segunda-feira, 25 de maio de 2026

COMO É A PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Primeira síntese  

A psicanálise do Superego é um desenvolvimento, feito por Francisco Daudt, da psicanálise freudiana.
Freud estudou o inconsciente reprimido, que se manifesta através de doenças psíquicas mais comuns, como as neuroses e os vícios. Daudt desenvolve e busca complementar esse estudo ao investigar o inconsciente repressor, o Superego.

O Superego era visto por Freud como uma internalização na infância dos valores morais da sociedade. Freud o via como necessário e inevitável, ainda que gerando um “mal-estar na civilização”.

O Superego visto por Daudt é mais fonte de problema do que de solução. Nossos valores morais não precisam ser praticados por medo dele, eles podem ser absorvidos por gosto de cooperação, podem ser coisa do nosso Eu, do nosso Ego.

O Superego, nessa visão, é resultado de um adestramento da criança para absorver o senso comum de sua “tribo” – de sua comunidade que a ampara – justamente através do medo de ser desamparada, caso “se comporte mal” (isso significa “caso dê trabalho a seus cuidadores”).

O Superego fica então como um automático que não fala, e sim dá choques na pessoa: choques de culpa, de angústia, de vergonha, de ridículo. Ele não explica suas leis, nunca convence ninguém do bom produto lógico de suas leis. Ele só as impõe através desses choques.

Por isso, o Superego é principalmente inconsciente: porque funciona no automático, invisível, entre tantas outras coisas automáticas em nossa vida, porque, como vêm do senso comum, ele não causa estranhamento: “ah, a vida é assim mesmo, todo mundo sabe”.

Para dar um exemplo desse “todo mundo sabe”, houve um tempo em que o senso comum dizia que “era errado ser canhoto”. A criança canhota se sentia culpada, tinha vergonha, tinha angústia quando usava sua mão esquerda. Ou então a usava “em desafio”, ou escondida, como se estivesse fazendo algum crime.

Outro exemplo mais cruel, e esse foi o que deu a Freud a pista do inconsciente reprimido, era o do senso comum da época vitoriana de que as mulheres não poderiam sentir desejo sexual, que isso era coisa de depravadas, de prostitutas. Essa lei tosca, absorvida pelo Superego delas, produzia tal angústia quando o desejo aparecia, que o mecanismo de defesa da repressão fazia com que seu drama fosse deslocado para uma neurose histérica: “não, meu problema não é o desejo sexual, meu problema são os desmaios frequentes, a paralisia de minha mão”.

Mas Freud descobriu essa ligação, porém não questionou a “lei do senso comum” que proibia a mulher de ter desejo sexual. Ele não questionou o Superego da época.

É exatamente isso que faz a psicanálise do Superego. Ao examinar esse conflito interno, a gente pode dizer para a pessoa: “ah, seu problema não é ter desejo sexual; isso todo mundo tem, homens e mulheres, meninos e meninas. Seu problema é que essa lei idiota foi absorvida por você- e por todas as mulheres – através de adestramento na infância. Se você se mostrasse desejosa, perceberia que seus pais não iriam mais gostar de você, que eles iriam te desamparar. Foi assim que sua reação automática a qualquer manifestação de desejo era a culpa e a angústia. Foi isso que causou sua doença. A doença conta a história da injustiça que as mulheres sofrem com essa lei”. 

Portanto, a Psicanálise do Superego faz uma separação importante: nem a doença, nem o Superego são “a pessoa”, eles estão na pessoa, como um bug no sistema. O interessante é que eles estão intimamente ligados: a doença fala da história da pessoa; de como o senso comum de sua “tribo” entrou em choque com suas características singulares.

Exatamente como as clientes de Freud, cujos desejos sexuais entraram em choque com o Superego “anti-sexo” do senso comum de sua época. Elas não eram “histéricas”, elas sofriam de histeria, de neurose histérica.
Outra característica do Superego que essa psicanálise estuda é sua capacidade, não só de reprimir e impor, mas também de seduzir as pessoas a que ocupem lugar de Superego junto a outras. Algo assim: “está se sentindo mal de ser dominado? Espere seu tempo, que amanhã você será dominador”. As crianças dominadas pelos pais se tornarão futuras dominadoras de seus filhos… e passarão o Superego adiante.

Aí estão as primeiras bases para se entender o que é a Psicanálise do Superego. 


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