De como o Superego é capaz de nos roubar o prazer, até “falando de amor”.
## 1. Superego e o drama
- Descrevo o Superego como uma instância que nos adestra por “choques” de vergonha, ridículo, culpa e angústia, produzindo um mal‑estar tão imediato que vira drama.
- Drama é o motor da reatividade: cria urgência, impede reflexão, emburrece; é o instrumento de domínio do Superego tirânico, que só governa quando consegue abolir a inteligência.
## 2. Discurso tirânico vs. democrático (política e clínica)
- Comparo a fala de alguns raros políticos democratas (reflexiva, calma, complexa em linguagem simples, pacificadora) com a de alguns pastores religiosos (intensa, aos berros, carregada de imagens ameaçadoras e acusatórias, voltada para reatividade, dramática, em suma).
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- O tirano precisa de drama, emburrecimento e instrumentos de choque para obter submissão; o democrata fala à inteligência, transmite segurança e amparo, e assim desativa o drama e convida à reflexão.
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- A proposta clínica da psiSE (tranquila, acolhedora, bem‑humorada) é análoga ao “discurso democrático”: ela tira o drama, oferece parceria e permite que o paciente pense, em vez de apenas reagir.
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- Quando essa postura e essa fala não bastam para baixar o drama interno, quando o cliente chega atormentado por sofrimento, o apoio farmacológico (como a bupropiona) é importante para completar essa função antissuperegóica.
## 3. Erotismo: de “fazer amor” a “brincar”: com drama x sem drama
- Há uma idealização comum: imaginar o erotismo como um perfeito desdobramento da afetividade – acolhimento, carinho, entendimento – sintetizado na expressão “fazer amor”.
- Essa imagem idealizada monumentaliza o sexo e o aproxima de um altar superegóico: ele vira prova de amor, rito máximo, fonte de culpa e cobrança quando a realidade não corresponde. Ela é uma especie de Ricardão sofisticado: o sexo como prova de amor perfeito. É um “drama para cima”.
- Em contraste, a realidade erótica humana se parece mais com essa maravilha da nossa espécie, o continuar criança pela vida afora, característica do caçador-coletor: no sexo, em essência, “brinca‑se”, sem drama, sem monumentalização – o erotismo como jogo, curiosidade, personagens, experimentação.
- Dessa transição nasce a oposição “fazer amor” (idealização afetivo‑romântica monumentalizante e dramática) versus “brincar” (erotismo lúdico, neotênico, leve, sem dramatização moral).
## 4. Brincadeira erótica, fetichismo e não patologização
- Muito do que se chama “fetichismo” é, na realidade, apenas brincadeira erótica: jogos de papéis, personagens, variações de gênero, objetos, fantasias.
- Ao rotular tudo isso como “fetichista”, aciona‑se um olhar crítico e patologizante, como se todo fetichismo fosse vicioso e sempre danoso.
- O que a psiSE vê como problemático é o “vício fetichista” (compulsivo, empobrecedor, danoso), não a brincadeira; brincadeira consensual nunca é doença.
- Por exemplo, há homem hétero que gosta de “brincar de fêmea” no sexo. Isso não é patologia nem motivo de crítica, é simplesmente uma forma de brincar dentro do campo erótico.
## 5. Linguagem simples, McLuhan: linguagem do Ego
- A psiSE defende um vocabulário simples, acessível, que qualquer pessoa entenda e que não induza a monumentalizar a escuta: “brincadeira” versus “vício fetichista”, em vez de “parafilia” versus “transtorno parafílico”.
- Termos técnicos pesados soam como sentenças de tribunal: assustam, produzem vergonha e distância, e funcionam como instrumentos do superego, mesmo quando o conteúdo tenta ser neutro.
- Retomando McLuhan (“o meio é a mensagem”), a forma da linguagem já é conteúdo: se você fala de algo que é brincadeira, mas usa palavras pesadas, sofisticadas, inatingíveis, manda uma mensagem superegóica, de julgamento e hierarquia.
- Ao escolher palavras simples (“brincadeira”, “vício”) e um tom acolhedor, a PsiSE alinha meio e conteúdo: sua linguagem, como meio, comunica humanidade comum, ausência de ameaça e confiança na inteligência do paciente – exatamente o inverso da postura superegóica.
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