terça-feira, 19 de maio de 2026

PROBLEMAS EMOCIONAIS DA VELHICE




 

– sentimentos de perda / lutos


Luto: o sentimento que decorre da perda – objetiva ou subjetiva – de algo, ou de alguém, em quem, ou em que, a pessoa fez grande investimento de tempo, de afeto, de custos. Ou seja, algo, ou alguém muito importante para a pessoa.


O mais óbvio é o luto diante da morte de pessoa querida. Mas há outras formas de luto, como o de gente viva, de status social, de condições pessoais muito prezadas, de pets muito queridos etc.


Vamos ver aqui formas de lutos inerentes ao avanço da idade.


1. O ponto de partida: a velhice como acúmulo de lutos


Luto é o sentimento ligado a perdas de algo – ou de alguém – que foi alvo de muito investimento de valores pessoais, seja de tempo, de investimento emocional, de dinheiro etc.

Logo, luto = investimento + perda


O critério de velhice aqui usado não parte de uma idade objetiva, parte de uma visão de si mesmo, dentro da realidade vivida pela pessoa. Pois o luto ligado à idade acontece em diversos tempos da vida, inclusive a infância.


Um exemplo caricatural disso é o das profissões que dependem do corpo jovem, como a de modelo, bailarina, ginástica olímpica, ídolo infantil/adolescente, atleta de alto rendimento etc. Em todas elas haverá o momento de perda e sua dura transição.


A velhice é atravessada por múltiplos lutos sobrepostos. O luto da imortalidade (que bate forte em datas redondas como os 70 anos) é apenas um deles — e nem sempre o mais difícil.


2. O inventário ampliado dos lutos

Além dos lutos clássicos da idade (aparência, desejo, atratividade, funcionalidade, segurança financeira, independência, agilidade, memória), foram acrescentados:

• Papéis sociais (perda da identidade profissional)

• Parentalidade ativa (saída dos filhos, síndrome do ninho vazio)

• Pares afetivos e/ou profissionais (rarefação da rede social)

• Corpo erótico (deixar de desejar e de ser desejado)

• Futuro como horizonte aberto (o tempo vira “o que resta”)

• Utilidade (passar de quem dá para quem recebe)

• Reconhecimento social (invisibilidade do velho)

• Projeto de si (acerto de contas com o que se quis ser)


2. A leitura pelo Superego


Boa parte desses lutos atinge funções que o Superego transformou em condições de valor pessoal. É o chamado “luto do personagem”. A pessoa atribuía seu valor ao papel que desempenhava, seja como profissional quanto pessoal.

Quem se identificou rigidamente com ser produtivo, desejável ou indispensável sofre não só a perda objetiva, mas o desabamento da imagem que sustentava a autoestima.


4. A aposentadoria como luto da identidade

Caso emblemático: abre-se um vazio que a pessoa não sabe preencher, produzindo um tédio muito específico. Parece com o luto do personagem.


5. A semelhança com a adolescência

O tédio do aposentado é estruturalmente parecido com o do adolescente. Ambos foram expulsos de uma economia psíquica que funcionava e estão numa zona intermediária: “em que investir minha vontade, meus desejos e meu tempo?”.


6. A diferença crucial entre as duas crises

A adolescência é crise com um futuro vislumbrado, a “vida de gente grande”. A aposentadoria é crise sem roteiro — uma “adolescência sem turma”, sem rito de passagem, sem promessa cultural para vinte ou trinta anos de vida “sem rumo certo”.


7. O tédio da transição

Assim como na passagem da infância para a adolescência, quando frente à perda de graça dos velhos brinquedos, o desejo ainda não descobriu seus novos objetos, a aposentadoria pode trazer o mesmo tipo de tédio: “e agora? Onde haverá coisa interessante para fazer?” É uma transição que dá trabalho (e que deveria ser antecipada, antes que a aposentadoria chegasse).


9. O luto da atratividade sexual e como ele é cruel para as mulheres

A diferença entre os sexos nesse luto vem da biologia, não da cultura. Enquanto o desejo masculino é despertado pelos sinais visuais de fertilidade (que declinam na menopausa), o desejo feminino é despertado pela admiração (que pode aumentar com o tempo). Daí Sean Connery ter sido considerado sexy aos 80, sem que coisa semelhante aconteça com mulheres.


10. A injustiça biológica dupla para a mulher

A mulher perde a atratividade visual e perde também a própria capacidade de excitação, porque os hormônios da libido caem na menopausa. 






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