essa atitude em si resolva o conflito, através dela o analista consegue acessar a inteligência de seu cliente, ao se apresentar, não como um ser “Acima de mim”, uma reencarnação do Superego, mas com um parceiro de investigação que busca entender as origens desse jogo

9. O fechamento: insegurança gera devoção

A resposta na paixão de transferência é sempre insegura. Nenhum cliente se apaixonou depois da mudança de postura, porque a segurança e a previsibilidade constantes retiram a matéria-prima de que a devoção precisa para se fabricar. É a incerteza — nunca a certeza — que prende, que idealiza, que fideliza. O caça-níqueis emocional só funciona enquanto o prêmio for incerto. 

Seja no consultório, seja fora dele.


terça-feira, 28 de julho de 2026

A GENEROSIDADE COMO FONTE DE UMA RAIVA ESTRANHA

 


Meu pai costumava contar a história do monge budista que caminhava na floresta quando foi esfaqueado pelas costas. Antes de morrer, olhou o assassino e disse: “Que estranho. Eu não me lembro de ter te feito nenhum bem na vida…”

Só fui entender mais essa história ao pesquisar para a Psicanálise do Superego. Eis aí o resultado:

A dívida impagável
• Generosidade sem contrapartida cria uma assimetria que nenhuma retribuição posterior consegue anular por completo (a gratidão nunca fecha a conta, porque a iniciativa de quem deu primeiro permanece irredutível).
• Receber sem poder retribuir de forma equivalente é vivido como humilhação, não como puro benefício (o dom carrega uma obrigação de devolução que, quando impossível, gera vergonha em vez de vínculo).

O desejo de justiça
• Existe um “desejo de justiça” psíquico primitivo, um de nossos desejos inatos, que exige contas equilibradas.
• Esse sistema não distingue bem “fui lesado” de “estou em dívida permanente” — por isso a raiva de injustiça aparece mesmo sem injustiça real, só por desequilíbrio.
• A pessoa beneficiada não tem legitimidade moral para reconhecer essa raiva (odiar quem ajudou seria indefensável), então o afeto fica sem saída consciente.

Ligação evolutiva
• Aceitar ajuda que não podia ser retribuída sinalizava, em grupos ancestrais, posição de menor status ou maior vulnerabilidade à exploração.
• A posição de devedor é condenada pelo senso comum — mas aqui ela se volta até contra quem deu demais, porque o excesso expõe a incapacidade de retribuir.

Primeiro desvio: desvalorização e explosão
• A raiva reprimida busca reduzir a dívida desvalorizando o doador ou a dádiva (achar defeitos, distanciamento frio, minimizar o valor do que foi dado).
• Quando essa via não basta, o desvio final é o rompimento — eliminar de sua vida o generoso é a única forma de zerar uma dívida impagável.
• Funciona como qualquer conteúdo reprimido na teoria do Superego: sem saída legítima pela consciência, a raiva retorna deslocada, como sintoma ou explosão.

Segundo desvio: o direito adquirido (via predatória)
• Generosidade prolongada deixa de ser percebida como generosidade — vira linha de base, e linhas de base são invisíveis por definição.
• Isso apaga a dívida da memória: “se já é meu por direito, nunca houve assimetria a sentir.”
• É o mecanismo do ponto de referência (Kahneman): o benefício contínuo se torna o novo normal, e sua redução ou interrupção é codificada como perda/roubo, não como fim de um favor.
• Resultado: o mesmo motivo de justiça reaparece, só que invertido — agora é o doador que parece estar cometendo a injustiça.

Síntese
• Os dois desvios são “gêmeos no espelho” e “resolvem” o mesmo problema de acerto de contas por caminhos opostos: um mantém a dívida e a converte em ódio por não poder ser paga; o outro apaga a dívida da memória e converte sua eventual retirada em ódio por “roubo” de um direito.
• Em ambos os casos, o sentimento de injustiça é genuíno e visceral — mesmo quando, objetivamente, não houve nada além de bondade sem retorno: o sentir-se devedor incapaz de retribuição.


ATO FALHO, TDAH E DISTRAÇÃO DO IDOSO: DIFERENÇAS

 


. Ato Falho
O que é

Ato falho é um esquecimento, um deslize de fala ou um pequeno acidente que não é por acaso: ele nasce de um conflito entre dois desejos contraditórios que a pessoa tem ao mesmo tempo — uma ambivalência.

Entre querer ir e não querer ir a um compromisso, por exemplo, a pessoa quer as duas coisas. O problema é que o superego não aceita bem o lado do “não quero” — julga essa vontade errada, feia, inaceitável.

Como esse desejo não pode aparecer às claras, ele se disfarça. O resultado é o esquecimento do compromisso: a pessoa não decidiu não ir, ela simplesmente “esqueceu”.

O detalhe importante é que esse esquecimento não é sobre qualquer coisa — é sobre aquele compromisso específico, aquele que carregava o conflito. Não é substituível por outro.

. Como reconhecer um ato falho de verdade

Nem todo esquecimento é ato falho. O sinal mais confiável é o que acontece quando alguém aponta o lapso para a pessoa: se há embaraço, riso de reconhecimento, uma resistência em admitir, ou uma reação emocional desproporcional ao tamanho do erro — isso indica que algo não bem aceito voltou à superfície.

Se a pessoa apenas reconhece o erro sem nenhuma carga afetiva, provavelmente não é ato falho, é só um esquecimento comum.

. Por que não confundir com TDAH

No TDAH, o esquecimento não vem de um conflito, vem do esgotamento do estímulo. A dopamina, o prazer em torno do primeiro assunto, cai e entra o tédio. E a pessoa vai atrás de uma nova fonte de estímulo ou alívio.

O que fica esquecido para trás não tinha um sentido recusado — poderia ter sido qualquer outra coisa, bastava ser menos estimulante que a nova distração.

Por isso, quando confrontada, a pessoa reconhece o esquecimento sem carga emocional: “é, me distraí”. Não há nada sendo defendido, então não há resistência.

. Por que não confundir com a distração de multitarefa da velhice

Aqui não existe fuga nenhuma — nem de conflito, nem de tédio. É uma questão pura de capacidade: quando várias tarefas competem pela atenção ao mesmo tempo, alguma delas vai cair, e a que cai costuma ser a menos saliente no momento, não a mais carregada de sentido.

De novo, a reação à confrontação é neutra: “é, tava fazendo várias coisas ao mesmo tempo”. A solução aqui não é interpretação, é reduzir a sobrecarga — fazer uma coisa por vez, usar lembretes externos.

. A distinção em uma frase:

• Ato falho: um desejo recusado pelo superego se disfarça de esquecimento — e volta com carga emocional quando é apontado.
• TDAH: um estímulo perde força e a atenção migra para outro, atrás de alívio — sem carga emocional ao ser apontado.
• Distração de multitarefa: a atenção não alcança tudo o que estava programado porque a capacidade é limitada — sem carga emocional ao ser apontado.

Confundir os três tem custo: tratar uma sobrecarga de atenção como se fosse ato falho é forçar um sentido onde não há conflito nenhum; tratar um ato falho como TDAH é medicar um conflito psíquico como se fosse falta de estímulo.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

CONTINUANDO O TRABALHO DE FREUD

 


1. O que é psicanálise

É a análise da nossa mente, um método de pesquisar e entender como ela funciona. Se a gente pensar nosso cérebro como um computador, a psicanálise é o jeito de conhecer os programas que rodam nele, como eles são e como funcionam. Tanto aqueles que vieram de fábrica como aqueles instalados depois.

2. O que é o Superego

É um dos programas instalados depois da “máquina sair da fábrica”. Ele tem regras de como se comportar – e mesmo de como pensar, e tem poder para impor essas regras: “olha lá, hein! Se você não se comportar direitinho, ninguém vai gostar mais de você!”

Na maior parte das vezes, ele funciona sem que a gente perceba (funciona de maneira inconsciente), mas sentimos seus “efeitos corretivos” quando desobedecemos a suas regras: os choques de medo de abandono (a tal “angústia”), de vergonha, de culpa e de ridículo.

O nome dele significa “o Acima de mim”, e ele fica lá de olho em nós (de olho no programa Eu, o Ego, que vem de fábrica e é como o nome diz: “esse aí sou Eu”). Ele foi instalado em nós do mesmo jeito que os cães são adestrados: desde pequenos temos medo de que nossos pais não gostem mais de nós, e se eles viram a cara, nós ficamos com medo e tentamos nos comportar melhor.

O problema é que o poder dele nos seduz: “ah, esse cara me domina e isso me põe pra baixo. Mas, deixa estar que um dia eu vou ter esse poder (eu vou virar pai, por exemplo), e aí quem vai por os outros pra baixo vou ser eu!”
É assim que o Superego passa de geração pra geração.

3. O que é a Psicanálise do Superego

É uma continuação da psicanálise de Freud. Ele examinou umas doenças esquisitas chamadas “neuroses” e descobriu que elas vinham da briga entre o Superego e os desejos proibidos por ele, num processo que funcionava sem ninguém perceber: ele descobriu um inconsciente reprimido (tornado inconsciente) pelo Superego.

Mas ele morreu antes de estudar como o Superego funcionava e de onde ele vinha. Freud sabia que o funcionamento dele também era inconsciente, mas parou por aí.

Pois o Dr. Daudt ficou feliz de poder continuar o trabalho de Freud e estudar a fundo esse “inconsciente repressor”.

Foi assim que surgiu a Psicanálise do Superego.


terça-feira, 21 de julho de 2026

TDAH E O MAL QUE ELE FAZ À AUTOESTIMA

 


TDAH não diagnosticado ou diagnosticado mais tarde causa dano à autoestima porque os sintomas (desatenção, esquecimento, impulsividade, atraso, distração e postergação) costumam ser explicados por adjetivos pejorativos. A criança é chamada de lenta, burra, preguiçosa, rebelde — em vez de portadora de uma condição.

O TDAH acaba sendo pior do que era nascer canhoto, antigamente.

O canhoto nasce assim, todo mundo reconhece. É um traço neutro, sem carga moral, que a pessoa simplesmente tem.

Mas isso não era assim. Antigamente, nascer canhoto era ser errado, tinha que ser corrigido. Mas pelo menos era um diagnóstico claro e precoce na vida.

O TDAH dá mais problema, porque é mais sutil e vem moralizado desde o início — não existe um rótulo neutro equivalente a “canhoto” para quem esquece a lição ou se distrai; o adjetivo é sempre de defeito de caráter.

O que a literatura confirma sobre esse mecanismo
• Estudo do IAMSPE mostra que adultos diagnosticados tardiamente relatam terem sido interpretados na infância como “crianças lentas, estúpidas ou rebeldes”, internalizaram a culpa, e isso marcou o futuro com expectativa de fracasso e risco elevado de depressão e baixa autoestima.
• Sem diagnóstico, a única explicação disponível — fornecida por professores, pais, parceiros, empregadores e por fim a própria pessoa — é de caráter: preguiçoso, descuidado, não se esforça, irresponsável.
Isso se torna um jeito de se ver automático, disparado não por um evento único, mas pela simples antecipação de qualquer tarefa que pode expor a dificuldade.
• A ameaça de desamparo ronda a criança com TDAH, pois ela lê no adulto a desaprovação e a impaciência.
• Estudo com mulheres com TDAH não diagnosticado mostra internalização sistemática da crítica social e médica, com culpa, vergonha e autoconceito negativo, porque não houve diagnóstico.
• Relatos clínicos de diagnóstico tardio na vida adulta descrevem o processo como um luto: a pessoa revisita décadas de boletins escolares, prazos perdidos, explosões emocionais, sob uma luz nova — “anos passados crendo que eram preguiçosos, irresponsáveis, dramáticos, inconsistentes, ou simplesmente que não se esforçavam o suficiente”.
Isso marca a pessoa.

Resumo
O dano não vem do TDAH em si, mas da má atribuição: sintomas neurológicos são lidos como falhas morais porque não há outro vocabulário disponível para a criança, os pais ou os professores.

É exatamente esse mecanismo de qualificação errada: erro → remorso → culpa — um tropeço de aprendizagem (erro, neutro) sendo dramatizado (remorso) até virar culpa.

Quando se pega um adulto com esse passado, é preciso desadestrar seu Superego para que o automático de se julgar mal vá diminuindo com o tempo.


O AMIGO PERGUNTA - NOSSA ESPÉCIE FOI FEITA PARA BRINCAR?

 


O AMIGO PERGUNTA

“Que história é essa de que ‘nossa espécie foi feita para brincar’? E brincar de quê?”

Francisco Daudt: Ah, isso é a tal da neotenia, a manutenção da forma jovem – da criança – pela vida afora, com que algumas espécies nascem. Só existem duas espécies de antropóides que tem a neotenia: o sapiens (nós) e os chimpanzés bonobos.

As crianças brincam de tudo, ou melhor, fazem tudo brincando: elas aprendem, jogam, inventam, se relacionam, pesquisam etc. 

Criança não se leva a sério. A única coisa que elas levam a sério são as regras da brincadeira: é pique-esconde? Não pode olhar enquanto conta; é altinha? Não pode pôr a mão na bola. E por aí vai. Até sua curiosidade sexual é levada em forma de brincadeira.

Infelizmente, desde que apareceram os governos – que não existiam nas tribos de caçadores coletores, pois elas não passavam de 70 pessoas – eles se estabeleceram não só nas cidades, mas nas famílias e dentro de nossas cabeças também: o tal Superego. E aí os adultos – e até os jovens – ficaram sérios: “a vida não é brinquedo, viu?”.

Ok, mas era pra ser. A nossa saude mental melhora muito se pudermos voltar a brincar pela vida afora. Quer um exemplo? Eu vivo brincando de psicanalista pesquisador, escritor, cuidador, curador etc. O que estou fazendo com o DrDaudtAI é brincar de Inteligência Artificial, a serviço das pessoas. Ou seja, ganho minha vida brincando.

Como percebo a garotada – uma parte dela, claro – tentando fazer. Tenho clientes que ganham dinheiro fazendo lives de videogames, e se sustentam com isso! Quer exemplo melhor, mais extremado do que esse?
A Psicanálise do Superego busca restabelecer a brincadeira em nossa vida.

Seriedade? Só nas regras da brincadeira. Viver sério? Isso é uma boa pista para saber que sua vida está sendo dominada pelo Superego. 


sexta-feira, 17 de julho de 2026

AMIZADE MASCULINA – DIFICULDADES E FACILIDADES

 


Se a coisa é sair com a turma, beber juntos, jogar futebol ou altinha, assistir aos jogos, só existem facilidades.
Mas se houver vontade de encontro afetivo pessoal, a coisa dá trabalho. A “pessoalidade” não tem trânsito fácil entre os homens. 

É quase o extremo oposto do que acontece com as mulheres e com a facilidade que elas têm de ter “as melhores amigas”, de confidenciar suas questões pessoais, de se encontrar uma a uma como coisa rotineira. Talvez esteja aí um dos obstáculos masculinos para desenvolver intimidade pessoal.
Vamos ver, então:

1. O problema de base: perceber o desejo

Antes de qualquer obstáculo externo, existe um obstáculo interno: depois da adolescência, os meninos perdem o hábito do “melhor amigo”, aquele com quem viviam grudados, brincando e conversando juntos.
Os hormônios sexuais tornam os antigos interesses meio sem graça, os desejos novos ainda não estão claros, falta treino para chegar perto das meninas, mas a vontade de encontro erótico torna pálidos os encontros afetivos pessoais.

Começa um tempo de encontro aos bandos: o tempo da “altinha”, dos jogos partilhados, do videogame, da ida juntos às festas – em que a abordagem às meninas se parece um jogo de regras partilhadas entre os amigos, muitas vezes tão competitivas quanto no futebol (“com quantas você ficou?”).

Outras vezes o bando, vivendo as aflições e cobranças da adolescência, quando o “ingresso no mundo” lhes pressiona, se torna um grupo de “cúmplices” que se reune para fumar maconha, para beber, para escapar das pressões. Infelizmente, agora o grupo que jogava altinha unido, se reúne, sim, mas cada um na própria viagem. O negócio não é mais estar juntos, o objetivo não é mais o encontro. É o escape.

2. O problema do olho no olho 

Não só entre nós, mas mesmo entre os primatas, o olho no olho entre homens desconhecidos é perturbador por ser ou um sinal de ameaça ou de interesse sexual. O sinal de ameaça, se é entre conhecidos, não faz sentido, mas o de interesse sexual continua funcionando. É claro que, se ambas as partes estão interessadas no encontro erótico, sem problemas. Mas como na maioria dos homens isso não acontece, a perturbação do olho no olho se manteve.

A solução de compromisso foi a “altinha”: os homens se reúnem para fazer uma terceira coisa. Ver filme, assistir a futebol, jogar altinha, videogame etc. surgem como bom pretexto para estar juntos. O problema inibidor é sempre a clareza do desejo de estarem juntos, só os dois, como naqueles tempos de criança, os bons tempos do “melhor amigo”.

O outro inibidor do encontro em que o assunto é a pessoalidade, semelhante ao olho no olho, é a “branda misoginia”, o medo de parecer mulher, pois elas são completamente livres para conversar assuntos pessoais uma com outra – sem precisar de grupo ou de altinha – olhando “olho no olho”.

Veja bem que o medo não é de parecer gay, e sim de parecer “mulerzinha”, pois o principal antimodelo masculino não é propriamente o gay, e sim a bicha, o viado, como são chamados os gays efeminados. O gay másculo costuma ser invisível. O olhar amistoso olho no olho parece, no senso comum, “coisa de mulher”.

3. A chave final: comer pelas beiradas

Por incrível que pareça, a saída para atender o desejo de pessoalidade, de partilha dos assuntos particulares, algo semelhante à amizade da infância, acaba sendo algo semelhante à paquera heterossexual: a não declaração direta desse desejo. Arranjado um pretexto neutro para se estar juntos, a pessoalidade pode começar a ser abordada, até que ganhe jurisprudência, que se estabeleça como hábito aceitável, ou mais que isso, claramente desejado e estabelecido como direito adquirido.

A partir daí, o desejo de estar juntos e de partilhar pessoalidade já não precisa de pretextos: ele pode ser enunciado abertamente para uma nova rodada de encontros e bons encaixes, sejam eles intelectuais, afetivos ou mesmo eróticos.