quarta-feira, 8 de julho de 2026

SUPEREGO E AUTOESTIMA: UMA AVALIAÇÃO CONSTANTE DE NOSSO PRÓPRIO VALOR

 



Autoestima é um estado de espírito, é um clima interno. E esse clima gira em torno de uma coisa só: o quanto a pessoa depende, desesperadamente ou não, da avaliação de valor que vem de fora.

Isso é, em grande parte, instalado pela genética, pois nossa atividade sexual passa muito pela nossa “cotação” na bolsa de valores pessoais.

## 1. Os polos da autoestima e suas gradações: da serenidade ao desespero

De um lado está a serenidade.

É quando a questão do próprio valor **simplesmente não está em jogo**, na verdade, nem é uma questão: a pessoa anda pela vida sem se medir o tempo todo, sem se olhar de fora, sem viver de “nota de desempenho”. Ela não está em regime de prova contínua. É um polo extremamente raro.

No meio do caminho, entra a zona trabalhosa da negociação de valor.

É onde moramos nós, a maioria da humanidade. Numa variação percentual de valor próprio, vai das inseguranças, da apreciação de reconhecimento, da necessidade dele em doses variáveis, até a triste condição do narcisismo: essa crença íntima de desvalor que produz os “fodão/merda”, “winner/loser”, nesse sobe e desce de amor próprio conforme like, aplauso, crítica, olhar do outro. Qualquer elogio vira gole de álcool; qualquer desaprovação vira insulto. A vida se torna uma obsessão sobre sua própria “cotação no mercado”.

No outro extremo, vem o desespero: a crença íntima de **desvalor completo**.
Não é só o nosso conhecido “estou mal hoje”, é um “eu não valho nada” estrutural, que pode facilmente chegar ao pensamento de morte, porque se a própria existência está sem valor, o sofrimento é tanto que tirá la parece uma solução coerente.

## 2. Os dois polos e o lugar da maioria

Sim, você já viu gente que é completamente serena e gente que é completamente necessitada de autoafirmação constante. Há figuras constantemente expostas nas mídias que são caricaturas disso.

Eu uso esses dois polos para que se entenda que está no grande meio, onde está a maior parte da humanidade.

De um lado, o polo da serenidade tranquila de autoestima: a pessoa não está se medindo o tempo todo, não vive de like, não precisa provar nada a cada minuto.

Do outro lado, o polo da dependência desesperada de aplauso, de vitória, de confirmação pública de que é “fodão” – porque, por dentro, morre de medo de ser “merda”.

Essas caricaturas servem só como holofote: o drama real da autoestima se passa nesse meio termo em que quase todo mundo vive, negociando o próprio valor o tempo todo, entre momentos de segurança e momentos de pura insegurança.

## 3. O domínio/submissão e o vício “fodão/merda” dentro da pessoa

No meio dessa régua, quem regula nossa “cotação” é o superego. Ele vai desde o habitual, que está sempre vendo e criticando nosso comportamento, dando-nos frequentes notas de valor e afirmando seu poder (domínio), até o ponto em que ele tem conosco um vício sadomasoquista de maltrato e vingança, que costuma ser levado às nossas relações de convívio pessoal, ou pelas redes, como no narcisismo
E, nesse último caso, o superego não é apenas fiscal de conduta; é um personagem sádico masoquista que vive num vício “fodão/merda” com a pessoa.

Nessa caricatura, ele é um vício interno de domínio e submissão: o superego domina, humilha, esmaga; o Eu, nosso Ego, fica alugado pela reação, tentando se vingar, se inflar, dominar, sentir se o máximo; e, em seguida, vem a ressaca, e ele volta a se sentir merda.

Como no álcool: a sensação de valor total é momentânea, artificial – e o preço vem na manhã seguinte.

## 4. A origem disso tudo: adestramento infantil

E aqui entra a lembrança fundamental:
o superego é fruto de um **adestramento infantil de domínio submissão**, feito através da cotação de valor pelo grupo de amparo inicial. Quanto mais ela for deixada em paz, com a certeza de que seu amparo não está em discussão, mais autoestima ela terá. Mas, atenção: mimar a criança não é deixá-la em paz, é sim armar uma bomba-relógio que vai estourar quando ela for ao mundo.

Na maioria, a criança aprende muito cedo que o seu lugar no colo, na mesa e no coração dos seus depende de como ela é avaliada: aprovada, elogiada, envergonhada, humilhada, ignorada. A partir disso, ela monta por dentro um painel de cotações – o superego – que repetirá ao longo da vida o modo como seu valor foi medido pela sua primeira “tribo”.

Ou seja, se seu amparo não é questionado, sua autoestima cresce e ela brinca pela vida não tendo de provar nada. Mas se a criança é insegura em seu grupo de amparo inicial, vivendo na corda bamba da aprovação, a sua autoestima tende a ser frágil para sempre, a menos que, mais tarde, encontre outras formas de amparo e de valor que consigam desmontar, aos poucos, esse velho treinamento.


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