Ponto de vista neuroquímico
Ficou como crenca geral que a dopamina é o neurotransmissor do prazer. Mas… não é bem assim. Ela é o principal avaliador de prazer-desprazer (ou da relação custo-benefício que rege cada ato nosso, voluntário ou não, consciente ou não). Tanto “mais prazer” quanto “menos desprazer” liberam dopamina. Vamos ver como isso funciona:
A lógica central é que o cérebro não está tão voltado para picos de prazer, mas sim para o saldo mensal de liberação de dopamina ligado sobretudo ao alívio de desprazer.
Ao longo de um mês, a vida oferece pouquíssimos momentos de prazer intenso, com grandes picos de dopamina, mas oferece inúmeras situações em que um desconforto diminui, um risco é evitado, uma angústia baixa de intensidade é aliviada.
Cada pequeno alívio – da ansiedade, da culpa, da tensão ou do medo – produz uma liberação de dopamina suficiente para o sujeito sentir “melhorei”, e isso se repete dezenas, centenas de vezes. Assim, na soma, o alívio de desprazer rende muito mais dopamina acumulada do que os raros picos de prazer.
É aí que entra o custo‑benefício dopaminérgico: o sujeito, sem saber, escolhe caminhos que aumentam a quantidade de alívios possíveis e diminuem exposições a grandes dores, mesmo que isso envolva sintomas irracionais.
Como na fobia. Confrontar o pai amado‑temido, por exemplo, é uma aposta de altíssimo custo: ameaça de desamparo, culpa, conflito e perda do vínculo. O cérebro prevê um saldo de dopamina negativo: muita dor, pouco alívio. Já a fobia de barata é um “mal menor”: o medo é deslocado para um objeto pequeno e evitável, e cada vez que o sujeito consegue evitar a barata, pedir ajuda ou “escapar”, ele ganha uma dose de alívio.
Em um mês, esse ciclo medo‑evitação‑alívio se repete tantas vezes que a fobia gera, paradoxalmente, mais dopamina total do que o enfrentamento direto da fonte real de angústia. A fobia, então, é uma solução “dopamínica” de compromisso: conserva o vínculo com o pai, evita o desamparo absoluto e organiza o medo numa forma que permite muitos pequenos alívios, mesmo ao preço de um sofrimento irracional.

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