quarta-feira, 22 de julho de 2026

CONTINUANDO O TRABALHO DE FREUD

 


1. O que é psicanálise

É a análise da nossa mente, um método de pesquisar e entender como ela funciona. Se a gente pensar nosso cérebro como um computador, a psicanálise é o jeito de conhecer os programas que rodam nele, como eles são e como funcionam. Tanto aqueles que vieram de fábrica como aqueles instalados depois.

2. O que é o Superego

É um dos programas instalados depois da “máquina sair da fábrica”. Ele tem regras de como se comportar – e mesmo de como pensar, e tem poder para impor essas regras: “olha lá, hein! Se você não se comportar direitinho, ninguém vai gostar mais de você!”

Na maior parte das vezes, ele funciona sem que a gente perceba (funciona de maneira inconsciente), mas sentimos seus “efeitos corretivos” quando desobedecemos a suas regras: os choques de medo de abandono (a tal “angústia”), de vergonha, de culpa e de ridículo.

O nome dele significa “o Acima de mim”, e ele fica lá de olho em nós (de olho no programa Eu, o Ego, que vem de fábrica e é como o nome diz: “esse aí sou Eu”). Ele foi instalado em nós do mesmo jeito que os cães são adestrados: desde pequenos temos medo de que nossos pais não gostem mais de nós, e se eles viram a cara, nós ficamos com medo e tentamos nos comportar melhor.

O problema é que o poder dele nos seduz: “ah, esse cara me domina e isso me põe pra baixo. Mas, deixa estar que um dia eu vou ter esse poder (eu vou virar pai, por exemplo), e aí quem vai por os outros pra baixo vou ser eu!”
É assim que o Superego passa de geração pra geração.

3. O que é a Psicanálise do Superego

É uma continuação da psicanálise de Freud. Ele examinou umas doenças esquisitas chamadas “neuroses” e descobriu que elas vinham da briga entre o Superego e os desejos proibidos por ele, num processo que funcionava sem ninguém perceber: ele descobriu um inconsciente reprimido (tornado inconsciente) pelo Superego.

Mas ele morreu antes de estudar como o Superego funcionava e de onde ele vinha. Freud sabia que o funcionamento dele também era inconsciente, mas parou por aí.

Pois o Dr. Daudt ficou feliz de poder continuar o trabalho de Freud e estudar a fundo esse “inconsciente repressor”.

Foi assim que surgiu a Psicanálise do Superego.


terça-feira, 21 de julho de 2026

TDAH E O MAL QUE ELE FAZ À AUTOESTIMA

 


TDAH não diagnosticado ou diagnosticado mais tarde causa dano à autoestima porque os sintomas (desatenção, esquecimento, impulsividade, atraso, distração e postergação) costumam ser explicados por adjetivos pejorativos. A criança é chamada de lenta, burra, preguiçosa, rebelde — em vez de portadora de uma condição.

O TDAH acaba sendo pior do que era nascer canhoto, antigamente.

O canhoto nasce assim, todo mundo reconhece. É um traço neutro, sem carga moral, que a pessoa simplesmente tem.

Mas isso não era assim. Antigamente, nascer canhoto era ser errado, tinha que ser corrigido. Mas pelo menos era um diagnóstico claro e precoce na vida.

O TDAH dá mais problema, porque é mais sutil e vem moralizado desde o início — não existe um rótulo neutro equivalente a “canhoto” para quem esquece a lição ou se distrai; o adjetivo é sempre de defeito de caráter.

O que a literatura confirma sobre esse mecanismo
• Estudo do IAMSPE mostra que adultos diagnosticados tardiamente relatam terem sido interpretados na infância como “crianças lentas, estúpidas ou rebeldes”, internalizaram a culpa, e isso marcou o futuro com expectativa de fracasso e risco elevado de depressão e baixa autoestima.
• Sem diagnóstico, a única explicação disponível — fornecida por professores, pais, parceiros, empregadores e por fim a própria pessoa — é de caráter: preguiçoso, descuidado, não se esforça, irresponsável.
Isso se torna um jeito de se ver automático, disparado não por um evento único, mas pela simples antecipação de qualquer tarefa que pode expor a dificuldade.
• A ameaça de desamparo ronda a criança com TDAH, pois ela lê no adulto a desaprovação e a impaciência.
• Estudo com mulheres com TDAH não diagnosticado mostra internalização sistemática da crítica social e médica, com culpa, vergonha e autoconceito negativo, porque não houve diagnóstico.
• Relatos clínicos de diagnóstico tardio na vida adulta descrevem o processo como um luto: a pessoa revisita décadas de boletins escolares, prazos perdidos, explosões emocionais, sob uma luz nova — “anos passados crendo que eram preguiçosos, irresponsáveis, dramáticos, inconsistentes, ou simplesmente que não se esforçavam o suficiente”.
Isso marca a pessoa.

Resumo
O dano não vem do TDAH em si, mas da má atribuição: sintomas neurológicos são lidos como falhas morais porque não há outro vocabulário disponível para a criança, os pais ou os professores.

É exatamente esse mecanismo de qualificação errada: erro → remorso → culpa — um tropeço de aprendizagem (erro, neutro) sendo dramatizado (remorso) até virar culpa.

Quando se pega um adulto com esse passado, é preciso desadestrar seu Superego para que o automático de se julgar mal vá diminuindo com o tempo.


O AMIGO PERGUNTA - NOSSA ESPÉCIE FOI FEITA PARA BRINCAR?

 


O AMIGO PERGUNTA

“Que história é essa de que ‘nossa espécie foi feita para brincar’? E brincar de quê?”

Francisco Daudt: Ah, isso é a tal da neotenia, a manutenção da forma jovem – da criança – pela vida afora, com que algumas espécies nascem. Só existem duas espécies de antropóides que tem a neotenia: o sapiens (nós) e os chimpanzés bonobos.

As crianças brincam de tudo, ou melhor, fazem tudo brincando: elas aprendem, jogam, inventam, se relacionam, pesquisam etc. 

Criança não se leva a sério. A única coisa que elas levam a sério são as regras da brincadeira: é pique-esconde? Não pode olhar enquanto conta; é altinha? Não pode pôr a mão na bola. E por aí vai. Até sua curiosidade sexual é levada em forma de brincadeira.

Infelizmente, desde que apareceram os governos – que não existiam nas tribos de caçadores coletores, pois elas não passavam de 70 pessoas – eles se estabeleceram não só nas cidades, mas nas famílias e dentro de nossas cabeças também: o tal Superego. E aí os adultos – e até os jovens – ficaram sérios: “a vida não é brinquedo, viu?”.

Ok, mas era pra ser. A nossa saude mental melhora muito se pudermos voltar a brincar pela vida afora. Quer um exemplo? Eu vivo brincando de psicanalista pesquisador, escritor, cuidador, curador etc. O que estou fazendo com o DrDaudtAI é brincar de Inteligência Artificial, a serviço das pessoas. Ou seja, ganho minha vida brincando.

Como percebo a garotada – uma parte dela, claro – tentando fazer. Tenho clientes que ganham dinheiro fazendo lives de videogames, e se sustentam com isso! Quer exemplo melhor, mais extremado do que esse?
A Psicanálise do Superego busca restabelecer a brincadeira em nossa vida.

Seriedade? Só nas regras da brincadeira. Viver sério? Isso é uma boa pista para saber que sua vida está sendo dominada pelo Superego. 


sexta-feira, 17 de julho de 2026

AMIZADE MASCULINA – DIFICULDADES E FACILIDADES

 


Se a coisa é sair com a turma, beber juntos, jogar futebol ou altinha, assistir aos jogos, só existem facilidades.
Mas se houver vontade de encontro afetivo pessoal, a coisa dá trabalho. A “pessoalidade” não tem trânsito fácil entre os homens. 

É quase o extremo oposto do que acontece com as mulheres e com a facilidade que elas têm de ter “as melhores amigas”, de confidenciar suas questões pessoais, de se encontrar uma a uma como coisa rotineira. Talvez esteja aí um dos obstáculos masculinos para desenvolver intimidade pessoal.
Vamos ver, então:

1. O problema de base: perceber o desejo

Antes de qualquer obstáculo externo, existe um obstáculo interno: depois da adolescência, os meninos perdem o hábito do “melhor amigo”, aquele com quem viviam grudados, brincando e conversando juntos.
Os hormônios sexuais tornam os antigos interesses meio sem graça, os desejos novos ainda não estão claros, falta treino para chegar perto das meninas, mas a vontade de encontro erótico torna pálidos os encontros afetivos pessoais.

Começa um tempo de encontro aos bandos: o tempo da “altinha”, dos jogos partilhados, do videogame, da ida juntos às festas – em que a abordagem às meninas se parece um jogo de regras partilhadas entre os amigos, muitas vezes tão competitivas quanto no futebol (“com quantas você ficou?”).

Outras vezes o bando, vivendo as aflições e cobranças da adolescência, quando o “ingresso no mundo” lhes pressiona, se torna um grupo de “cúmplices” que se reune para fumar maconha, para beber, para escapar das pressões. Infelizmente, agora o grupo que jogava altinha unido, se reúne, sim, mas cada um na própria viagem. O negócio não é mais estar juntos, o objetivo não é mais o encontro. É o escape.

2. O problema do olho no olho 

Não só entre nós, mas mesmo entre os primatas, o olho no olho entre homens desconhecidos é perturbador por ser ou um sinal de ameaça ou de interesse sexual. O sinal de ameaça, se é entre conhecidos, não faz sentido, mas o de interesse sexual continua funcionando. É claro que, se ambas as partes estão interessadas no encontro erótico, sem problemas. Mas como na maioria dos homens isso não acontece, a perturbação do olho no olho se manteve.

A solução de compromisso foi a “altinha”: os homens se reúnem para fazer uma terceira coisa. Ver filme, assistir a futebol, jogar altinha, videogame etc. surgem como bom pretexto para estar juntos. O problema inibidor é sempre a clareza do desejo de estarem juntos, só os dois, como naqueles tempos de criança, os bons tempos do “melhor amigo”.

O outro inibidor do encontro em que o assunto é a pessoalidade, semelhante ao olho no olho, é a “branda misoginia”, o medo de parecer mulher, pois elas são completamente livres para conversar assuntos pessoais uma com outra – sem precisar de grupo ou de altinha – olhando “olho no olho”.

Veja bem que o medo não é de parecer gay, e sim de parecer “mulerzinha”, pois o principal antimodelo masculino não é propriamente o gay, e sim a bicha, o viado, como são chamados os gays efeminados. O gay másculo costuma ser invisível. O olhar amistoso olho no olho parece, no senso comum, “coisa de mulher”.

3. A chave final: comer pelas beiradas

Por incrível que pareça, a saída para atender o desejo de pessoalidade, de partilha dos assuntos particulares, algo semelhante à amizade da infância, acaba sendo algo semelhante à paquera heterossexual: a não declaração direta desse desejo. Arranjado um pretexto neutro para se estar juntos, a pessoalidade pode começar a ser abordada, até que ganhe jurisprudência, que se estabeleça como hábito aceitável, ou mais que isso, claramente desejado e estabelecido como direito adquirido.

A partir daí, o desejo de estar juntos e de partilhar pessoalidade já não precisa de pretextos: ele pode ser enunciado abertamente para uma nova rodada de encontros e bons encaixes, sejam eles intelectuais, afetivos ou mesmo eróticos. 



quinta-feira, 16 de julho de 2026

SOBRE O NARCISISMO

 


Uma hipótese ainda não testada:

O narcisismo genético e o autismo têm uma semelhança: a hipersensibilidade.

O autismo é uma hipersensibilidade aos estímulos sensórios, ruídos, toques, tudo o que vem de fora é completamente não filtrado e perturbador. E isso desperta no autista um aluguel mental enorme em se defender desses estímulos. 

O narcisismo, por sua vez, é uma hipersensibilidade à ameaça de desamparo, através de um mecanismo comparativo de valor. 

Desde criança, há uma espécie de termômetro de lugar familiar ou de lugar social, através da comparação entre quem é mais valorizado e quem é menos valorizado. 

A maior valorização não acalma o narcisismo; ela dá um alívio temporário, porque rapidamente haverá um outro estímulo de valoração externo que vai perturbar o medo do desamparo da pessoa que sofre de narcisismo.

(Trump é a caricatura desse mecanismo).





quarta-feira, 15 de julho de 2026

VÍCIOS DE SUBSTÂNCIAS E VÍCIOS DE COMPORTAMENTO: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

 


1. De onde vêm cada um

Começos 
Os dois vícios começam do mesmo jeito: a vida está difícil, a pessoa mal administra seus desejos e vai buscar um alívio. Só que, depois de um tempo, os dois passam a funcionar pelo mesmo mecanismo — o vaivém de fissura e alívio, movido a dopamina, que, uma vez que engrena, roda sozinho, sem precisar mais do motivo que deu origem a ele.

A diferença entre esses vícios está na composição.
. O vício de substância tem pouco da “pessoa e suas características” envolvidos, e muito de genética e circunstância — família, convívio, disponibilidade da droga, parceiros que participam junto. A fissura, depois que o vício pega, é fissura da própria substância — já não é mais fissura da vida difícil.
. No vício comportamental contém muito mais “pessoa e suas características”. O vício vira uma espécie de personagem que a pessoa criou para lidar com um desejo mal administrado. 

O sadomasoquismo, por exemplo, nasce do desejo de justiça mal administrado, que virou esse ciclo de sofrer e fazer sofrer. Mesmo rodando pelo mesmo motor de fissura e alívio, esse personagem carrega a marca de quem o criou. Há vícios derivados do caráter obsessivo, p.ex., como o de controle, domínio e submissão, avareza, acumulação e outros.

Como tratar cada um

No vício de substância:
1º passo — olhar as durezas da vida da pessoa e o que está em volta: genética, hábitos, quem convive com ela, se tem parceiros de vício, se falta alguma coisa boa pra fazer na vida. Ela vai precisar preencher sua vida com prazeres construtivos.

2º passo — focar na abstinência. Quase toda substância dá pra parar de vez; carboidrato é a exceção, não dá pra abstinência total. E a abstinência funciona melhor quando não é vendida como privação, e sim como abrir espaço pra coisas boas e interessantes que substituam a necessidade de alívio.

No vício comportamental:
1º passo — fazer a pessoa estranhar o vício. Diferente do vício de substância, ela não vê aquele comportamento como algo estranho a ela — então o primeiro trabalho é ajudar a reconhecer que aquilo, sim, é um vício. E isso sem moralismo: não é falha de caráter, é uma forma torta, mas uma forma, de lidar com um desejo insatisfeito.

2º passo — descobrir qual é o desejo de base por trás do vício e como ele foi mal administrado. No sadomasoquismo, p.ex., o desejo de base é o de justiça, mal resolvido — não é um desejo sexual nem um desejo de sofrer.

terça-feira, 14 de julho de 2026

EM DEFESA DA VAIDADE

 





Resumo

“Vaidade” vem do latim “vanitas”, que significa “vazio”. É lido de maneira pejorativa, como defeito, mas vou mostrar que é estrutural e programada pelo DNA.

- **Vanitas** aponta para um vazio estrutural: o desejo nunca se preenche de vez. É o vazio do desejo que nos move para preenchê-lo.

- A **exibição** — corporal, intelectual, estética, de status — é uma resposta biológica e simbólica a esse vazio: um modo de se tornar selecionável, admirável, desejável.

- A **psicologia evolucionista** mostra que esse repertório de exibição acompanha toda nossa história, dos caçadores‑coletores à sociedade de consumo, sempre ligado a seleção de parceiros, de alianças e de trajetórias.

- O **moralismo da vaidade** tenta transformar essa estrutura normal em defeito, sem ver que está condenando, junto com a exibição, o próprio movimento do desejo de ser escolhido.

Portanto, a exibição não é apenas “vaidade pejorativa”; ela é um **modo biologicamente enraizado de buscar preenchimento do vazio do desejo**, e o julgamento moral sobre isso diz mais do Superego e das ideologias que o alimentam do que da estrutura do desejo em si.

Por extenso:

A moralização da vaidade só faz sentido quando se esquece que, por baixo da “exibição”, há um mecanismo biológico de cortejo que tenta dar forma a algo estruturalmente vazio: o desejo.

## Vanitas: vazio estrutural, não defeito

Etimologicamente, **vanitas** é vazio, oco, sem substância duradoura. Vaidade, “vão”, “esperança vã” apontam para essa experiência de que aquilo em que investimos brilho e importância é, no fundo, efêmero, sem garantia de permanência.

Do ponto de vista psíquico, isso coincide com o que chamo de **vazio estrutural do desejo**: não há “satisfação” (preenchimento); o desejo não se fecha, não se estabiliza numa satisfação definitiva. Qualquer realização é parcial, provisória, e abre outras buscas.

Quando discursos morais falam de vaidade como “defeito”, “pecado” ou “fragilidade”, eles estão condenando uma forma específica de lidar com esse vazio — a forma exibicionista — sem reconhecer que o vazio é condição humana universal, não um erro de alguns.

Novamente, aqui entra o critério de “causar dano” que separa a saúde da doença. A vaidade que não causa dano faz parte da saúde.

## Exibição como comportamento de cortejo

A psicologia evolucionista mostra que aquilo que a cultura chama de “vaidade” é, em grande parte, um **comportamento de cortejo**: exibição de sinais que convidam o outro a escolher.

- Nos machos, exibição de corpo, força, risco, inteligência, humor, status, feitos.
- Nas fêmeas, exibição de juventude, saúde, simetria, mas também traços de cuidado, sociabilidade, sensibilidade.

Esse repertório exibicionista não nasce no shopping center; nasce na savana, em bandos caçadores‑coletores onde:

- homens mais competentes, generosos e respeitados tinham maior probabilidade de ser escolhidos e de deixar descendência;
- mulheres que conseguiam sinalizar fertilidade e bom funcionamento social tinham vantagem similar.

Admiração, aqui, não é só “achar bonito”; é um **resumo afetivo** de traços que, aos olhos da fêmea, significam:
“este sujeito caça bem, coopera, protege, pensa, aguenta custo — vale apostar nele”.
E, aos olhos do macho:
“esta parceira é fértil, saudável, sabe viver em grupo — vale investir”.

A exibição, portanto, é um **modo biológico de preencher o vazio do desejo**:
não o preenche totalmente, mas oferece ao outro sinais suficientes para que uma escolha ocorra, para que o desejo se ligue, ao menos um pouco, a um corpo e a uma história concreta.

## Vaidade moralizada vs. vaidade estrutural

Podemos então distinguir:

- **Vaidade estrutural**:
- é o movimento pelo qual o sujeito tenta aparecer, ser visto, ser escolhido;
- é inseparável do desejo — não há desejo sem alguma forma de pedido de reconhecimento, ainda que silencioso.
- é fisiológica, adaptativa, ligada ao nosso passado de cortejo e seleção de parceiros.

- **Vaidade moralizada**:
- é quando cultura e religião pegam esse movimento natural e o classificam como “erro”, “pecado”, “superficialidade”;
- condenam a exibição em nome de um ideal de sujeito que não deveria desejar ser visto, desejado, admirado.

Essa moralização costuma ser cega para a base biológica do fenômeno. Ao chamar de “vaidade” tudo o que é exibição, ela não percebe que:

- sem exibição não há cortejo;
- sem cortejo não há escolha;
- sem escolha não há transmissão de DNA em contextos onde o outro tem liberdade para dizer sim ou não.

## Superego, moral e exibição

Do lado psicanalítico, o superego participa dos dois planos:

- no plano estrutural, ele organiza ideais de corpo, de sucesso, de prestígio, diante dos quais o sujeito se mede e tenta aparecer “bem na foto”;
- no plano moralista, ele condena justamente o esforço de aparecer, acusando o sujeito de vaidade, exibicionismo, frivolidade, como se pudesse existir desejo sem pedido de olhar.

A condenação do desejo de se exibir é uma das leis idiotas do Superego.

A moral da vaidade é, em grande parte, o superego julgando de fora um dispositivo que está a serviço de um programa muito mais antigo:
o programa do DNA que “manda” exibirmos nossas melhores “penas de pavão” para tentar ocupar, por algum tempo, um lugar no desejo de alguém.