Seduzido pelo Superego:
O primeiro grande colégio de nossa infância tem um ícone que explica a autorreplicação do Superego: o bullying. Ele representa o maior truque para que o Superego venha se mantendo através dos milênios: a sedução. O oprimido aceita ser submisso por medo do desamparo, certo. Mas há outro componente: a sedução de, em outro momento, passar de oprimido a opressor.
Sem ter clareza ou consciência disso, o oprimido olha seu opressor com raiva e com inveja. Ele descontará sua raiva encontrando alguém mais para oprimir, e encontrará o alívio de sua inveja ao encarnar a “importância superior” do seu antigo opressor.
Havia nas escolas um ritual que caricaturava essa passagem: o “passa adiante”. O aluno da carteira de trás dava um cascudo na nuca do da carteira da frente. Este “oprimido” se voltava raivoso para o “opressor”, e ouvia dele a frase fatal: “passa adiante, senão vira elefante”. Na maioria das vezes, era o que acontecia. O que levou o cascudo comprava a proposta… e dava outro cascudo no da frente. Veja só a opressão e a sedução condensadas em dois segundos.
É claro que essa sedução de virar Superego do outro também pode acontecer na tribo familiar: o irmão mais velho oprimindo o mais moço; a mãe oprimida pelo marido oprimindo os filhos etc. Mas nunca de forma tão caricatural quanto o “passa adiante”.
Infelizmente, essa mesma dinâmica pode infiltrar-se até nas lutas legítimas em defesa das identidades e das minorias. Uma causa inicialmente voltada contra a opressão corre o risco de reproduzir sua lógica quando a reparação cede lugar ao desejo de humilhar, silenciar ou punir. O oprimido, então, já não procura apenas libertar-se do Superego: seduzido por ele, deseja ocupar o seu lugar.
Uma motivação nobre abduzida pelo processo de replicação do Superego.

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