terça-feira, 9 de junho de 2026

AULA PARA MEUS ALUNOS DA PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Fiz um guia prático para que a pessoa conheça seus desejos e vá desmontando seu Superego.

Os alunos vão usar o roteiro tanto na clínica quando para eles mesmos.

ROTEIRO RESUMIDO PARA USO NA CLÍNICA:

1. DESADESTRAR O SUPEREGO
2. CONHECER SEUS DESEJOS

1. Desadestrando o Superego:

### Parte 1 – Quando bater culpa, vergonha, ridículo ou medo de julgamento

Sempre que você sentir um desses choques emocionais:

- culpa (“fiz algo imperdoável”)
- vergonha (“sou ridículo, não valho nada”)
- medo do ridículo (“vão rir de mim, vão me achar um lixo”)
- medo moral (“sou uma pessoa má por ter pensado/sentido isso”)

faça este pequeno exercício mental:

1. Pergunte: “Que lei estou supostamente transgredindo?”
- Coloque em frase simples:
“Homem não pode chorar.”
“Ser gay é errado.”
“Desejar outra pessoa é traição imperdoável sempre.”
“Filho decente nunca critica pai e mãe.”

2. Pergunte: “Do senso comum de que tribo vem essa lei?”
- É lei de qual ambiente?
- Da minha família?
- Da minha igreja?
- Do bairro onde cresci?
- De um senso comum de outra época (século XIX, moral vitoriana, patriarcado, etc.)?
- Diga para si mesmo:
“Essa lei é da tribo X, em tal época. Não é lei do universo, é lei dessa tribo.”

3. Pergunte: “Essa lei faz sentido para mim hoje?”
- Com o que eu sei hoje de vida, de gente, de ciência, de ética:
- Essa lei protege alguém?
- Ou só me machuca e me envergonha à toa?
- Se a resposta for “não faz sentido” ou “só me tortura”, você não é obrigado a obedecê‑la.
- Não é preciso “matar” a lei; basta dizer internamente:
“Eu sei de onde você vem. Você não manda mais em mim do mesmo jeito.”

Repita isso sempre. A repetição é o “comportamental”: você treina o reflexo de investigar o Superego, em vez de ajoelhar diante dele.

***

### 2. Conhecendo seus desejos

Aprendendo o perfil singular do seu desejo, quando ele se aplica aos encontros pessoais

Agora, o outro lado: aprender como é o seu desejo, do seu jeito, com a sua história. Pense em três tipos de encontro:

- Encontro afetivo
- Encontro intelectual
- Encontro erótico

Faça perguntas simples em cada área.

#### 2.1. Desejo afetivo

Pergunte a si mesmo:

- Com quem eu gosto de estar? Como gosto de cuidar e ser cuidado?
- Que tipo de “clima afetivo” me faz sentir vivo: brincalhão, terno, sério, de parceria, de proteção, de “paizinho”, de “mãezona”…?
- Que experiências da minha vida ajudaram a formar esse jeito de desejar?
- Faltas que doeram?
- Pessoas que me encantaram, reais ou de livros/filmes?

Escreva, se puder, em poucas frases:
“Meu desejo afetivo tem cara de…” (e descreva: pai, amigo, amante, parceiro, protetor, aluno, etc.).

#### 2.2. Desejo intelectual

Pergunte:

- Em que tipo de conversa eu me sinto em casa?
- Explicando?
- Discutindo?
- Contando histórias?
- Ouvindo?
- Que tipo de mente me atrai?
- Gente curiosa?
- Gente clara?
- Gente irônica?
- Que livros, filmes, figuras (professores, personagens) despertaram em mim o desejo de pensar “como eles” – ou “ser para alguém” o que eles foram para mim?

Escreva:
“Meu desejo intelectual tem cara de…” (mentor, aluno, par que pensa junto, debatedor, professor, etc.).

#### 2.3. Desejo erótico

Com cuidado e honestidade consigo mesmo, pergunte:

- Que tipo de corpo, gesto, voz, atitude me desperta?
- Em que clima eu me sinto erótico: ternura, jogo, humor, admiração, poder, entrega?
- Que cenas (da vida real, de filmes, de fantasias) marcaram o meu erotismo?
- O que é que eu busco, no fundo, quando desejo alguém: ser visto, ser acolhido, ser protegido, ser desejado, ser admirado, ser cuidado? Ou o contrário: ver, acolher, proteger, desejar, admirar e cuidar?
- Meu desejo é mais receptivo (passivo) ou mais fazedor (ativo)?
- No caso de misturas de características, qual o percentual de cada uma?

Escreva:
“Meu desejo erótico tem cara de…” (e descreva sem censura; é para você, não para mostrar para ninguém).

***

### Como usar as duas práticas juntas

- Sempre que o Superego te atacar (culpa, vergonha, ridículo), faça o exercício das leis e tribos (Parte 1).
- Regularmente (uma vez por semana, por exemplo), retome as perguntas sobre seu desejo afetivo, intelectual e erótico (Parte 2) e vá refinando as respostas.

A ideia é:

- Afrouxar cordéis que puxam você para uma vida obediente a leis idiotas.
- Fortalecer os cordéis do desejo que fazem sentido para você, com a sua história, com o seu jeito.

Com o tempo, a “resultante” – a direção geral da sua vida – vai ficando menos alinhada com a vontade da tribo e mais afinada com aquilo que realmente te faz sentido.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

A PSICANÁLISE DO SUPEREGO: GENÉTICA E CULTURA


Na psicanálise, o superego não é um “módulo inato”, mas uma forma de controle interno que só se torna possível porque o ser humano nasce extremamente frágil, vulnerável e dependente de amparo por muitos anos.

Essa fragilidade biológica – que podemos chamar de dado inato – levou a seleção natural a incluir como software inato um medo intenso de desamparo, que permanece como matriz afetiva básica ao longo da vida.

Ele vem junto com outros medos inatos (de estranhos; de altura, confinamento, escuro, grandes répteis, grandes felinos, grandes insetos voadores), mas o medo do desamparo associado ao medo de estranhos terá papel decisivo na absorção por adestramento desse novo software: o Superego (o poder de desamparo internalizado).

Na infância, esse medo do desamparo se combina com um fato social simples: o poder de amparo fica concentrado em poucas figuras, nossos “donos”, que controlam quase totalmente o acesso a proteção, alimento, carinho e pertencimento.

Para reduzir o próprio trabalho e garantir obediência, esses cuidadores/“donos” usam um repertório de recompensas e ameaças (amor, aprovação, castigos, rejeição, retirada de cuidado) que, pelo mecanismo de adestramento – muito semelhante ao que fazemos com cães – modela nosso comportamento.

Aos poucos, a criança, para se proteger do perigo máximo que é perder o amparo, internaliza esse sistema de comandos e proibições: passa a antecipar a punição, a culpa e a perda de amor antes mesmo que os pais intervenham.

O superego, nesse sentido, é a “instalação interna” do poder de amparo e de punição que antes estava só do lado de fora: um dispositivo psíquico que vigia, julga e pune o eu em nome da sobrevivência em um mundo em que o outro detém o poder de nos deixar ou não em desamparo.

Do ponto de vista genético, o que interessa aqui é que essa estrutura não nasce pronta: o que é herdado são condições biológicas – extrema imaturidade ao nascer, longa dependência, sistemas de medo e de necessidade de amparo, capacidade de aprender por reforço – que tornam a criança treinável por ameaça de desamparo.

O superego, então, pode ser visto como um produto cultural e relacional que se apoia em predisposições inatas muito específicas: fragilidade prolongada, pavor do desamparo e alta sensibilidade ao poder de quem detém o amparo.

Assim, o Superego vai modular pelo resto da vida todo o nosso comportamento na busca daquilo para que fomos programados: o prazer que leva à replicação do DNA.

Assim como “instalou nossos medos” (que servem à sobrevivência da “máquina” para que ela cumpra sua função de replicação), o DNA instalou em nós desejos, que levam à realização de sua meta replicante. O principal deles é o desejo de prazer, que é ajudado por outros desejos (epistemológico, controle / ordenação, justiça).

Esses desejos acessórios têm o objetivo de nos dar segurança para a situação de vulnerabilidade que é a prática sexual, tão desarmada quanto o sono e as excreções.

É nesse jogo de desejos e medos que o Superego vai imperar, causando conflito por atropelar nossos desejos e implementar nossos medos, o que resultará nas doenças psíquicas.

(Na foto, a mais destacada geneticista do país, Lygia da Veiga Pereira, é entrevistada pela Rita Lobo e mostra como esse comando funciona).


 

terça-feira, 2 de junho de 2026

SOBRE O EGO, NOSSO “EU”: O HABITUAL E O DESEJADO

 


Desde quando Freud desenhou o aparelho psíquico com três regiões (hoje se diria “softwares”), Ego, Id e Superego, muito se falou do Id (o inconsciente) e do Superego (o repressor/sedutor).

Mas sobre o Ego, muito pouco foi falado. No entanto, ele é o que nos define: nós somos o Ego, “eu sou eu”, em outras palavras. O Ego, o Eu é o dono da “empresa”: “Eu” quero saber os rumos que vou tomar na vida; “Eu” quero conhecer meus potenciais, meus desejos, meus problemas, quero poder gerenciar melhor isso tudo.

Por isso, vamos agora entender melhor como esse “programa” funciona.

. Nossa Identidade e nossas múltiplas facetas

A identidade é o que nós somos, mesmo que às vezes entremos num “personagem diferente da gente”.
Identidade não é ser “um homem de uma cara só”, nem se confundir com um papel único, por mais importante que ele seja.

Nossa Identidade é um conjunto de facetas que usamos de acordo com nossas interações com o mundo e com as pessoas: Eu me apresento de modos diversos em contextos diferentes: há uma faceta minha que fala inglês, mas eu não me reduzo a ela, ela é um dos meus instrumentos. É como o “dono da empresa” visitando e usando vários departamentos, sem que nenhum o defina.

Cada faceta é uma habilidade, um modo de falar, de amar, de trabalhar, de brincar, acionado conforme a situação.
Ela não define a pessoa, e o Eu saudável sabe que ela é uma parte sua, não o todo.

***

. Personagem: faceta que tomou o poder

“Personagem”: nessa história de lidar com o mundo, às vezes construímos um personagem para uma determinada situação mais difícil (um aluno desenvolveu um “personagem pegador”, para ir a festas, pois lidar com seu desejo pelas mulheres era um departamento difícil de “sua empresa”). Mas essa foi uma faceta que ganhou poder demais. Virou personagem.

Ela nasceu de algo real – uma capacidade, uma defesa necessária, um jeito de sobreviver ou se destacar – mas “ganhou poder” e passou a se comportar como se fosse o próprio dono da empresa.

O personagem pode ser extremamente funcional por um tempo:
- o empreendedor incansável que organiza toda a vida em torno do trabalho;
- o “cafajeste do bem” que permite ao rapaz inibido circular nas festas e viver experiências eróticas.

O problema não é o jeitão dessas facetas, e sim quem manda em quem:
- a pessoa se torna dependente daquele modo de funcionar para se sentir alguém. Ela acaba se definindo pelo personagem.
- sem o personagem, sente que “não sabe o que fazer” (como o idoso na aposentadoria) ou não sabe como lidar com a situação (como o jovem diante da moça com quem quer um vínculo verdadeiro);
- o personagem passa por cima de nós, de nosso Eu, e às vezes, vira tirano da própria pessoa (quando nos seduzimos para ser Superego dos outros, p.ex.).

Nesses casos, o que temos pela frente não é destruir o personagem como se fosse pura falsidade, mas “separar o bebê da água do banho”, para não jogar fora os dois juntos:
- preservar dele as qualidades que podem virar facetas (capacidade de empreender, de negociar, de se desinibir, de brincar, de seduzir);
- retirar dele o excesso de poder, a dependência e a rigidez, devolvendo o comando ao nosso Ego.

***

. Michelangelo, o Davi e o mármore

Dizem que uma vez perguntaram ao Michelangelo como ele tinha conseguido esculpir o Davi. Ele respondeu: “Ah, eu vi o bloco de mármore e sabia que o Davi estava lá dentro. Aí eu só fui tirando o excesso de mármore, para que ele aparecesse.

A metáfora de Michelangelo ilumina esse processo.

O bloco de mármore é a pessoa inteira: história, personagens, facetas, superego, doenças, hábitos, bugs.
O Davi é o seu Eu, a pessoalidade: aquilo que é próprio, vivo, consciente, aquilo que realmente se parece com você.

Do mesmo modo, o trabalho de entender nosso Ego e Superego não é inventar uma nova pessoa do zero, mas retirar o mármore que encobre o Davi:
- “Invasores” superegoicos: personagens tiranos, crenças herdadas sem exame, ideais impossíveis que não tem a ver conosco, defesas que perderam função.

Mas o nosso Davi é sempre percentual e inacabado. Ele é uma obra em permanente construção. Ele é um “eterno aprendiz” de si mesmo.

***

. Superego, bugs no sistema

Na Psicanálise do Superego, doenças e Superego não se confundem com a pessoa, com nosso Eu, nosso Ego: eles são bugs no sistema.

Eles são equivalentes ao mármore excedente: partes de nossa história que um dia tiveram função (proteger, disciplinar, adaptar), mas que hoje geram erros, travamentos, sofrimento.

É importante saber que o Superego não contém só bug e idiotices.
Ele contém tanto:
- puras bobagens e violências introjetadas (ser canhoto é errado, ser gay é errado, prazer é errado);
- valores que podem ser preciosos (honestidade, generosidade, cuidado), porém em forma deformada, do tipo “você tem que ser honesto, você tem que ser generoso, você tem que ser caridoso”.

Aqui entra a distinção conteúdo / forma:
- certos conteúdos são mármore puro e precisam ser jogados fora (preconceitos, leis idiotas, proibições sem sentido lógico);
- outros conteúdos são bons, seu problema não é a coisa em si, mas a forma como ela nos é imposta: “você tem que…, senão…” Ora, eu não “tenho que” ser honesto. Eu gosto de ser honesto.

O trabalho é transferir a propriedade:
- tirar esses valores do regime de “tem que” do Superego;
- passá los para o domínio do Eu, onde honestidade, generosidade e cuidado deixam de ser obediência por medo e viram gosto, convicção, valor assumido.

No exemplo da honestidade:
- bug: ser honesto apenas para não ser punido, para evitar culpa ou condenação;
- Davi: ser honesto porque isso expressa quem eu quero ser, porque isso combina com a imagem que tenho de mim, com o modo de vida que escolho.

***

. O Ego como “gerente da bagunça”

Seu Eu, seu Ego é pra ser dono da sua empresa psíquica.

Ele é o proprietário legítimo, o único que pode, em princípio, conhecer e coordenar todos os departamentos (id, superego, facetas, personagens, e sobretudo seus desejos).

Na prática, porém, ele está tonto, sobrecarregado:
- vive às voltas com incêndios, crises, conflitos entre departamentos;
- passa o tempo apagando fogo e cumprindo ordens do Superego ou demandas do Id, em vez de definir seu rumo;
- muitas vezes, nem sabe “como gostaria” de dirigir a empresa, porque nunca teve calma nem espaço para conhecer seus próprios desejos e transforma-los em projetos .

A diferença aqui é esta:
- ou um gerente atolado na bagunça: um ego que administra crises sem saber para onde quer levar a empresa;
- ou um dono que sabe um rumo: é um ego que, mesmo lidando com problemas, reserva energia para remover bugs, retirar mármore, redistribuir poder entre facetas e personagens, assumir para si valores bons que antes pertenciam só ao Superego.

***

. Meta do trabalho de “psicanalista do superego”

A meta que queremos para ela – clínica, teórica e pedagógica – pode ser formulada assim:

- atuar como retirador de mármore e depurador de bugs, não como destruidor de estruturas;
- ajudar o ego a distinguir, dentro do superego e dos personagens, o que é Davi (valores, competências, facetas legítimas) e o que é mármore/bug (medos, mandatos absurdos, tiranias internas);
- transferir para o domínio do Eu os elementos valiosos que estavam sequestrados pelo superego;
- desmontar “personagens dominadores”, transformando o que eles têm de bom em facetas a serviço da pessoalidade;
- desenvolver a clareza do Ego como dono da empresa: não um herói perfeito, mas um gestor em permanente construção, que vai aprendendo a dirigir a empresa enquanto conserta o próprio sistema e escolhe suas melhores circunstâncias.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

SONHO - SUA CONSTRUÇÃO E SUA FUNÇÃO | ONDE A BIOLOGIA ENCONTRA FREUD

 


1. A base inicial é orgânica: o ser humano deve ser pensado como uma máquina viva programada pelo DNA para continuar funcionando, preservar-se, regular-se e adaptar-se ao ambiente.

2. Essa máquina possui protetores e processadores biológicos que operam continuamente para manter sua estabilidade interna e sua capacidade de resposta ao mundo.

3. Durante a vigília, a máquina recebe estímulos, toma decisões, enfrenta conflitos, administra desejos, frustrações, medos, culpas e exigências externas.

4. Essa atividade diurna produz sobrecarga. O processamento começa a ficar mais lento, mais ruidoso e menos fluido, como acontece com qualquer máquina complexa submetida a excesso de informação.

5. O sono é um dos grandes protetores da máquina programada pelo DNA.

6. A função primordial do sono é permitir a resetagem da máquina durante a noite.

7. Essa resetagem não significa apagar a experiência vivida, mas esvaziar a sobrecarga, reorganizar os circuitos, reduzir o ruído acumulado e devolver fluidez ao funcionamento.

8. Para que essa resetagem aconteça, a máquina precisa manter o sono sem interrupções desnecessárias.
9. O sonho surge dentro do sono como um digestor das perturbações.

10. Essas perturbações podem vir da véspera: conflitos, desejos, aflições, culpas, medos, excitações, frustrações e restos emocionais do dia.

11. Elas também podem surgir durante o próprio sono, como fome, sede, vontade de urinar, ruídos externos ou desconfortos corporais.

12. A função primordial do sonho é digerir essas perturbações para que elas não interrompam o sono.
13. Por isso, o desejo mais básico realizado pelo sonho é o desejo de continuar dormindo.

14. O sonho pode satisfazer, apaziguar ou apenas acomodar uma perturbação.

15. Um exemplo é o sonho de urinar, que tenta responder à vontade de ir ao banheiro sem acordar imediatamente a pessoa.

16. Outro exemplo é o sonho de comer, quando alguém foi dormir com fome.

17. Nesses casos, o sonho transforma uma exigência corporal ou psíquica em cena onírica, permitindo que a máquina continue sua resetagem.

18. O sonho, portanto, não é apenas realização de desejo no sentido clássico, mas digestão funcional das perturbações que ameaçam o sono.

19. A realização de desejo é uma das formas possíveis dessa digestão, mas não a única.

20. Quando a digestão onírica funciona, há apaziguamento suficiente para que o sono prossiga.

21. Quando a carga perturbadora é excessiva, o sonho pode fracassar em sua função de manter o sono.

22. Isso acontece especialmente quando há uma sobrecarga intensa entre desejo e superego.

23. Nesses casos, a perturbação se torna indigerível.

24. O sonho então deriva para o pesadelo.

25. O pesadelo é a falência do sonho como digestor.

26. Em vez de preservar o sono, o pesadelo rompe o sono e acorda a pessoa.

27. Assim, a sequência básica é: máquina programada pelo DNA, vigília, sobrecarga, sono, resetagem, sonho, digestão das perturbações, manutenção do sono.

28. A fórmula central é: o sono reseta a máquina; o sonho digere as perturbações para que a resetagem não seja interrompida. 

PRAZER-DESPRAZER COMO BASE DA AVALIAÇÃO CUSTO- BENEFÍCIO

 


Ponto de vista neuroquímico

Ficou como crenca geral que a dopamina é o neurotransmissor do prazer. Mas… não é bem assim. Ela é o principal avaliador de prazer-desprazer (ou da relação custo-benefício que rege cada ato nosso, voluntário ou não, consciente ou não). Tanto “mais prazer” quanto “menos desprazer” liberam dopamina. Vamos ver como isso funciona:

A lógica central é que o cérebro não está tão voltado para picos de prazer, mas sim para o saldo mensal de liberação de dopamina ligado sobretudo ao alívio de desprazer.

Ao longo de um mês, a vida oferece pouquíssimos momentos de prazer intenso, com grandes picos de dopamina, mas oferece inúmeras situações em que um desconforto diminui, um risco é evitado, uma angústia baixa de intensidade é aliviada.

Cada pequeno alívio – da ansiedade, da culpa, da tensão ou do medo – produz uma liberação de dopamina suficiente para o sujeito sentir “melhorei”, e isso se repete dezenas, centenas de vezes. Assim, na soma, o alívio de desprazer rende muito mais dopamina acumulada do que os raros picos de prazer.

É aí que entra o custo‑benefício dopaminérgico: o sujeito, sem saber, escolhe caminhos que aumentam a quantidade de alívios possíveis e diminuem exposições a grandes dores, mesmo que isso envolva sintomas irracionais.

Como na fobia. Confrontar o pai amado‑temido, por exemplo, é uma aposta de altíssimo custo: ameaça de desamparo, culpa, conflito e perda do vínculo. O cérebro prevê um saldo de dopamina negativo: muita dor, pouco alívio. Já a fobia de barata é um “mal menor”: o medo é deslocado para um objeto pequeno e evitável, e cada vez que o sujeito consegue evitar a barata, pedir ajuda ou “escapar”, ele ganha uma dose de alívio.

Em um mês, esse ciclo medo‑evitação‑alívio se repete tantas vezes que a fobia gera, paradoxalmente, mais dopamina total do que o enfrentamento direto da fonte real de angústia. A fobia, então, é uma solução “dopamínica” de compromisso: conserva o vínculo com o pai, evita o desamparo absoluto e organiza o medo numa forma que permite muitos pequenos alívios, mesmo ao preço de um sofrimento irracional.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

“RESPONSABILIDADE”, A CULPA QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME

 



De uns tempos pra cá venho ouvindo essa coisa de que, em psicanálise, tudo bem de não se culpar a pessoa, “mas ela precisa assumir a responsabilidade de seus atos”.

Ouvi isso com grande suspeição. Como assim? Como culpa e responsabilidade seriam tão diferentes? 
A culpa é um julgamento sumário feito pelo Superego: “você infringiu as minhas leis! Não quero saber, você é culpado!” 

Às vezes a lei é tão idiota que o Superego nem a menciona, só enquadra a pessoa. Se fosse mencionada, a lei seria algo como: “você teve pensamentos raivosos contra seu pai! Não sabe que isso é algo horrível?”

Ah, mas se fosse explicitada dessa forma, a culpa poderia ser questionada, a pessoa poderia se defender.
A alternativa que a Psicanálise do Superego oferece a questão da culpa é não aceitá-la em nenhuma hipótese. E sim verificar se houve ou não erro.

O erro não tem drama: avalia-se o dano e promove-se a reparação. 

E vida que segue, a pessoa não vai ficar se martirizando porque errou. O erro faz parte do fazer, e até do não fazer, pois há omissões erradas.

Mas o exame do erro contém aspectos de avaliações: você sabia que era erro? Foi acidental ou intencional? Causou pouco ou muito dano? Há atenuantes? O que pode ser feito para corrigir?

A culpa não, ela bate o martelo e não examina nada: é culpado e pronto! Basta dizer que existe culpa até de pensamento…

E a tal da responsabilidade? Ela é tão cuidadosamente avaliada como o erro o é? Ou a questão termina quando a pessoa se diz, “sou responsável”? Tudo leva a crer que quando alguém ouve “você é o responsável”, isso equivale completamente ao simplorismo do “você é culpado”.

Por isso digo que a tal da responsabilidade é uma acusação de culpa que não ousa dizer seu nome. É a “culpa com vaselina”…


segunda-feira, 25 de maio de 2026

COMO É A PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Primeira síntese  

A psicanálise do Superego é um desenvolvimento, feito por Francisco Daudt, da psicanálise freudiana.
Freud estudou o inconsciente reprimido, que se manifesta através de doenças psíquicas mais comuns, como as neuroses e os vícios. Daudt desenvolve e busca complementar esse estudo ao investigar o inconsciente repressor, o Superego.

O Superego era visto por Freud como uma internalização na infância dos valores morais da sociedade. Freud o via como necessário e inevitável, ainda que gerando um “mal-estar na civilização”.

O Superego visto por Daudt é mais fonte de problema do que de solução. Nossos valores morais não precisam ser praticados por medo dele, eles podem ser absorvidos por gosto de cooperação, podem ser coisa do nosso Eu, do nosso Ego.

O Superego, nessa visão, é resultado de um adestramento da criança para absorver o senso comum de sua “tribo” – de sua comunidade que a ampara – justamente através do medo de ser desamparada, caso “se comporte mal” (isso significa “caso dê trabalho a seus cuidadores”).

O Superego fica então como um automático que não fala, e sim dá choques na pessoa: choques de culpa, de angústia, de vergonha, de ridículo. Ele não explica suas leis, nunca convence ninguém do bom produto lógico de suas leis. Ele só as impõe através desses choques.

Por isso, o Superego é principalmente inconsciente: porque funciona no automático, invisível, entre tantas outras coisas automáticas em nossa vida, porque, como vêm do senso comum, ele não causa estranhamento: “ah, a vida é assim mesmo, todo mundo sabe”.

Para dar um exemplo desse “todo mundo sabe”, houve um tempo em que o senso comum dizia que “era errado ser canhoto”. A criança canhota se sentia culpada, tinha vergonha, tinha angústia quando usava sua mão esquerda. Ou então a usava “em desafio”, ou escondida, como se estivesse fazendo algum crime.

Outro exemplo mais cruel, e esse foi o que deu a Freud a pista do inconsciente reprimido, era o do senso comum da época vitoriana de que as mulheres não poderiam sentir desejo sexual, que isso era coisa de depravadas, de prostitutas. Essa lei tosca, absorvida pelo Superego delas, produzia tal angústia quando o desejo aparecia, que o mecanismo de defesa da repressão fazia com que seu drama fosse deslocado para uma neurose histérica: “não, meu problema não é o desejo sexual, meu problema são os desmaios frequentes, a paralisia de minha mão”.

Mas Freud descobriu essa ligação, porém não questionou a “lei do senso comum” que proibia a mulher de ter desejo sexual. Ele não questionou o Superego da época.

É exatamente isso que faz a psicanálise do Superego. Ao examinar esse conflito interno, a gente pode dizer para a pessoa: “ah, seu problema não é ter desejo sexual; isso todo mundo tem, homens e mulheres, meninos e meninas. Seu problema é que essa lei idiota foi absorvida por você- e por todas as mulheres – através de adestramento na infância. Se você se mostrasse desejosa, perceberia que seus pais não iriam mais gostar de você, que eles iriam te desamparar. Foi assim que sua reação automática a qualquer manifestação de desejo era a culpa e a angústia. Foi isso que causou sua doença. A doença conta a história da injustiça que as mulheres sofrem com essa lei”. 

Portanto, a Psicanálise do Superego faz uma separação importante: nem a doença, nem o Superego são “a pessoa”, eles estão na pessoa, como um bug no sistema. O interessante é que eles estão intimamente ligados: a doença fala da história da pessoa; de como o senso comum de sua “tribo” entrou em choque com suas características singulares.

Exatamente como as clientes de Freud, cujos desejos sexuais entraram em choque com o Superego “anti-sexo” do senso comum de sua época. Elas não eram “histéricas”, elas sofriam de histeria, de neurose histérica.
Outra característica do Superego que essa psicanálise estuda é sua capacidade, não só de reprimir e impor, mas também de seduzir as pessoas a que ocupem lugar de Superego junto a outras. Algo assim: “está se sentindo mal de ser dominado? Espere seu tempo, que amanhã você será dominador”. As crianças dominadas pelos pais se tornarão futuras dominadoras de seus filhos… e passarão o Superego adiante.

Aí estão as primeiras bases para se entender o que é a Psicanálise do Superego.