quinta-feira, 28 de maio de 2026

“RESPONSABILIDADE”, A CULPA QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME

 



De uns tempos pra cá venho ouvindo essa coisa de que, em psicanálise, tudo bem de não se culpar a pessoa, “mas ela precisa assumir a responsabilidade de seus atos”.

Ouvi isso com grande suspeição. Como assim? Como culpa e responsabilidade seriam tão diferentes? 
A culpa é um julgamento sumário feito pelo Superego: “você infringiu as minhas leis! Não quero saber, você é culpado!” 

Às vezes a lei é tão idiota que o Superego nem a menciona, só enquadra a pessoa. Se fosse mencionada, a lei seria algo como: “você teve pensamentos raivosos contra seu pai! Não sabe que isso é algo horrível?”

Ah, mas se fosse explicitada dessa forma, a culpa poderia ser questionada, a pessoa poderia se defender.
A alternativa que a Psicanálise do Superego oferece a questão da culpa é não aceitá-la em nenhuma hipótese. E sim verificar se houve ou não erro.

O erro não tem drama: avalia-se o dano e promove-se a reparação. 

E vida que segue, a pessoa não vai ficar se martirizando porque errou. O erro faz parte do fazer, e até do não fazer, pois há omissões erradas.

Mas o exame do erro contém aspectos de avaliações: você sabia que era erro? Foi acidental ou intencional? Causou pouco ou muito dano? Há atenuantes? O que pode ser feito para corrigir?

A culpa não, ela bate o martelo e não examina nada: é culpado e pronto! Basta dizer que existe culpa até de pensamento…

E a tal da responsabilidade? Ela é tão cuidadosamente avaliada como o erro o é? Ou a questão termina quando a pessoa se diz, “sou responsável”? Tudo leva a crer que quando alguém ouve “você é o responsável”, isso equivale completamente ao simplorismo do “você é culpado”.

Por isso digo que a tal da responsabilidade é uma acusação de culpa que não ousa dizer seu nome. É a “culpa com vaselina”…


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