segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIFERENÇA ENTRE “LEVE” E “LEVIANO” - A ALTINHA

 


O Superego atrapalha a melhor característica de nossa espécie, que é “não se levar a sério”, ser criança brincando pela vida. Escolhi essa diferença entre o leve e o leviano como exemplo das duas coisas: a boa brincadeira e a influência indireta do Superego através do “dane-se”

A leveza é uma característica não dramática da brincadeira. O brincar pela vida afora é a marca registrada da melhor faceta de nossa espécie: a capacidade de se manter interminavelmente criança (cujo nome complicado é “neotenia”: do grego, “apego à juventude, à forma nova”).

A leviandade é o prazer imediatista que não leva em conta as consequências, que não tem consideração pelo outro, que “faz que não vê” os danos possíveis. A leviandade é um sinal de que o “dane-se, vou fazer” está operando. Ela não é “brincadeira”, é transgressão.

A brincadeira só tem uma coisa de “séria”: suas regras para funcionar. O resto é alegria.
Aqui no Rio temos um exemplo notável: a altinha.

A Altinha: um tipo de Leveza Estruturada

A altinha exemplifica perfeitamente essa distinção entre leveza e leviandade: uma brincadeira, um jogo, ancorada em regras básicas que a fazem funcionar bem. O jogo carioca, reconhecido como patrimônio cultural da cidade desde 2020, opera com uma regra fundamental - não deixar a bola cair no chão - e uma cooperação implícita: não há vencedores nem perdedores, a ideia é apenas manter a bola no alto e passá-la adiante.

### Regras que servem à Brincadeira

As leis mínimas da altinha - proibição do uso das mãos, objetivo compartilhado de manter a bola no ar, valorização do passe bonito - ajudam a criatividade sem atrapalhar o jogo. As regras servem a todos, ajudam na diversão e na cooperação, resultam da boa combinação prévia em que todos estão de acordo: a regra serve aos jogadores, não é o contrário, não são os jogadores escravos da regra.
É através das regras que a leveza se expressa: manobras criativas, passes bonitos, colaboração espontânea.

### Cooperação brincalhona de um lado, Competição do outro

Diferentemente dos jogos competitivos, onde há winners e losers (vencedores e perdedores), a altinha é um ótimo exemplo do "ganho generalizado e cooperativo". Todos trabalham para um objetivo comum, compartilham dificuldades, e a beleza do passe importa mais que a posse da bola.

A altinha é leve; não é leviana. 







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O DESEJO DE JUSTIÇA É MOVIDO PELA RAIVA

 


Aqui vão algumas categorias que cobrem o espectro percentual da reação à injustiça.

Não vejo problemas em intitular genericamente de “raiva” a reação a injustiças, mas entendo que há suscetibilidades a respeitar.

• 0–10%: Incômodo
• 10–20%: Chateação
• 20–30%: Aborrecimento
• 30–40%: Irritação
• 40–50%: Contrariedade
• 50–60%: Desconforto forte / sensação de injustiça
• 60–70%: Ressentimento
• 70–80%: Mágoa
• 80–90%: Indignação
• 90–100%: Raiva

Não incluo o ódio por ele já ser em si um estado de mau gerenciamento da raiva. 





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quinta-feira, 7 de maio de 2026

APRENDENDO COM O ANTIMODELO

 


Um dos jeitos como aprendemos sobre o nosso desejo é por exclusão. É vendo aquilo de que não gostamos. Assim como existe o modelo de identificação por gosto, existe o modelo que nos causa desgosto: o antimodelo.

Mas, atenção, não se trata aqui daqueles antimodelos monstruosos que o Superego usa para nos manipular. Não; aqui estamos falando simplesmente daquilo que não queremos ser por desafinidades, por não ter nada a ver conosco. Ou mais precisamente, é o exato contrário do que gostamos.

Meu antimodelo de postura psicanalítica foi encarnado pelo Dr. Roberto, meu primeiro analista, faz 57 anos. Eu o conheci como meu professor de psiquiatria, no curso médico da UFRJ, ainda na Praia Vermelha.

Roberto, como aprendemos a chamá-lo durante as aulas, era simpático, inteligente, bem-humorado, didático, tudo de bom. Como eu sofria, na época, com minha neurose obsessiva, ao saber que ele era também psicanalista, fui procurá-lo para me tratar.

Não fazia ideia do que era a tal de psicanálise, mas… como ele era médico, e bom médico, fui esperando diagnóstico, tratamento e cura do meu problema.

Em sua casa, fui levado à sala de espera, onde havia lindas fotografias em p&b nas paredes. Fiquei encantado: “caramba, será que além de um cara legal, ele também é um fotógrafo talentoso?” Roberto apareceu. Assim que o vi, falei, “Roberto, que fotos espetaculares! São da sua autoria?” Ele, com um semblante sério como eu nunca havia visto nele, me disse:
“É ‘DOUTOR’ Roberto. Pode passar…”
Me levou ao consultório e apontou o divã. Em silêncio estava e em silêncio ficou. Ao final de cinquenta minutos me disse que seriam cinco sessões semanais e que o preço era tanto.

Mais tarde aprendi que isso tudo era chamado de “neutralidade do analista”, uma tela em branco onde o cliente poderia projetar suas “transferências”, acredita?

Foi minha primeira aula do que eu não queria. Nem para a psicanálise, nem para o comportamento do psicanalista.







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SUPEREGO? OU “SEU ALMEIDA”?

 


Um problema da técnica, na psicanálise do Superego, pode ser justamente chamar o Superego de Superego.

Exceto para clientes familiarizados com a teoria psicanalítica, o nome “Superego” pode causar estranheza e não transmitir a eles o conceito de “bug no sistema” que queremos, algo que está nele, mas que com ele não se confunde.

Por isso, desenvolvi o hábito de buscar um nome próprio para o Superego dos clientes. Vou detectando, no histórico do cliente, a pessoa que foi (ou continua sendo) a principal adestradora de seu Superego, para passar a chamá-lo com esse nome. 

Como exemplo, um cliente cujo pai desempenhou esse papel – e que continua desempenhando – teve seu Superego nomeado por mim: eu só falo dele perguntando pelo “Seu Almeida”. “E aí, de que Seu Almeida está lhe acusando?”

Assim, a cada vez que ele relata um dos choques típicos do Superego (angústia, vergonha, culpa, ridículo), eu conclamo “Seu Almeida” para falar. Com isso, o cliente se acostuma a um dos objetivos principais da Psicanálise do Superego: não se confundir, nem com a doença, nem com seu próprio Superego. Ele desadestra essa confusão maligna e se torna cada vez mais parceiro meu a examinar os bugs, tanto a doença quanto o Superego.




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