segunda-feira, 16 de março de 2026

O APRENDIZADO DE ORELHADA

 

Sim, aquilo que se escuta é a principal fonte de aprendizado da humanidade. Você só dá ouvidos se dá atenção; e só dá atenção ao que te atrai; e só se atrai por aquilo que te afeta, que te desperta alguma emoção; e a atenção, somada à emoção, é o melhor fixador de memória que existe: onde estava você quando as Torres gêmeas foram atacadas? Você não vê tudo em sua mente?

“Ah, mas aprender de orelhada? Não é a mesma coisa”. Tem razão: muitas vezes é melhor. É hora de aprender a respeitá-lo. A garotada cada vez lê menos, mas é capaz de aprender muito pelo que ouve e pelo que conversa - desde que tenha alguém interessante para ouvir, ou com quem conversar. 

Tenho a impressão de que o golpe fatal desferido sobre os livros foi a obrigatoriedade de lê-los na escola. A meninada parou de ler por birra às imposições chatas dos pais/colégios.

E não é algo relativo à inteligência, tipo, “ah, os inteligentes lerão”. Não! Tenho encontrado gente brilhante (sempre poucos, claro), nascida em torno do milênio, que nunca abriu um livro na vida, mas são curiosos com o que eu tenho a dizer, e que aprendem pra valer com isso.

Nunca me mandaram ler um livro, na vida: eis porque me tornei leitor. Pela curiosidade (motivação), porque eles estavam ao meu alcance (meios) e porque eu dedicava tempo para eles; quase o mesmo tempo que a garotada dedica às telinhas (oportunidade). 

Não é a inteira verdade: um dia, eu estava estudando história; minha mãe chegou e disse: “Vai estudar história, menino!” Foi o que bastou para eu tacar um Pato Donald dentro do livro, e fingir que estudava. Por birra…
Tive preciosos mestres de orelhada: 

. meu querido ex-cliente Arno Viero, doutor em filosofia da lógica, me ensinou sobre a ética aristotélica e o conceito de liberdade, em Espinoza, Gödel e sua “lógica fuzzy”, de onde tirei “o valor da primeira impressão”.
.Leandro Konder, meu comunista gentil, me ensinou sobre Marx; 

.Márcia Cabral, aluna de Cláudio Ulpiano, me produziu a aversão irremediável aos filósofos franceses contemporâneos; 

.Carlos Eloy Alonso me levou para um grupo em que se debatia psicologia evolucionista. 
.Fernando Gewndsznajder, que me apresentou à epistemologia de Karl Popper e seu princípio de refutabilidade, e mudaram para sempre o rumo da psicanálise que faço.

São alguns dos múltiplos exemplos do que aprendi sem ter aberto um livro. Adorei quando meu irmão me contou sobre o que tratava Marco Aurélio, em suas “Meditações”; foi assim que me tornei um estoico sem ter que lê-lo. 

De fato, eu leio pessoas que foram capazes de ler livros chatos, tipo Kant, Espinoza e Schopenhauer; eu as sugo, parasito… e elas adoram a simbiose. É o que faço hoje com meus alunos. Se isso lhes despertar a vontade de ler as fontes, tanto melhor.

Viva a orelhada! Minha escola dos sonhos não imporá leitura a ninguém. Quem quiser ler o fará por gosto.







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