quarta-feira, 30 de setembro de 2026

RAIVA NOS RELACIONAMENTOS

 


Quando digo que a raiva é o que nos move para buscar justiça, que a reação normal frente a injustiça é a raiva, sempre ouço isso:

“Ah, mas raiva é muito forte…”

Mas resolvi chamar de raiva uma família inteira de sentimentos, dos mais leves aos mais intensos. O que eles têm em comum é que todos reagem a uma sensação de injustiça.

Quando alguém diz que está ‘chateado’, ‘magoado’ ou ‘indignado’, está falando de raiva com outro nome. Só que esses nomes soam aceitáveis, enquanto a palavra ‘raiva’ soa feia, para o senso comum. É por isso que isso que o Superego censura a raiva.

Portanto resolvi descrever os graus da raiva, do mais fraco para o mais forte:

Leves
• incômodo, desconforto
• chateação, aborrecimento
• contrariedade, desagrado
• impaciência, irritação
• implicância, birra, “ranço”
• frustração

Médios
• mágoa, ressentimento
• desgosto, amargura
• indignação
• zanga, “estar bravo”
• rancor, despeito
• exasperação

Fortes
• revolta
• ira, cólera
• fúria, “estar possesso”
• ódio (o mais forte e provavelmente o mais ligado a doenças vingativas).

Palavras que disfarçam a raiva porque soam mais “educadas”:
• “Estou decepcionado.”
• “Fiquei sentido.” / “Fiquei ofendido.”
• “Estou estressado.” / “Estou nervoso.”
• “Estou de saco cheio.” / “Estou por aqui.”
• “Fiquei de cara.” / “Fiquei injuriado.”
• “Não engoli isso.”
• “Isso me tirou do sério.”

CIÚME E INVEJA, AS RAIVAS MAIS COMUNS NOS RELACIONAMENTOS

1. Um espectro só

Ciúme e inveja não são coisas diferentes. Os dois fazem parte da mesma família, a da raiva. E a raiva é a reação natural de quem sofre uma injustiça. Nesse caso, a injustiça que os dois denunciam é sempre a mesma: um roubo.

Só que ninguém se sente roubado do que não considera seu. Por isso, por baixo do ciúme e da inveja, está a ideia de propriedade. Sem o "isso é meu", não há roubo, e sem roubo não há essa raiva.

O que separa um do outro é o quanto de comparação entra na história. No ciúme, a queixa é "mexeram no que é meu". Na inveja, a coisa vai mais longe: "fulano vale mais do que eu, e isso rouba o meu próprio valor".

O ciúme olha para a coisa. A inveja olha para o outro e se mede com ele.

2. A escala do ciúme

O ciúme tem degraus, do mais inocente ao mais perigoso.

- O ciúme leve.
É o zelo com as próprias coisas. A pessoa chega em casa, vê o quadro torto na parede e sente aquele incômodo: alguém mexeu ali. Aqui o título de propriedade é real, o quadro é dela mesmo, e a reação é simples: endireitar o quadro. Esse "mexeram nas minhas coisas" é a base de todo ciúme.

- O ciúme de posições.
Aqui já não é um objeto. É um lugar que deram à pessoa, e que ela passa a tratar como se fosse dela. O exemplo clássico é o reizinho da casa, o filho único mimado, que de repente vê chegar a irmã caçula. O trono estava garantido, e agora aparece uma concorrente.
- O ciúme de pessoas.
A relação vira coisa, e o parceiro vira propriedade. O detalhe importante é que agora o título de propriedade é imaginário. Ninguém é dono de ninguém, mas a pessoa se sente dona.

- O ciúme patológico.
Aqui se juntam as duas coisas: o roubo e a comparação. Não é só "mexeram no que é meu". É "e ainda preferiram o outro a mim". É uma ferida dupla, e é justamente essa ferida que pode chegar ao feminicídio.

O princípio que amarra tudo isso é simples: quanto mais se coisifica o outro, maior o ciúme. E o contrário também vale. Quanto mais se respeita que o outro é alguém singular, com vida própria, menos ciúme sobra. Porque quem tem existência própria não pode ser roubado. Não dá para roubar o que nunca foi de ninguém.

3. A inveja: a ponta do espectro

A inveja é o ciúme levado ao extremo, onde a comparação passa a ser tudo.

Ela é vivida como humilhação. O outro tem qualidades melhores, coisas melhores, e a pessoa se sente diminuída por isso. E aí está o curioso: o roubo é imaginário. O outro não tirou nada de ninguém. Mas quem inveja se sente roubado mesmo assim.

Por isso dá para chamar a inveja de uma "injustiça injusta". Ela reclama de uma injustiça que não existe, pede vingança e, para se vingar, comete uma injustiça de verdade. É o sujeito que passa a chave no carro novo do vizinho. O vizinho não roubou nada dele, “só a autoestima”, mas ele sai dali tendo feito uma espécie estranha de justiça: um estrago real.


4. De onde isso vem: a propriedade

Quando a gente olha para os caçadores-coletores, vê que eles tinham relações mais intensas e menos intensas, claro, mas não tinham essa exclusividade idealizada e cobrada que a gente conhece.

Também tinham pouca coisa. Pouca propriedade, pouco ciúme, e um ciúme brando. Algo como o orgulho de quem fez uma ferramenta caprichada e vê outro querendo usar. Um incômodo, não um drama.

Foi a cultura da propriedade que inflou o ciúme. Com ela, o outro vira coisa, e o lugar que ele me dá vira direito adquirido. "Você me deu esse lugar, então agora ele é meu."

5. Duas distinções importantes

- Luto não é ciúme.
No luto, a pessoa diz "perdi", e o que vem é tristeza. No ciúme, ela diz "me roubaram", e o que vem é raiva. Perda é uma coisa, roubo é outra.

- O luto do desencontro.
É aquela decepção de todo dia: com pessoas, com políticos, com ideologias em que a gente acreditou. Isso também é tristeza, e não roubo. Ninguém tirou nada da gente. Só não era o que se esperava.

6. O desenvolvimento: fases orgânicas do desenvolvimento e guerras culturais

Aqui entra uma distinção entre o que é natural e o que é imposto pela cultura.

- As fases verdadeiras do desenvolvimento das zonas erógenas, a oral e a fálica, são naturais. Vêm do próprio amadurecimento do corpo, acontecem de qualquer jeito.

- As guerras culturais: as supostas fases anal e a genital são reação a imposições culturais. Nelas, a cultura invade uma propriedade que é legitimamente da criança: o próprio corpo.

A chamada “fase anal” não tem nada a ver com zona erógena. O ânus é zona erógena para uma minoria da população (menos da metade).
Freud a chamou de “fase anal-sádica”, porque que a criança se vingaria dos pais desobedecendo a “educação para uso do banheiro”. Mas isso só acontece se essa educação for imposta. Se for apresentada como conveniência para a criança, não haverá vingança.

Se a coisa lhe é imposta, aí nasce um ciúme justo, porque o roubo é de verdade. Só que a criança não pode brigar com quem cuida dela, porque precisa desse amparo. Então a raiva é engolida, reprimida.

- A tal “fase genital” mostra que a guerra genital não acaba na infância. Ela seria a idealização da passagem à “maturidade” do prazer genital, com romance, casamento e outras imposições culturais. Ela continua na vida adulta. A monogamia exigida pega a variedade natural das ligações humanas e enfia tudo num formato idealizado único. E isso, por si só, já é um roubo.

7. Ciúmes comuns entre os casais

- O "me engana que eu gosto". Funciona como uma trégua. Todo mundo sabe que a exclusividade do desejo sexual é um mito, que as masturbações existem para além do desejo entre os dois, mas ninguém fala disso, e assim a paz se mantém.
- O ciúme de vingança. É o raciocínio do "se ele me trata como propriedade, eu também vou tratar ele como propriedade". Um coisifica, o outro devolve, e a coisa vai escalando.

- A saída. É negociar sem retaliar e ir descoisificando a relação, devolvendo a cada um a sua existência própria.

8. Na clínica
- O critério para tornar a coisa um assunto tratável é o dano.
Se a ilusão ampara a pessoa e não faz mal a ninguém, o analista não tem por que se meter.


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