quarta-feira, 18 de março de 2026

NEGOCIAÇÃO SEXUAL – PERFIS MASCULINOS



Como a revolução agrícola instalou nas mulheres um Superego que exige delas uma “pureza sexual” que só cederá para uma “oferta honesta de compra”, tipo casamento etc., a maior parte dos perfis masculinos de negociação sexual tem a ver com o tipo de moeda que eles vão usar.

Mas curiosamente esses perfis servem tanto ao desejo hétero quanto ao desejo homoerótico.

Tipos principais:
1. Papai / filhinho / cafajestes (moedas centrais)
• Papai: professor, provedor, salvador – a moeda é amparo (saber, dinheiro, proteção, “eu cuido de você”). 
Este é o tipo mais comum, pois parte do pressuposto amparador que está seguro de que sua posição é “naturalmente necessária”.
• Filhinho: adolescente eterno, devoto – a moeda é dependência (carência, pedido de colo, adoração, “me cuida, me escolhe”). 
Esses são mais raros, mas encontram parceiras maternais, ou mais frequentemente parceiros do perfil papai, cuja caricatura prostituída é o “sugar daddy”.
• Cafajeste do mal: moeda é engano (promessa fraudulenta de status, casamento, exclusividade, com descarte pós sexo).
Não há exemplo melhor do que o Don Juan, ou seu símile italiano, o “Don Giovanni”, da ópera de Mozart.
• Cafajeste do bem: moeda é desejo explícito e simétrico (eu quero, vejo que você quer, proponho encontro sem embalagem).
Este tipo é fascinante por recriar a abordagem sexual dos caçadores-coletores ancestrais, que viam a mulher com o mesmo direito ao desejo sexual que eles.

2. O esteta
O esteta pode ser definido assim:
• Moeda de troca central: visibilidade e capital erótico-estético.
• Ele oferece ao parceiro: ser visto, exibido, valorizado como “corpo bonito”, “mulher/homem incrível”, “peça rara”.
• Em troca, ele obtém: acesso a corpos/estilos que reforçam o próprio narcisismo (“olhem com quem eu fico”), cenas “instagramáveis”, performances sexuais que ele curadoria.
• Ele pode aparecer tanto em modo papai (“eu te transformo, eu te produzo, te dou um estilo”) quanto em modo cafajeste (“você é mais um troféu na minha coleção”).
Ele existe como subvariante narcísica do papai (o que embeleza/cura o objeto) ou como subvariante do cafajeste (o colecionador de corpos).

3. O camarada
• Quando o camarada opera como “ficante honesto”, com amizade, afeto e sexo sem promessa enganosa, ele se aproxima do cafajeste do bem: reconhece direitos iguais ao desejo sexual.
• Quando há construção de vida compartilhada, apoio mútuo, projeto comum, ele encarna o “amor companheiro”: troca igualitária e cooperativa também na cama (sexo como extensão da parceria, não como moeda de compra).

Sinceramente, esse último é o que mais admiro.





terça-feira, 17 de março de 2026

DEMOCRACIA E TIRANIA: ORIGENS PSICOLÓGICAS

 


Eu estava refletindo sobre o poder do medo de desamparo implantado em nós pelo DNA, em contraste com o desejo de conhecer / entender. Do último, veio a ciência e o uso da razão na busca da verdade.

Mas esse desejo pode se dar plenamente por satisfeito com absurdos, se o preço de cancelar a racionalidade for perder o amparo.

Um líder religioso ou político com quem a massa se identifique e através do qual se sinta amparada pode dizer e explicar com toda a insensatez e irracionalidade que a massa não hesitará em aderir sem qualquer questionamento.

Ah, e no processo também se perde o conceito iluminista de “indivíduo”: em troco de amparo há um claro retorno à massa.

O Iluminismo teve, a meu ver, como principal fator, a liberação da tirania que a prensa de Guttemberg permitiu: ao facilitar a leitura da Bíblia por todos, ele nos tirou do “rebanho de ovelhas” que precisavam da interpretação centralizada das escrituras. Agora o indivíduo tinha amplo acesso ao saber.

Vejo no surgimento das IAs o mesmo potencial democratizante do saber.

Com o Iluminismo, veio a democracia, reinaugurada depois de 2.000 anos pela Revolução Americana. Democracia precisa de indivíduo. Tirania requer massa apavorada confiando na salvação do líder.

Como estamos vendo hoje com Trump e congêneres… 




segunda-feira, 16 de março de 2026

O APRENDIZADO DE ORELHADA

 

Sim, aquilo que se escuta é a principal fonte de aprendizado da humanidade. Você só dá ouvidos se dá atenção; e só dá atenção ao que te atrai; e só se atrai por aquilo que te afeta, que te desperta alguma emoção; e a atenção, somada à emoção, é o melhor fixador de memória que existe: onde estava você quando as Torres gêmeas foram atacadas? Você não vê tudo em sua mente?

“Ah, mas aprender de orelhada? Não é a mesma coisa”. Tem razão: muitas vezes é melhor. É hora de aprender a respeitá-lo. A garotada cada vez lê menos, mas é capaz de aprender muito pelo que ouve e pelo que conversa - desde que tenha alguém interessante para ouvir, ou com quem conversar. 

Tenho a impressão de que o golpe fatal desferido sobre os livros foi a obrigatoriedade de lê-los na escola. A meninada parou de ler por birra às imposições chatas dos pais/colégios.

E não é algo relativo à inteligência, tipo, “ah, os inteligentes lerão”. Não! Tenho encontrado gente brilhante (sempre poucos, claro), nascida em torno do milênio, que nunca abriu um livro na vida, mas são curiosos com o que eu tenho a dizer, e que aprendem pra valer com isso.

Nunca me mandaram ler um livro, na vida: eis porque me tornei leitor. Pela curiosidade (motivação), porque eles estavam ao meu alcance (meios) e porque eu dedicava tempo para eles; quase o mesmo tempo que a garotada dedica às telinhas (oportunidade). 

Não é a inteira verdade: um dia, eu estava estudando história; minha mãe chegou e disse: “Vai estudar história, menino!” Foi o que bastou para eu tacar um Pato Donald dentro do livro, e fingir que estudava. Por birra…
Tive preciosos mestres de orelhada: 

. meu querido ex-cliente Arno Viero, doutor em filosofia da lógica, me ensinou sobre a ética aristotélica e o conceito de liberdade, em Espinoza, Gödel e sua “lógica fuzzy”, de onde tirei “o valor da primeira impressão”.
.Leandro Konder, meu comunista gentil, me ensinou sobre Marx; 

.Márcia Cabral, aluna de Cláudio Ulpiano, me produziu a aversão irremediável aos filósofos franceses contemporâneos; 

.Carlos Eloy Alonso me levou para um grupo em que se debatia psicologia evolucionista. 
.Fernando Gewndsznajder, que me apresentou à epistemologia de Karl Popper e seu princípio de refutabilidade, e mudaram para sempre o rumo da psicanálise que faço.

São alguns dos múltiplos exemplos do que aprendi sem ter aberto um livro. Adorei quando meu irmão me contou sobre o que tratava Marco Aurélio, em suas “Meditações”; foi assim que me tornei um estoico sem ter que lê-lo. 

De fato, eu leio pessoas que foram capazes de ler livros chatos, tipo Kant, Espinoza e Schopenhauer; eu as sugo, parasito… e elas adoram a simbiose. É o que faço hoje com meus alunos. Se isso lhes despertar a vontade de ler as fontes, tanto melhor.

Viva a orelhada! Minha escola dos sonhos não imporá leitura a ninguém. Quem quiser ler o fará por gosto.




quarta-feira, 11 de março de 2026

LEIS ERRADAS DO SUPEREGO

 


Quem nasceu com caráter obsessivo e não foi rico e mimado na infância costuma sofrer com a “lei do desperdício” adestrada em seu Superego: “não pode jogar dinheiro fora!” A lei em si não está errada, o erro mora em seu rigor absoluto.

Isso faz com que a pessoa não apenas cole um resto de sabonete no novo (economizando assim algo da ordem de dez centavos), mas também não consiga jogar fora – ou passar adiante – uma compra que não a satisfez. “Comprou? Agora usa!”

Uma antiga anedota conta que o português comprou um pacote fechado que lhe foi vendido como contendo mariolas. Quando abriu o pacote em casa, viu que ele era de barrinhas de sabão de coco…, mas ele as comeu mesmo assim, para “aproveitar o vintém”.




terça-feira, 3 de março de 2026

CARÁTER OBSESSIVO: MICRO-VANTAGENS E CURIOSIDADES

 


Vantagens “domésticas” e econômicas

• Aproveitar tudo até o fim: espremer a pasta de dente até a última gota, usar o caderno até a última folha, guardar “restinhos” úteis (clipes, parafusos, embalagens) antes de jogar fora.

• Não desperdiçar: economia de água, luz, comida, sabonete (como “colar” o sabonete velho no novo), cuidado com validade de alimentos, uso racional de recursos em geral.

• Organização meticulosa: ter lugar certo para cada coisa, gavetas classificadas, documentos arquivados, listas e planilhas; isso diminui perdas, esquecimentos e retrabalho.

• Conservação de objetos: zelo excessivo com coisas (não riscar o carro, manter livros impecáveis, guardar notas e garantias), o que prolonga a vida útil dos bens.

Um exemplo típico é a pessoa que nunca “perde” boletos ou exames porque tudo está datado, furado, encadernado e guardado sempre no mesmo armário.

Pontualidade e confiabilidade

• Pontualidade rígida: chegar sempre antes do horário, planejar trajetos com folga, checar compromissos repetidamente, o que a torna muito confiável para encontros, consultas e prazos.

• Cumprimento de regras: seguir normas de trânsito, regras de condomínio, protocolos profissionais com exatidão; isso traz previsibilidade e segurança para o grupo.

• Responsabilidade extrema: não “faltar” com compromissos, sentir culpa intensa ao atrasar ou falhar, o que frequentemente leva a um alto desempenho profissional.

Em muitos ambientes de trabalho, essa pessoa vira a referência para “fazer do jeito certo” e “lembrar de tudo”.

Trabalho, estudo e desempenho

• Perfeccionismo produtivo (até certo ponto): revisar textos várias vezes, checar cálculos, conferir resultados, o que reduz erros em tarefas técnicas ou de alto risco.

• Conscienciosidade alta: disciplina, persistência, foco em detalhes, capacidade de sustentar rotinas longas (estudo, plantões, projetos complexos).

• Planejamento minucioso: fazer checklists, cronogramas, esquemas; antecipar problemas e preparar “planos B”.

Há uma zona “virtuosa” em que esse traço se confunde com alta competência e confiabilidade.

Relações, moral e valores

• Ética e honra da palavra: tendência a seguir códigos morais rígidos, ser “correto”, pagar dívidas, cumprir promessas, não “passar os outros para trás”.

. Nunca ficar devendo nada para ninguém.

• Lealdade e previsibilidade: manter vínculos por muito tempo, ser estável em posições e afetos, evitar impulsividade que desorganize o ambiente.

• Cuidado com o outro por meio do controle: lembrar medicamentos, horários, compromissos alheios, organizar a vida da família (contas, exames, calendário).

Claro que a contrapartida é a rigidez e a dificuldade com imprevistos, mas a “função de superego externo” que oferecem é inegável.


Outros traços curiosos frequentes

• Colecionismo “útil”: guardar comprovantes, manuais, caixas de produto “para garantia”, o que às vezes salva em situações burocráticas.

• Ritualização benigna: sequências fixas ao acordar, ao sair de casa, ao arrumar a mesa de trabalho, que impõem uma ordem tranquilizadora ao dia.

• Obstinação/teimosia: grande capacidade de sustentar decisões, aguentar frustrações e insistir até terminar o que começou.

• Simetria e estética da ordem: prazer em ver tudo alinhado, categorizado, simétrico (livros por tamanho ou cor, roupas por tonalidade). 






PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA AJUDANDO À PSICANÁLISE

 


Me veio ontem à noite (com posterior conversa com o Perplexity e mais uma semelhança de “programação” entre DNA e IA).

É mais uma contribuição da psicologia evolucionista que se integra à psicanálise:

Pode ser resumido assim:

1. **Medo do estranho como ponto de partida**  
   - Organismos nascem com uma tendência a temer o que é estranho, novo, não previsto.  
   - Esse medo inato protege daquilo que pode ameaçar a integridade física e, em última instância, a replicação do DNA.

2. **Do medo bruto ao interesse epistêmico**  
   - Quando o estranho não é imediatamente letal, o medo pode se “diluir” em estados intermediários: estranhamento → ficar intrigado → curiosidade.  

   - A curiosidade é o desejo de conhecer/entender que transforma o estranho em familiar.  
   - Ao conseguir isso, o organismo experimenta um **prazer epistemológico**: alívio da tensão de incerteza mais um ganho ativo de previsibilidade.

3. **Conhecer como forma de controle/ordenação**  
   - Do desejo de conhecer nasce também o desejo de **controlar e ordenar**: entender para poder antecipar, influenciar, organizar o ambiente interno e externo.  
   - Controle/ordenação é, nesse esquema, um prolongamento do movimento que começou como medo do estranho: reduzir incerteza, impor estrutura sobre o caos potencialmente perigoso.

4. **Função evolutiva comum**  
   - Medo do estranho, desejo epistemológico e desejo de controle/ordenação seriam, assim, três estágios de uma mesma economia pulsional.  
   - Na base, todos servem ao mesmo fim evolutivo: aumentar segurança, previsibilidade e, com isso, criar condições para buscar prazer sexual/reprodutivo e garantir a replicação do DNA.  

Em uma frase: o que começa como medo do estranho se desdobra em curiosidade e necessidade de controle, de modo que conhecer e ordenar o mundo deixam de ser apenas defesas e passam a ser também fontes de prazer em si — o prazer epistemológico como refinamento de um antigo mecanismo de sobrevivência.






segunda-feira, 2 de março de 2026

A “TEORIA DA ESCADA”: INDEPENDÊNCIA VALE MAIS QUE PROFISSÃO IDEALIZADA

 


As crianças e a garotada atual têm uma crença do senso comum de que só podem trabalhar e ganhar dinheiro se for “naquilo que mais gostam na vida”. 

Isso costuma fazer que vivam encostados em preparações intermináveis, ou nem isso, em estado contínuo de bosta n’água. Faz parte da epidemia de mimo que assola as novas gerações.

A ideia antiga de que a independência é como uma escada de ganhos com o que se puder produzir, com “trabalhos menores”, como hoje seria visto, nos daria muitos avanços se fosse revivida.

É a “teoria dos degraus da escada” rumo ao encontro do melhor desejo profissional: subir degrau por degrau não diminui ninguém, ao contrário; principal aprendizado não é o da profissão, é o de ganhar dinheiro rumo a independência, que é a base de mandar na própria vida.