“Você diz aí que nós somos com os outros mamíferos, apenas mais complexos: máquinas programadas pelo DNA visando sua replicação, com programas de desejos e de medos que permitem a a condições em que o sexo possa ser praticado.
Ok, mas com os sonhos entram nesse programa?”
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Francisco Daudt. Você notou bem: como todos os mamíferos, nós também sonhamos. Você já viu um cachorro sonhando? Eles fazem como nós: de vez em quando eles se mexem, se agitam, fazem ruídos. Na maior parte do tempo, dormem tranquilos.
Por aí podemos deduzir que o sonho faz parte do nosso programa animal, que ele desempenha funções vitais em nossa “máquina”.
Estou falando de máquina porque cada vez mais nos vejo – sobretudo ao nosso cérebro, nossa mente – como semelhante ao computador em geral, e às IA em particular.
Vamos fazer então um passo a passo que vai do DNA ao sonho:
A base inicial é orgânica: o DNA nos programou para preservar a continuidade da vida.
Essa programação não opera por ideias abstratas, mas por desejos, medos, alarmes, prazeres, desconfortos e mecanismos automáticos de proteção, todos “softwares que vêm com a máquina”.
O principal motor da máquina viva é o desejo de prazer, é ele que vai nos levar ao “propósito do programador”: a replicação do DNA.
Esse desejo de prazer vai da fome ao apetite, do tesão à satisfação, do alívio corporal ao prazer sexual.
Mas o desejo de prazer não pode operar sozinho. Para que o prazer aconteça, a máquina precisa de um ambiente suficientemente seguro. O prazer precisa de tranquilidade.
Esse ambiente seguro é aquilo que chamamos de paz: não uma paz moral ou idealizada, mas uma paz orgânica, uma tranquilidade mínima do ambiente em que estamos.
Essa paz é necessária porque os grandes prazeres e alívios do organismo envolvem uma situação vulnerável.
O sono é vulnerabilidade.
A eliminação de resíduos, como urinar e defecar, é vulnerabilidade.
O sexo é vulnerabilidade.
A reprodução exige vulnerabilidade. Portanto, a máquina precisa reduzir ameaças para permitir os momentos em que ela baixa a guarda.
Para proteger o desejo de prazer, o DNA nos equipou com medos inatos. Entre esses medos, um dos mais importantes é o medo do estranho.
O estranho, na base, é antes de tudo, o outro humano desconhecido.
A criança chora quando “estranha”. Um rosto estranho pode significar perda de proteção, ameaça, abandono ou intrusão.
Para o adulto primitivo (e para nós, atualmente, numa rua deserta), o outro desconhecido podia representar perigo de ataque, morte, roubo, sequestro ou invasão.
Por isso, o processo de tornar o estranho em familiar é uma função protetora fundamental. A familiarização reduz o risco.
Essa familiarização pode acontecer de várias formas: pelo parentesco, pela troca, pela nomeação, pelo ritual, pela oferenda, pela conversa, pela explicação ou pelo mito. Por exemplo, “ele também é flamenguista” diz que o outro é familiar, pois acredita no mesmo mito.
A máquina humana busca ampliar o território do familiar para se sentir tranquila. Quanto mais familiar o “mundo” se torna, menos ameaçador ele parece. Quanto menos ameaçador ele parece, mais o organismo pode se sentir tranquilo para dormir, comer, eliminar resíduos, fazer sexo, cuidar dos filhos e viver.
O desejo de prazer – nosso motor principal – precisa de desejos acessórios para criar esse campo de segurança.
Os principais desejos acessórios são o
a. desejo de conhecimento e entendimento,
b. o desejo de justiça,
c. o desejo de ordenação e controle.
a. O desejo de conhecimento e entendimento
Ele nasce da tensão da perplexidade. A perplexidade aparece quando a máquina encontra algo que não entende. O não entendido é ameaçador porque não pode ser previsto.
Para reduzir essa ameaça, a máquina inventa explicações. Em sua forma primitiva, essas explicações são mágicas, míticas e imediatas.
O trovão estranho vira a voz de um deus.
A doença estranha vira castigo.
A morte vira só passagem, pois “a vida continua em outro plano”.
O mito inventado transforma o fenômeno estranho em algo familiar, narrável e negociável.
A explicação mítica não nasce primeiro do amor à verdade, mas da necessidade de reduzir o terror. Depois, em níveis mais sofisticados, o desejo de conhecimento pode se transformar em ciência.
A ciência também tenta tornar o estranho familiar, mas aceita suportar o “não sei” por mais tempo. Foi por essa demora que ela precisou de milênios para aparecer, pois a investigação dá trabalho.
Já o mito é muito mais fácil: uma vez inventado, tranquiliza rapidamente.
b. O desejo de justiça nasce do incômodo da raiva.
A raiva, o ressentimento, o desconforto, a mágoa, a revolta, aparece quando há sentimento de injustiça por abuso de poder, invasão, humilhação ou diferenças intoleráveis.
A raiva é o alarme do desejo de justiça. A satisfação primitiva da raiva pode ser vingança, punição, retaliação ou destruição do agressor.
Em formas mais sofisticadas, a raiva é transformada em acerto de ponteiros, regra, reparação, limite, lei e justiça externa.
Diz-se que a forma mais sofisticada de operar a raiva em busca de justiça é a diplomacia.
A justiça reduz a ameaça porque impede que o outro possa tudo. Onde há justiça, há alguma previsibilidade nas relações.
Onde há previsibilidade, o organismo pode se expor e se tornar momentaneamente vulnerável com menos medo.
c. O desejo de ordenação e controle nasce da tensão da insegurança
A insegurança aparece diante do caos, do imprevisível, do desorganizado e do incontrolável. Logo, ordenar é reduzir ameaça, e controlar é tentar impedir a surpresa destrutiva.
Classificar, organizar, ritualizar e repetir são modos de diminuir a insegurança. O controle torna o estranho menos estranho. A ordem transforma o mundo em território manejável.
Esses três desejos acessórios trabalham a favor do desejo de prazer.
O conhecimento/entendimento reduz a perplexidade.
A justiça reduz a raiva diante da ameaça do outro.
O controle/ordenação reduz a insegurança diante do caos.
Quando perplexidade, raiva e insegurança diminuem, a máquina se aproxima da paz necessária ao prazer. Essa paz permite os estados de vulnerabilidade: A máquina pode então dormir; Pode eliminar resíduos; Pode fazer sexo, reproduzir, cuidar, repousar.
Pode entregar-se.
A capacidade de inventar mitos que “explicam tudo” nasce desse automático criador de familiaridade. A máquina humana cria mitos para tornar suportável aquilo que a ameaça.
Esse automático criador de mitos opera para fora e para dentro. Para fora, ele cria mitos que explicam sobre a natureza, os deuses, os mortos, as tempestades, as doenças e o destino.
Para dentro, ele cria sonhos, sintomas, fantasias, fobias e explicações íntimas.
O sonho pertence a essa mesma máquina mitológica:
Durante o dia, a máquina acumula estranhamentos, conflitos, desejos, raivas, perplexidades, inseguranças e restos emocionais. Ela fica sobrecarregada, funciona lenta e pesada.
À noite, o sono funciona como protetor da máquina. O sono permite resetagem, esvaziamento da sobrecarga e reorganização interna.
Mas esse “reset” precisa ser protegido: perturbações da véspera ou do próprio corpo podem ameaçar interromper o sono.
O sonho surge como meio de digerir essas perturbações.
O sonho transforma estranhamentos em cenas. Transforma tensões em fábulas, restos da véspera em narrativas. Transforma desejos em satisfações possíveis. Transforma ameaças em imagens mais assimiláveis.
Transforma as perturbações da véspera em algo momentaneamente sonhável, uma historinha codificada que não desperta a pessoa.
A função primordial do sonho é preservar o sono.
O sonho tenta manter a paz noturna necessária à resetagem.
Assim como o mito social torna familiar o trovão, o sonho torna familiar a perturbação íntima. Assim como a justiça tenta resolver a raiva no mundo externo, o sonho tenta dar alguma solução imaginária à raiva que sobrou da véspera. Assim como o conhecimento tenta resolver a perplexidade, o sonho inventa explicações narrativas para aquilo que ficou sem entendimento.Assim como a ordenação tenta resolver a insegurança, o sonho organiza o caos interno em cenas.
Quando o sonho consegue digerir a perturbação, o sono continua.
Quando não consegue, o sonho fracassa e se transforma em pesadelo.
O pesadelo é a falência da função digestiva do sonho. A perturbação ficou forte demais. O estranho não pôde ser suficientemente familiarizado. A tensão não pôde ser reduzida.
A máquina acorda.
Portanto, a mesma lógica liga a biologia ao mito, ao sonho e à cultura. Todos trabalhando em função do objetivo do programador:
a replicação do DNA.

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