sexta-feira, 22 de maio de 2026

O AMIGO PERGUNTA SOBRE SONHOS

 




“Você diz aí que nós somos com os outros mamíferos, apenas mais complexos: máquinas programadas pelo DNA visando sua replicação, com programas de desejos e de medos que permitem a a condições em que o sexo possa ser praticado.

Ok, mas com os sonhos entram nesse programa?”

———

Francisco Daudt. Você notou bem: como todos os mamíferos, nós também sonhamos. Você já viu um cachorro sonhando? Eles fazem como nós: de vez em quando eles se mexem, se agitam, fazem ruídos. Na maior parte do tempo, dormem tranquilos.

Por aí podemos deduzir que o sonho faz parte do nosso programa animal, que ele desempenha funções vitais em nossa “máquina”.

Estou falando de máquina porque cada vez mais nos vejo – sobretudo ao nosso cérebro, nossa mente – como semelhante ao computador em geral, e às IA em particular.

Vamos fazer então um passo a passo que vai do DNA ao sonho:

A base inicial é orgânica: o DNA nos programou para preservar a continuidade da vida.
Essa programação não opera por ideias abstratas, mas por desejos, medos, alarmes, prazeres, desconfortos e mecanismos automáticos de proteção, todos “softwares que vêm com a máquina”.

O principal motor da máquina viva é o desejo de prazer, é ele que vai nos levar ao “propósito do programador”: a replicação do DNA.
Esse desejo de prazer vai da fome ao apetite, do tesão à satisfação, do alívio corporal ao prazer sexual.
Mas o desejo de prazer não pode operar sozinho. Para que o prazer aconteça, a máquina precisa de um ambiente suficientemente seguro. O prazer precisa de tranquilidade.

Esse ambiente seguro é aquilo que chamamos de paz: não uma paz moral ou idealizada, mas uma paz orgânica, uma tranquilidade mínima do ambiente em que estamos.
Essa paz é necessária porque os grandes prazeres e alívios do organismo envolvem uma situação vulnerável.
O sono é vulnerabilidade.
A eliminação de resíduos, como urinar e defecar, é vulnerabilidade.
O sexo é vulnerabilidade.

A reprodução exige vulnerabilidade. Portanto, a máquina precisa reduzir ameaças para permitir os momentos em que ela baixa a guarda.

Para proteger o desejo de prazer, o DNA nos equipou com medos inatos. Entre esses medos, um dos mais importantes é o medo do estranho.
O estranho, na base, é antes de tudo, o outro humano desconhecido.
A criança chora quando “estranha”. Um rosto estranho pode significar perda de proteção, ameaça, abandono ou intrusão.

Para o adulto primitivo (e para nós, atualmente, numa rua deserta), o outro desconhecido podia representar perigo de ataque, morte, roubo, sequestro ou invasão.
Por isso, o processo de tornar o estranho em familiar é uma função protetora fundamental. A familiarização reduz o risco.

Essa familiarização pode acontecer de várias formas: pelo parentesco, pela troca, pela nomeação, pelo ritual, pela oferenda, pela conversa, pela explicação ou pelo mito. Por exemplo, “ele também é flamenguista” diz que o outro é familiar, pois acredita no mesmo mito.

A máquina humana busca ampliar o território do familiar para se sentir tranquila. Quanto mais familiar o “mundo” se torna, menos ameaçador ele parece. Quanto menos ameaçador ele parece, mais o organismo pode se sentir tranquilo para dormir, comer, eliminar resíduos, fazer sexo, cuidar dos filhos e viver.

O desejo de prazer – nosso motor principal – precisa de desejos acessórios para criar esse campo de segurança.

Os principais desejos acessórios são o
a. desejo de conhecimento e entendimento,
b. o desejo de justiça,
c. o desejo de ordenação e controle.

a. O desejo de conhecimento e entendimento
Ele nasce da tensão da perplexidade. A perplexidade aparece quando a máquina encontra algo que não entende. O não entendido é ameaçador porque não pode ser previsto.
Para reduzir essa ameaça, a máquina inventa explicações. Em sua forma primitiva, essas explicações são mágicas, míticas e imediatas.
O trovão estranho vira a voz de um deus.
A doença estranha vira castigo.
A morte vira só passagem, pois “a vida continua em outro plano”.

O mito inventado transforma o fenômeno estranho em algo familiar, narrável e negociável.
A explicação mítica não nasce primeiro do amor à verdade, mas da necessidade de reduzir o terror. Depois, em níveis mais sofisticados, o desejo de conhecimento pode se transformar em ciência.
A ciência também tenta tornar o estranho familiar, mas aceita suportar o “não sei” por mais tempo. Foi por essa demora que ela precisou de milênios para aparecer, pois a investigação dá trabalho.
Já o mito é muito mais fácil: uma vez inventado, tranquiliza rapidamente.

b. O desejo de justiça nasce do incômodo da raiva.
A raiva, o ressentimento, o desconforto, a mágoa, a revolta, aparece quando há sentimento de injustiça por abuso de poder, invasão, humilhação ou diferenças intoleráveis.
A raiva é o alarme do desejo de justiça. A satisfação primitiva da raiva pode ser vingança, punição, retaliação ou destruição do agressor.
Em formas mais sofisticadas, a raiva é transformada em acerto de ponteiros, regra, reparação, limite, lei e justiça externa.
Diz-se que a forma mais sofisticada de operar a raiva em busca de justiça é a diplomacia.
A justiça reduz a ameaça porque impede que o outro possa tudo. Onde há justiça, há alguma previsibilidade nas relações.
Onde há previsibilidade, o organismo pode se expor e se tornar momentaneamente vulnerável com menos medo.

c. O desejo de ordenação e controle nasce da tensão da insegurança

A insegurança aparece diante do caos, do imprevisível, do desorganizado e do incontrolável. Logo, ordenar é reduzir ameaça, e controlar é tentar impedir a surpresa destrutiva.
Classificar, organizar, ritualizar e repetir são modos de diminuir a insegurança. O controle torna o estranho menos estranho. A ordem transforma o mundo em território manejável.

Esses três desejos acessórios trabalham a favor do desejo de prazer.
O conhecimento/entendimento reduz a perplexidade.
A justiça reduz a raiva diante da ameaça do outro.
O controle/ordenação reduz a insegurança diante do caos.

Quando perplexidade, raiva e insegurança diminuem, a máquina se aproxima da paz necessária ao prazer. Essa paz permite os estados de vulnerabilidade: A máquina pode então dormir; Pode eliminar resíduos; Pode fazer sexo, reproduzir, cuidar, repousar.
Pode entregar-se.

A capacidade de inventar mitos que “explicam tudo” nasce desse automático criador de familiaridade. A máquina humana cria mitos para tornar suportável aquilo que a ameaça.
Esse automático criador de mitos opera para fora e para dentro. Para fora, ele cria mitos que explicam sobre a natureza, os deuses, os mortos, as tempestades, as doenças e o destino.
Para dentro, ele cria sonhos, sintomas, fantasias, fobias e explicações íntimas.

O sonho pertence a essa mesma máquina mitológica:
Durante o dia, a máquina acumula estranhamentos, conflitos, desejos, raivas, perplexidades, inseguranças e restos emocionais. Ela fica sobrecarregada, funciona lenta e pesada.
À noite, o sono funciona como protetor da máquina. O sono permite resetagem, esvaziamento da sobrecarga e reorganização interna.

Mas esse “reset” precisa ser protegido: perturbações da véspera ou do próprio corpo podem ameaçar interromper o sono.
O sonho surge como meio de digerir essas perturbações.
O sonho transforma estranhamentos em cenas. Transforma tensões em fábulas, restos da véspera em narrativas. Transforma desejos em satisfações possíveis. Transforma ameaças em imagens mais assimiláveis.
Transforma as perturbações da véspera em algo momentaneamente sonhável, uma historinha codificada que não desperta a pessoa.

A função primordial do sonho é preservar o sono.

O sonho tenta manter a paz noturna necessária à resetagem.
Assim como o mito social torna familiar o trovão, o sonho torna familiar a perturbação íntima. Assim como a justiça tenta resolver a raiva no mundo externo, o sonho tenta dar alguma solução imaginária à raiva que sobrou da véspera. Assim como o conhecimento tenta resolver a perplexidade, o sonho inventa explicações narrativas para aquilo que ficou sem entendimento.Assim como a ordenação tenta resolver a insegurança, o sonho organiza o caos interno em cenas.

Quando o sonho consegue digerir a perturbação, o sono continua.
Quando não consegue, o sonho fracassa e se transforma em pesadelo.
O pesadelo é a falência da função digestiva do sonho. A perturbação ficou forte demais. O estranho não pôde ser suficientemente familiarizado. A tensão não pôde ser reduzida.
A máquina acorda.

Portanto, a mesma lógica liga a biologia ao mito, ao sonho e à cultura. Todos trabalhando em função do objetivo do programador:
a replicação do DNA.

TRANSTORNO DISMÓRFICO, UMA NOVA “FACE” DA NEUROSE OBSESSIVA

 


A neurose obsessiva é uma perturbação que vem do caráter obsessivo com o qual a pessoa nasce, completamente focada em controle e pureza.

Os sintomas comuns da neurose obsessiva são a pureza moral, a pureza da orientação sexual, a pureza dos “bons sentimentos” (bondade sem raiva), entre outros. Ou seja, uma obediência obsessiva ao senso comum de cada época, ou de cada “tribo social”.

A obsessão pela aparência perfeita também pode se transformar em neurose. Dessa forma, a neurose preserva sua estrutura, mas muda o conteúdo conforme muda o tribunal cultural.
O que permanece é a lógica:
• “Há algo em mim que me desqualifica.”
• “Preciso verificar se isso é verdade.”
• “Se for verdade, serei excluído, humilhado ou rebaixado.”
• “Tenho que neutralizar essa possibilidade.”
• “Mas a neutralização nunca basta.”

Antes, em determinados contextos culturais, a orientação sexual podia ocupar esse lugar de mácula. O pensamento invasivo “será que sou gay?” não era necessariamente expressão de desejo homossexual reprimido; muitas vezes era a forma obsessiva de uma pergunta superegóica: “há em mim algo que me torna impuro, inferior, condenável, excluível?”

À medida que a cultura vai reduzindo a força condenatória desse conteúdo, ele perde parte de sua eficácia patogênica. Não desaparece a estrutura obsessiva, mas ela procura outro significante carregado de ameaça narcísica. A aparência, hoje, tornou-se um desses grandes campos de captura.

A frase muda, mas a gramática é a mesma:
• “Será que sou gay?” vira “será que sou feio?”
• “Será que há algo errado com meu desejo?” vira “será que há algo errado com meu rosto?”
• “Será que os outros percebem minha mácula?” vira “será que todos estão vendo esse defeito?”
• “Preciso testar minha reação” vira “preciso checar o espelho, a câmera, a foto, o ângulo, a pele, o cabelo.”

As redes sociais funcionam como uma máquina de intensificação superegóica porque fazem três coisas ao mesmo tempo: multiplicam o olhar do outro, padronizam o ideal e tornam a comparação incessante. O sujeito não se compara mais apenas com os próximos da sua tribo imediata; compara-se com imagens editadas, filtradas, selecionadas, comercialmente otimizadas e repetidas milhares de vezes.

Então o ideal do Eu, do Ego, a face impositiva do Superego (“você tem que…”), se torna visual, algorítmico e inatingível. E o superego, em vez de dizer apenas “você deve ser moralmente puro”, passa a dizer: “você deve ser visivelmente impecável.”

A dismorfia corporal, nessa leitura, é uma neurose obsessiva voltada para a aparência. O corpo vira a superfície onde se inscreve a suspeita de indignidade. A “mácula” migra da orientação sexual, da culpa religiosa, da contaminação moral ou da dúvida ética para a pele, o nariz, o cabelo, a gordura, a musculatura, a simetria, a expressão facial.

O ponto decisivo é este: o obsessivo não sofre apenas porque encontrou um defeito; ele encontra um defeito porque precisa localizar a angústia em algum lugar. A cultura oferece os lugares disponíveis. Em outra época, a mácula podia ser pecado, impureza sexual, desvio moral. Hoje, pode ser inadequação estética.

Portanto, “eu tenho uma mácula na minha orientação sexual” e “eu tenho uma mácula na minha aparência” podem ser duas versões históricas da mesma operação psíquica. O conteúdo muda com o senso comum tribal; a máquina obsessiva permanece.




terça-feira, 19 de maio de 2026

PROBLEMAS EMOCIONAIS DA VELHICE




 

– sentimentos de perda / lutos


Luto: o sentimento que decorre da perda – objetiva ou subjetiva – de algo, ou de alguém, em quem, ou em que, a pessoa fez grande investimento de tempo, de afeto, de custos. Ou seja, algo, ou alguém muito importante para a pessoa.


O mais óbvio é o luto diante da morte de pessoa querida. Mas há outras formas de luto, como o de gente viva, de status social, de condições pessoais muito prezadas, de pets muito queridos etc.


Vamos ver aqui formas de lutos inerentes ao avanço da idade.


1. O ponto de partida: a velhice como acúmulo de lutos


Luto é o sentimento ligado a perdas de algo – ou de alguém – que foi alvo de muito investimento de valores pessoais, seja de tempo, de investimento emocional, de dinheiro etc.

Logo, luto = investimento + perda


O critério de velhice aqui usado não parte de uma idade objetiva, parte de uma visão de si mesmo, dentro da realidade vivida pela pessoa. Pois o luto ligado à idade acontece em diversos tempos da vida, inclusive a infância.


Um exemplo caricatural disso é o das profissões que dependem do corpo jovem, como a de modelo, bailarina, ginástica olímpica, ídolo infantil/adolescente, atleta de alto rendimento etc. Em todas elas haverá o momento de perda e sua dura transição.


A velhice é atravessada por múltiplos lutos sobrepostos. O luto da imortalidade (que bate forte em datas redondas como os 70 anos) é apenas um deles — e nem sempre o mais difícil.


2. O inventário ampliado dos lutos

Além dos lutos clássicos da idade (aparência, desejo, atratividade, funcionalidade, segurança financeira, independência, agilidade, memória), foram acrescentados:

• Papéis sociais (perda da identidade profissional)

• Parentalidade ativa (saída dos filhos, síndrome do ninho vazio)

• Pares afetivos e/ou profissionais (rarefação da rede social)

• Corpo erótico (deixar de desejar e de ser desejado)

• Futuro como horizonte aberto (o tempo vira “o que resta”)

• Utilidade (passar de quem dá para quem recebe)

• Reconhecimento social (invisibilidade do velho)

• Projeto de si (acerto de contas com o que se quis ser)


2. A leitura pelo Superego


Boa parte desses lutos atinge funções que o Superego transformou em condições de valor pessoal. É o chamado “luto do personagem”. A pessoa atribuía seu valor ao papel que desempenhava, seja como profissional quanto pessoal.

Quem se identificou rigidamente com ser produtivo, desejável ou indispensável sofre não só a perda objetiva, mas o desabamento da imagem que sustentava a autoestima.


4. A aposentadoria como luto da identidade

Caso emblemático: abre-se um vazio que a pessoa não sabe preencher, produzindo um tédio muito específico. Parece com o luto do personagem.


5. A semelhança com a adolescência

O tédio do aposentado é estruturalmente parecido com o do adolescente. Ambos foram expulsos de uma economia psíquica que funcionava e estão numa zona intermediária: “em que investir minha vontade, meus desejos e meu tempo?”.


6. A diferença crucial entre as duas crises

A adolescência é crise com um futuro vislumbrado, a “vida de gente grande”. A aposentadoria é crise sem roteiro — uma “adolescência sem turma”, sem rito de passagem, sem promessa cultural para vinte ou trinta anos de vida “sem rumo certo”.


7. O tédio da transição

Assim como na passagem da infância para a adolescência, quando frente à perda de graça dos velhos brinquedos, o desejo ainda não descobriu seus novos objetos, a aposentadoria pode trazer o mesmo tipo de tédio: “e agora? Onde haverá coisa interessante para fazer?” É uma transição que dá trabalho (e que deveria ser antecipada, antes que a aposentadoria chegasse).


9. O luto da atratividade sexual e como ele é cruel para as mulheres

A diferença entre os sexos nesse luto vem da biologia, não da cultura. Enquanto o desejo masculino é despertado pelos sinais visuais de fertilidade (que declinam na menopausa), o desejo feminino é despertado pela admiração (que pode aumentar com o tempo). Daí Sean Connery ter sido considerado sexy aos 80, sem que coisa semelhante aconteça com mulheres.


10. A injustiça biológica dupla para a mulher

A mulher perde a atratividade visual e perde também a própria capacidade de excitação, porque os hormônios da libido caem na menopausa. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ADESTRAMENTO “DO BEM” x ADESTRAMENTO “DO MAL”

 


Tenho dito que o Superego é um automático instalado em nós através de um adestramento tosco baseado em ameaça de desamparo: se fazemos (ou pensamos) algo que o Superego condena, recebemos um “choque de desprazer” em forma de angústia, culpa, vergonha ou ridículo. É assim que ele nos manipula.

Mas isso não quer dizer que todos os adestramentos são “do mal”, pois nem todos os automáticos são “do mal”. Ao contrário: sem automáticos “do bem” não faríamos quase nada na vida. 

A parte de nossas ações comandadas de maneira consciente, a partir do nosso Eu, do nosso Ego, é muito pequena se comparada com nossas ações automáticas que servem às nossas escolhas.

Veja o que acontece agora: você, seu Ego, escolheu ler este texto. Entram em cena diversos automáticos “do bem” para tornar isso possível: o próprio aprendizado da língua portuguesa e o da leitura estão automatizados em você desde a infância, e estão armazenados no seu cérebro em uma área diferente do córtex pré-frontal (onde moram a consciência e o Eu que escolhe).

A mesma coisa ocorre quando você dirige um carro: o número de procedimentos automáticos que ocorrem, e que tornam a direção possível, é enorme… e todos “do bem”.

A Psicanálise do Superego visa tirar os automáticos “do mal” e fazer com que os “do bem” sejam incorporados pelo mesmo processo que incorporou a leitura: através do aprendizado por escolha. 
Aprendizado esse que não termina nunca, e essa é sua beleza: “a beleza de ser um eterno aprendiz” (Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, 1982). 








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segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIFERENÇA ENTRE “LEVE” E “LEVIANO” - A ALTINHA

 


O Superego atrapalha a melhor característica de nossa espécie, que é “não se levar a sério”, ser criança brincando pela vida. Escolhi essa diferença entre o leve e o leviano como exemplo das duas coisas: a boa brincadeira e a influência indireta do Superego através do “dane-se”

A leveza é uma característica não dramática da brincadeira. O brincar pela vida afora é a marca registrada da melhor faceta de nossa espécie: a capacidade de se manter interminavelmente criança (cujo nome complicado é “neotenia”: do grego, “apego à juventude, à forma nova”).

A leviandade é o prazer imediatista que não leva em conta as consequências, que não tem consideração pelo outro, que “faz que não vê” os danos possíveis. A leviandade é um sinal de que o “dane-se, vou fazer” está operando. Ela não é “brincadeira”, é transgressão.

A brincadeira só tem uma coisa de “séria”: suas regras para funcionar. O resto é alegria.
Aqui no Rio temos um exemplo notável: a altinha.

A Altinha: um tipo de Leveza Estruturada

A altinha exemplifica perfeitamente essa distinção entre leveza e leviandade: uma brincadeira, um jogo, ancorada em regras básicas que a fazem funcionar bem. O jogo carioca, reconhecido como patrimônio cultural da cidade desde 2020, opera com uma regra fundamental - não deixar a bola cair no chão - e uma cooperação implícita: não há vencedores nem perdedores, a ideia é apenas manter a bola no alto e passá-la adiante.

### Regras que servem à Brincadeira

As leis mínimas da altinha - proibição do uso das mãos, objetivo compartilhado de manter a bola no ar, valorização do passe bonito - ajudam a criatividade sem atrapalhar o jogo. As regras servem a todos, ajudam na diversão e na cooperação, resultam da boa combinação prévia em que todos estão de acordo: a regra serve aos jogadores, não é o contrário, não são os jogadores escravos da regra.
É através das regras que a leveza se expressa: manobras criativas, passes bonitos, colaboração espontânea.

### Cooperação brincalhona de um lado, Competição do outro

Diferentemente dos jogos competitivos, onde há winners e losers (vencedores e perdedores), a altinha é um ótimo exemplo do "ganho generalizado e cooperativo". Todos trabalham para um objetivo comum, compartilham dificuldades, e a beleza do passe importa mais que a posse da bola.

A altinha é leve; não é leviana. 







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O DESEJO DE JUSTIÇA É MOVIDO PELA RAIVA

 


Aqui vão algumas categorias que cobrem o espectro percentual da reação à injustiça.

Não vejo problemas em intitular genericamente de “raiva” a reação a injustiças, mas entendo que há suscetibilidades a respeitar.

• 0–10%: Incômodo
• 10–20%: Chateação
• 20–30%: Aborrecimento
• 30–40%: Irritação
• 40–50%: Contrariedade
• 50–60%: Desconforto forte / sensação de injustiça
• 60–70%: Ressentimento
• 70–80%: Mágoa
• 80–90%: Indignação
• 90–100%: Raiva

Não incluo o ódio por ele já ser em si um estado de mau gerenciamento da raiva. 





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quinta-feira, 7 de maio de 2026

APRENDENDO COM O ANTIMODELO

 


Um dos jeitos como aprendemos sobre o nosso desejo é por exclusão. É vendo aquilo de que não gostamos. Assim como existe o modelo de identificação por gosto, existe o modelo que nos causa desgosto: o antimodelo.

Mas, atenção, não se trata aqui daqueles antimodelos monstruosos que o Superego usa para nos manipular. Não; aqui estamos falando simplesmente daquilo que não queremos ser por desafinidades, por não ter nada a ver conosco. Ou mais precisamente, é o exato contrário do que gostamos.

Meu antimodelo de postura psicanalítica foi encarnado pelo Dr. Roberto, meu primeiro analista, faz 57 anos. Eu o conheci como meu professor de psiquiatria, no curso médico da UFRJ, ainda na Praia Vermelha.

Roberto, como aprendemos a chamá-lo durante as aulas, era simpático, inteligente, bem-humorado, didático, tudo de bom. Como eu sofria, na época, com minha neurose obsessiva, ao saber que ele era também psicanalista, fui procurá-lo para me tratar.

Não fazia ideia do que era a tal de psicanálise, mas… como ele era médico, e bom médico, fui esperando diagnóstico, tratamento e cura do meu problema.

Em sua casa, fui levado à sala de espera, onde havia lindas fotografias em p&b nas paredes. Fiquei encantado: “caramba, será que além de um cara legal, ele também é um fotógrafo talentoso?” Roberto apareceu. Assim que o vi, falei, “Roberto, que fotos espetaculares! São da sua autoria?” Ele, com um semblante sério como eu nunca havia visto nele, me disse:
“É ‘DOUTOR’ Roberto. Pode passar…”
Me levou ao consultório e apontou o divã. Em silêncio estava e em silêncio ficou. Ao final de cinquenta minutos me disse que seriam cinco sessões semanais e que o preço era tanto.

Mais tarde aprendi que isso tudo era chamado de “neutralidade do analista”, uma tela em branco onde o cliente poderia projetar suas “transferências”, acredita?

Foi minha primeira aula do que eu não queria. Nem para a psicanálise, nem para o comportamento do psicanalista.







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