1. A base inicial é orgânica: o ser humano deve ser pensado como uma máquina viva programada pelo DNA para continuar funcionando, preservar-se, regular-se e adaptar-se ao ambiente.
2. Essa máquina possui protetores e processadores biológicos que operam continuamente para manter sua estabilidade interna e sua capacidade de resposta ao mundo.
3. Durante a vigília, a máquina recebe estímulos, toma decisões, enfrenta conflitos, administra desejos, frustrações, medos, culpas e exigências externas.
4. Essa atividade diurna produz sobrecarga. O processamento começa a ficar mais lento, mais ruidoso e menos fluido, como acontece com qualquer máquina complexa submetida a excesso de informação.
5. O sono é um dos grandes protetores da máquina programada pelo DNA.
6. A função primordial do sono é permitir a resetagem da máquina durante a noite.
7. Essa resetagem não significa apagar a experiência vivida, mas esvaziar a sobrecarga, reorganizar os circuitos, reduzir o ruído acumulado e devolver fluidez ao funcionamento.
8. Para que essa resetagem aconteça, a máquina precisa manter o sono sem interrupções desnecessárias.
9. O sonho surge dentro do sono como um digestor das perturbações.
10. Essas perturbações podem vir da véspera: conflitos, desejos, aflições, culpas, medos, excitações, frustrações e restos emocionais do dia.
11. Elas também podem surgir durante o próprio sono, como fome, sede, vontade de urinar, ruídos externos ou desconfortos corporais.
12. A função primordial do sonho é digerir essas perturbações para que elas não interrompam o sono.
13. Por isso, o desejo mais básico realizado pelo sonho é o desejo de continuar dormindo.
14. O sonho pode satisfazer, apaziguar ou apenas acomodar uma perturbação.
15. Um exemplo é o sonho de urinar, que tenta responder à vontade de ir ao banheiro sem acordar imediatamente a pessoa.
16. Outro exemplo é o sonho de comer, quando alguém foi dormir com fome.
17. Nesses casos, o sonho transforma uma exigência corporal ou psíquica em cena onírica, permitindo que a máquina continue sua resetagem.
18. O sonho, portanto, não é apenas realização de desejo no sentido clássico, mas digestão funcional das perturbações que ameaçam o sono.
19. A realização de desejo é uma das formas possíveis dessa digestão, mas não a única.
20. Quando a digestão onírica funciona, há apaziguamento suficiente para que o sono prossiga.
21. Quando a carga perturbadora é excessiva, o sonho pode fracassar em sua função de manter o sono.
22. Isso acontece especialmente quando há uma sobrecarga intensa entre desejo e superego.
23. Nesses casos, a perturbação se torna indigerível.
24. O sonho então deriva para o pesadelo.
25. O pesadelo é a falência do sonho como digestor.
26. Em vez de preservar o sono, o pesadelo rompe o sono e acorda a pessoa.
27. Assim, a sequência básica é: máquina programada pelo DNA, vigília, sobrecarga, sono, resetagem, sonho, digestão das perturbações, manutenção do sono.
28. A fórmula central é: o sono reseta a máquina; o sonho digere as perturbações para que a resetagem não seja interrompida.

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