Vejo o Superego como fruto cultural de uma enorme mudança na espécie humana acontecida na revolução agrícola: nossa passagem da vida de caçadores-coletores para a vida em cidades, convivendo com estranhos, há dez mil anos.
Vamos lá, porque entender a vida dos caçadores-coletores é fascinante, mas não é simples, pois ela era imensamente diferente da nossa.
Fomos caçadores-coletores desde o surgimento do sapiens, há 70 mil anos, e assim permanecemos até 10 mil anos atrás, quando aconteceu a revolução agrícola.
Eram tribos nômades de não mais que 50 pessoas (crianças inclusive). Os homens caçavam e as mulheres colhiam plantas, raizes e frutos. Uma coisa principal pautava a atividade deles, a cooperação. Essa é a chave do predomínio dos sapiens sobre as outras espécies homo.
A cooperação envolve o partilhamento de mitos: o animismo, que não era uma religião e sim crenças partilhadas, atribuía características humanas a animais, plantas, rios etc. com quem se podia conversar. Não havia deuses superiores a temer, a natureza era bem integrada.
Os homens se comunicavam mais por gestos, de modo a não espantar a caça. As mulheres se comunicavam falando e trocando informações sobre onde encontrar a coleta, sobre a qualidade do que iriam colher, se era venenoso ou não etc.
Isso formatou nossos jeitos masculinos e femininos de agir, com os homens mais silenciosos e pragmáticos, e mulheres mais comunicativas e detalhistas.
A cooperação das mulheres também se dava no cuidado dos filhos e na amamentação. Não havia maternidade ou paternidade fixa, as crianças eram “filhas da tribo”, cresciam imitando os adultos e descobrindo com quem tinham mais afinidades. A neotenia – a manutenção da forma jovem e brincalhona, característica de nossa espécie – era cultivada e a cooperação a incentivava: a caça e a coleta eram brincadeiras de grupo.
A prática sexual era espontânea e sem idealizações, sem seduções ou dramas. A mulher não era propriedade de ninguém, era dona de si. Não havia vergonha, não havia culpa, não havia ridículo, nenhum mau sentimento ligado ao sexo. Na verdade, não havia na época ainda a relação de causa-efeito entre sexo e procriação. Não havia casais, não havia “pais e mães”, não havia famílias separadas: a tribo era uma família só.
Havia violência, mas voltada para estranhos: se tribos se esbarrassem, haveria luta. Assim como entre os chimpanzés, o estranho é por nós visto como ameaça.
Não havia propriedade privada, não havia herança, não havia vigilância sobre o “comportamento das mulheres”, nem drama sobre a prática sexual. Não havia “infidelidade” nem “traição”.
Esse retrato pode parecer idealizado, mas tudo leva a crer que, afora exceções, esse era o clima geral. O engraçado é que esse tipo de comportamento se parece muito com o nosso dos tempos de criança, até os cinco, seis anos. Depois disso é que a “seriedade” começa a entrar em nossas vidas.
Revolução agrícola
Há cerca de dez mil anos, o clima favoreceu maior crescimento de vegetais alimentícios. Por comodidade e segurança, o sapiens começou a plantar, colher e a criar animais. Isso trouxe duas consequências imediatas: ele deixou de ser nômade, e a população começou a aumentar.
Apareceram as protocidades, e com elas a convivência forçada com estranhos. Ora, um medo inato foi confrontado: o estranho-inimigo requeria contenção, caso contrário haveria uma carnificina. Outra consequência séria é que ele passou a ter propriedade privada: sua casa, sua colheita e seus animais.
Ter casa foi um jeito de não ter que conviver com estranhos, de se defender deles.
Ter posses trouxe outro problema: herança. “Para quem vou deixar minhas posses? Para meus filhos, claro! Mas aí eu preciso ter certeza de que minhas mulheres não me traiam, não quero passar o que tenho para filhos dos outros”. Daí veio a patrulha sobre a sexualidade das mulheres: elas passaram a ser “honestas ou não”.
Na sequência de morar em cidades e ter risco de carnificina vieram os governos e as leis. A primeira forma de governo foi a tirania, um nome que hoje é feio, mas que designava simplesmente um governo tosco, primitivo, como era de se esperar.
O governante tinha um poder absoluto sobre os cidadãos, as leis eram primitivas – como a famosa lei de Talião, “olho por olho, dente por dente” – e precisava saber da vida e do comportamento de todos. Por isso os deuses foram inventados. Pela primeira vez a mitologia não era amistosa como a animista; ela se passou a pessoal, vigilante e punidora. E mais, o tirano governava através dela, em nome dela, “ungido pelo deus que tudo via e tudo podia”.
Essa figura tirânica se espelhava no patriarca dono da casa: ele era um tirano no seu pequeno feudo; ele fazia as leis da casa, controlava tudo e punia quem saísse da linha, filhos, sim, mas sobretudo as mulheres “traidoras”. Olha só a origem do Superego das mulheres, que sempre visou a sexualidade delas!
Outra consequência foi que os filhos passaram a dar trabalho, pois não havia uma tribo inteira para dividir o cuidado com eles. Ao mesmo tempo, eles perderam coisas preciosas: liberdade para brincar; também não encontravam mais pessoas da tribo que pudessem acolher suas características únicas: se eles fossem diferentes, dariam mais trabalho.
A soma dessa linha de montagem – deus tirano + tirano da aldeia + tirano da casa – gerou uma nova tirania, essa dentro da cabeça das crianças: o Superego.
Mas como ele entrou na cabeça das crianças? Por adestramento, como se elas fossem cães. O cão é adestrado para se comportar na base da ameaça de desamparo, pois eles dependem de nós tanto quanto uma criança.
Então, é na base do “virar a cara” (ameaça) e “dar carinho/ prêmio (suborno) que o cão – e a criança – aprende a “se comportar”. Diferença é que os cães gostam da submissão, eles foram selecionados pelo sapiens para isso.
Quanto a nós… nem tanto: se lhes for dada a oportunidade, os sapiens gostam de se governar, de independência, de autonomia. Tanto é assim que eles são tentados a governar os outros, a serem tiranos, a repassar o que sofrem com seus superegos.
Mas se o Superego impõe regras para que as crianças se comportem de modo a “não dar trabalho”, ele não se interessa por características únicas delas que deem trabalho, ele tenderá a fazê-las se comportarem segundo leis gerais, leis que tornam as pessoas homogêneas. Portanto, leis que as atropelam. É desde atropelamento que virão os conflitos entre desejos próprios e leis que não os aceitam. Como no caso do desejo sexual das mulheres. Não é à toa que a psicanálise nasceu da observação desse conflito: a neurose histérica.
Ela foi a pista que Freud teve para entender que havia guerra entre leis e desejos, e que os sintomas e doenças falavam de maneira cifrada desse embate.
Em resumo: o Superego resulta do espelhamento das tiranias: o deus tirano que apoia o tirano governante, que se impõe sobre o cidadão, que se torna tirano em sua casa controlando sua mulher, e que adestra seus filhos a ter um “controle remoto”, um tirano dentro da cabeça: o Superego.
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