Um dos jeitos como aprendemos sobre o nosso desejo é por exclusão. É vendo aquilo de que não gostamos. Assim como existe o modelo de identificação por gosto, existe o modelo que nos causa desgosto: o antimodelo.
Mas, atenção, não se trata aqui daqueles antimodelos monstruosos que o Superego usa para nos manipular. Não; aqui estamos falando simplesmente daquilo que não queremos ser por desafinidades, por não ter nada a ver conosco. Ou mais precisamente, é o exato contrário do que gostamos.
Meu antimodelo de postura psicanalítica foi encarnado pelo Dr. Roberto, meu primeiro analista, faz 57 anos. Eu o conheci como meu professor de psiquiatria, no curso médico da UFRJ, ainda na Praia Vermelha.
Roberto, como aprendemos a chamá-lo durante as aulas, era simpático, inteligente, bem-humorado, didático, tudo de bom. Como eu sofria, na época, com minha neurose obsessiva, ao saber que ele era também psicanalista, fui procurá-lo para me tratar.
Não fazia ideia do que era a tal de psicanálise, mas… como ele era médico, e bom médico, fui esperando diagnóstico, tratamento e cura do meu problema.
Em sua casa, fui levado à sala de espera, onde havia lindas fotografias em p&b nas paredes. Fiquei encantado: “caramba, será que além de um cara legal, ele também é um fotógrafo talentoso?” Roberto apareceu. Assim que o vi, falei, “Roberto, que fotos espetaculares! São da sua autoria?” Ele, com um semblante sério como eu nunca havia visto nele, me disse:
“É ‘DOUTOR’ Roberto. Pode passar…”
Me levou ao consultório e apontou o divã. Em silêncio estava e em silêncio ficou. Ao final de cinquenta minutos me disse que seriam cinco sessões semanais e que o preço era tanto.
Mais tarde aprendi que isso tudo era chamado de “neutralidade do analista”, uma tela em branco onde o cliente poderia projetar suas “transferências”, acredita?
Foi minha primeira aula do que eu não queria. Nem para a psicanálise, nem para o comportamento do psicanalista.
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