quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

SOBRE O AMOR

 


Do ponto de vista da psicologia evolucionista, o amor é um tipo de prazer selecionado pelo DNA para fins de sua replicação e para a sobrevivência do ser replicado.

Ainda por esse ângulo, ele desperta vontade de investimento, desperta apego, vontade de amparo e de ser amparado, tudo servindo à otimização da réplica do DNA.

Portanto, o amor é um impulso natural, mais um passível a ser corrompido pelas leis do Superego, tipo “você TEM QUE amar seus pais”, que transformam o gosto da pessoa, de seu Eu, de seu Ego, em obrigação por medo do mau julgamento. Não transformam completamente, mas sequestram território.

Mas o que se chama de amor cobre um espectro amplo, que vai do prazer sentido ao sofrimento da paixão – a palavra vem do latim “passio”, cuja tradução é apenas “sofrimento”, tal qual na paixão de Cristo.

E passa por algo menos sentido, não sofrido, mais deliberado, mais produzido: quando o bebê chora durante a noite, vamos lá atendê-lo movidos pelo amor por ele, apesar de que no meio da noite não estamos sentindo esse amor, estamos agindo em nome dele, por escolha.

Amor sentimento
O amor sentimento vem dos encontros, dos encaixes de desejos simétricos, espelhados, um ativo, o outro receptivo, ainda que esses perfis possam se alternar.
Vamos pensar nos possíveis encontros de desejos: intelectual, afetivo e erótico. Eles vão ser apresentados em separado por razões didáticas, mas na vida real costumam se misturar.

Como exemplo, o desejo de encontro intelectual. Se o encontro é bom, ambos “amam conversar”. Quando se encontra um real interlocutor, uma verdadeira afinidade intelectual, os papéis ativo/receptivo costumam se alternar mesmo durante a conversa. Se o encontro é mais de professor/aluno, paterno materno/filial, haverá predominância de papéis. Mas mesmo nesses, o interesse do aluno ou da criança, suas perguntas inteligentes, sua vontade de saber desempenham um papel ativo que conversa em troca constante.

Veja que estamos olhando o prazer do encontro amoroso, sem falar das invasões do Superego em nome de instituições, como namoro, casamento etc., que costumam atrapalhar o sentimento por tentar obrigá-lo.

O encontro afetivo é o mais semelhante ao que se chama comumente de amor. Enquanto o intelectual excita a mente e o erótico excita o corpo, o encontro afetivo “aquece o coração”. Há uma paz gostosa e tranquila no encontro afetivo de base, seja na amizade, seja nas relações entre irmãos, ou entre pais e filhos, algo que transmite segurança de amparo, algo que pode se chamar de “amor companheiro”, que pode existir dentro e fora de laços instituídos, como namoro ou casamento.
Claro, nesse departamento há também a excitação romântica.

Nesses casos, os encontros podem ser realistas ou não, por causa da paixão. Quando há paixão, a margem de idealização pode variar de tamanho, mas costuma ser grande. É na paixão que se dá uma das expressões de doença psíquica mais complexa, a neurose de transferência, que repete o drama infantil de insatisfação da relação com um dos pais, e que fica eternamente em busca de uma satisfação que nunca vem.

Amor produção
Ele é misturado ao de sentimento em doses variáveis. O amor produzido vem do desejo mais amplo, como o desejo paternal/maternal, estendido não só aos filhos, mas até aos não tão próximos ou conhecidos, como leitores, alunos e público em geral. Ele se traduz em ações práticas (como o levantar à noite para atender ao bebê que chora).

Há um exemplo de amor produção, que se mistura ao de sentimento de devoção, particularmente importante a ser contemplado: o amor ao deus da religião, ou ao líder político carismático, ou ao ídolo artístico, que pode levar a uma gama imensa de atitudes nem sempre favoráveis para os que não o sentem. É um amor de submissão cega, apaixonado, imune à racionalidade, que se parece muito com a paixão da neurose de transferência.



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