quinta-feira, 20 de junho de 2024

OUVIDO NO CONSULTÓRIO

 



O cliente estava contando uma história para os amigos; seu pai, ainda que fora do grupo, escutava:

“Ele ficou encantado com a beleza da vizinha e botou na cabeça que iria se casar com ela. Marceneiro numa cidade pequena, se arrumou todo e foi fazer sua proposta. Mas a moça disse que era virgem, e que queria continuar assim. Ele disse que prometia não encostar nela, só queria que ela se casasse com ele. Ela aceitou, e eles se casaram”.

O pai, ao lado, comentou: “Mas que maluquice! Que cara bobo!”

A história continuou: “Acontece que uns tempos depois a moça ficou grávida… mas não do marido!” Comentário do pai: “Mas que sem-vergonha!” 

“O marido foi tirar satisfações com a mulher, mas ela jurou que não tinha transado com ninguém, que continuava virgem”. O marido aceitou as explicações e a apoiou na gravidez. E o pai: “Além de corno, otário! Mas que mulerzinha mau-caráter!”

“Pois é, a gravidez correu bem, o menino nasceu e cresceu com saúde, amparado pela mãe e pelo marceneiro, e acabou mundialmente famoso, pois aos 33 anos foi condenado à morte e morreu crucificado”.

Nessa hora, o pai, católico fervoroso, deu um gemido fundo de dor, como se tivesse levado uma facada no peito. No dia seguinte, o cliente foi convocado pela mãe, que lhe deu uma descompostura por ter blasfemado na casa deles, que aquilo era inaceitável etc.

O filho respondeu que não, que nunca havia proferido uma blasfêmia, sequer um adjetivo, que ele tinha contado os simples fatos, sem a aura do sagrado, como os locais de Nazaré teriam feito, na época.



quarta-feira, 19 de junho de 2024

ZONAS ERÓGENAS PARECIDAS

 


Uma surpresa de consultório foi a semelhança que descobri entre duas potenciais zonas erógenas: os canais vaginal e retal. Potenciais sim, pois depende da loteria genética se elas serão causadoras de prazer sensório.
Claro, tudo começou com as mulheres, pois elas já foram vistas pela psicanálise com desconfiança “por terem orgasmo imaturo” (orgasmo a partir do estímulo do clítoris, e não da penetração vaginal). 

Essa idiotice, se aplicada aos homens, iria chamá-los de imaturos “por terem orgasmo a partir da estimulação do pênis”. Sim, porque o pênis nada mais é do que o clitoris do feto, que se desenvolveu por causa da testosterona.

A seleção natural fez todos os homens terem orgasmos, pois a sobrevivência da humanidade depende do orgasmo masculino (por causa da procriação). Por isso eles treinam inevitavelmente desde cedo a masturbação, resultado daquele clitoris crescido e conspícuo.

Já as mulheres não. Nelas, a procriação não tem nada a ver com o orgasmo. Enquanto o orgasmo masculino é uma necessidade, o feminino é um luxo. Porque as únicas zonas erógenas obrigatórias são o pênis e o clitoris. As outras dependem da loteria genética (é lotérica mesmo, tem gente que tirou a sorte grande).

Mas, e o orgasmo vaginal? É loteria. O canal vaginal é um conjunto de músculo e mucosa que pode ser erógeno ou não. Haverá mulheres que terão orgasmo por pura penetração, e outras que precisarão do estímulo clitoriano durante a penetração. 

Mas… mesmo nas mulheres que não têm o canal vaginal como zona erógena, a penetração terá um papel psicológico e facilitador do orgasmo muito importante: a entrega, o desligamento dos controles e das cobranças: se o Superego não sair de cena, não haverá orgasmo. 

O que me levou ao outro achado: o canal retal como similar ao canal vaginal (estrutura muscular e mucosa/zona erógena ou não). Ouço o relato de homens, gays ou héteros, sobre o que descobriram sobre seus canais retais: que, como o canal vaginal das mulheres, o reto pode ser erógeno ou não. 
Que, como as mulheres, há homens que têm orgasmo anal sem estímulo do pênis (inclusive sem ereção!) e outros que usam a penetração anal como estímulo psicológico (entrega, desligamento de controles) para ter orgasmo através da masturbação do pênis.

E mais, como os orgasmos vaginais e retais se parecem: podem ser prolongados, mesmo intermináveis; podem produzir estremecimentos e contrações musculares pelo corpo todo; podem ser mais intensos do que qualquer orgasmo genital, frequentemente são descritos como o maior prazer que a pessoa já sentiu na vida.

Isso, é claro, se aplica a homens e a mulheres. Só que as mulheres exploram pouco seus potenciais anais… por desinteresse, delas ou dos parceiros, ou por restrições do Superego. 

E novamente aí se assemelham a muitos héteros. Em ambos os casos, os que se aventuraram nesse terreno descobriram-se eventualmente premiados na loteria…


terça-feira, 18 de junho de 2024

O AMIGO PERGUNTA : PSEUDOCIÊNCIA?

 



De Renato Capper : “O que você acha do que a Natália Pasternak disse sobre a psicanálise, que ela é uma pseudociência?”

Francisco Daudt: Acho que só temos a lhe agradecer: ela funcionou como o menino da fábula que disse “o rei está nu”. Ela nos fez um grande bem quando botou o dedo num assunto precioso para quem é psicanalista e tem aspirações iluministas e racionais: que tipo de conhecimento é a psicanálise?

Se há um reparo a fazer no que ela disse, seria que a psicanálise não é, nem pode ser (pelo menos por enquanto) uma ciência. Eu quero que ela seja uma protociência, um conhecimento que ambiciona ser científico, mas ainda não pode ser, dada a complexidade da mente humana.

Algo como um dia foi a alquimia, a primeira tentativa de abordar aquilo que se tornou a química: ainda muito em fase de observação, experimentação e hipóteses, algumas (ou muitas) viagens na maionese, algumas (ou muitas) embriaguezes delirantes, mas… com alguns (ou poucos) pesquisadores - nos quais me incluo - com genuíno desejo iluminista de razão, de lógica, e da humildade própria ao espírito científico: ainda não sei se o que observo é verdadeiro ou falso, mas quero muito saber, quero muito testar, quero muito dar a cara a tapa.

Esse “dar a cara a tapa” é o princípio de Karl Popper, meu filósofo da ciência predileto. Ele dizia que, no método científico, as hipóteses precisam estar vulneráveis à refutação, a que lhes apontem os erros: se elas forem sobrevivendo a essa peneira, têm chances de ser verdadeiras, mas… continuarão como alvo de questionamento, nunca se afirmarão como verdades absolutas.

Ele foi o legado de Freud: ele, no final da vida, foi deixando de lado o “Freud explica” em favor do “Freud investiga”; deixando de lado as interpretações para, como diz o título de um de seus últimos trabalhos, “Construções em análise”.




quarta-feira, 12 de junho de 2024

EFEITO PAC - QUANDO A FALTA DE EMPATIA VEM DO TDAH

 


Um relato curioso de consultório me fez ver que nem toda falta de empatia é resultado de narcisismo. 

Ou, assim como existe o “narcisismo de tumulto mental” (a cabeça está tão alugada que não sobra espaço pra mais ninguém), o TDAH também pode promover esse tumulto, e incapacitar a pessoa para a empatia.

O relato, que vou chamar de “efeito Pac”:

“Pac" é o nome do cachorro que mora na casa do Gustavo, e que adora ele. Um dia eu fui levar o Gustavo na casa dele, ele só tinha que pegar uma coisa, de modo que eu fiquei embaixo do prédio, esperando no carro. 

Pois ele demorou VINTE MINUTOS! Tive que interfonar pra saber o que tinha acontecido. Aí voltou. “O que houve?” Ele:

1. não tinha se dado conta da demora e ficou envergonhado quando eu disse que tinha ficado esperando por vinte minutos. 

2. me explicou que quando ele entrou em casa, o Pac fez tanta festa pra ele, que ele ficou lá brincando… e se esqueceu de mim! Melhor dizendo: eu sumi de sua cabeça até que disseram pra ele que eu estava no interfone.”

Entendi que o “efeito Pac” não é nenhuma sacanagem, nem descaso, nem desinteresse, nem desamor: ele é parte do TDAH, que o TDAH atrapalha a empatia (ter o outro em mente, lembrar dele, se interessar por ele). 
O TDAH aumenta por si só o índice de narcisismo da pessoa, sem que isso implique narcisismo genético, muito mais grave. 

Mesmo porque o apenas portador de TDAH não tem a assinatura do narcisismo genético: a permanente necessidade de se afirmar como foda, por medo de ser merda.



terça-feira, 11 de junho de 2024

TIRAR O DRAMA FAZ PARTE DA CURA

 


Todas as orientações terapêuticas começam por tirar ou relativizar o drama. O fato de se fazer diagnóstico do problema é o meio principal de se tirar o drama, pois se a aflição de origem desconhecida é dramática, a aflição que se entende e que se pode curar não é dramática.





terça-feira, 28 de maio de 2024

O SUPEREGO SE PARECE COM DEUS PAI

 


Não se trata de fé, ou de crenças religiosas, mas de como minha cabeça de criança, formado que fui por família católica fervorosa, entendeu esse personagem meio esquecido e pouco falado: Deus Pai.

Ele tudo via. Sua representação mais conhecida era a de um enorme olho dentro de um triângulo. Não adiantava tentar esconder nada dele, nem mesmo nossos mais íntimos pensamentos. 

Ele não só via, mas julgava com severidade, através de seus dez mandamentos impossíveis de serem cumpridos ao pé da letra (por exemplo:“amar a Deus sobre todas as coisas”? Mais que a meu pai e mãe? Eu deveria sentir culpa a cada onda de amor por eles, sem nenhuma correspondente ao Criador?). 

Se houvesse transgressão por “PENSAMENTOS, palavras, obras e omissão, o destino era um só: a eternidade no fogo do inferno! Ele mesmo havia expulso Adão e Eva do paraíso. Não só os dois, mas todos os seus descendentes, nós, os “degredados filhos de Eva”. Não havia dosimetria de pena comparável em toda a história humana.

Pois quando fui entendendo da mente humana, vi uma semelhança enorme entre o Deus Pai e o Superego: 

1. Ambos estão “acima de mim” (Superego significa exatamente isso, em latim).

2. Ambos “tudo veem”, até nossos mais íntimos pensamentos.

3. Ambos tudo julgam com a pena que nos causa a maior angústia: o desamparo, o degredo, a expulsão do paraíso, essa que é o verdadeiro inferno na Terra.

4. Ambos causam culpa, “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa” em caso de transgressão das tais leis.

Não admira que fosse tão fácil e compreensível, para o menino que fui, acreditar na existência desse Deus Pai: ele morava em minha cabeça… como meu Superego.


terça-feira, 21 de maio de 2024

VÍCIOS: O PODER DO GATILHO

 


O cliente está há mais de vinte anos sem beber. Ele não tem bebida em casa, deixou de frequentar os antigos cúmplices de botequim, vive uma vida tranquila e produtiva, mas…

…comprou uns lenços umedecidos com álcool que são um sucesso para limpar seus óculos. Como ele é obsessivo, empreende esse ritual com certa frequência. E deu pra cheirar o lenço assim que termina a limpeza: uma longa e profunda prise.

Foi o bastante para começar a pensar de novo em bebida. A olhar as garrafas de whisky nas prateleiras do supermercado. A namorar a ideia de que, talvez, “um pouquinho não fizesse mal”.

Entendeu o que estava acontecendo: quando há vício em substâncias, o gatilho permanece. Nem é preciso muito “duro” para que a ideia do “Dreher” apareça. Basta o cheiro…