quarta-feira, 15 de julho de 2026

VÍCIOS DE SUBSTÂNCIAS E VÍCIOS DE COMPORTAMENTO: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

 


1. De onde vêm cada um

Começos 
Os dois vícios começam do mesmo jeito: a vida está difícil, a pessoa mal administra seus desejos e vai buscar um alívio. Só que, depois de um tempo, os dois passam a funcionar pelo mesmo mecanismo — o vaivém de fissura e alívio, movido a dopamina, que, uma vez que engrena, roda sozinho, sem precisar mais do motivo que deu origem a ele.

A diferença entre esses vícios está na composição.
. O vício de substância tem pouco da “pessoa e suas características” envolvidos, e muito de genética e circunstância — família, convívio, disponibilidade da droga, parceiros que participam junto. A fissura, depois que o vício pega, é fissura da própria substância — já não é mais fissura da vida difícil.
. No vício comportamental contém muito mais “pessoa e suas características”. O vício vira uma espécie de personagem que a pessoa criou para lidar com um desejo mal administrado. 

O sadomasoquismo, por exemplo, nasce do desejo de justiça mal administrado, que virou esse ciclo de sofrer e fazer sofrer. Mesmo rodando pelo mesmo motor de fissura e alívio, esse personagem carrega a marca de quem o criou. Há vícios derivados do caráter obsessivo, p.ex., como o de controle, domínio e submissão, avareza, acumulação e outros.

Como tratar cada um

No vício de substância:
1º passo — olhar as durezas da vida da pessoa e o que está em volta: genética, hábitos, quem convive com ela, se tem parceiros de vício, se falta alguma coisa boa pra fazer na vida. Ela vai precisar preencher sua vida com prazeres construtivos.

2º passo — focar na abstinência. Quase toda substância dá pra parar de vez; carboidrato é a exceção, não dá pra abstinência total. E a abstinência funciona melhor quando não é vendida como privação, e sim como abrir espaço pra coisas boas e interessantes que substituam a necessidade de alívio.

No vício comportamental:
1º passo — fazer a pessoa estranhar o vício. Diferente do vício de substância, ela não vê aquele comportamento como algo estranho a ela — então o primeiro trabalho é ajudar a reconhecer que aquilo, sim, é um vício. E isso sem moralismo: não é falha de caráter, é uma forma torta, mas uma forma, de lidar com um desejo insatisfeito.

2º passo — descobrir qual é o desejo de base por trás do vício e como ele foi mal administrado. No sadomasoquismo, p.ex., o desejo de base é o de justiça, mal resolvido — não é um desejo sexual nem um desejo de sofrer.

terça-feira, 14 de julho de 2026

EM DEFESA DA VAIDADE

 





Resumo

“Vaidade” vem do latim “vanitas”, que significa “vazio”. É lido de maneira pejorativa, como defeito, mas vou mostrar que é estrutural e programada pelo DNA.

- **Vanitas** aponta para um vazio estrutural: o desejo nunca se preenche de vez. É o vazio do desejo que nos move para preenchê-lo.

- A **exibição** — corporal, intelectual, estética, de status — é uma resposta biológica e simbólica a esse vazio: um modo de se tornar selecionável, admirável, desejável.

- A **psicologia evolucionista** mostra que esse repertório de exibição acompanha toda nossa história, dos caçadores‑coletores à sociedade de consumo, sempre ligado a seleção de parceiros, de alianças e de trajetórias.

- O **moralismo da vaidade** tenta transformar essa estrutura normal em defeito, sem ver que está condenando, junto com a exibição, o próprio movimento do desejo de ser escolhido.

Portanto, a exibição não é apenas “vaidade pejorativa”; ela é um **modo biologicamente enraizado de buscar preenchimento do vazio do desejo**, e o julgamento moral sobre isso diz mais do Superego e das ideologias que o alimentam do que da estrutura do desejo em si.

Por extenso:

A moralização da vaidade só faz sentido quando se esquece que, por baixo da “exibição”, há um mecanismo biológico de cortejo que tenta dar forma a algo estruturalmente vazio: o desejo.

## Vanitas: vazio estrutural, não defeito

Etimologicamente, **vanitas** é vazio, oco, sem substância duradoura. Vaidade, “vão”, “esperança vã” apontam para essa experiência de que aquilo em que investimos brilho e importância é, no fundo, efêmero, sem garantia de permanência.

Do ponto de vista psíquico, isso coincide com o que chamo de **vazio estrutural do desejo**: não há “satisfação” (preenchimento); o desejo não se fecha, não se estabiliza numa satisfação definitiva. Qualquer realização é parcial, provisória, e abre outras buscas.

Quando discursos morais falam de vaidade como “defeito”, “pecado” ou “fragilidade”, eles estão condenando uma forma específica de lidar com esse vazio — a forma exibicionista — sem reconhecer que o vazio é condição humana universal, não um erro de alguns.

Novamente, aqui entra o critério de “causar dano” que separa a saúde da doença. A vaidade que não causa dano faz parte da saúde.

## Exibição como comportamento de cortejo

A psicologia evolucionista mostra que aquilo que a cultura chama de “vaidade” é, em grande parte, um **comportamento de cortejo**: exibição de sinais que convidam o outro a escolher.

- Nos machos, exibição de corpo, força, risco, inteligência, humor, status, feitos.
- Nas fêmeas, exibição de juventude, saúde, simetria, mas também traços de cuidado, sociabilidade, sensibilidade.

Esse repertório exibicionista não nasce no shopping center; nasce na savana, em bandos caçadores‑coletores onde:

- homens mais competentes, generosos e respeitados tinham maior probabilidade de ser escolhidos e de deixar descendência;
- mulheres que conseguiam sinalizar fertilidade e bom funcionamento social tinham vantagem similar.

Admiração, aqui, não é só “achar bonito”; é um **resumo afetivo** de traços que, aos olhos da fêmea, significam:
“este sujeito caça bem, coopera, protege, pensa, aguenta custo — vale apostar nele”.
E, aos olhos do macho:
“esta parceira é fértil, saudável, sabe viver em grupo — vale investir”.

A exibição, portanto, é um **modo biológico de preencher o vazio do desejo**:
não o preenche totalmente, mas oferece ao outro sinais suficientes para que uma escolha ocorra, para que o desejo se ligue, ao menos um pouco, a um corpo e a uma história concreta.

## Vaidade moralizada vs. vaidade estrutural

Podemos então distinguir:

- **Vaidade estrutural**:
- é o movimento pelo qual o sujeito tenta aparecer, ser visto, ser escolhido;
- é inseparável do desejo — não há desejo sem alguma forma de pedido de reconhecimento, ainda que silencioso.
- é fisiológica, adaptativa, ligada ao nosso passado de cortejo e seleção de parceiros.

- **Vaidade moralizada**:
- é quando cultura e religião pegam esse movimento natural e o classificam como “erro”, “pecado”, “superficialidade”;
- condenam a exibição em nome de um ideal de sujeito que não deveria desejar ser visto, desejado, admirado.

Essa moralização costuma ser cega para a base biológica do fenômeno. Ao chamar de “vaidade” tudo o que é exibição, ela não percebe que:

- sem exibição não há cortejo;
- sem cortejo não há escolha;
- sem escolha não há transmissão de DNA em contextos onde o outro tem liberdade para dizer sim ou não.

## Superego, moral e exibição

Do lado psicanalítico, o superego participa dos dois planos:

- no plano estrutural, ele organiza ideais de corpo, de sucesso, de prestígio, diante dos quais o sujeito se mede e tenta aparecer “bem na foto”;
- no plano moralista, ele condena justamente o esforço de aparecer, acusando o sujeito de vaidade, exibicionismo, frivolidade, como se pudesse existir desejo sem pedido de olhar.

A condenação do desejo de se exibir é uma das leis idiotas do Superego.

A moral da vaidade é, em grande parte, o superego julgando de fora um dispositivo que está a serviço de um programa muito mais antigo:
o programa do DNA que “manda” exibirmos nossas melhores “penas de pavão” para tentar ocupar, por algum tempo, um lugar no desejo de alguém.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

A BUSCA DA FELICIDADE E OS QUATRO DESEJOS BÁSICOS

 



Thomas Jefferson teve a lucidez de proteger a busca da felicidade, e não a felicidade em si — porque, como já disse, ela não é um porto a que se chega, é uma maneira de viajar. 

Agora posso precisar melhor essa viagem: ela se faz em quatro estradas simultâneas, as dos quatro desejos básicos — prazer, entendimento, justiça e controle/ordenação.

• Prazer é a busca da felicidade em sua forma mais direta — mas sozinho, sem as outras três estradas, ele fica vulnerável, sem a segurança de que precisa para se realizar.
• Entendimento é a busca da felicidade pelo caminho do conhecimento de si e do mundo — cada avanço na compreensão já é, por si, realização de desejo, portanto já é felicidade, mesmo que o porto final (o entendimento completo) nunca se alcance.
• Justiça é a busca da felicidade pelo caminho do equilíbrio com os outros — sentir que recebo na proporção do que dou, que meu esforço é reconhecido, que não sou tratado com desproporção.
• Controle/ordenação é a busca da felicidade pelo caminho da segurança — organizar minhas circunstâncias para não ser pego de surpresa, para ter onde pisar enquanto persigo os outros três desejos.

A psicanálise do Superego entra exatamente aqui: é o instrumento que viabiliza, na prática, o direito que Jefferson só anunciou como princípio. O Superego se instala em cada uma das quatro estradas e as distorce — transforma o prazer em culpa, o entendimento em dogma aceito sem exame, a justiça em vingança disfarçada de moral, o controle em rigidez obsessiva. 

Em qualquer um desses casos o efeito é o mesmo: a pessoa perde posse do próprio desejo, e com isso perde também parte do seu direito de buscar a felicidade — porque não se pode buscar de verdade aquilo que não se conhece bem, ou aquilo que foi sequestrado por uma voz interna que não é genuinamente minha.
Por isso, exercer plenamente o direito à busca da felicidade exige três movimentos, aplicados às quatro estradas:

• Conhecer bem cada um dos meus quatro desejos — o que já é, em si, satisfação do desejo de entendimento.
• Reduzir, em cada um deles, o território que o Superego rouba de mim.
• Aumentar, com isso, minha autonomia — meu cacife de negociação com o mundo — para percorrer essas quatro estradas com minhas próprias regras.

Nesse sentido, a psicanálise do Superego e o DrDaudtAI não são apenas instrumentos clínicos: são ferramentas de cidadania psíquica, meios de exercer, na prática cotidiana da mente, o direito que Jefferson apenas garantiu como princípio.


quarta-feira, 8 de julho de 2026

SUPEREGO E AUTOESTIMA: UMA AVALIAÇÃO CONSTANTE DE NOSSO PRÓPRIO VALOR

 



Autoestima é um estado de espírito, é um clima interno. E esse clima gira em torno de uma coisa só: o quanto a pessoa depende, desesperadamente ou não, da avaliação de valor que vem de fora.

Isso é, em grande parte, instalado pela genética, pois nossa atividade sexual passa muito pela nossa “cotação” na bolsa de valores pessoais.

## 1. Os polos da autoestima e suas gradações: da serenidade ao desespero

De um lado está a serenidade.

É quando a questão do próprio valor **simplesmente não está em jogo**, na verdade, nem é uma questão: a pessoa anda pela vida sem se medir o tempo todo, sem se olhar de fora, sem viver de “nota de desempenho”. Ela não está em regime de prova contínua. É um polo extremamente raro.

No meio do caminho, entra a zona trabalhosa da negociação de valor.

É onde moramos nós, a maioria da humanidade. Numa variação percentual de valor próprio, vai das inseguranças, da apreciação de reconhecimento, da necessidade dele em doses variáveis, até a triste condição do narcisismo: essa crença íntima de desvalor que produz os “fodão/merda”, “winner/loser”, nesse sobe e desce de amor próprio conforme like, aplauso, crítica, olhar do outro. Qualquer elogio vira gole de álcool; qualquer desaprovação vira insulto. A vida se torna uma obsessão sobre sua própria “cotação no mercado”.

No outro extremo, vem o desespero: a crença íntima de **desvalor completo**.
Não é só o nosso conhecido “estou mal hoje”, é um “eu não valho nada” estrutural, que pode facilmente chegar ao pensamento de morte, porque se a própria existência está sem valor, o sofrimento é tanto que tirá la parece uma solução coerente.

## 2. Os dois polos e o lugar da maioria

Sim, você já viu gente que é completamente serena e gente que é completamente necessitada de autoafirmação constante. Há figuras constantemente expostas nas mídias que são caricaturas disso.

Eu uso esses dois polos para que se entenda que está no grande meio, onde está a maior parte da humanidade.

De um lado, o polo da serenidade tranquila de autoestima: a pessoa não está se medindo o tempo todo, não vive de like, não precisa provar nada a cada minuto.

Do outro lado, o polo da dependência desesperada de aplauso, de vitória, de confirmação pública de que é “fodão” – porque, por dentro, morre de medo de ser “merda”.

Essas caricaturas servem só como holofote: o drama real da autoestima se passa nesse meio termo em que quase todo mundo vive, negociando o próprio valor o tempo todo, entre momentos de segurança e momentos de pura insegurança.

## 3. O domínio/submissão e o vício “fodão/merda” dentro da pessoa

No meio dessa régua, quem regula nossa “cotação” é o superego. Ele vai desde o habitual, que está sempre vendo e criticando nosso comportamento, dando-nos frequentes notas de valor e afirmando seu poder (domínio), até o ponto em que ele tem conosco um vício sadomasoquista de maltrato e vingança, que costuma ser levado às nossas relações de convívio pessoal, ou pelas redes, como no narcisismo
E, nesse último caso, o superego não é apenas fiscal de conduta; é um personagem sádico masoquista que vive num vício “fodão/merda” com a pessoa.

Nessa caricatura, ele é um vício interno de domínio e submissão: o superego domina, humilha, esmaga; o Eu, nosso Ego, fica alugado pela reação, tentando se vingar, se inflar, dominar, sentir se o máximo; e, em seguida, vem a ressaca, e ele volta a se sentir merda.

Como no álcool: a sensação de valor total é momentânea, artificial – e o preço vem na manhã seguinte.

## 4. A origem disso tudo: adestramento infantil

E aqui entra a lembrança fundamental:
o superego é fruto de um **adestramento infantil de domínio submissão**, feito através da cotação de valor pelo grupo de amparo inicial. Quanto mais ela for deixada em paz, com a certeza de que seu amparo não está em discussão, mais autoestima ela terá. Mas, atenção: mimar a criança não é deixá-la em paz, é sim armar uma bomba-relógio que vai estourar quando ela for ao mundo.

Na maioria, a criança aprende muito cedo que o seu lugar no colo, na mesa e no coração dos seus depende de como ela é avaliada: aprovada, elogiada, envergonhada, humilhada, ignorada. A partir disso, ela monta por dentro um painel de cotações – o superego – que repetirá ao longo da vida o modo como seu valor foi medido pela sua primeira “tribo”.

Ou seja, se seu amparo não é questionado, sua autoestima cresce e ela brinca pela vida não tendo de provar nada. Mas se a criança é insegura em seu grupo de amparo inicial, vivendo na corda bamba da aprovação, a sua autoestima tende a ser frágil para sempre, a menos que, mais tarde, encontre outras formas de amparo e de valor que consigam desmontar, aos poucos, esse velho treinamento.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

MASCULINIDADE – A IMPOSIÇÃO DO SUPEREGO DE “COMO É SER HOMEM”

 


Numa história da espécie de 100 mil anos, o conceito de masculinidade e de feminilidade só tem 10 mil. Ele nasceu com a revolução agrícola, que mudou tudo. O caçador-coletor vivia de um jeito; o cidadão pós agrícola vive de outro.

Vamos seguir essa trajetória, então, passando dos componentes biológicos para os culturais.

### 1. Biologia: A principal diferença é que homens não engravidam e mulheres sim.

Homens nascem, em média, com mais massa muscular e testosterona; mulheres com capacidade de gestar e amamentar.

- Essas características biológicas criam predominâncias de papel (mais caça/combate de um lado, mais cuidado/gestão de recursos de outro), mas ainda não levam a que haja, entre os caçadores-coletores, nem os conceitos de masculinidade e de feminilidade, muito menos normas morais ou hierarquia rígida ligados a eles.

### 2. Cabeça de caçador: masculino neotênico (a neotenia é a capacidade da nossa espécie de se manter “criança para sempre”).

- A cabeça de homem, no cenário pré‑agrícola, é a cabeça de caçador que brinca: focada em ação, coordenação muscular, cooperação em grupo, brincadeira e sexualidade relativamente livre.

- Trata‑se de um masculino biológico que não é ainda um “dever ser”: não há obrigação de ser forte o tempo todo, nem medo de ter traços femininos.

### 3. Cabeça de coletora: feminino neotênico

- A cabeça de mulher é a cabeça de coletora: atenção minuciosa ao ambiente, percepção de detalhes, trocas de informação detalhadas sobre pessoas, alimentos, clima, objetos.

- Essa competência decorre da biologia: por ficar grávida, amamentar, ter menos músculos, ter que cuidar dos filhos, elas desenvolveram atividades cooperativas que lhes permitiam ficar sempre por perto das crianças.

### 4. Pré‑agrícola: gênero sem conceito de gênero

- No universo caçador‑coletor, não há ainda o conceito de “masculinidade” e “feminilidade” como identidades cheias de normas; há apenas predominâncias comportamentais ligadas a corpos diferentes.

- Não se fala “isso é coisa de homem, isso é coisa de mulher”: o que há é cooperação lúdica, não há “trabalho”, há brincadeira de coletar e cuidar, com distribuição de tarefas e papéis sem um olhar de que “isso é coisa de mulher”, muito menos um juízo de valor.

### 5. Revolução Agrícola: propriedade e herança

- A agricultura traz excedente, fixação em cidades, traz propriedades, necessidade de transmitir bens de geração em geração.

- A certeza da maternidade e a incerteza da paternidade tornam o controle da sexualidade feminina crucial para garantir herança, inaugurando a vigilância sistemática sobre o corpo e o desejo da mulher. Começa a “guerra dos sexos”.

Começa a surgir o “como devem ser os homens” e “como devem se comportar as mulheres”. É a inauguração dos conceitos de masculinidade e de feminilidade.

### 6. Deus–tirano–patriarca–superego: arquitetura do domínio

- Nascidas as cidades, surge uma sequência vertical de “governo”. Agora sim, existe hierarquia: Deus acima de todos, tirano acima do povo, patriarca acima da família, superego acima do indivíduo.

- A masculinidade passa a ser moldada por identificação com essa cadeia: ser homem é ocupar algum lugar de comando (macro ou micro), enquanto a feminilidade é convocada ao lugar de obediência e pureza sexual.

### 7. Misoginia: desconfiança estrutural da mulher

- A necessidade de garantir paternidade instala a misoginia: desconfiança crônica da mulher, medo de infidelidade, ódio ao poder feminino de escolher, comparar e trocar de parceiro.

- A mulher torna‑se centro da guerra dos sexos não por “natureza má”, mas porque sua capacidade de gestar é o ponto estratégico da transmissão de herança.

### 8. Formação reativa: masculinidade por contraste – a misoginia como formatadora de comportamentos.

- Se a mulher passou a ser sinômino de “dominada”, o homem se imporá a identidade de “dominante”. As “dominadas” tem um jeito? O “dominante” tem que ser o oposto disso.

- A cultura patriarcal observa traços femininos (minúcia, fala detalhada, estética, iniciativa sexual) como suspeitos, e constrói o ideal masculino como o oposto exacerbado desses traços.

- Se a mulher é vista como “cheia de palavras e detalhes”, o homem é obrigado a ser lacônico, assertivo, produtivo; se ela é suspeita por desejar, ele é obrigado a provar desejo e performance constantes.

### 9. Caricatura da cabeça de mulher

- A cabeça de coletora passa a ser caricaturada como “fofoqueira”, “fútil”, “complicada”, “decoradora” que vê o que não importa para o macho sério.

- A sensibilidade ao detalhe e ao ambiente, que era competência adaptativa, vira marca de inferioridade e motivo de desprezo na moral patriarcal.

### 10. Caricatura da cabeça de homem

- A cabeça de caçador lúdico é convertida em cabeça de dominante e provedor compulsivo: poucas palavras, foco produtivo, obrigação de ganhar dinheiro e acumular bens, mesmo porque ele sabe que é isso que lhe dá cacife para fazer sexo.

- Traços de sensibilidade estética, detalhismo ou conversa minuciosa num homem passam a ser perseguidos pelo superego como “coisa de mulher”, produzindo medo de desqualificação (“mulherzinha”, “afeminado”).

### 11. Masculinidade biológico‑cultural (pós‑agrícola)

- Biologicamente, o homem segue sendo corpo de maior musculatura e testosterona, não gestante, com padrão típico de excitação visual.

- Culturalmente, ele passa a carregar um pacote impositivo:

- exigência de domínio (sobre pessoas, bens e sobre si mesmo),
- papel de provedor e produtor de propriedade,
- superego masculino que cobra desejo, performance e atividade, e proíbe traços femininos, sustentado por uma base misógina de desconfiança e formação reativa.

### 12. Diferença entre masculino pré‑agrícola e masculino patriarcal

- Masculino pré‑agrícola: lúdico, cooperativo, sem superego tirânico, sem rótulo “coisa de homem/coisa de mulher”, apenas predominâncias de papel em um campo de jogo compartilhado.

- Masculino pós‑agrícola: patriarcal, reativo, identificado ao Superego de dominador, feito de imposições e medos de categorização, em que a diferença biológica vira uma questão de melhor-pior / masculino-feminino, vira uma caricatura de identidade (“eu sou homem!”).


quinta-feira, 2 de julho de 2026

A EXISTÊNCIA DA HUMANIDADE SEMPRE DEPENDEU DA MASTURBAÇÃO MASCULINA

 


Para o DNA, nosso programador, o orgasmo feminino é um luxo raro, (ATENÇÃO: ISSO É O PONTO DE VISTA DA BIOLOGIA) e o orgasmo masculino é uma necessidade sem a qual ele não se replica.

Mas para acontecer, o orgasmo masculino precisa de treino: o circuito cerebral que leva da excitação ao orgasmo precisa ser estabelecido por prática recorrente.

O fato de que os meninos nascem com um genital “ao alcance das mãos” é a base necessária para esse treino, que começa pela curiosidade infantil, evolui para a ereção e finalmente para o orgasmo. De início seco e infértil, mas em pouco tempo se torna ejaculante e operacional para os propósitos do programador, o DNA. 

É por isso que a masturbação se tornou alvo da proibição religiosa: porque era culpa na certa, e culpa leva a domínio por penitência


sexta-feira, 26 de junho de 2026

O QUE É O SUPEREGO?

 



- O superego é uma “voz” interna que julga a gente.

- Muitas vezes não é voz, mas choques: angústia, culpa, vergonha, sensação de ridículo.

- Ele cobra, critica e acusa o tempo todo.

- Parece ser nosso, mas funciona como alguém de fora nos observando.

- Sempre compara a gente com ideais difíceis de alcançar.

- Cria regras e exige comportamentos.

- Freud chamou isso de “superego” (“o que está acima de mim”).

- No dia a dia, a gente entra em conflito com ele: ou obedece, ou diz “dane-se”.

- O “dane-se” dá alívio momentâneo.

- Depois vem a “ressaca moral”: culpa e vergonha mais fortes.

- Isso pode virar um ciclo — base dos vícios.

- Esse ciclo mostra que há dois lados: quem cobra e quem reage.

- Portanto, o superego não somos nós — é uma parte separada.

- Podemos também nos identificar com ele.

- Ele seduz porque parece forte e poderoso.

- Então passamos a agir como ele: julgando e mandando nos outros.
- Isso dá uma sensação de poder.

- A psicanálise ajuda a entender como ele funciona.

- Diferencia valores úteis das imposições exageradas.

- E mostra como o conflito com ele pode gerar neuroses e vícios.


terça-feira, 23 de junho de 2026

CALORIAS: A DROGA QUE VICIOU A HUMANIDADE E PRODUZIU O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO

 




(Esclarecimento inicial: falo em “vício de calorias” e “vício de domínio e submissão” em sentido figurado, para destacar a força sedutora desses arranjos; não se trata aqui de uma descrição nos termos formais dos transtornos por uso de substâncias ou comportamentos aditivos.)

A Revolução Agrícola funcionou como

A Revolução Agrícola funcionou como um grande vício em calorias: seduziu o Sapiens com alívio e abundância imediata, em troca de submissão crescente a uma hierarquia que controla o “tóxico” e produz o mal-estar da civilização.

Pequeno sumário

Ao descobrir que grãos caídos geravam mais grãos e que era possível plantar, criar rebanhos e estocar comida, o Sapiens foi seduzido por um alívio enorme: não precisar mais vagar todos os dias em busca de alimento.

Esse “traficante de calorias” oferecia carboidrato e caloria concentrados, previsíveis e ao alcance das mãos, ativando poderosamente o circuito dopaminérgico de recompensa.

Como em qualquer vício, o benefício imediato parecia compensar, de longe, o custo futuro: em troca da segurança alimentar, a espécie aceitou a sedentarização, a convivência forçada com estranhos, o surgimento de hierarquias rígidas e, com o tempo, um profundo mal-estar ligado à submissão à nova ordem.

Condensação ampliada

A metáfora do vício ilumina com precisão a transição agrícola. O “tóxico” aqui não é uma substância ilícita, mas um pacote de calorias fáceis: grãos que se renovam ano após ano, rebanhos que podem ser controlados, depósitos de alimento que “compram” futuro.

Isso produz um alívio poderoso: não é mais necessário levantar cedo para caçar ou caminhar longas distâncias para colher; o risco de passar fome diminui, a previsibilidade aumenta.

O circuito dopaminérgico reage exatamente como diante de uma droga: a recompensa rápida, concreta e repetível captura o organismo e reduz a sensibilidade aos custos abstratos e distantes.

Nessa dinâmica, o controlador do tóxico ganha poder sobre o viciado. Quem domina a terra fértil, o grão e o estoque de calorias passa a ter ascendência sobre aqueles que dependem disso para viver.

Tal como o usuário de droga que aceita pagar preços crescentes — dinheiro, saúde, dignidade, liberdade — para manter o acesso à substância, as populações agrícolas vão aceitando, em prestações históricas, os custos da nova ordem: perda de mobilidade, sujeição a chefes, desigualdade de status, naturalização de punições e violências. O jogo de domínio-submissão, que antes podia ser episódico, torna-se condição permanente de existência.

É nesse contexto que se instala uma hierarquia estável, ausente nos pequenos bandos de caçadores-coletores. O monopólio do tóxico (alimento estocado) se traduz em poder político (tiranos, Estados), legitimado por narrativas religiosas (Deus como fiador da ordem), reproduzido em escala doméstica (patriarca) e, por fim, internalizado como superego.

A espécie não paga apenas com o corpo; paga também com a estrutura psíquica. Um dos “preços da droga” é a própria civilização com seu mal-estar: renúncias, culpas, medos e obediências que passam a ser o pedágio subjetivo para ter acesso à segurança e à proteção oferecidas pela nova forma de vida.

Em termos crús, o Sapiens aceita ser viciado em calorias e, em troca, entrega-se ao poder do traficante — e é dessa entrega que nascem a hierarquia e o superego tirânico que descrevo na Psicanálise do Superego.


quarta-feira, 17 de junho de 2026

A LIBERDADE NA DEMOCRACIA - por KARL POPPER

 


“O preço da liberdade é a eterna vigilância”

A liberdade só sobrevive entre limites: sem controle, ela desaparece — com excesso, também.  
Seu preço inevitável não é a garantia, mas a vigilância constante.

“A máxima liberdade possível mora num ponto ótimo, não num absoluto, pois precisa ser restringida para poder existir. 

A intervenção governamental, que por si só pode garanti-la, é uma arma perigosa: sem ela, ou com muito pouca, a liberdade morre; mas com excesso dela, a liberdade também morre. 

Somos reconduzidos à inevitabilidade do controle — que deve significar, como condição sine qua non da democracia, a possibilidade de os governados derrubarem o governo.

Isso, contudo, embora necessário, não é suficiente. Não garante a preservação da liberdade, pois nada pode garanti-la: o preço da liberdade é a vigilância eterna.”




terça-feira, 16 de junho de 2026

“PACIENTE?” NÃO, PACIENTE É DE CIRURGIÃO. EU TENHO “CLIENTES”

 


Eu nunca chamo quem me procura de “paciente”; eu chamo de cliente.

“Paciente” é um ser passivo à intervenção de um agente. Como nas cirurgias: um deitado e o outro em pé.

E o cliente é alguém que se senta comigo, e comigo se inclina para ver o problema. É um parceiro de trabalho.

Exatamente o que eu desejaria fazer junto com Freud: parceria de pesquisa.


COM UM TIRANO NA CABEÇA | O SUPEREGO: UM SOFTWARE AUTO-REPLICADOR EM FORMA DE VÍCIO DE DOMÍNIO-SUBMISSÃO

 


O superego é um software cultural de **domínio e submissão**, instalado há cerca de 10.000 anos, que funciona como um vício auto‑replicador: ele não vive para nós, vive em nós e através de nós, buscando apenas se manter.  

1. Esse software se organiza em dois polos complementares: o da submissão (culpa, medo, vergonha, necessidade de aprovação) e o do domínio (prazer em mandar, julgar, punir, “botar ordem”).  

2. Como qualquer vício, ele se auto‑sustenta num circuito de dor–alívio–prazer:  
   - dói quando oprime (culpa, autoacusação, humilhação);  
   - alivia quando obedecemos (“fiz o certo, escapei da punição”);  
   - dá prazer quando podemos ocupar a posição de superego em relação a alguém (“agora mando eu”). 
 
3. O jogo obediência–transgressão é o meio vicioso da auto‑replicação:  
   - a obediência reforça o polo submissão, mantendo o sujeito preso ao medo e à busca de alívio;  
   - a transgressão vingativa (“foda‑se, vou fazer”) muitas vezes põe o sujeito na posição do tirano interno, replicando o mesmo padrão de domínio sobre si ou sobre outros.  

4. É por isso que o superego é ao mesmo tempo “mãe de todos os vícios” e um vício em si: suas leis idiotas e abusivas produzem necessidade de transgressão; e a transgressão, quando encarnada como tomada de poder, alimenta de novo o vício de domínio/submissão, garantindo que o software siga se copiando de geração em geração.

Como qualquer tirano, ele é odiado… e sedutor. 


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOBRE O ID E SEU CONTEÚDO - O QUE MORA EM NOSSO INCONSCIENTE

 



## 1. Resumo do “algo em mim” (Id) - o Inconsciente 
Aquilo que Freud chamou de * das Es* – o famoso Id – pode ser traduzido, em bom português, como esse “algo em mim”, “algo em nós”, que não é o eu, não é uma pessoa, mas um motor interno que empurra, puxa, sabota, protege e complica a nossa vida.

Nesse “algo em mim” há quatro grandes conjuntos:
1. **Desejos** - todos os desejos são movidos por incômodos que buscam alívios.
   - O desejo de prazer, escrito no DNA para garantir sobrevivência e reprodução (cujos motores são o tesão, o apetite).  
   - Os desejos “acessórios” do prazer:  
     - desejo de justiça (cujo motor é a raiva de não aguentar ver injustiça e desigualdade escancarada),  
     - desejo epistemológico (cujo motor é a curiosidade, vontade de conhecer e entender como as coisas funcionam),  
     - desejo de controle e ordenação (cujo motor é a insegurança que o caos produz, precisar pôr ordem no mundo interno e externo).  
   - Tudo isso mora no Id, no “algo em mim”: eu não escolho ter esses desejos, eles já vêm no pacote.

2. **Medos**
   - Esse mesmo Id, esse “algo em mim” carrega medos que vêm com a máquina, cuja função é a sobrevivência:  
     - medo de desamparo (ficar sem proteção, sem quem cuide),  
     - medo de estranhos (desconfiar do que não é familiar),  
     - medo de altura, confinamento, escuridão, bichos perigosos, e outros medos que fizeram sentido na evolução e hoje, muitas vezes, viram fobia ou ansiedade “deslocada”.  
   - Os dois medos principais são os de desamparo e de estranhos. São eles que possibilitam o adestramento da pessoa para a instalação do Superego.

3. **Superego adestrado (parte inconsciente)**
   - O Superego não “vem com a máquina”; ele se forma pelo adestramento na infância, baseado na concentração de poder que os pais têm sobre os filhos, que farão qualquer coisa para não perderem o amparo deles.
   - Depois de formado, uma parte desse Superego desce para o porão e vira motor inconsciente que nos aplica choques a cada vez que “saímos da linha”:  
     - choques de angústia,  
     - choques de vergonha,  
     - choques de ridículo,  
     - choques de culpa.  
   - O sujeito só sente o choque; o comando que disparou aquilo (que pode ser resumido como “você está contrariando o senso comum da sua tribo! Vai perder o amparo!”) fica escondido no “algo em mim”.

4. **Reprimido (produto da briga desejo/superego)
   - Coisas que um dia chegaram perto da consciência, foram consideradas inaceitáveis e empurradas para baixo: fantasias, raivas, invejas, desejos considerados “proibidos” pelo superego e pela tribo.  
   - Esse material reprimido continua ativo, criando “manifestações conscientes do inconsciente reprimido”: sintomas, neuroses, vícios, sonhos, lapsos, formações reativas (como o “bonzinho demais”), sempre vindo de um “algo em mim” que o Eu não controla.
Em resumo, o Id é esse “algo em mim” que:
- quer prazer, justiça, conhecimento, controle;  
- tem medos ancestrais (desamparo, estranho, altura, etc.);  
- carrega choques de superego que viraram automáticos;  
- e guarda o reprimido da briga entre desejo e proibição. 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

GUERRA DOS SEXOS: A HISTÓRIA DA MISOGINIA, O ÓDIO CONTRA AS MULHERES

 




Um dos tristes efeitos colaterais da transição da era paleolítica (tempo dos caçadores-coletores, que terminou há 10.000 anos) para a era neolítica / revolução agrícola (surgimento da agricultura e da pecuária, das cidades e da convivência com estranhos), além da instalação do Superego em nós, foi o problema da guerra dos sexos, um tempo de desconfiança mútua entre homens e mulheres.

Um tempo de sofrimento ligado às negociações sexuais, sofrimento para ambas as partes, mas bem pior para as mulheres.

1. Como viviam as mulheres no tempo dos caçadores-coletores

Elas viviam muito bem, num clima de cooperação com a tribo: em termos mais simples (deixando de lado as exceções), elas coletavam frutos, vegetais, raizes, cogumelos, trocavam informações, partilhavam o cuidado com os filhos, revezavam-se na amamentação.

Não havia hierarquia, nem casamento, nem namoro, nem pudores sexuais. Não havia nem a ideia clara de que sexo e procriação estivessem ligados. Assim como o trabalho, o cuidado com as crianças, as tarefas, o sexo era uma brincadeira a mais, com ou sem ligação afetiva, com vários parceiros. Em algumas tribos, havia a crença de que as crianças eram geradas pelo acúmulo de várias inseminações, vindas de vários homens.


2. Ruptura com a Revolução Agrícola

Quando a fonte de alimentação passou a ser o cultivo e o pastoreio, a vida mudou radicalmente. As tribos nômades de 50-70 pessoas conhecidas foram se transformando em cidades fixas de mais de 500 estranhos. Surgiu a acumulação, a propriedade privada… e a herança. O que levou os homens a exigirem “filhos legítimos”, para que bastardos não pusessem as mãos em suas propriedades.

A partir daí, o corpo da mulher e sua sexualidade tornam‑se foco central de controle e vigilância: garantir a fidelidade sexual passa a ser condição para assegurar que a herança vá “para os meus filhos”, e não para filhos de outros homens.

Não só isso, mas também passou a haver “minhas mulheres”, casamento primitivo. A mulher deixou de ser parceira cooperativa e virou uma propriedade a mais. A mulher passou a ter um homem só, mesmo que o homem pudesse ter várias mulheres.

3. A mulher sob o patriarcado agrícola: sofrimento e desqualificação

A mulher, peça crucial na honra do homem, passa a ser vigiada, punida (se caísse sob suspeita de traição sexual). Ela vira um “perigo”, um ser sob suspeita permanente. Esse é o início da misoginia – a raiva contra as mulheres.

O pior disso é que a principal suspeita recai sobre as suas manifestações de desejo sexual. O desejo sexual feminino passa a ser visto como “impureza”. A mulher passa a ser valorizada pela suposta “falta de desejo” (daí vem a mitificação das virgens em várias religiões).

4. A “falta de desejo” vira poder

Como triste efeito colateral, as mulheres sentiram que seus poderes e sua valorização viriam desse aparente desapego ao sexo e ao desejo. Se ela parecia “pura”, tornava-se mais desejada no mercado matrimonial. Teria acesso a ela homem que pagasse mais. Foi assim que um regime de sutil “prostituição” foi instituído: quanto mais sem desejo visível, mais cara; quanto menos, mais barata.

5. A mulher como “leiloeira de si mesma” e juíza do valor do homem

Como mais uma triste contribuição à misoginia, a mulher passou a ser vista como alguém que também julgava o valor dos homens – uma reação natural de vingança ao dano que lhe causaram, à injustiça que lhe impuseram.

A Guerra dos Sexos estava instituída: de convivência cooperativa, o sapiens passou a uma convivência competitiva, cheia de suspeita: dormindo com o inimigo… desejado! Uma ambivalência de sentimentos que não existia entre nossos antepassados caçadores-coletores.

De um lado, o homem transforma o desejo sexual feminino em fonte de desvalorização. Do outro, a mulher passa a ter o poder de “leiloar” o acesso a seu corpo de acordo com o valor que ela atribui ao homem.
Se ela acha que seu homem não tem valor, ela pode ir se entregar a outro que ela valorize mais.
Se ela pode ser vista como uma puta, sua vingança é que ela pode categorizar o homem como um merda.
No senso comum pós agrícola, desde então as mulheres temem ser vistas como putas (desvalor feminino) e os homens temem ser vistos como merdas (desvalor masculino).

O feminicídio, o ápice da misoginia, é a caricatura dessa guerra: sistematicamente, ele é movido pelo ódio contra a mulher, à misoginia vinda da ideia de que a mulher pode trocá-lo (ou que já o trocou) por um outro homem que ela valorize mais. Ao ódio de ser “chamado de merda” pela mulher. Ao ponto que a gravidade do crime de feminicídio já foi atenuada nas leis antigas, porque ele era uma “legítima defesa da honra”.

Leis feitas pelos homens, claro. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

AULA PARA MEUS ALUNOS DA PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Fiz um guia prático para que a pessoa conheça seus desejos e vá desmontando seu Superego.

Os alunos vão usar o roteiro tanto na clínica quando para eles mesmos.

ROTEIRO RESUMIDO PARA USO NA CLÍNICA:

1. DESADESTRAR O SUPEREGO
2. CONHECER SEUS DESEJOS

1. Desadestrando o Superego:

### Parte 1 – Quando bater culpa, vergonha, ridículo ou medo de julgamento

Sempre que você sentir um desses choques emocionais:

- culpa (“fiz algo imperdoável”)
- vergonha (“sou ridículo, não valho nada”)
- medo do ridículo (“vão rir de mim, vão me achar um lixo”)
- medo moral (“sou uma pessoa má por ter pensado/sentido isso”)

faça este pequeno exercício mental:

1. Pergunte: “Que lei estou supostamente transgredindo?”
- Coloque em frase simples:
“Homem não pode chorar.”
“Ser gay é errado.”
“Desejar outra pessoa é traição imperdoável sempre.”
“Filho decente nunca critica pai e mãe.”

2. Pergunte: “Do senso comum de que tribo vem essa lei?”
- É lei de qual ambiente?
- Da minha família?
- Da minha igreja?
- Do bairro onde cresci?
- De um senso comum de outra época (século XIX, moral vitoriana, patriarcado, etc.)?
- Diga para si mesmo:
“Essa lei é da tribo X, em tal época. Não é lei do universo, é lei dessa tribo.”

3. Pergunte: “Essa lei faz sentido para mim hoje?”
- Com o que eu sei hoje de vida, de gente, de ciência, de ética:
- Essa lei protege alguém?
- Ou só me machuca e me envergonha à toa?
- Se a resposta for “não faz sentido” ou “só me tortura”, você não é obrigado a obedecê‑la.
- Não é preciso “matar” a lei; basta dizer internamente:
“Eu sei de onde você vem. Você não manda mais em mim do mesmo jeito.”

Repita isso sempre. A repetição é o “comportamental”: você treina o reflexo de investigar o Superego, em vez de ajoelhar diante dele.

***

### 2. Conhecendo seus desejos

Aprendendo o perfil singular do seu desejo, quando ele se aplica aos encontros pessoais

Agora, o outro lado: aprender como é o seu desejo, do seu jeito, com a sua história. Pense em três tipos de encontro:

- Encontro afetivo
- Encontro intelectual
- Encontro erótico

Faça perguntas simples em cada área.

#### 2.1. Desejo afetivo

Pergunte a si mesmo:

- Com quem eu gosto de estar? Como gosto de cuidar e ser cuidado?
- Que tipo de “clima afetivo” me faz sentir vivo: brincalhão, terno, sério, de parceria, de proteção, de “paizinho”, de “mãezona”…?
- Que experiências da minha vida ajudaram a formar esse jeito de desejar?
- Faltas que doeram?
- Pessoas que me encantaram, reais ou de livros/filmes?

Escreva, se puder, em poucas frases:
“Meu desejo afetivo tem cara de…” (e descreva: pai, amigo, amante, parceiro, protetor, aluno, etc.).

#### 2.2. Desejo intelectual

Pergunte:

- Em que tipo de conversa eu me sinto em casa?
- Explicando?
- Discutindo?
- Contando histórias?
- Ouvindo?
- Que tipo de mente me atrai?
- Gente curiosa?
- Gente clara?
- Gente irônica?
- Que livros, filmes, figuras (professores, personagens) despertaram em mim o desejo de pensar “como eles” – ou “ser para alguém” o que eles foram para mim?

Escreva:
“Meu desejo intelectual tem cara de…” (mentor, aluno, par que pensa junto, debatedor, professor, etc.).

#### 2.3. Desejo erótico

Com cuidado e honestidade consigo mesmo, pergunte:

- Que tipo de corpo, gesto, voz, atitude me desperta?
- Em que clima eu me sinto erótico: ternura, jogo, humor, admiração, poder, entrega?
- Que cenas (da vida real, de filmes, de fantasias) marcaram o meu erotismo?
- O que é que eu busco, no fundo, quando desejo alguém: ser visto, ser acolhido, ser protegido, ser desejado, ser admirado, ser cuidado? Ou o contrário: ver, acolher, proteger, desejar, admirar e cuidar?
- Meu desejo é mais receptivo (passivo) ou mais fazedor (ativo)?
- No caso de misturas de características, qual o percentual de cada uma?

Escreva:
“Meu desejo erótico tem cara de…” (e descreva sem censura; é para você, não para mostrar para ninguém).

***

### Como usar as duas práticas juntas

- Sempre que o Superego te atacar (culpa, vergonha, ridículo), faça o exercício das leis e tribos (Parte 1).
- Regularmente (uma vez por semana, por exemplo), retome as perguntas sobre seu desejo afetivo, intelectual e erótico (Parte 2) e vá refinando as respostas.

A ideia é:

- Afrouxar cordéis que puxam você para uma vida obediente a leis idiotas.
- Fortalecer os cordéis do desejo que fazem sentido para você, com a sua história, com o seu jeito.

Com o tempo, a “resultante” – a direção geral da sua vida – vai ficando menos alinhada com a vontade da tribo e mais afinada com aquilo que realmente te faz sentido.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

A PSICANÁLISE DO SUPEREGO: GENÉTICA E CULTURA


Na psicanálise, o superego não é um “módulo inato”, mas uma forma de controle interno que só se torna possível porque o ser humano nasce extremamente frágil, vulnerável e dependente de amparo por muitos anos.

Essa fragilidade biológica – que podemos chamar de dado inato – levou a seleção natural a incluir como software inato um medo intenso de desamparo, que permanece como matriz afetiva básica ao longo da vida.

Ele vem junto com outros medos inatos (de estranhos; de altura, confinamento, escuro, grandes répteis, grandes felinos, grandes insetos voadores), mas o medo do desamparo associado ao medo de estranhos terá papel decisivo na absorção por adestramento desse novo software: o Superego (o poder de desamparo internalizado).

Na infância, esse medo do desamparo se combina com um fato social simples: o poder de amparo fica concentrado em poucas figuras, nossos “donos”, que controlam quase totalmente o acesso a proteção, alimento, carinho e pertencimento.

Para reduzir o próprio trabalho e garantir obediência, esses cuidadores/“donos” usam um repertório de recompensas e ameaças (amor, aprovação, castigos, rejeição, retirada de cuidado) que, pelo mecanismo de adestramento – muito semelhante ao que fazemos com cães – modela nosso comportamento.

Aos poucos, a criança, para se proteger do perigo máximo que é perder o amparo, internaliza esse sistema de comandos e proibições: passa a antecipar a punição, a culpa e a perda de amor antes mesmo que os pais intervenham.

O superego, nesse sentido, é a “instalação interna” do poder de amparo e de punição que antes estava só do lado de fora: um dispositivo psíquico que vigia, julga e pune o eu em nome da sobrevivência em um mundo em que o outro detém o poder de nos deixar ou não em desamparo.

Do ponto de vista genético, o que interessa aqui é que essa estrutura não nasce pronta: o que é herdado são condições biológicas – extrema imaturidade ao nascer, longa dependência, sistemas de medo e de necessidade de amparo, capacidade de aprender por reforço – que tornam a criança treinável por ameaça de desamparo.

O superego, então, pode ser visto como um produto cultural e relacional que se apoia em predisposições inatas muito específicas: fragilidade prolongada, pavor do desamparo e alta sensibilidade ao poder de quem detém o amparo.

Assim, o Superego vai modular pelo resto da vida todo o nosso comportamento na busca daquilo para que fomos programados: o prazer que leva à replicação do DNA.

Assim como “instalou nossos medos” (que servem à sobrevivência da “máquina” para que ela cumpra sua função de replicação), o DNA instalou em nós desejos, que levam à realização de sua meta replicante. O principal deles é o desejo de prazer, que é ajudado por outros desejos (epistemológico, controle / ordenação, justiça).

Esses desejos acessórios têm o objetivo de nos dar segurança para a situação de vulnerabilidade que é a prática sexual, tão desarmada quanto o sono e as excreções.

É nesse jogo de desejos e medos que o Superego vai imperar, causando conflito por atropelar nossos desejos e implementar nossos medos, o que resultará nas doenças psíquicas.

(Na foto, a mais destacada geneticista do país, Lygia da Veiga Pereira, é entrevistada pela Rita Lobo e mostra como esse comando funciona).


 

terça-feira, 2 de junho de 2026

SOBRE O EGO, NOSSO “EU”: O HABITUAL E O DESEJADO

 


Desde quando Freud desenhou o aparelho psíquico com três regiões (hoje se diria “softwares”), Ego, Id e Superego, muito se falou do Id (o inconsciente) e do Superego (o repressor/sedutor).

Mas sobre o Ego, muito pouco foi falado. No entanto, ele é o que nos define: nós somos o Ego, “eu sou eu”, em outras palavras. O Ego, o Eu é o dono da “empresa”: “Eu” quero saber os rumos que vou tomar na vida; “Eu” quero conhecer meus potenciais, meus desejos, meus problemas, quero poder gerenciar melhor isso tudo.

Por isso, vamos agora entender melhor como esse “programa” funciona.

. Nossa Identidade e nossas múltiplas facetas

A identidade é o que nós somos, mesmo que às vezes entremos num “personagem diferente da gente”.
Identidade não é ser “um homem de uma cara só”, nem se confundir com um papel único, por mais importante que ele seja.

Nossa Identidade é um conjunto de facetas que usamos de acordo com nossas interações com o mundo e com as pessoas: Eu me apresento de modos diversos em contextos diferentes: há uma faceta minha que fala inglês, mas eu não me reduzo a ela, ela é um dos meus instrumentos. É como o “dono da empresa” visitando e usando vários departamentos, sem que nenhum o defina.

Cada faceta é uma habilidade, um modo de falar, de amar, de trabalhar, de brincar, acionado conforme a situação.
Ela não define a pessoa, e o Eu saudável sabe que ela é uma parte sua, não o todo.

***

. Personagem: faceta que tomou o poder

“Personagem”: nessa história de lidar com o mundo, às vezes construímos um personagem para uma determinada situação mais difícil (um aluno desenvolveu um “personagem pegador”, para ir a festas, pois lidar com seu desejo pelas mulheres era um departamento difícil de “sua empresa”). Mas essa foi uma faceta que ganhou poder demais. Virou personagem.

Ela nasceu de algo real – uma capacidade, uma defesa necessária, um jeito de sobreviver ou se destacar – mas “ganhou poder” e passou a se comportar como se fosse o próprio dono da empresa.

O personagem pode ser extremamente funcional por um tempo:
- o empreendedor incansável que organiza toda a vida em torno do trabalho;
- o “cafajeste do bem” que permite ao rapaz inibido circular nas festas e viver experiências eróticas.

O problema não é o jeitão dessas facetas, e sim quem manda em quem:
- a pessoa se torna dependente daquele modo de funcionar para se sentir alguém. Ela acaba se definindo pelo personagem.
- sem o personagem, sente que “não sabe o que fazer” (como o idoso na aposentadoria) ou não sabe como lidar com a situação (como o jovem diante da moça com quem quer um vínculo verdadeiro);
- o personagem passa por cima de nós, de nosso Eu, e às vezes, vira tirano da própria pessoa (quando nos seduzimos para ser Superego dos outros, p.ex.).

Nesses casos, o que temos pela frente não é destruir o personagem como se fosse pura falsidade, mas “separar o bebê da água do banho”, para não jogar fora os dois juntos:
- preservar dele as qualidades que podem virar facetas (capacidade de empreender, de negociar, de se desinibir, de brincar, de seduzir);
- retirar dele o excesso de poder, a dependência e a rigidez, devolvendo o comando ao nosso Ego.

***

. Michelangelo, o Davi e o mármore

Dizem que uma vez perguntaram ao Michelangelo como ele tinha conseguido esculpir o Davi. Ele respondeu: “Ah, eu vi o bloco de mármore e sabia que o Davi estava lá dentro. Aí eu só fui tirando o excesso de mármore, para que ele aparecesse.

A metáfora de Michelangelo ilumina esse processo.

O bloco de mármore é a pessoa inteira: história, personagens, facetas, superego, doenças, hábitos, bugs.
O Davi é o seu Eu, a pessoalidade: aquilo que é próprio, vivo, consciente, aquilo que realmente se parece com você.

Do mesmo modo, o trabalho de entender nosso Ego e Superego não é inventar uma nova pessoa do zero, mas retirar o mármore que encobre o Davi:
- “Invasores” superegoicos: personagens tiranos, crenças herdadas sem exame, ideais impossíveis que não tem a ver conosco, defesas que perderam função.

Mas o nosso Davi é sempre percentual e inacabado. Ele é uma obra em permanente construção. Ele é um “eterno aprendiz” de si mesmo.

***

. Superego, bugs no sistema

Na Psicanálise do Superego, doenças e Superego não se confundem com a pessoa, com nosso Eu, nosso Ego: eles são bugs no sistema.

Eles são equivalentes ao mármore excedente: partes de nossa história que um dia tiveram função (proteger, disciplinar, adaptar), mas que hoje geram erros, travamentos, sofrimento.

É importante saber que o Superego não contém só bug e idiotices.
Ele contém tanto:
- puras bobagens e violências introjetadas (ser canhoto é errado, ser gay é errado, prazer é errado);
- valores que podem ser preciosos (honestidade, generosidade, cuidado), porém em forma deformada, do tipo “você tem que ser honesto, você tem que ser generoso, você tem que ser caridoso”.

Aqui entra a distinção conteúdo / forma:
- certos conteúdos são mármore puro e precisam ser jogados fora (preconceitos, leis idiotas, proibições sem sentido lógico);
- outros conteúdos são bons, seu problema não é a coisa em si, mas a forma como ela nos é imposta: “você tem que…, senão…” Ora, eu não “tenho que” ser honesto. Eu gosto de ser honesto.

O trabalho é transferir a propriedade:
- tirar esses valores do regime de “tem que” do Superego;
- passá los para o domínio do Eu, onde honestidade, generosidade e cuidado deixam de ser obediência por medo e viram gosto, convicção, valor assumido.

No exemplo da honestidade:
- bug: ser honesto apenas para não ser punido, para evitar culpa ou condenação;
- Davi: ser honesto porque isso expressa quem eu quero ser, porque isso combina com a imagem que tenho de mim, com o modo de vida que escolho.

***

. O Ego como “gerente da bagunça”

Seu Eu, seu Ego é pra ser dono da sua empresa psíquica.

Ele é o proprietário legítimo, o único que pode, em princípio, conhecer e coordenar todos os departamentos (id, superego, facetas, personagens, e sobretudo seus desejos).

Na prática, porém, ele está tonto, sobrecarregado:
- vive às voltas com incêndios, crises, conflitos entre departamentos;
- passa o tempo apagando fogo e cumprindo ordens do Superego ou demandas do Id, em vez de definir seu rumo;
- muitas vezes, nem sabe “como gostaria” de dirigir a empresa, porque nunca teve calma nem espaço para conhecer seus próprios desejos e transforma-los em projetos .

A diferença aqui é esta:
- ou um gerente atolado na bagunça: um ego que administra crises sem saber para onde quer levar a empresa;
- ou um dono que sabe um rumo: é um ego que, mesmo lidando com problemas, reserva energia para remover bugs, retirar mármore, redistribuir poder entre facetas e personagens, assumir para si valores bons que antes pertenciam só ao Superego.

***

. Meta do trabalho de “psicanalista do superego”

A meta que queremos para ela – clínica, teórica e pedagógica – pode ser formulada assim:

- atuar como retirador de mármore e depurador de bugs, não como destruidor de estruturas;
- ajudar o ego a distinguir, dentro do superego e dos personagens, o que é Davi (valores, competências, facetas legítimas) e o que é mármore/bug (medos, mandatos absurdos, tiranias internas);
- transferir para o domínio do Eu os elementos valiosos que estavam sequestrados pelo superego;
- desmontar “personagens dominadores”, transformando o que eles têm de bom em facetas a serviço da pessoalidade;
- desenvolver a clareza do Ego como dono da empresa: não um herói perfeito, mas um gestor em permanente construção, que vai aprendendo a dirigir a empresa enquanto conserta o próprio sistema e escolhe suas melhores circunstâncias.