sexta-feira, 22 de maio de 2026

TRANSTORNO DISMÓRFICO, UMA NOVA “FACE” DA NEUROSE OBSESSIVA

 


A neurose obsessiva é uma perturbação que vem do caráter obsessivo com o qual a pessoa nasce, completamente focada em controle e pureza.

Os sintomas comuns da neurose obsessiva são a pureza moral, a pureza da orientação sexual, a pureza dos “bons sentimentos” (bondade sem raiva), entre outros. Ou seja, uma obediência obsessiva ao senso comum de cada época, ou de cada “tribo social”.

A obsessão pela aparência perfeita também pode se transformar em neurose. Dessa forma, a neurose preserva sua estrutura, mas muda o conteúdo conforme muda o tribunal cultural.
O que permanece é a lógica:
• “Há algo em mim que me desqualifica.”
• “Preciso verificar se isso é verdade.”
• “Se for verdade, serei excluído, humilhado ou rebaixado.”
• “Tenho que neutralizar essa possibilidade.”
• “Mas a neutralização nunca basta.”

Antes, em determinados contextos culturais, a orientação sexual podia ocupar esse lugar de mácula. O pensamento invasivo “será que sou gay?” não era necessariamente expressão de desejo homossexual reprimido; muitas vezes era a forma obsessiva de uma pergunta superegóica: “há em mim algo que me torna impuro, inferior, condenável, excluível?”

À medida que a cultura vai reduzindo a força condenatória desse conteúdo, ele perde parte de sua eficácia patogênica. Não desaparece a estrutura obsessiva, mas ela procura outro significante carregado de ameaça narcísica. A aparência, hoje, tornou-se um desses grandes campos de captura.

A frase muda, mas a gramática é a mesma:
• “Será que sou gay?” vira “será que sou feio?”
• “Será que há algo errado com meu desejo?” vira “será que há algo errado com meu rosto?”
• “Será que os outros percebem minha mácula?” vira “será que todos estão vendo esse defeito?”
• “Preciso testar minha reação” vira “preciso checar o espelho, a câmera, a foto, o ângulo, a pele, o cabelo.”

As redes sociais funcionam como uma máquina de intensificação superegóica porque fazem três coisas ao mesmo tempo: multiplicam o olhar do outro, padronizam o ideal e tornam a comparação incessante. O sujeito não se compara mais apenas com os próximos da sua tribo imediata; compara-se com imagens editadas, filtradas, selecionadas, comercialmente otimizadas e repetidas milhares de vezes.

Então o ideal do Eu, do Ego, a face impositiva do Superego (“você tem que…”), se torna visual, algorítmico e inatingível. E o superego, em vez de dizer apenas “você deve ser moralmente puro”, passa a dizer: “você deve ser visivelmente impecável.”

A dismorfia corporal, nessa leitura, é uma neurose obsessiva voltada para a aparência. O corpo vira a superfície onde se inscreve a suspeita de indignidade. A “mácula” migra da orientação sexual, da culpa religiosa, da contaminação moral ou da dúvida ética para a pele, o nariz, o cabelo, a gordura, a musculatura, a simetria, a expressão facial.

O ponto decisivo é este: o obsessivo não sofre apenas porque encontrou um defeito; ele encontra um defeito porque precisa localizar a angústia em algum lugar. A cultura oferece os lugares disponíveis. Em outra época, a mácula podia ser pecado, impureza sexual, desvio moral. Hoje, pode ser inadequação estética.

Portanto, “eu tenho uma mácula na minha orientação sexual” e “eu tenho uma mácula na minha aparência” podem ser duas versões históricas da mesma operação psíquica. O conteúdo muda com o senso comum tribal; a máquina obsessiva permanece.




terça-feira, 19 de maio de 2026

PROBLEMAS EMOCIONAIS DA VELHICE




 

– sentimentos de perda / lutos


Luto: o sentimento que decorre da perda – objetiva ou subjetiva – de algo, ou de alguém, em quem, ou em que, a pessoa fez grande investimento de tempo, de afeto, de custos. Ou seja, algo, ou alguém muito importante para a pessoa.


O mais óbvio é o luto diante da morte de pessoa querida. Mas há outras formas de luto, como o de gente viva, de status social, de condições pessoais muito prezadas, de pets muito queridos etc.


Vamos ver aqui formas de lutos inerentes ao avanço da idade.


1. O ponto de partida: a velhice como acúmulo de lutos


Luto é o sentimento ligado a perdas de algo – ou de alguém – que foi alvo de muito investimento de valores pessoais, seja de tempo, de investimento emocional, de dinheiro etc.

Logo, luto = investimento + perda


O critério de velhice aqui usado não parte de uma idade objetiva, parte de uma visão de si mesmo, dentro da realidade vivida pela pessoa. Pois o luto ligado à idade acontece em diversos tempos da vida, inclusive a infância.


Um exemplo caricatural disso é o das profissões que dependem do corpo jovem, como a de modelo, bailarina, ginástica olímpica, ídolo infantil/adolescente, atleta de alto rendimento etc. Em todas elas haverá o momento de perda e sua dura transição.


A velhice é atravessada por múltiplos lutos sobrepostos. O luto da imortalidade (que bate forte em datas redondas como os 70 anos) é apenas um deles — e nem sempre o mais difícil.


2. O inventário ampliado dos lutos

Além dos lutos clássicos da idade (aparência, desejo, atratividade, funcionalidade, segurança financeira, independência, agilidade, memória), foram acrescentados:

• Papéis sociais (perda da identidade profissional)

• Parentalidade ativa (saída dos filhos, síndrome do ninho vazio)

• Pares afetivos e/ou profissionais (rarefação da rede social)

• Corpo erótico (deixar de desejar e de ser desejado)

• Futuro como horizonte aberto (o tempo vira “o que resta”)

• Utilidade (passar de quem dá para quem recebe)

• Reconhecimento social (invisibilidade do velho)

• Projeto de si (acerto de contas com o que se quis ser)


2. A leitura pelo Superego


Boa parte desses lutos atinge funções que o Superego transformou em condições de valor pessoal. É o chamado “luto do personagem”. A pessoa atribuía seu valor ao papel que desempenhava, seja como profissional quanto pessoal.

Quem se identificou rigidamente com ser produtivo, desejável ou indispensável sofre não só a perda objetiva, mas o desabamento da imagem que sustentava a autoestima.


4. A aposentadoria como luto da identidade

Caso emblemático: abre-se um vazio que a pessoa não sabe preencher, produzindo um tédio muito específico. Parece com o luto do personagem.


5. A semelhança com a adolescência

O tédio do aposentado é estruturalmente parecido com o do adolescente. Ambos foram expulsos de uma economia psíquica que funcionava e estão numa zona intermediária: “em que investir minha vontade, meus desejos e meu tempo?”.


6. A diferença crucial entre as duas crises

A adolescência é crise com um futuro vislumbrado, a “vida de gente grande”. A aposentadoria é crise sem roteiro — uma “adolescência sem turma”, sem rito de passagem, sem promessa cultural para vinte ou trinta anos de vida “sem rumo certo”.


7. O tédio da transição

Assim como na passagem da infância para a adolescência, quando frente à perda de graça dos velhos brinquedos, o desejo ainda não descobriu seus novos objetos, a aposentadoria pode trazer o mesmo tipo de tédio: “e agora? Onde haverá coisa interessante para fazer?” É uma transição que dá trabalho (e que deveria ser antecipada, antes que a aposentadoria chegasse).


9. O luto da atratividade sexual e como ele é cruel para as mulheres

A diferença entre os sexos nesse luto vem da biologia, não da cultura. Enquanto o desejo masculino é despertado pelos sinais visuais de fertilidade (que declinam na menopausa), o desejo feminino é despertado pela admiração (que pode aumentar com o tempo). Daí Sean Connery ter sido considerado sexy aos 80, sem que coisa semelhante aconteça com mulheres.


10. A injustiça biológica dupla para a mulher

A mulher perde a atratividade visual e perde também a própria capacidade de excitação, porque os hormônios da libido caem na menopausa. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ADESTRAMENTO “DO BEM” x ADESTRAMENTO “DO MAL”

 


Tenho dito que o Superego é um automático instalado em nós através de um adestramento tosco baseado em ameaça de desamparo: se fazemos (ou pensamos) algo que o Superego condena, recebemos um “choque de desprazer” em forma de angústia, culpa, vergonha ou ridículo. É assim que ele nos manipula.

Mas isso não quer dizer que todos os adestramentos são “do mal”, pois nem todos os automáticos são “do mal”. Ao contrário: sem automáticos “do bem” não faríamos quase nada na vida. 

A parte de nossas ações comandadas de maneira consciente, a partir do nosso Eu, do nosso Ego, é muito pequena se comparada com nossas ações automáticas que servem às nossas escolhas.

Veja o que acontece agora: você, seu Ego, escolheu ler este texto. Entram em cena diversos automáticos “do bem” para tornar isso possível: o próprio aprendizado da língua portuguesa e o da leitura estão automatizados em você desde a infância, e estão armazenados no seu cérebro em uma área diferente do córtex pré-frontal (onde moram a consciência e o Eu que escolhe).

A mesma coisa ocorre quando você dirige um carro: o número de procedimentos automáticos que ocorrem, e que tornam a direção possível, é enorme… e todos “do bem”.

A Psicanálise do Superego visa tirar os automáticos “do mal” e fazer com que os “do bem” sejam incorporados pelo mesmo processo que incorporou a leitura: através do aprendizado por escolha. 
Aprendizado esse que não termina nunca, e essa é sua beleza: “a beleza de ser um eterno aprendiz” (Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, 1982). 








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segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIFERENÇA ENTRE “LEVE” E “LEVIANO” - A ALTINHA

 


O Superego atrapalha a melhor característica de nossa espécie, que é “não se levar a sério”, ser criança brincando pela vida. Escolhi essa diferença entre o leve e o leviano como exemplo das duas coisas: a boa brincadeira e a influência indireta do Superego através do “dane-se”

A leveza é uma característica não dramática da brincadeira. O brincar pela vida afora é a marca registrada da melhor faceta de nossa espécie: a capacidade de se manter interminavelmente criança (cujo nome complicado é “neotenia”: do grego, “apego à juventude, à forma nova”).

A leviandade é o prazer imediatista que não leva em conta as consequências, que não tem consideração pelo outro, que “faz que não vê” os danos possíveis. A leviandade é um sinal de que o “dane-se, vou fazer” está operando. Ela não é “brincadeira”, é transgressão.

A brincadeira só tem uma coisa de “séria”: suas regras para funcionar. O resto é alegria.
Aqui no Rio temos um exemplo notável: a altinha.

A Altinha: um tipo de Leveza Estruturada

A altinha exemplifica perfeitamente essa distinção entre leveza e leviandade: uma brincadeira, um jogo, ancorada em regras básicas que a fazem funcionar bem. O jogo carioca, reconhecido como patrimônio cultural da cidade desde 2020, opera com uma regra fundamental - não deixar a bola cair no chão - e uma cooperação implícita: não há vencedores nem perdedores, a ideia é apenas manter a bola no alto e passá-la adiante.

### Regras que servem à Brincadeira

As leis mínimas da altinha - proibição do uso das mãos, objetivo compartilhado de manter a bola no ar, valorização do passe bonito - ajudam a criatividade sem atrapalhar o jogo. As regras servem a todos, ajudam na diversão e na cooperação, resultam da boa combinação prévia em que todos estão de acordo: a regra serve aos jogadores, não é o contrário, não são os jogadores escravos da regra.
É através das regras que a leveza se expressa: manobras criativas, passes bonitos, colaboração espontânea.

### Cooperação brincalhona de um lado, Competição do outro

Diferentemente dos jogos competitivos, onde há winners e losers (vencedores e perdedores), a altinha é um ótimo exemplo do "ganho generalizado e cooperativo". Todos trabalham para um objetivo comum, compartilham dificuldades, e a beleza do passe importa mais que a posse da bola.

A altinha é leve; não é leviana. 







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O DESEJO DE JUSTIÇA É MOVIDO PELA RAIVA

 


Aqui vão algumas categorias que cobrem o espectro percentual da reação à injustiça.

Não vejo problemas em intitular genericamente de “raiva” a reação a injustiças, mas entendo que há suscetibilidades a respeitar.

• 0–10%: Incômodo
• 10–20%: Chateação
• 20–30%: Aborrecimento
• 30–40%: Irritação
• 40–50%: Contrariedade
• 50–60%: Desconforto forte / sensação de injustiça
• 60–70%: Ressentimento
• 70–80%: Mágoa
• 80–90%: Indignação
• 90–100%: Raiva

Não incluo o ódio por ele já ser em si um estado de mau gerenciamento da raiva. 





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quinta-feira, 7 de maio de 2026

APRENDENDO COM O ANTIMODELO

 


Um dos jeitos como aprendemos sobre o nosso desejo é por exclusão. É vendo aquilo de que não gostamos. Assim como existe o modelo de identificação por gosto, existe o modelo que nos causa desgosto: o antimodelo.

Mas, atenção, não se trata aqui daqueles antimodelos monstruosos que o Superego usa para nos manipular. Não; aqui estamos falando simplesmente daquilo que não queremos ser por desafinidades, por não ter nada a ver conosco. Ou mais precisamente, é o exato contrário do que gostamos.

Meu antimodelo de postura psicanalítica foi encarnado pelo Dr. Roberto, meu primeiro analista, faz 57 anos. Eu o conheci como meu professor de psiquiatria, no curso médico da UFRJ, ainda na Praia Vermelha.

Roberto, como aprendemos a chamá-lo durante as aulas, era simpático, inteligente, bem-humorado, didático, tudo de bom. Como eu sofria, na época, com minha neurose obsessiva, ao saber que ele era também psicanalista, fui procurá-lo para me tratar.

Não fazia ideia do que era a tal de psicanálise, mas… como ele era médico, e bom médico, fui esperando diagnóstico, tratamento e cura do meu problema.

Em sua casa, fui levado à sala de espera, onde havia lindas fotografias em p&b nas paredes. Fiquei encantado: “caramba, será que além de um cara legal, ele também é um fotógrafo talentoso?” Roberto apareceu. Assim que o vi, falei, “Roberto, que fotos espetaculares! São da sua autoria?” Ele, com um semblante sério como eu nunca havia visto nele, me disse:
“É ‘DOUTOR’ Roberto. Pode passar…”
Me levou ao consultório e apontou o divã. Em silêncio estava e em silêncio ficou. Ao final de cinquenta minutos me disse que seriam cinco sessões semanais e que o preço era tanto.

Mais tarde aprendi que isso tudo era chamado de “neutralidade do analista”, uma tela em branco onde o cliente poderia projetar suas “transferências”, acredita?

Foi minha primeira aula do que eu não queria. Nem para a psicanálise, nem para o comportamento do psicanalista.







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SUPEREGO? OU “SEU ALMEIDA”?

 


Um problema da técnica, na psicanálise do Superego, pode ser justamente chamar o Superego de Superego.

Exceto para clientes familiarizados com a teoria psicanalítica, o nome “Superego” pode causar estranheza e não transmitir a eles o conceito de “bug no sistema” que queremos, algo que está nele, mas que com ele não se confunde.

Por isso, desenvolvi o hábito de buscar um nome próprio para o Superego dos clientes. Vou detectando, no histórico do cliente, a pessoa que foi (ou continua sendo) a principal adestradora de seu Superego, para passar a chamá-lo com esse nome. 

Como exemplo, um cliente cujo pai desempenhou esse papel – e que continua desempenhando – teve seu Superego nomeado por mim: eu só falo dele perguntando pelo “Seu Almeida”. “E aí, de que Seu Almeida está lhe acusando?”

Assim, a cada vez que ele relata um dos choques típicos do Superego (angústia, vergonha, culpa, ridículo), eu conclamo “Seu Almeida” para falar. Com isso, o cliente se acostuma a um dos objetivos principais da Psicanálise do Superego: não se confundir, nem com a doença, nem com seu próprio Superego. Ele desadestra essa confusão maligna e se torna cada vez mais parceiro meu a examinar os bugs, tanto a doença quanto o Superego.




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