sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O AMIGO PERGUNTA SOBRE A “INTERPRETITE”

 


“Tenho um colega que está se formando para ser psicanalista e que vive nos interpretando a cada coisa que fazemos. Que saco! Como você vê isso?”

Francisco Daudt. Ah, é a chamada “síndrome do aprendiz de feiticeiro”, em que a pessoa, impressionada com a posição superior do mestre, tenta imitá-lo de forma desastrada.

Esse comportamento diz mais do processo de formação do que de qualquer má intenção do aprendiz. Ele faz, sem saber, uma caricatura da instituição em que aprende e também de seu analista formador. Ele acaba imitando o Superego sob o qual sofre.

Por esse comportamento, sabemos logo que sua formação está guiada pelo “Freud explica” (claro, nem sempre é Freud, outros mentores mais na moda podem estar envolvidos). Sabemos que ele está repassando um mal-estar que tem com seu analista, que lhe aponta “suspeitos motivos ocultos” para gestos cotidianos.

A minha proposta psicanalítica é que o atendimento esteja a serviço de buscar cura DOS PROBLEMAS dos clientes, de suas doenças e sofrimentos, deixando em paz o que não é problema, o que faz parte da sua saúde. 
Além disso, as interpretações serão sempre ouvidas como “acusações dos demônios que estão por trás” de cada gesto. Isso não só é um saco, mesmo, como fere a questão contratual: “quem lhe deu permissão para se meter na minha vida e interpretar o que não é da sua conta? Por acaso eu te contratei como analista?”

Outra coisa: a investigação precisa ser feita em parceria com o contratante; ele precisa entendê-la, é necessário que o processo lhe faça sentido, caso contrário, a suposta descoberta está simplesmente errada.




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DIFICULDADES SEXUAIS FEMININAS

 


As mulheres foram as principais vítimas do Superego e do senso comum do comportamento sexual. Só como exemplo, o termo “homem honesto” significa um elogio em termos de valores morais genéricos, mas “mulher honesta” remete imediatamente a uma moral sexual. 

Isso veio da transição do lugar da mulher entre os caçadores-coletores (livre para o sexo casual; nem havia ligação entre sexo e procriação) para o lugar da mulher depois da revolução agrícola, há 10 mil anos, pois uma vez surgida a propriedade privada e a herança, a mulher passou a ter sua vida sexual vigiada para não gerar filhos bastardos. Daí vem o patrulhamento de sua sexualidade, daí vem o “Superego da mulher honesta”.

Nas mulheres, por conta das variações hormonais (ciclo menstrual, gravidez, pós-parto, menopausa), as causas orgânicas devem ser consideradas em primeiro lugar, só depois se devem investigar as psicológicas.
O tesão das mulheres, pela baixa testosterona, não é principalmente visual, como o dos homens. Ele costuma funcionar em dois tempos: a mulher acha um homem “interessante”; o homem a olha com desejo; ela aí sente desejo. 

O desejo de ser desejada, o principal entre as mulheres, também acontece com os homens em menor proporção.

Mas em 10% das mulheres, os níveis de testosterona mais altos geram tesão visual idêntico ao dos homens. Essas são as mais vulneráveis ao Superego, mesmo depois de o feminismo ter conquistado muito terreno, e o senso comum ter se abrandado quanto ao direito ao desejo feminino.

Termos Atuais
O que se chamava de “frigidez”, e eu chamo de dificuldades sexuais femininas, engloba várias situações diferentes, por isso “dificuldades” no plural:
•Pouco desejo, cujo nome complicado é “Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo”: Falta ou redução significativa de desejo sexual, impactando a vida diária, mas também, como nos homens, ele pode significar desencontro de desejos, a menos que seja geral.
•Problemas de Excitação Sexual: Dificuldade em lubrificação ou excitação genital, mesmo com estímulo adequado (pensar em causa hormonal).
•Falta de orgasmo, cujo nome complicado é Anorgasmia: Incapacidade ou retardo persistente no orgasmo, apesar de excitação normal. Mas sempre lembrando que o orgasmo nas mulheres vem principalmente da estimulação do clítoris; o orgasmo vaginal só acontece numa minoria.

É importante lembrar que, uma vez que a cultura nos condenou à monogamia, o sexo passou a conviver com o Superego numa proporção desmedida, principalmente para as mulheres. Só como exemplo, a masturbação feminina era vista até há muito pouco tempo como algo criticável, como sinal de que a mulher não era “tão honesta” assim, que era meio “devassa”.

Outro atrapalhador, tanto para homens quanto para mulheres: no casamento o sexo passou à categoria de “deveres conjugais”, algo que inibe tremendamente o desejo. Para elas, o sexo passou a ter a conotação de amparo (“ele não vai me abandonar, não vai arrumar outra”) e de prestígio (“se ele não me procura, é porque não gosta mais de mim”). Com essas “cláusulas contratuais”, o desejo ficou em distante segundo lugar.

Ou seja, a cultura pós agrícola e o Superego surgido dela atingiram profundamente o desejo das mulheres. Mulheres com dificuldades sexuais precisam conhecer bem as tolices que seu Superego lhes diz.

Isso afetou a psicanálise de maneira surpreendente: pode-se dizer que a psicanálise nasceu a partir dos problemas sexuais das mulheres, pois se o Superego atual é cruel, imagine o da época vitoriana do final do século XIX. A histeria (neurose histérica) foi a primeira pista a ligar sintomas psíquicos a um conflito inconsciente. 

Foi a primeira pista para que Breuer e Freud, inicialmente através da hipnose, descobrissem que o desejo sexual das mulheres, ao colidir com seu Superego, causava doenças.

(Acima: foto gerada por IA)





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SENSO DE HUMOR: O REMÉDIO PARA NÃO SE LEVAR A SÉRIO

 


Quando o Superego entra, a brincadeira acaba e começa a “seriedade”. O senso de humor nos faz voltar aos tempos pré-superego, aos tempos da brincadeira e da leveza.

Mas é preciso saber de que humor se está falando:
certamente não é o da ironia e do sarcasmo; 
certamente não é o humor usado para humilhar alguém, pra envergonhar alguém; 
certamente não é o humor do deboche e da vingança;
certamente não é o humor de colocar alguém como ridículo;
Certamente não é o humor do riso sádico.
Certamente não é o humor de rir de alguém.

Esses todos são instrumentos do próprio Superego, pois são ferramentas para alguém se colocar “acima dos outros”.

Se um ri e o outro chora, é sadismo do Superego. Estamos falando do humor de rir juntos, aí sim, é brincadeira, é cooperação, não é competição para ver quem é superior.

Um humor especialmente favorável ao desadestramento do Superego é o rir-se de si mesmo, a autogozação (em inglês, “self mockery”), que mostra que a pessoa não se leva a sério.

Ele faz par com outro treino essencial para desadestrar o Superego: o treino de humildade. A humildade é uma virtude olhada com desconfiança. “Humilde” e “simples” costumam ser usados como eufemismo de “pobre”, o que já dá a dimensão de como o senso comum olha a humildade.

No entanto, não há coisa mais realista do que a humildade, pois ela nos vê como seres manipulados pelo DNA, com apenas uma margem de vontade própria. 

Além disso, a humildade de dizer “não sei” foi o que gerou a revolução científica há 400 anos. A humildade é mãe da ciência, do Iluminismo e da democracia (“não há seres Acima de Mim”, ela é a busca da igualdade de oportunidades e da igualdade perante a lei).

Senso de humor e humildade: desadestradores do Superego.





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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

GERAÇÃO TIKTOK

 


O nome se tornou comum para definir os Z que não largam das telinhas. Mas quando me explicaram, pensei imediatamente em doenças e sintomas:

Tique: movimentos corporais compulsivos, automáticos e impensados.

Toc: transtorno obsessivo compulsivo.

O que leva ao “falso TDAH”, que é uma simulação do transtorno verdadeiro, induzida pelo vício nas telinhas e seu estímulo dopamínico incessante, diante do qual tudo o mais entedia…

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A "Geração TikTok" refere-se principalmente à Geração Z (nativos digitais) e aos Millennials que usam massivamente o TikTok, transformando-o em um novo motor de busca e fonte de informação, entretenimento e consumo, caracterizado por vídeos curtos, humor, autenticidade e forte influência no e-commerce, mas também gerando preocupações sobre vício digital e fake news.





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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

LUTO DE GENTE VIVA

 


Quando houver rompimento de relações e a pessoa estiver mal, a principal suspeita é luto de gente viva. O luto de gente viva acontece diante de rompimentos de namoros, de casamentos, de amizades, afastamentos de pessoas que realmente importam, como namorados, cônjuges e outros. 

O luto de gente viva também acontece em casos em que a pessoa desapareceu e nunca mais foi vista: não se sabe se ela morreu ou não. O caso mais famoso desse último é o das “mães da praça de Maio”, argentinas cujos filhos foram sequestrados pela ditadura e nunca mais apareceram. 

Quando houver desaparecimento de pessoas e seu próximos estiverem mal, a principal suspeita é luto de gente viva. O problema que torna o luto de gente viva especialmente difícil é a esperança: como não se viu o defunto, há sempre a possibilidade de o ente querido não ter morrido (ou o amor perdido não ter realmente se acabado). Essa incerteza produz um sofrimento prolongado, com altos e baixos no sentimento de luto. 

Outro problema do luto de gente viva é a culpa recorrente de se pensar “e se eu tivesse agido diferente?”, “eu podia ter dito isso ou aquilo, e não a teria perdido”, a tentativa de mentalmente se consertar o passado e imaginar como teria sido.

É verdade que a culpa pode sempre ser agravante de qualquer luto, mas como no luto de gente viva há sempre a sombra da esperança, a culpa e a ideia de que se poderia ter agido diferente traz a imaginação de que, se houver uma volta, uma nova chance, as coisas podem ser recuperadas e a dor do luto pode sumir.







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DIFICULDADES SEXUAIS MASCULINAS | Anorgasmia – não conseguir gozar (nem ejacular)

 


Existem inúmeras causas orgânicas – além do efeito colateral de antidepressivos – para que o orgasmo demore muito a acontecer, ou mesmo não aconteça de todo, ainda que haja ereção. Deve-se pensar nas orgânicas quando o problema se repete em qualquer situação erótica, inclusive na masturbação.

A masturbação é uma boa pista para se entender a falta de orgasmo de causa psíquica. 

Como o orgasmo implica uma entrega, uma ausência de controles e um bom encontro com o desejo, quem se masturba pode escolher o ambiente sem pressões, não existem negociações preocupantes, o objeto do desejo será o certo e estará ao alcance perfeito (seja na pornografia, seja na imaginação), e com esses elementos alcançar o orgasmo. 

É importante entender que o orgasmo é sempre uma experiência solitária da pessoa com as condições ótimas para atendimento de seu desejo: ele se passa no corpo e na mente ao mesmo tempo; ele precisa daquelas condições para que a entrega a ele se dê, pois não acontece através de comandos, e sim através do desligamento dos comandos.

Se o orgasmo não é alcançado na troca erótica, podemos ver se um ou mais dos itens acima está faltando, ou se está atrapalhado. Existe cobrança? Então os controles não estão desligados. Existem circunstâncias estressantes? As negociações são estressantes? A mesma coisa dos controles ligados, com o agravante dos ressentimentos (ruído do desejo de justiça, de bom acerto). Não há bom encontro de desejo misturado com cobrança? 

Aí mesmo é que não haverá prazer…





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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

IMPOTÊNCIA POR FALTA DE PAZ

 


O desejo está lá, mas a ereção não. O desejo de prazer, que é o nosso principal desejo, conta com a ajuda de três outros desejos voltados para produzir a paz necessária para que o prazer se realize.

Como o prazer necessita de entrega para acontecer, e como a entrega precisa de paz e boas circunstâncias para acontecer, os outros prazeres precisam entrar em ação.

São eles:
a. Desejo de controle / ordenação: se o ambiente não está “sob controle”, se alguém pode aparecer, se a porta não está fechada, se o telefone não está no mudo, se o ar-condicionado não está funcionando, se você não deixou a casa em ordem, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo.
Lembrando: o desejo de controle se move pelo incômodo da insegurança.

b. Desejo de justiça: se você se sente injustiçado pela pessoa parceira, se você guarda mágoas e assuntos não resolvidos, se não há bom acerto entre vocês, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo. Lembrando: o desejo de justiça se move pelo incômodo da raiva, da mágoa, da revolta, do ressentimento.

c. Desejo de conhecer / entender: se você não sabe qual é a da pessoa parceira, se há um grau de desconfiança nela, se você não sabe bem sobre o lugar onde vocês estão, se você não sabe bem sobre seus desejos e o que quer no sexo, se você não sabe bem negociar com o outro, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz no sexo.

Lembrando: o desejo de conhecer / entender se move pela curiosidade, pela perplexidade e pela insegurança, ele anda em pareceria com o desejo de controle.





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