A neurose obsessiva é uma perturbação que vem do caráter obsessivo com o qual a pessoa nasce, completamente focada em controle e pureza.
Os sintomas comuns da neurose obsessiva são a pureza moral, a pureza da orientação sexual, a pureza dos “bons sentimentos” (bondade sem raiva), entre outros. Ou seja, uma obediência obsessiva ao senso comum de cada época, ou de cada “tribo social”.
A obsessão pela aparência perfeita também pode se transformar em neurose. Dessa forma, a neurose preserva sua estrutura, mas muda o conteúdo conforme muda o tribunal cultural.
O que permanece é a lógica:
• “Há algo em mim que me desqualifica.”
• “Preciso verificar se isso é verdade.”
• “Se for verdade, serei excluído, humilhado ou rebaixado.”
• “Tenho que neutralizar essa possibilidade.”
• “Mas a neutralização nunca basta.”
Antes, em determinados contextos culturais, a orientação sexual podia ocupar esse lugar de mácula. O pensamento invasivo “será que sou gay?” não era necessariamente expressão de desejo homossexual reprimido; muitas vezes era a forma obsessiva de uma pergunta superegóica: “há em mim algo que me torna impuro, inferior, condenável, excluível?”
À medida que a cultura vai reduzindo a força condenatória desse conteúdo, ele perde parte de sua eficácia patogênica. Não desaparece a estrutura obsessiva, mas ela procura outro significante carregado de ameaça narcísica. A aparência, hoje, tornou-se um desses grandes campos de captura.
A frase muda, mas a gramática é a mesma:
• “Será que sou gay?” vira “será que sou feio?”
• “Será que há algo errado com meu desejo?” vira “será que há algo errado com meu rosto?”
• “Será que os outros percebem minha mácula?” vira “será que todos estão vendo esse defeito?”
• “Preciso testar minha reação” vira “preciso checar o espelho, a câmera, a foto, o ângulo, a pele, o cabelo.”
As redes sociais funcionam como uma máquina de intensificação superegóica porque fazem três coisas ao mesmo tempo: multiplicam o olhar do outro, padronizam o ideal e tornam a comparação incessante. O sujeito não se compara mais apenas com os próximos da sua tribo imediata; compara-se com imagens editadas, filtradas, selecionadas, comercialmente otimizadas e repetidas milhares de vezes.
Então o ideal do Eu, do Ego, a face impositiva do Superego (“você tem que…”), se torna visual, algorítmico e inatingível. E o superego, em vez de dizer apenas “você deve ser moralmente puro”, passa a dizer: “você deve ser visivelmente impecável.”
A dismorfia corporal, nessa leitura, é uma neurose obsessiva voltada para a aparência. O corpo vira a superfície onde se inscreve a suspeita de indignidade. A “mácula” migra da orientação sexual, da culpa religiosa, da contaminação moral ou da dúvida ética para a pele, o nariz, o cabelo, a gordura, a musculatura, a simetria, a expressão facial.
O ponto decisivo é este: o obsessivo não sofre apenas porque encontrou um defeito; ele encontra um defeito porque precisa localizar a angústia em algum lugar. A cultura oferece os lugares disponíveis. Em outra época, a mácula podia ser pecado, impureza sexual, desvio moral. Hoje, pode ser inadequação estética.
Portanto, “eu tenho uma mácula na minha orientação sexual” e “eu tenho uma mácula na minha aparência” podem ser duas versões históricas da mesma operação psíquica. O conteúdo muda com o senso comum tribal; a máquina obsessiva permanece.

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