“Homem tem que ser assim” - “Mulher tem que ser assado”
O eixo central é muito claro: o Superego sexual como polícia de modelos/antimodelos para cada sexo, atualizado pelo “senso comum” de cada época:
## Antimodelos centrais
- Para os homens: não ser “viado”, entendido sobretudo como não ser afeminado, frágil, passivo, dependente, chorão, cuidador demais, “bonzinho demais”.
- Para as mulheres: não ser “puta”, isto é, não ser vista como promíscua, disponível, interesseira, “sem vergonha”, “sem futuro para casar”.
Pode-se nomear isso como “linhas vermelhas superegóicas”: cruzou, vira antimodelo, perde cidadania sexual.
## Modelos masculinos impositivos
Além de winner, fodão, atleta etc.:
- Provedor e chefe de família: ter dinheiro, carreira, ambição, pagar a conta, “segurar as pontas”, ser o que decide quando tem sexo e como a casa funciona.
- Dono da iniciativa sexual: tem que tomar a frente, nunca ter medo de chegar, mas ao mesmo tempo nunca ser “assediador”; anda sobre um fio.
- Invulnerável: não pode pedir ajuda, não pode admitir solidão, medo, tristeza, muito menos inveja e dependência afetiva.
- Hetero incontestável: qualquer desvio ou curiosidade vira ameaça de desqualificação total (“se experimentar uma vez, já era”).
Dá para articular isso como “masculinidade precaríssima”: status que precisa ser provado o tempo todo, sob risco permanente de virar antimodelo.
## Modelos femininos impositivos
Além de não poder ser “puta” e, hoje, “não querer ser sustentada”:
- Boa menina contemporânea: sexualmente ativa (mas na medida certa), bonita, magra, vaidosa, sensual, porém sempre “empoderada” e controlada.
- Competente total: estudar, trabalhar, se destacar, competir com homens e, ao mesmo tempo, ser doce, empática, disponível emocionalmente.
- Responsável pela relação: manter o casal, “educar” o homem, gerir a casa, antecipar necessidades emocionais de todos.
- Feminista “correta”: apoiar outras mulheres incondicionalmente, romper com qualquer desejo de dependência masculina, não “trair o gênero” ao desejar casamento tradicional.
Aqui dá para mostrar o “duplo vínculo”: seja independente, mas se for “fria” demais também é condenada; se for muito romântica, é brega/antifeminista.
## Superego “progressista” e culpa de grupo
o politicamente correto. Dá para desdobrar:
- Culpa coletiva de identidade: homens, brancos, heteros, cis, classe média para cima, convocados a se sentir culpados pelo que o grupo faz ou fez, independentemente da vida concreta de cada um.
- Novo antimodelo masculino: o “machista, branco, hetero, cis, privilegiado, escroto”, que funciona como espantalho moral e fonte de vergonha preventiva (“não quero parecer esse cara”).[9][8]
- Novo antimodelo feminino: a “mulher submissa”, “bela, recatada e do lar”, culpabilizada por desejar modelo tradicional de casamento, filhos, dependência parcial financeira.
Isso permite mostrar que o Superego muda de conteúdo, mas mantém a estrutura: lei, choque afetivo (vergonha, culpa, nojo, ridículo) e ameaça de exclusão.
Outras imposições:
- Corpo:
- Homens: não podem engordar “feminino”, não podem ser “molinhos”, sem músculos, nem cuidar demais da aparência (vira “metrossexual”, “viado”).
- Mulheres: obrigação de juventude eterna, maquiagem, moda, cirurgias, mas sem “vulgaridade” demais.
- Trabalho e dinheiro:
- Homem fracassado econômico vira menos homem; desemprego é quase castração social.
- Mulher que ganha demais pode ser punida como “mandona”, “difícil”, “assustadora”; se ganha de menos e depende, é “interesseira” ou “acomodada”.
- Afeto e cuidado:
- Se o homem assume papel cuidador (criança, idoso, casa), é desvalorizado ou suspeito.
- Se a mulher não assume, é acusada de egoísmo, frieza, “não ser mulher de verdade”.