terça-feira, 2 de junho de 2026

SOBRE O EGO, NOSSO “EU”: O HABITUAL E O DESEJADO

 


Desde quando Freud desenhou o aparelho psíquico com três regiões (hoje se diria “softwares”), Ego, Id e Superego, muito se falou do Id (o inconsciente) e do Superego (o repressor/sedutor).

Mas sobre o Ego, muito pouco foi falado. No entanto, ele é o que nos define: nós somos o Ego, “eu sou eu”, em outras palavras. O Ego, o Eu é o dono da “empresa”: “Eu” quero saber os rumos que vou tomar na vida; “Eu” quero conhecer meus potenciais, meus desejos, meus problemas, quero poder gerenciar melhor isso tudo.

Por isso, vamos agora entender melhor como esse “programa” funciona.

. Nossa Identidade e nossas múltiplas facetas

A identidade é o que nós somos, mesmo que às vezes entremos num “personagem diferente da gente”.
Identidade não é ser “um homem de uma cara só”, nem se confundir com um papel único, por mais importante que ele seja.

Nossa Identidade é um conjunto de facetas que usamos de acordo com nossas interações com o mundo e com as pessoas: Eu me apresento de modos diversos em contextos diferentes: há uma faceta minha que fala inglês, mas eu não me reduzo a ela, ela é um dos meus instrumentos. É como o “dono da empresa” visitando e usando vários departamentos, sem que nenhum o defina.

Cada faceta é uma habilidade, um modo de falar, de amar, de trabalhar, de brincar, acionado conforme a situação.
Ela não define a pessoa, e o Eu saudável sabe que ela é uma parte sua, não o todo.

***

. Personagem: faceta que tomou o poder

“Personagem”: nessa história de lidar com o mundo, às vezes construímos um personagem para uma determinada situação mais difícil (um aluno desenvolveu um “personagem pegador”, para ir a festas, pois lidar com seu desejo pelas mulheres era um departamento difícil de “sua empresa”). Mas essa foi uma faceta que ganhou poder demais. Virou personagem.

Ela nasceu de algo real – uma capacidade, uma defesa necessária, um jeito de sobreviver ou se destacar – mas “ganhou poder” e passou a se comportar como se fosse o próprio dono da empresa.

O personagem pode ser extremamente funcional por um tempo:
- o empreendedor incansável que organiza toda a vida em torno do trabalho;
- o “cafajeste do bem” que permite ao rapaz inibido circular nas festas e viver experiências eróticas.

O problema não é o jeitão dessas facetas, e sim quem manda em quem:
- a pessoa se torna dependente daquele modo de funcionar para se sentir alguém. Ela acaba se definindo pelo personagem.
- sem o personagem, sente que “não sabe o que fazer” (como o idoso na aposentadoria) ou não sabe como lidar com a situação (como o jovem diante da moça com quem quer um vínculo verdadeiro);
- o personagem passa por cima de nós, de nosso Eu, e às vezes, vira tirano da própria pessoa (quando nos seduzimos para ser Superego dos outros, p.ex.).

Nesses casos, o que temos pela frente não é destruir o personagem como se fosse pura falsidade, mas “separar o bebê da água do banho”, para não jogar fora os dois juntos:
- preservar dele as qualidades que podem virar facetas (capacidade de empreender, de negociar, de se desinibir, de brincar, de seduzir);
- retirar dele o excesso de poder, a dependência e a rigidez, devolvendo o comando ao nosso Ego.

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. Michelangelo, o Davi e o mármore

Dizem que uma vez perguntaram ao Michelangelo como ele tinha conseguido esculpir o Davi. Ele respondeu: “Ah, eu vi o bloco de mármore e sabia que o Davi estava lá dentro. Aí eu só fui tirando o excesso de mármore, para que ele aparecesse.

A metáfora de Michelangelo ilumina esse processo.

O bloco de mármore é a pessoa inteira: história, personagens, facetas, superego, doenças, hábitos, bugs.
O Davi é o seu Eu, a pessoalidade: aquilo que é próprio, vivo, consciente, aquilo que realmente se parece com você.

Do mesmo modo, o trabalho de entender nosso Ego e Superego não é inventar uma nova pessoa do zero, mas retirar o mármore que encobre o Davi:
- “Invasores” superegoicos: personagens tiranos, crenças herdadas sem exame, ideais impossíveis que não tem a ver conosco, defesas que perderam função.

Mas o nosso Davi é sempre percentual e inacabado. Ele é uma obra em permanente construção. Ele é um “eterno aprendiz” de si mesmo.

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. Superego, bugs no sistema

Na Psicanálise do Superego, doenças e Superego não se confundem com a pessoa, com nosso Eu, nosso Ego: eles são bugs no sistema.

Eles são equivalentes ao mármore excedente: partes de nossa história que um dia tiveram função (proteger, disciplinar, adaptar), mas que hoje geram erros, travamentos, sofrimento.

É importante saber que o Superego não contém só bug e idiotices.
Ele contém tanto:
- puras bobagens e violências introjetadas (ser canhoto é errado, ser gay é errado, prazer é errado);
- valores que podem ser preciosos (honestidade, generosidade, cuidado), porém em forma deformada, do tipo “você tem que ser honesto, você tem que ser generoso, você tem que ser caridoso”.

Aqui entra a distinção conteúdo / forma:
- certos conteúdos são mármore puro e precisam ser jogados fora (preconceitos, leis idiotas, proibições sem sentido lógico);
- outros conteúdos são bons, seu problema não é a coisa em si, mas a forma como ela nos é imposta: “você tem que…, senão…” Ora, eu não “tenho que” ser honesto. Eu gosto de ser honesto.

O trabalho é transferir a propriedade:
- tirar esses valores do regime de “tem que” do Superego;
- passá los para o domínio do Eu, onde honestidade, generosidade e cuidado deixam de ser obediência por medo e viram gosto, convicção, valor assumido.

No exemplo da honestidade:
- bug: ser honesto apenas para não ser punido, para evitar culpa ou condenação;
- Davi: ser honesto porque isso expressa quem eu quero ser, porque isso combina com a imagem que tenho de mim, com o modo de vida que escolho.

***

. O Ego como “gerente da bagunça”

Seu Eu, seu Ego é pra ser dono da sua empresa psíquica.

Ele é o proprietário legítimo, o único que pode, em princípio, conhecer e coordenar todos os departamentos (id, superego, facetas, personagens, e sobretudo seus desejos).

Na prática, porém, ele está tonto, sobrecarregado:
- vive às voltas com incêndios, crises, conflitos entre departamentos;
- passa o tempo apagando fogo e cumprindo ordens do Superego ou demandas do Id, em vez de definir seu rumo;
- muitas vezes, nem sabe “como gostaria” de dirigir a empresa, porque nunca teve calma nem espaço para conhecer seus próprios desejos e transforma-los em projetos .

A diferença aqui é esta:
- ou um gerente atolado na bagunça: um ego que administra crises sem saber para onde quer levar a empresa;
- ou um dono que sabe um rumo: é um ego que, mesmo lidando com problemas, reserva energia para remover bugs, retirar mármore, redistribuir poder entre facetas e personagens, assumir para si valores bons que antes pertenciam só ao Superego.

***

. Meta do trabalho de “psicanalista do superego”

A meta que queremos para ela – clínica, teórica e pedagógica – pode ser formulada assim:

- atuar como retirador de mármore e depurador de bugs, não como destruidor de estruturas;
- ajudar o ego a distinguir, dentro do superego e dos personagens, o que é Davi (valores, competências, facetas legítimas) e o que é mármore/bug (medos, mandatos absurdos, tiranias internas);
- transferir para o domínio do Eu os elementos valiosos que estavam sequestrados pelo superego;
- desmontar “personagens dominadores”, transformando o que eles têm de bom em facetas a serviço da pessoalidade;
- desenvolver a clareza do Ego como dono da empresa: não um herói perfeito, mas um gestor em permanente construção, que vai aprendendo a dirigir a empresa enquanto conserta o próprio sistema e escolhe suas melhores circunstâncias.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

SONHO - SUA CONSTRUÇÃO E SUA FUNÇÃO | ONDE A BIOLOGIA ENCONTRA FREUD

 


1. A base inicial é orgânica: o ser humano deve ser pensado como uma máquina viva programada pelo DNA para continuar funcionando, preservar-se, regular-se e adaptar-se ao ambiente.

2. Essa máquina possui protetores e processadores biológicos que operam continuamente para manter sua estabilidade interna e sua capacidade de resposta ao mundo.

3. Durante a vigília, a máquina recebe estímulos, toma decisões, enfrenta conflitos, administra desejos, frustrações, medos, culpas e exigências externas.

4. Essa atividade diurna produz sobrecarga. O processamento começa a ficar mais lento, mais ruidoso e menos fluido, como acontece com qualquer máquina complexa submetida a excesso de informação.

5. O sono é um dos grandes protetores da máquina programada pelo DNA.

6. A função primordial do sono é permitir a resetagem da máquina durante a noite.

7. Essa resetagem não significa apagar a experiência vivida, mas esvaziar a sobrecarga, reorganizar os circuitos, reduzir o ruído acumulado e devolver fluidez ao funcionamento.

8. Para que essa resetagem aconteça, a máquina precisa manter o sono sem interrupções desnecessárias.
9. O sonho surge dentro do sono como um digestor das perturbações.

10. Essas perturbações podem vir da véspera: conflitos, desejos, aflições, culpas, medos, excitações, frustrações e restos emocionais do dia.

11. Elas também podem surgir durante o próprio sono, como fome, sede, vontade de urinar, ruídos externos ou desconfortos corporais.

12. A função primordial do sonho é digerir essas perturbações para que elas não interrompam o sono.
13. Por isso, o desejo mais básico realizado pelo sonho é o desejo de continuar dormindo.

14. O sonho pode satisfazer, apaziguar ou apenas acomodar uma perturbação.

15. Um exemplo é o sonho de urinar, que tenta responder à vontade de ir ao banheiro sem acordar imediatamente a pessoa.

16. Outro exemplo é o sonho de comer, quando alguém foi dormir com fome.

17. Nesses casos, o sonho transforma uma exigência corporal ou psíquica em cena onírica, permitindo que a máquina continue sua resetagem.

18. O sonho, portanto, não é apenas realização de desejo no sentido clássico, mas digestão funcional das perturbações que ameaçam o sono.

19. A realização de desejo é uma das formas possíveis dessa digestão, mas não a única.

20. Quando a digestão onírica funciona, há apaziguamento suficiente para que o sono prossiga.

21. Quando a carga perturbadora é excessiva, o sonho pode fracassar em sua função de manter o sono.

22. Isso acontece especialmente quando há uma sobrecarga intensa entre desejo e superego.

23. Nesses casos, a perturbação se torna indigerível.

24. O sonho então deriva para o pesadelo.

25. O pesadelo é a falência do sonho como digestor.

26. Em vez de preservar o sono, o pesadelo rompe o sono e acorda a pessoa.

27. Assim, a sequência básica é: máquina programada pelo DNA, vigília, sobrecarga, sono, resetagem, sonho, digestão das perturbações, manutenção do sono.

28. A fórmula central é: o sono reseta a máquina; o sonho digere as perturbações para que a resetagem não seja interrompida. 

PRAZER-DESPRAZER COMO BASE DA AVALIAÇÃO CUSTO- BENEFÍCIO

 


Ponto de vista neuroquímico

Ficou como crenca geral que a dopamina é o neurotransmissor do prazer. Mas… não é bem assim. Ela é o principal avaliador de prazer-desprazer (ou da relação custo-benefício que rege cada ato nosso, voluntário ou não, consciente ou não). Tanto “mais prazer” quanto “menos desprazer” liberam dopamina. Vamos ver como isso funciona:

A lógica central é que o cérebro não está tão voltado para picos de prazer, mas sim para o saldo mensal de liberação de dopamina ligado sobretudo ao alívio de desprazer.

Ao longo de um mês, a vida oferece pouquíssimos momentos de prazer intenso, com grandes picos de dopamina, mas oferece inúmeras situações em que um desconforto diminui, um risco é evitado, uma angústia baixa de intensidade é aliviada.

Cada pequeno alívio – da ansiedade, da culpa, da tensão ou do medo – produz uma liberação de dopamina suficiente para o sujeito sentir “melhorei”, e isso se repete dezenas, centenas de vezes. Assim, na soma, o alívio de desprazer rende muito mais dopamina acumulada do que os raros picos de prazer.

É aí que entra o custo‑benefício dopaminérgico: o sujeito, sem saber, escolhe caminhos que aumentam a quantidade de alívios possíveis e diminuem exposições a grandes dores, mesmo que isso envolva sintomas irracionais.

Como na fobia. Confrontar o pai amado‑temido, por exemplo, é uma aposta de altíssimo custo: ameaça de desamparo, culpa, conflito e perda do vínculo. O cérebro prevê um saldo de dopamina negativo: muita dor, pouco alívio. Já a fobia de barata é um “mal menor”: o medo é deslocado para um objeto pequeno e evitável, e cada vez que o sujeito consegue evitar a barata, pedir ajuda ou “escapar”, ele ganha uma dose de alívio.

Em um mês, esse ciclo medo‑evitação‑alívio se repete tantas vezes que a fobia gera, paradoxalmente, mais dopamina total do que o enfrentamento direto da fonte real de angústia. A fobia, então, é uma solução “dopamínica” de compromisso: conserva o vínculo com o pai, evita o desamparo absoluto e organiza o medo numa forma que permite muitos pequenos alívios, mesmo ao preço de um sofrimento irracional.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

“RESPONSABILIDADE”, A CULPA QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME

 



De uns tempos pra cá venho ouvindo essa coisa de que, em psicanálise, tudo bem de não se culpar a pessoa, “mas ela precisa assumir a responsabilidade de seus atos”.

Ouvi isso com grande suspeição. Como assim? Como culpa e responsabilidade seriam tão diferentes? 
A culpa é um julgamento sumário feito pelo Superego: “você infringiu as minhas leis! Não quero saber, você é culpado!” 

Às vezes a lei é tão idiota que o Superego nem a menciona, só enquadra a pessoa. Se fosse mencionada, a lei seria algo como: “você teve pensamentos raivosos contra seu pai! Não sabe que isso é algo horrível?”

Ah, mas se fosse explicitada dessa forma, a culpa poderia ser questionada, a pessoa poderia se defender.
A alternativa que a Psicanálise do Superego oferece a questão da culpa é não aceitá-la em nenhuma hipótese. E sim verificar se houve ou não erro.

O erro não tem drama: avalia-se o dano e promove-se a reparação. 

E vida que segue, a pessoa não vai ficar se martirizando porque errou. O erro faz parte do fazer, e até do não fazer, pois há omissões erradas.

Mas o exame do erro contém aspectos de avaliações: você sabia que era erro? Foi acidental ou intencional? Causou pouco ou muito dano? Há atenuantes? O que pode ser feito para corrigir?

A culpa não, ela bate o martelo e não examina nada: é culpado e pronto! Basta dizer que existe culpa até de pensamento…

E a tal da responsabilidade? Ela é tão cuidadosamente avaliada como o erro o é? Ou a questão termina quando a pessoa se diz, “sou responsável”? Tudo leva a crer que quando alguém ouve “você é o responsável”, isso equivale completamente ao simplorismo do “você é culpado”.

Por isso digo que a tal da responsabilidade é uma acusação de culpa que não ousa dizer seu nome. É a “culpa com vaselina”…


segunda-feira, 25 de maio de 2026

COMO É A PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Primeira síntese  

A psicanálise do Superego é um desenvolvimento, feito por Francisco Daudt, da psicanálise freudiana.
Freud estudou o inconsciente reprimido, que se manifesta através de doenças psíquicas mais comuns, como as neuroses e os vícios. Daudt desenvolve e busca complementar esse estudo ao investigar o inconsciente repressor, o Superego.

O Superego era visto por Freud como uma internalização na infância dos valores morais da sociedade. Freud o via como necessário e inevitável, ainda que gerando um “mal-estar na civilização”.

O Superego visto por Daudt é mais fonte de problema do que de solução. Nossos valores morais não precisam ser praticados por medo dele, eles podem ser absorvidos por gosto de cooperação, podem ser coisa do nosso Eu, do nosso Ego.

O Superego, nessa visão, é resultado de um adestramento da criança para absorver o senso comum de sua “tribo” – de sua comunidade que a ampara – justamente através do medo de ser desamparada, caso “se comporte mal” (isso significa “caso dê trabalho a seus cuidadores”).

O Superego fica então como um automático que não fala, e sim dá choques na pessoa: choques de culpa, de angústia, de vergonha, de ridículo. Ele não explica suas leis, nunca convence ninguém do bom produto lógico de suas leis. Ele só as impõe através desses choques.

Por isso, o Superego é principalmente inconsciente: porque funciona no automático, invisível, entre tantas outras coisas automáticas em nossa vida, porque, como vêm do senso comum, ele não causa estranhamento: “ah, a vida é assim mesmo, todo mundo sabe”.

Para dar um exemplo desse “todo mundo sabe”, houve um tempo em que o senso comum dizia que “era errado ser canhoto”. A criança canhota se sentia culpada, tinha vergonha, tinha angústia quando usava sua mão esquerda. Ou então a usava “em desafio”, ou escondida, como se estivesse fazendo algum crime.

Outro exemplo mais cruel, e esse foi o que deu a Freud a pista do inconsciente reprimido, era o do senso comum da época vitoriana de que as mulheres não poderiam sentir desejo sexual, que isso era coisa de depravadas, de prostitutas. Essa lei tosca, absorvida pelo Superego delas, produzia tal angústia quando o desejo aparecia, que o mecanismo de defesa da repressão fazia com que seu drama fosse deslocado para uma neurose histérica: “não, meu problema não é o desejo sexual, meu problema são os desmaios frequentes, a paralisia de minha mão”.

Mas Freud descobriu essa ligação, porém não questionou a “lei do senso comum” que proibia a mulher de ter desejo sexual. Ele não questionou o Superego da época.

É exatamente isso que faz a psicanálise do Superego. Ao examinar esse conflito interno, a gente pode dizer para a pessoa: “ah, seu problema não é ter desejo sexual; isso todo mundo tem, homens e mulheres, meninos e meninas. Seu problema é que essa lei idiota foi absorvida por você- e por todas as mulheres – através de adestramento na infância. Se você se mostrasse desejosa, perceberia que seus pais não iriam mais gostar de você, que eles iriam te desamparar. Foi assim que sua reação automática a qualquer manifestação de desejo era a culpa e a angústia. Foi isso que causou sua doença. A doença conta a história da injustiça que as mulheres sofrem com essa lei”. 

Portanto, a Psicanálise do Superego faz uma separação importante: nem a doença, nem o Superego são “a pessoa”, eles estão na pessoa, como um bug no sistema. O interessante é que eles estão intimamente ligados: a doença fala da história da pessoa; de como o senso comum de sua “tribo” entrou em choque com suas características singulares.

Exatamente como as clientes de Freud, cujos desejos sexuais entraram em choque com o Superego “anti-sexo” do senso comum de sua época. Elas não eram “histéricas”, elas sofriam de histeria, de neurose histérica.
Outra característica do Superego que essa psicanálise estuda é sua capacidade, não só de reprimir e impor, mas também de seduzir as pessoas a que ocupem lugar de Superego junto a outras. Algo assim: “está se sentindo mal de ser dominado? Espere seu tempo, que amanhã você será dominador”. As crianças dominadas pelos pais se tornarão futuras dominadoras de seus filhos… e passarão o Superego adiante.

Aí estão as primeiras bases para se entender o que é a Psicanálise do Superego. 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

O AMIGO PERGUNTA SOBRE SONHOS

 




“Você diz aí que nós somos com os outros mamíferos, apenas mais complexos: máquinas programadas pelo DNA visando sua replicação, com programas de desejos e de medos que permitem a a condições em que o sexo possa ser praticado.

Ok, mas com os sonhos entram nesse programa?”

———

Francisco Daudt. Você notou bem: como todos os mamíferos, nós também sonhamos. Você já viu um cachorro sonhando? Eles fazem como nós: de vez em quando eles se mexem, se agitam, fazem ruídos. Na maior parte do tempo, dormem tranquilos.

Por aí podemos deduzir que o sonho faz parte do nosso programa animal, que ele desempenha funções vitais em nossa “máquina”.

Estou falando de máquina porque cada vez mais nos vejo – sobretudo ao nosso cérebro, nossa mente – como semelhante ao computador em geral, e às IA em particular.

Vamos fazer então um passo a passo que vai do DNA ao sonho:

A base inicial é orgânica: o DNA nos programou para preservar a continuidade da vida.
Essa programação não opera por ideias abstratas, mas por desejos, medos, alarmes, prazeres, desconfortos e mecanismos automáticos de proteção, todos “softwares que vêm com a máquina”.

O principal motor da máquina viva é o desejo de prazer, é ele que vai nos levar ao “propósito do programador”: a replicação do DNA.
Esse desejo de prazer vai da fome ao apetite, do tesão à satisfação, do alívio corporal ao prazer sexual.
Mas o desejo de prazer não pode operar sozinho. Para que o prazer aconteça, a máquina precisa de um ambiente suficientemente seguro. O prazer precisa de tranquilidade.

Esse ambiente seguro é aquilo que chamamos de paz: não uma paz moral ou idealizada, mas uma paz orgânica, uma tranquilidade mínima do ambiente em que estamos.
Essa paz é necessária porque os grandes prazeres e alívios do organismo envolvem uma situação vulnerável.
O sono é vulnerabilidade.
A eliminação de resíduos, como urinar e defecar, é vulnerabilidade.
O sexo é vulnerabilidade.

A reprodução exige vulnerabilidade. Portanto, a máquina precisa reduzir ameaças para permitir os momentos em que ela baixa a guarda.

Para proteger o desejo de prazer, o DNA nos equipou com medos inatos. Entre esses medos, um dos mais importantes é o medo do estranho.
O estranho, na base, é antes de tudo, o outro humano desconhecido.
A criança chora quando “estranha”. Um rosto estranho pode significar perda de proteção, ameaça, abandono ou intrusão.

Para o adulto primitivo (e para nós, atualmente, numa rua deserta), o outro desconhecido podia representar perigo de ataque, morte, roubo, sequestro ou invasão.
Por isso, o processo de tornar o estranho em familiar é uma função protetora fundamental. A familiarização reduz o risco.

Essa familiarização pode acontecer de várias formas: pelo parentesco, pela troca, pela nomeação, pelo ritual, pela oferenda, pela conversa, pela explicação ou pelo mito. Por exemplo, “ele também é flamenguista” diz que o outro é familiar, pois acredita no mesmo mito.

A máquina humana busca ampliar o território do familiar para se sentir tranquila. Quanto mais familiar o “mundo” se torna, menos ameaçador ele parece. Quanto menos ameaçador ele parece, mais o organismo pode se sentir tranquilo para dormir, comer, eliminar resíduos, fazer sexo, cuidar dos filhos e viver.

O desejo de prazer – nosso motor principal – precisa de desejos acessórios para criar esse campo de segurança.

Os principais desejos acessórios são o
a. desejo de conhecimento e entendimento,
b. o desejo de justiça,
c. o desejo de ordenação e controle.

a. O desejo de conhecimento e entendimento
Ele nasce da tensão da perplexidade. A perplexidade aparece quando a máquina encontra algo que não entende. O não entendido é ameaçador porque não pode ser previsto.
Para reduzir essa ameaça, a máquina inventa explicações. Em sua forma primitiva, essas explicações são mágicas, míticas e imediatas.
O trovão estranho vira a voz de um deus.
A doença estranha vira castigo.
A morte vira só passagem, pois “a vida continua em outro plano”.

O mito inventado transforma o fenômeno estranho em algo familiar, narrável e negociável.
A explicação mítica não nasce primeiro do amor à verdade, mas da necessidade de reduzir o terror. Depois, em níveis mais sofisticados, o desejo de conhecimento pode se transformar em ciência.
A ciência também tenta tornar o estranho familiar, mas aceita suportar o “não sei” por mais tempo. Foi por essa demora que ela precisou de milênios para aparecer, pois a investigação dá trabalho.
Já o mito é muito mais fácil: uma vez inventado, tranquiliza rapidamente.

b. O desejo de justiça nasce do incômodo da raiva.
A raiva, o ressentimento, o desconforto, a mágoa, a revolta, aparece quando há sentimento de injustiça por abuso de poder, invasão, humilhação ou diferenças intoleráveis.
A raiva é o alarme do desejo de justiça. A satisfação primitiva da raiva pode ser vingança, punição, retaliação ou destruição do agressor.
Em formas mais sofisticadas, a raiva é transformada em acerto de ponteiros, regra, reparação, limite, lei e justiça externa.
Diz-se que a forma mais sofisticada de operar a raiva em busca de justiça é a diplomacia.
A justiça reduz a ameaça porque impede que o outro possa tudo. Onde há justiça, há alguma previsibilidade nas relações.
Onde há previsibilidade, o organismo pode se expor e se tornar momentaneamente vulnerável com menos medo.

c. O desejo de ordenação e controle nasce da tensão da insegurança

A insegurança aparece diante do caos, do imprevisível, do desorganizado e do incontrolável. Logo, ordenar é reduzir ameaça, e controlar é tentar impedir a surpresa destrutiva.
Classificar, organizar, ritualizar e repetir são modos de diminuir a insegurança. O controle torna o estranho menos estranho. A ordem transforma o mundo em território manejável.

Esses três desejos acessórios trabalham a favor do desejo de prazer.
O conhecimento/entendimento reduz a perplexidade.
A justiça reduz a raiva diante da ameaça do outro.
O controle/ordenação reduz a insegurança diante do caos.

Quando perplexidade, raiva e insegurança diminuem, a máquina se aproxima da paz necessária ao prazer. Essa paz permite os estados de vulnerabilidade: A máquina pode então dormir; Pode eliminar resíduos; Pode fazer sexo, reproduzir, cuidar, repousar.
Pode entregar-se.

A capacidade de inventar mitos que “explicam tudo” nasce desse automático criador de familiaridade. A máquina humana cria mitos para tornar suportável aquilo que a ameaça.
Esse automático criador de mitos opera para fora e para dentro. Para fora, ele cria mitos que explicam sobre a natureza, os deuses, os mortos, as tempestades, as doenças e o destino.
Para dentro, ele cria sonhos, sintomas, fantasias, fobias e explicações íntimas.

O sonho pertence a essa mesma máquina mitológica:
Durante o dia, a máquina acumula estranhamentos, conflitos, desejos, raivas, perplexidades, inseguranças e restos emocionais. Ela fica sobrecarregada, funciona lenta e pesada.
À noite, o sono funciona como protetor da máquina. O sono permite resetagem, esvaziamento da sobrecarga e reorganização interna.

Mas esse “reset” precisa ser protegido: perturbações da véspera ou do próprio corpo podem ameaçar interromper o sono.
O sonho surge como meio de digerir essas perturbações.
O sonho transforma estranhamentos em cenas. Transforma tensões em fábulas, restos da véspera em narrativas. Transforma desejos em satisfações possíveis. Transforma ameaças em imagens mais assimiláveis.
Transforma as perturbações da véspera em algo momentaneamente sonhável, uma historinha codificada que não desperta a pessoa.

A função primordial do sonho é preservar o sono.

O sonho tenta manter a paz noturna necessária à resetagem.
Assim como o mito social torna familiar o trovão, o sonho torna familiar a perturbação íntima. Assim como a justiça tenta resolver a raiva no mundo externo, o sonho tenta dar alguma solução imaginária à raiva que sobrou da véspera. Assim como o conhecimento tenta resolver a perplexidade, o sonho inventa explicações narrativas para aquilo que ficou sem entendimento.Assim como a ordenação tenta resolver a insegurança, o sonho organiza o caos interno em cenas.

Quando o sonho consegue digerir a perturbação, o sono continua.
Quando não consegue, o sonho fracassa e se transforma em pesadelo.
O pesadelo é a falência da função digestiva do sonho. A perturbação ficou forte demais. O estranho não pôde ser suficientemente familiarizado. A tensão não pôde ser reduzida.
A máquina acorda.

Portanto, a mesma lógica liga a biologia ao mito, ao sonho e à cultura. Todos trabalhando em função do objetivo do programador:
a replicação do DNA.

TRANSTORNO DISMÓRFICO, UMA NOVA “FACE” DA NEUROSE OBSESSIVA

 


A neurose obsessiva é uma perturbação que vem do caráter obsessivo com o qual a pessoa nasce, completamente focada em controle e pureza.

Os sintomas comuns da neurose obsessiva são a pureza moral, a pureza da orientação sexual, a pureza dos “bons sentimentos” (bondade sem raiva), entre outros. Ou seja, uma obediência obsessiva ao senso comum de cada época, ou de cada “tribo social”.

A obsessão pela aparência perfeita também pode se transformar em neurose. Dessa forma, a neurose preserva sua estrutura, mas muda o conteúdo conforme muda o tribunal cultural.
O que permanece é a lógica:
• “Há algo em mim que me desqualifica.”
• “Preciso verificar se isso é verdade.”
• “Se for verdade, serei excluído, humilhado ou rebaixado.”
• “Tenho que neutralizar essa possibilidade.”
• “Mas a neutralização nunca basta.”

Antes, em determinados contextos culturais, a orientação sexual podia ocupar esse lugar de mácula. O pensamento invasivo “será que sou gay?” não era necessariamente expressão de desejo homossexual reprimido; muitas vezes era a forma obsessiva de uma pergunta superegóica: “há em mim algo que me torna impuro, inferior, condenável, excluível?”

À medida que a cultura vai reduzindo a força condenatória desse conteúdo, ele perde parte de sua eficácia patogênica. Não desaparece a estrutura obsessiva, mas ela procura outro significante carregado de ameaça narcísica. A aparência, hoje, tornou-se um desses grandes campos de captura.

A frase muda, mas a gramática é a mesma:
• “Será que sou gay?” vira “será que sou feio?”
• “Será que há algo errado com meu desejo?” vira “será que há algo errado com meu rosto?”
• “Será que os outros percebem minha mácula?” vira “será que todos estão vendo esse defeito?”
• “Preciso testar minha reação” vira “preciso checar o espelho, a câmera, a foto, o ângulo, a pele, o cabelo.”

As redes sociais funcionam como uma máquina de intensificação superegóica porque fazem três coisas ao mesmo tempo: multiplicam o olhar do outro, padronizam o ideal e tornam a comparação incessante. O sujeito não se compara mais apenas com os próximos da sua tribo imediata; compara-se com imagens editadas, filtradas, selecionadas, comercialmente otimizadas e repetidas milhares de vezes.

Então o ideal do Eu, do Ego, a face impositiva do Superego (“você tem que…”), se torna visual, algorítmico e inatingível. E o superego, em vez de dizer apenas “você deve ser moralmente puro”, passa a dizer: “você deve ser visivelmente impecável.”

A dismorfia corporal, nessa leitura, é uma neurose obsessiva voltada para a aparência. O corpo vira a superfície onde se inscreve a suspeita de indignidade. A “mácula” migra da orientação sexual, da culpa religiosa, da contaminação moral ou da dúvida ética para a pele, o nariz, o cabelo, a gordura, a musculatura, a simetria, a expressão facial.

O ponto decisivo é este: o obsessivo não sofre apenas porque encontrou um defeito; ele encontra um defeito porque precisa localizar a angústia em algum lugar. A cultura oferece os lugares disponíveis. Em outra época, a mácula podia ser pecado, impureza sexual, desvio moral. Hoje, pode ser inadequação estética.

Portanto, “eu tenho uma mácula na minha orientação sexual” e “eu tenho uma mácula na minha aparência” podem ser duas versões históricas da mesma operação psíquica. O conteúdo muda com o senso comum tribal; a máquina obsessiva permanece.