sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SER HUMANO E COMPUTADOR: SEMELHANÇAS NA PROGRAMAÇÃO


Fazendo uma equivalência do sapiens com o computador, já que o DNA nos programou visando sua replicação:

Softwares que vêm com a máquina:
Desejos:
1. Prazer (principal, voltado para a replicação do DNA). Motor: excitação sensória
2. Desejos acessórios ao de prazer
a. Desejo de justiça. Motor: raiva, revolta, indignação, mágoa, ressentimento
b. Desejo de entender/conhecer (epistemológico). Motor: curiosidade, interesse, perplexidade, intriga.
c. Desejo de controle / ordenação. Motor: insegurança.
d. Desejo de afiliação social. Motor: apego, empatia.
e. Desejo de imitação. Motor precoce: amparo (bebês esquisitos sempre foram eliminados). Motor tardio: admiração, sintonia de perfis (para a imitação por gosto); obediência, submissão (para imitação por medo)
Obs. A formação de mitos partilhados que levou o sapiens a dominar os outros seres vivos (exceção para vírus e bactérias, mas ainda estamos tentando) vem do desejo de conhecer/entender somado ao desejo de controle/ordenação.
A mitologia começa pelo preenchimento do vazio do conhecimento com invenção de respostas.

A ciência é uma sofisticação tardia desses desejos.
Medos principais:
a. De desamparo
b. De estranhos
Medos secundários: altura, escuro, confinamento, grandes répteis, grandes felinos, grandes insetos voadores.
(N.b. : existe um desejo de imitação, que nos leva a aprender tudo, que não sei como classificar)
Manifestações mais complexas dos medos
Angústia, ansiedade.

mecanismos de defesa contra a angústia (formação reativa, negação, repressão, projeção, autoengano, renegação, racionalização, sublimação)
Formatações
a. Cabeça de homem
b. Cabeça de mulher
c. Exatas
d. Humanas
e. Universal
f. Matemática
g. Caráter obsessivo (leva a clivagem bom/mau, pensamento binário)
Neurodivergências
TEA, Asperger (cabeças matemáticas extremadas), TDAH, narcisismo genético.
Softwares adquiridos

O principal é o Superego, adquirido por adestramento sob medo de desamparo.






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O SUPEREGO NÃO FALA, ELE DÁ CHOQUES

 


De como angústia, vergonha, ridículo, culpa e nojo são meios de o Superego exercer sua tirania sem precisar de argumentos, só através de choques adestradores.

1. Angústia. 
É um mal-estar, um aperto na boca do estômago, um medo sem se saber do quê. O alemão “angst” é de uma origem parente e significa “medo”. O medo genérico de onde a angústia vem é o de desamparo. 
O Superego diz, mas diz sem dizer, só dando o choque: “você vai se danar, ninguém mais vai gostar de você”. 
Abandono, sifudência, demissão, separação, rejeição, cancelamento (essa é uma ameaça moderna), cara feia, reprovação, desterro, expulsão são algumas das situações que, mesmo imaginadas, levam à angústia.

2. Vergonha.
É um sentimento primo do ridículo, pois ambos acontecem diante de uma exposição pública, ainda que só imaginada, de característica reprovável. A pessoa se sente flagrada fazendo algo de “muito errado, muito feio, muito desprezível. Algo oculto é trazido a público e a pessoa se sente julgada por todos (antes de mais nada, por seu Superego).

3. Ridículo.
Definido como “o desmascaramento público da pretensão descabida”, ele é, como a vergonha, uma exposição da pessoa, só que em vez de ser com a revelação de seus “pecados ocultos”, é com a exposição exibicionista de uma qualidade superior que, é evidente a todos, a pessoa não tem.

4. Culpa.
Esse é um sentimento interno, não tem a ver com plateia. Ele acontece quando o Superego iguala algo, que poderia ser simplesmente um erro, a uma qualidade monstruosa, a um dos antimodelos que ele tem em seu estoque, traduzidos por algum adjetivo moralmente pejorativo (assassina, ladra, trapaceira, traidora, ingrata, desonesta, mesquinha etc., sempre o avesso de alguma qualidade moral). 

A culpa é um dos choques prediletos do Superego, e ela traz embutida a angústia de desamparo (“quem vai gostar de uma pessoa assim desqualificada?”), não à toa ela é usada e abusada como arma de manipulação política, doméstica ou religiosa… ou todas essas.

O pior é que ela muitas vezes fala de um erro real, não apenas uma transgressão das leis erradas do Superego (“não pode ter raiva dos pais, eles são sagrados, você é pessoa ingrata”).

A diferença entre a culpa e o erro é o drama. A equação poderia ser: erro + drama = culpa. 

Sem drama, o erro pode ser visto como tropeço no aprendizado, pode ter um julgamento democrático que inclua presunção de inocência, advogado de defesa, atenuantes, indenização justa, correção, aprendizado.
A culpa é sentença sem justiça, é pena máxima irrevogável. Ela costuma levar a autopunições, a penitências, a confissões religiosas, inclusive, pois ela é vista como “pecado”, incluída em orações (“minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). 

Na cultura brasileira, ela é tão comum que o reconhecimento do erro impõe um “pedido de desculpas”, coisa que não há em outras línguas (“I’m sorry” é “eu lamento”, e “excuse me” está mais para “com licença” do que para “desculpe”).

5. Nojo.
A repugnância, o nojo, é uma das nossas reações básicas de autoproteção, como os medos inatos. Proteção voltada ao que pode ser contaminante, via visão, olfato, tato e paladar. 

O exemplo mais extremo é o contato com carne em decomposição: o vômito é instantâneo, mesmo se a pessoa estiver vivendo sua primeira experiência.

O mesmo se passa diante dos cheiros corporais fortes, como os genitais, halitose, fezes, suor, pus, que a natureza considera como riscos à saúde.

Mas essa correlação com o “doentio” pode ser usada pelo Superego, especialmente na repressão do desejo sexual. 

Heteros relatam uma resistência inicial a práticas que os ponham em contato da saliva ou de secreções genitais com suas bocas, mas o tesão acaba por suspender pudores e repugnâncias, como um gosto adquirido pelas ostras, p.ex.

O nojo também retorna em situações de “não tesão”, como ver gays se beijando na boca, ou ver casais de velhos fazendo sexo. O nojo pode ser então um dos choques do Superego vindos de leis contra a sexualidade.
Em todos esses casos — angústia, vergonha, ridículo, culpa e nojo — o Superego não precisa argumentar: ele só precisa apertar o botão certo no corpo.  

A tirania se exerce menos por ideias do que por choques afetivos.





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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

“O SUPEREGO NÃO TEM NADA DE BOM?”

 


O Superego é minimamente funcional, pois ele funciona como a tirania, como as ditaduras: como uma forma de governo. E sem governo se estabelece a anarquia, a bagunça, o confronto permanente no convívio social com estranhos.

Mas a ditadura é um governo tosco voltado para os interesses do ditador, em primeiro lugar, sem consideração pelas diferenças que o povo pode ter com ele. A democracia veio no caminho de corrigir isso, de considerar a voz e as características dos governados.

A comparação é pertinente, pois a criança é o “povo da casa” dos pais, e é nela que o Superego será instalado: é preciso haver governo, mas é melhor se ele for democrático. Se democrático, a criança não será adestrada para ter um Superego. Ela terá valores dela, de seu Eu, de seu Ego.

O Superego defende valores certos, como a honestidade e a justiça, mas de forma errada (“você TEM QUE…”). A democracia convence seus governados (as crianças, no caso) de que esses valores lhes interessam, que eles podem ser absorvidos e praticados por gosto, não precisa ser por medo do castigo.





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SOBRE O AMOR

 


Do ponto de vista da psicologia evolucionista, o amor é um tipo de prazer selecionado pelo DNA para fins de sua replicação e para a sobrevivência do ser replicado.

Ainda por esse ângulo, ele desperta vontade de investimento, desperta apego, vontade de amparo e de ser amparado, tudo servindo à otimização da réplica do DNA.

Portanto, o amor é um impulso natural, mais um passível a ser corrompido pelas leis do Superego, tipo “você TEM QUE amar seus pais”, que transformam o gosto da pessoa, de seu Eu, de seu Ego, em obrigação por medo do mau julgamento. Não transformam completamente, mas sequestram território.

Mas o que se chama de amor cobre um espectro amplo, que vai do prazer sentido ao sofrimento da paixão – a palavra vem do latim “passio”, cuja tradução é apenas “sofrimento”, tal qual na paixão de Cristo.

E passa por algo menos sentido, não sofrido, mais deliberado, mais produzido: quando o bebê chora durante a noite, vamos lá atendê-lo movidos pelo amor por ele, apesar de que no meio da noite não estamos sentindo esse amor, estamos agindo em nome dele, por escolha.

Amor sentimento
O amor sentimento vem dos encontros, dos encaixes de desejos simétricos, espelhados, um ativo, o outro receptivo, ainda que esses perfis possam se alternar.
Vamos pensar nos possíveis encontros de desejos: intelectual, afetivo e erótico. Eles vão ser apresentados em separado por razões didáticas, mas na vida real costumam se misturar.

Como exemplo, o desejo de encontro intelectual. Se o encontro é bom, ambos “amam conversar”. Quando se encontra um real interlocutor, uma verdadeira afinidade intelectual, os papéis ativo/receptivo costumam se alternar mesmo durante a conversa. Se o encontro é mais de professor/aluno, paterno materno/filial, haverá predominância de papéis. Mas mesmo nesses, o interesse do aluno ou da criança, suas perguntas inteligentes, sua vontade de saber desempenham um papel ativo que conversa em troca constante.

Veja que estamos olhando o prazer do encontro amoroso, sem falar das invasões do Superego em nome de instituições, como namoro, casamento etc., que costumam atrapalhar o sentimento por tentar obrigá-lo.

O encontro afetivo é o mais semelhante ao que se chama comumente de amor. Enquanto o intelectual excita a mente e o erótico excita o corpo, o encontro afetivo “aquece o coração”. Há uma paz gostosa e tranquila no encontro afetivo de base, seja na amizade, seja nas relações entre irmãos, ou entre pais e filhos, algo que transmite segurança de amparo, algo que pode se chamar de “amor companheiro”, que pode existir dentro e fora de laços instituídos, como namoro ou casamento.
Claro, nesse departamento há também a excitação romântica.

Nesses casos, os encontros podem ser realistas ou não, por causa da paixão. Quando há paixão, a margem de idealização pode variar de tamanho, mas costuma ser grande. É na paixão que se dá uma das expressões de doença psíquica mais complexa, a neurose de transferência, que repete o drama infantil de insatisfação da relação com um dos pais, e que fica eternamente em busca de uma satisfação que nunca vem.

Amor produção
Ele é misturado ao de sentimento em doses variáveis. O amor produzido vem do desejo mais amplo, como o desejo paternal/maternal, estendido não só aos filhos, mas até aos não tão próximos ou conhecidos, como leitores, alunos e público em geral. Ele se traduz em ações práticas (como o levantar à noite para atender ao bebê que chora).

Há um exemplo de amor produção, que se mistura ao de sentimento de devoção, particularmente importante a ser contemplado: o amor ao deus da religião, ou ao líder político carismático, ou ao ídolo artístico, que pode levar a uma gama imensa de atitudes nem sempre favoráveis para os que não o sentem. É um amor de submissão cega, apaixonado, imune à racionalidade, que se parece muito com a paixão da neurose de transferência.



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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O SURGIMENTO HISTÓRICO DO SUPEREGO

 



Vejo o Superego como fruto cultural de uma enorme mudança na espécie humana acontecida na revolução agrícola: nossa passagem da vida de caçadores-coletores para a vida em cidades, convivendo com estranhos, há dez mil anos.

Vamos lá, porque entender a vida dos caçadores-coletores é fascinante, mas não é simples, pois ela era imensamente diferente da nossa.

Fomos caçadores-coletores desde o surgimento do sapiens, há 70 mil anos, e assim permanecemos até 10 mil anos atrás, quando aconteceu a revolução agrícola.

Eram tribos nômades de não mais que 50 pessoas (crianças inclusive). Os homens caçavam e as mulheres colhiam plantas, raizes e frutos. Uma coisa principal pautava a atividade deles, a cooperação. Essa é a chave do predomínio dos sapiens sobre as outras espécies homo. 

A cooperação envolve o partilhamento de mitos: o animismo, que não era uma religião e sim crenças partilhadas, atribuía características humanas a animais, plantas, rios etc. com quem se podia conversar. Não havia deuses superiores a temer, a natureza era bem integrada.
Os homens se comunicavam mais por gestos, de modo a não espantar a caça. As mulheres se comunicavam falando e trocando informações sobre onde encontrar a coleta, sobre a qualidade do que iriam colher, se era venenoso ou não etc. 

Isso formatou nossos jeitos masculinos e femininos de agir, com os homens mais silenciosos e pragmáticos, e mulheres mais comunicativas e detalhistas.

A cooperação das mulheres também se dava no cuidado dos filhos e na amamentação. Não havia maternidade ou paternidade fixa, as crianças eram “filhas da tribo”, cresciam imitando os adultos e descobrindo com quem tinham mais afinidades. A neotenia – a manutenção da forma jovem e brincalhona, característica de nossa espécie – era cultivada e a cooperação a incentivava: a caça e a coleta eram brincadeiras de grupo.

A prática sexual era espontânea e sem idealizações, sem seduções ou dramas. A mulher não era propriedade de ninguém, era dona de si. Não havia vergonha, não havia culpa, não havia ridículo, nenhum mau sentimento ligado ao sexo. Na verdade, não havia na época ainda a relação de causa-efeito entre sexo e procriação. Não havia casais, não havia “pais e mães”, não havia famílias separadas: a tribo era uma família só.

Havia violência, mas voltada para estranhos: se tribos se esbarrassem, haveria luta. Assim como entre os chimpanzés, o estranho é por nós visto como ameaça.

Não havia propriedade privada, não havia herança, não havia vigilância sobre o “comportamento das mulheres”, nem drama sobre a prática sexual. Não havia “infidelidade” nem “traição”.

Esse retrato pode parecer idealizado, mas tudo leva a crer que, afora exceções, esse era o clima geral. O engraçado é que esse tipo de comportamento se parece muito com o nosso dos tempos de criança, até os cinco, seis anos. Depois disso é que a “seriedade” começa a entrar em nossas vidas.

Revolução agrícola 
Há cerca de dez mil anos, o clima favoreceu maior crescimento de vegetais alimentícios. Por comodidade e segurança, o sapiens começou a plantar, colher e a criar animais. Isso trouxe duas consequências imediatas: ele deixou de ser nômade, e a população começou a aumentar. 

Apareceram as protocidades, e com elas a convivência forçada com estranhos. Ora, um medo inato foi confrontado: o estranho-inimigo requeria contenção, caso contrário haveria uma carnificina. Outra consequência séria é que ele passou a ter propriedade privada: sua casa, sua colheita e seus animais. 

Ter casa foi um jeito de não ter que conviver com estranhos, de se defender deles. 
Ter posses trouxe outro problema: herança. “Para quem vou deixar minhas posses? Para meus filhos, claro! Mas aí eu preciso ter certeza de que minhas mulheres não me traiam, não quero passar o que tenho para filhos dos outros”. Daí veio a patrulha sobre a sexualidade das mulheres: elas passaram a ser “honestas ou não”.

Na sequência de morar em cidades e ter risco de carnificina vieram os governos e as leis. A primeira forma de governo foi a tirania, um nome que hoje é feio, mas que designava simplesmente um governo tosco, primitivo, como era de se esperar.
 
O governante tinha um poder absoluto sobre os cidadãos, as leis eram primitivas – como a famosa lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” – e precisava saber da vida e do comportamento de todos. Por isso os deuses foram inventados. Pela primeira vez a mitologia não era amistosa como a animista; ela se passou a pessoal, vigilante e punidora. E mais, o tirano governava através dela, em nome dela, “ungido pelo deus que tudo via e tudo podia”.

Essa figura tirânica se espelhava no patriarca dono da casa: ele era um tirano no seu pequeno feudo; ele fazia as leis da casa, controlava tudo e punia quem saísse da linha, filhos, sim, mas sobretudo as mulheres “traidoras”. Olha só a origem do Superego das mulheres, que sempre visou a sexualidade delas!

Outra consequência foi que os filhos passaram a dar trabalho, pois não havia uma tribo inteira para dividir o cuidado com eles. Ao mesmo tempo, eles perderam coisas preciosas: liberdade para brincar; também não encontravam mais pessoas da tribo que pudessem acolher suas características únicas: se eles fossem diferentes, dariam mais trabalho.

A soma dessa linha de montagem – deus tirano + tirano da aldeia + tirano da casa – gerou uma nova tirania, essa dentro da cabeça das crianças: o Superego. 

Mas como ele entrou na cabeça das crianças? Por adestramento, como se elas fossem cães. O cão é adestrado para se comportar na base da ameaça de desamparo, pois eles dependem de nós tanto quanto uma criança. 

Então, é na base do “virar a cara” (ameaça) e “dar carinho/ prêmio (suborno) que o cão – e a criança – aprende a “se comportar”.  Diferença é que os cães gostam da submissão, eles foram selecionados pelo sapiens para isso. 

Quanto a nós… nem tanto: se lhes for dada a oportunidade, os sapiens gostam de se governar, de independência, de autonomia. Tanto é assim que eles são tentados a governar os outros, a serem tiranos, a repassar o que sofrem com seus superegos.

Mas se o Superego impõe regras para que as crianças se comportem de modo a “não dar trabalho”, ele não se interessa por características únicas delas que deem trabalho, ele tenderá a fazê-las se comportarem segundo leis gerais, leis que tornam as pessoas homogêneas. Portanto, leis que as atropelam. É desde atropelamento que virão os conflitos entre desejos próprios e leis que não os aceitam. Como no caso do desejo sexual das mulheres. Não é à toa que a psicanálise nasceu da observação desse conflito: a neurose histérica. 

Ela foi a pista que Freud teve para entender que havia guerra entre leis e desejos, e que os sintomas e doenças falavam de maneira cifrada desse embate.

Em resumo: o Superego resulta do espelhamento das tiranias: o deus tirano que apoia o tirano governante, que se impõe sobre o cidadão, que se torna tirano em sua casa controlando sua mulher, e que adestra seus filhos a ter um “controle remoto”, um tirano dentro da cabeça: o Superego.




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O AMIGO PERGUNTA SOBRE A “INTERPRETITE”

 


“Tenho um colega que está se formando para ser psicanalista e que vive nos interpretando a cada coisa que fazemos. Que saco! Como você vê isso?”

Francisco Daudt. Ah, é a chamada “síndrome do aprendiz de feiticeiro”, em que a pessoa, impressionada com a posição superior do mestre, tenta imitá-lo de forma desastrada.

Esse comportamento diz mais do processo de formação do que de qualquer má intenção do aprendiz. Ele faz, sem saber, uma caricatura da instituição em que aprende e também de seu analista formador. Ele acaba imitando o Superego sob o qual sofre.

Por esse comportamento, sabemos logo que sua formação está guiada pelo “Freud explica” (claro, nem sempre é Freud, outros mentores mais na moda podem estar envolvidos). Sabemos que ele está repassando um mal-estar que tem com seu analista, que lhe aponta “suspeitos motivos ocultos” para gestos cotidianos.

A minha proposta psicanalítica é que o atendimento esteja a serviço de buscar cura DOS PROBLEMAS dos clientes, de suas doenças e sofrimentos, deixando em paz o que não é problema, o que faz parte da sua saúde. 
Além disso, as interpretações serão sempre ouvidas como “acusações dos demônios que estão por trás” de cada gesto. Isso não só é um saco, mesmo, como fere a questão contratual: “quem lhe deu permissão para se meter na minha vida e interpretar o que não é da sua conta? Por acaso eu te contratei como analista?”

Outra coisa: a investigação precisa ser feita em parceria com o contratante; ele precisa entendê-la, é necessário que o processo lhe faça sentido, caso contrário, a suposta descoberta está simplesmente errada.




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DIFICULDADES SEXUAIS FEMININAS

 


As mulheres foram as principais vítimas do Superego e do senso comum do comportamento sexual. Só como exemplo, o termo “homem honesto” significa um elogio em termos de valores morais genéricos, mas “mulher honesta” remete imediatamente a uma moral sexual. 

Isso veio da transição do lugar da mulher entre os caçadores-coletores (livre para o sexo casual; nem havia ligação entre sexo e procriação) para o lugar da mulher depois da revolução agrícola, há 10 mil anos, pois uma vez surgida a propriedade privada e a herança, a mulher passou a ter sua vida sexual vigiada para não gerar filhos bastardos. Daí vem o patrulhamento de sua sexualidade, daí vem o “Superego da mulher honesta”.

Nas mulheres, por conta das variações hormonais (ciclo menstrual, gravidez, pós-parto, menopausa), as causas orgânicas devem ser consideradas em primeiro lugar, só depois se devem investigar as psicológicas.
O tesão das mulheres, pela baixa testosterona, não é principalmente visual, como o dos homens. Ele costuma funcionar em dois tempos: a mulher acha um homem “interessante”; o homem a olha com desejo; ela aí sente desejo. 

O desejo de ser desejada, o principal entre as mulheres, também acontece com os homens em menor proporção.

Mas em 10% das mulheres, os níveis de testosterona mais altos geram tesão visual idêntico ao dos homens. Essas são as mais vulneráveis ao Superego, mesmo depois de o feminismo ter conquistado muito terreno, e o senso comum ter se abrandado quanto ao direito ao desejo feminino.

Termos Atuais
O que se chamava de “frigidez”, e eu chamo de dificuldades sexuais femininas, engloba várias situações diferentes, por isso “dificuldades” no plural:
•Pouco desejo, cujo nome complicado é “Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo”: Falta ou redução significativa de desejo sexual, impactando a vida diária, mas também, como nos homens, ele pode significar desencontro de desejos, a menos que seja geral.
•Problemas de Excitação Sexual: Dificuldade em lubrificação ou excitação genital, mesmo com estímulo adequado (pensar em causa hormonal).
•Falta de orgasmo, cujo nome complicado é Anorgasmia: Incapacidade ou retardo persistente no orgasmo, apesar de excitação normal. Mas sempre lembrando que o orgasmo nas mulheres vem principalmente da estimulação do clítoris; o orgasmo vaginal só acontece numa minoria.

É importante lembrar que, uma vez que a cultura nos condenou à monogamia, o sexo passou a conviver com o Superego numa proporção desmedida, principalmente para as mulheres. Só como exemplo, a masturbação feminina era vista até há muito pouco tempo como algo criticável, como sinal de que a mulher não era “tão honesta” assim, que era meio “devassa”.

Outro atrapalhador, tanto para homens quanto para mulheres: no casamento o sexo passou à categoria de “deveres conjugais”, algo que inibe tremendamente o desejo. Para elas, o sexo passou a ter a conotação de amparo (“ele não vai me abandonar, não vai arrumar outra”) e de prestígio (“se ele não me procura, é porque não gosta mais de mim”). Com essas “cláusulas contratuais”, o desejo ficou em distante segundo lugar.

Ou seja, a cultura pós agrícola e o Superego surgido dela atingiram profundamente o desejo das mulheres. Mulheres com dificuldades sexuais precisam conhecer bem as tolices que seu Superego lhes diz.

Isso afetou a psicanálise de maneira surpreendente: pode-se dizer que a psicanálise nasceu a partir dos problemas sexuais das mulheres, pois se o Superego atual é cruel, imagine o da época vitoriana do final do século XIX. A histeria (neurose histérica) foi a primeira pista a ligar sintomas psíquicos a um conflito inconsciente. 

Foi a primeira pista para que Breuer e Freud, inicialmente através da hipnose, descobrissem que o desejo sexual das mulheres, ao colidir com seu Superego, causava doenças.

(Acima: foto gerada por IA)





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