De como angústia, vergonha, ridículo, culpa e nojo são meios de o Superego exercer sua tirania sem precisar de argumentos, só através de choques adestradores.
1. Angústia.
É um mal-estar, um aperto na boca do estômago, um medo sem se saber do quê. O alemão “angst” é de uma origem parente e significa “medo”. O medo genérico de onde a angústia vem é o de desamparo.
O Superego diz, mas diz sem dizer, só dando o choque: “você vai se danar, ninguém mais vai gostar de você”.
Abandono, sifudência, demissão, separação, rejeição, cancelamento (essa é uma ameaça moderna), cara feia, reprovação, desterro, expulsão são algumas das situações que, mesmo imaginadas, levam à angústia.
2. Vergonha.
É um sentimento primo do ridículo, pois ambos acontecem diante de uma exposição pública, ainda que só imaginada, de característica reprovável. A pessoa se sente flagrada fazendo algo de “muito errado, muito feio, muito desprezível. Algo oculto é trazido a público e a pessoa se sente julgada por todos (antes de mais nada, por seu Superego).
3. Ridículo.
Definido como “o desmascaramento público da pretensão descabida”, ele é, como a vergonha, uma exposição da pessoa, só que em vez de ser com a revelação de seus “pecados ocultos”, é com a exposição exibicionista de uma qualidade superior que, é evidente a todos, a pessoa não tem.
4. Culpa.
Esse é um sentimento interno, não tem a ver com plateia. Ele acontece quando o Superego iguala algo, que poderia ser simplesmente um erro, a uma qualidade monstruosa, a um dos antimodelos que ele tem em seu estoque, traduzidos por algum adjetivo moralmente pejorativo (assassina, ladra, trapaceira, traidora, ingrata, desonesta, mesquinha etc., sempre o avesso de alguma qualidade moral).
A culpa é um dos choques prediletos do Superego, e ela traz embutida a angústia de desamparo (“quem vai gostar de uma pessoa assim desqualificada?”), não à toa ela é usada e abusada como arma de manipulação política, doméstica ou religiosa… ou todas essas.
O pior é que ela muitas vezes fala de um erro real, não apenas uma transgressão das leis erradas do Superego (“não pode ter raiva dos pais, eles são sagrados, você é pessoa ingrata”).
A diferença entre a culpa e o erro é o drama. A equação poderia ser: erro + drama = culpa.
Sem drama, o erro pode ser visto como tropeço no aprendizado, pode ter um julgamento democrático que inclua presunção de inocência, advogado de defesa, atenuantes, indenização justa, correção, aprendizado.
A culpa é sentença sem justiça, é pena máxima irrevogável. Ela costuma levar a autopunições, a penitências, a confissões religiosas, inclusive, pois ela é vista como “pecado”, incluída em orações (“minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”).
Na cultura brasileira, ela é tão comum que o reconhecimento do erro impõe um “pedido de desculpas”, coisa que não há em outras línguas (“I’m sorry” é “eu lamento”, e “excuse me” está mais para “com licença” do que para “desculpe”).
5. Nojo.
A repugnância, o nojo, é uma das nossas reações básicas de autoproteção, como os medos inatos. Proteção voltada ao que pode ser contaminante, via visão, olfato, tato e paladar.
O exemplo mais extremo é o contato com carne em decomposição: o vômito é instantâneo, mesmo se a pessoa estiver vivendo sua primeira experiência.
O mesmo se passa diante dos cheiros corporais fortes, como os genitais, halitose, fezes, suor, pus, que a natureza considera como riscos à saúde.
Mas essa correlação com o “doentio” pode ser usada pelo Superego, especialmente na repressão do desejo sexual.
Heteros relatam uma resistência inicial a práticas que os ponham em contato da saliva ou de secreções genitais com suas bocas, mas o tesão acaba por suspender pudores e repugnâncias, como um gosto adquirido pelas ostras, p.ex.
O nojo também retorna em situações de “não tesão”, como ver gays se beijando na boca, ou ver casais de velhos fazendo sexo. O nojo pode ser então um dos choques do Superego vindos de leis contra a sexualidade.
Em todos esses casos — angústia, vergonha, ridículo, culpa e nojo — o Superego não precisa argumentar: ele só precisa apertar o botão certo no corpo.
A tirania se exerce menos por ideias do que por choques afetivos.
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