O ponto de partida é o adestramento pelo qual passamos, na infância.
Sem perceber, a pessoa aprende as leis do Superego, mas mais do que isso, aprende a ser adestrada pelo medo do desamparo. A partir daí, essas leis passam a funcionar como verdades que não entram em discussão.
A defesa que desenvolvemos contra a pressão do Superego pode mudar, mas a base do sistema de adestramento continua intacta.
1. Nas doenças
- Nas neuroses, a lei fica escondida. O automático da pessoa dribla a ameaça que ela faz por meio do deslocamento: o conflito muda de assunto e aparece como sintoma. Ela sofre com esse novo assunto, sem enxergar nem questionar a lei que está por trás dele. Exemplo: “não tenho raiva do meu pai, meu problema é o medo de barata”.
- Nos vícios, a lei aparece, mas há duas maneiras de lidar com ela.
Uma é o “dane-se, vou fazer”, mais nítido no início do vício de substância (p.ex., “ah, cocaína faz mal? Dane-se, vou cheirar”).
A outra é aderir à lei de maneira exagerada, especialmente no vício comportamental (p.ex., “ah, no mundo só existem fodões e merdas? Então vou ser fodão, custe o que custar”)
- No vício de substância, desafia-se a proibição. A pessoa diz “dane-se”, mas desafiar a ordem não é o mesmo que examinar a lei e deixar de acreditar nela. O mal que a cocaína faz continua sem questionamento. Depois, o ciclo de fissura e alívio toma conta da situação, e a pessoa nem pensa mais na lei.
- No vício comportamental, abraça-se a lei errada com força. “Só existem fodões e merdas? Então vou ser fodão”. “Só existem dominadores e dominados? Então vou ser dominador.”
A pessoa não põe essa divisão em dúvida: quer conquistar o lado de cima, mesmo que o caminho passe por ser oprimida e buscar poder pela nobreza do martírio, como no vício sadomasoquista (p.ex., “sou vítima, por isso sou mártir, sou superior”).
- O sistema se mantém porque suas leis não são realmente questionadas. Na neurose, a lei fica fora de vista; no vício de substâncias a lei aparece e é renegada, “dane-se, vou usar”; ou no comportamental, se adere a ela com força. A pessoa dribla, desafia ou abraça a lei, mas continua presa à estrutura que ela impõe.
- A síntese é esta: “Na neurose, o deslocamento encobre o conflito; no vício, a ilusão de escolha encobre também o aprisionamento.”
É assim que o Superego mantém seu poder.

2. Mais um jeito pelo qual o Superego mantém seu poder
Do gosto à obrigação:
A passagem central é do “eu gosto” para o “eu tenho que”.
Uma atividade que começou por gosto vai aos poucos se encostando no circuito de adestramento do Superego e é absorvida por ele: começa com o “eu estou gostando de malhar” e vai virando “eu tenho que malhar”.
Nesses casos, a lei pode ser errada pela forma, não pelo conteúdo. A mudança está em deixar de agir pelo gosto, e pelo valor reconhecido naquilo, para agir sob cobrança.
- Não é uma malícia planejada pelo Superego. É o automático do adestramento: uma experiência nova entra num circuito antigo de exigência, julgamento e obrigação.
- O ponto de virada é quando a pessoa passa a se levar a sério. Já não está apenas fazendo uma atividade; está provando seu valor. O erro deixa de fazer parte da brincadeira e passa a ameaçar quem ela acha que tem que ser. O gosto é sequestrado pelo ideal de perfeição que mora no Superego, o que Freud chamou de “ideal do Ego”.
- O drama é a habitual via de entrada para esse funcionamento. A pessoa que brincava de malhação começa a se levar a sério, e a brincadeira vira drama: prova de valor ou desvalor, teste de superioridade ou de inferioridade.
- Assim, o Superego mantém seu poder também sobre o que é saudável. Não precisa impedir a atividade nem eliminar todo o prazer: basta que o gosto fique subordinado à obrigação de provar valor. A brincadeira vira um julgamento de si mesmo.






