Estou levantando as contribuições que recebi ao longo da vida para construir minha Psicanálise do Superego.
1. Digo, primeiro, que a mais óbvia é a de **Freud**: ele investigou o reprimido e me abriu a porta para eu investigar o repressor.
2. Vejo, em segundo lugar, minha origem em **medicina clínica** como uma influência que perpassa toda minha pesquisa e clínica: aprendi ali a buscar o diagnóstico e a buscar a cura, a perceber a doença como algo alheio à pessoa e a desejar erradicá-la, curá-la — e levei esse gesto, sem perceber por muito tempo, para dentro da psique.
3. Reconheço, em terceiro lugar, a influência da **psicologia evolucionista**, principalmente de David Buss, que me ensinou a pensar o controle interno como algo selecionado ao longo da história da espécie.
4. Somo a isso, em quarto lugar, minha leitura da **história evolutiva das espécies** — sobretudo através do Sapiens de Yuval Harari e de Richard Dawkins — que me deu o mapa de como esse mecanismo de controle se propagou culturalmente ao longo dos milênios, como um replicador.
5. Considero, em quinto lugar, dois **filósofos** centrais: Ortega y Gasset, com sua questão das circunstâncias que me constituem, e Spinoza, com o conhecimento dos cordéis que me manipulam — ligado à pequena margem de liberdade que conquistei na vida através desse conhecimento.
6. E chego, em sexto lugar, à **Revolução Americana e à Declaração de Independência**. Fico encantado com essa história porque é a primeira revolução que não substituiu uma tirania por outra. Sei que foi Thomas Jefferson quem redigiu o texto, dentro do Comitê dos Cinco, e que foi ele quem alterou a tríade de Locke — vida, liberdade e propriedade — para vida, liberdade e busca da felicidade. Entendo a igualdade que a Declaração proclama não como igualdade entre pessoas, que não existe, mas como igualdade perante a justiça, igualdade de direitos e de oportunidades — uma afirmação racional, não uma ilusão.
7. O fechamento que proponho
Digo, então, que a felicidade, do ponto de vista da minha psicanálise do superego, é o exercício da busca da satisfação dos desejos singulares — um desenho próprio para cada pessoa, que só posso conquistar fora da tirania do superego.
Penso que essa busca da democracia, externa e interna, é o próprio processo de cura: um desmonte da tirania que não a substitui por outra tirania, mas por uma democracia em que todos têm lugar na bancada parlamentar, até mesmo o Superego, e devem expressar suas demandas através de falas claras.
Afirmo que a felicidade é busca, nunca posse, porque esse é um processo interminável, e é no próprio processo que está a felicidade — não num estado final a ser alcançado.
Fecho, assim, o arco do meu inventário: a felicidade-processo, a democracia-processo e a análise-processo são, na minha tese, a mesma estrutura repetida em duas escalas — individual e social.
Nenhuma delas é um estado a ser possuído como algo pronto; todas são um exercício a ser mantido. E é justamente por não transformar a cura num novo ideal opressor — o de "ter que estar curado", "ter que ser feliz" — que evito reinstaurar, no lugar do superego tirânico, uma nova tirania disfarçada de libertação.
Não existe um dia em que eu possa dizer “já estou curado, já livre, já feliz” sem correr o risco de que essa própria frase se torne, ela mesma, uma nova ordem do adestrador.

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