quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

LUTO DE GENTE VIVA

 


Quando houver rompimento de relações e a pessoa estiver mal, a principal suspeita é luto de gente viva. O luto de gente viva acontece diante de rompimentos de namoros, de casamentos, de amizades, afastamentos de pessoas que realmente importam, como namorados, cônjuges e outros. 

O luto de gente viva também acontece em casos em que a pessoa desapareceu e nunca mais foi vista: não se sabe se ela morreu ou não. O caso mais famoso desse último é o das “mães da praça de Maio”, argentinas cujos filhos foram sequestrados pela ditadura e nunca mais apareceram. 

Quando houver desaparecimento de pessoas e seu próximos estiverem mal, a principal suspeita é luto de gente viva. O problema que torna o luto de gente viva especialmente difícil é a esperança: como não se viu o defunto, há sempre a possibilidade de o ente querido não ter morrido (ou o amor perdido não ter realmente se acabado). Essa incerteza produz um sofrimento prolongado, com altos e baixos no sentimento de luto. 

Outro problema do luto de gente viva é a culpa recorrente de se pensar “e se eu tivesse agido diferente?”, “eu podia ter dito isso ou aquilo, e não a teria perdido”, a tentativa de mentalmente se consertar o passado e imaginar como teria sido.

É verdade que a culpa pode sempre ser agravante de qualquer luto, mas como no luto de gente viva há sempre a sombra da esperança, a culpa e a ideia de que se poderia ter agido diferente traz a imaginação de que, se houver uma volta, uma nova chance, as coisas podem ser recuperadas e a dor do luto pode sumir.







Experimente: drdaudtai.com



DIFICULDADES SEXUAIS MASCULINAS | Anorgasmia – não conseguir gozar (nem ejacular)

 


Existem inúmeras causas orgânicas – além do efeito colateral de antidepressivos – para que o orgasmo demore muito a acontecer, ou mesmo não aconteça de todo, ainda que haja ereção. Deve-se pensar nas orgânicas quando o problema se repete em qualquer situação erótica, inclusive na masturbação.

A masturbação é uma boa pista para se entender a falta de orgasmo de causa psíquica. 

Como o orgasmo implica uma entrega, uma ausência de controles e um bom encontro com o desejo, quem se masturba pode escolher o ambiente sem pressões, não existem negociações preocupantes, o objeto do desejo será o certo e estará ao alcance perfeito (seja na pornografia, seja na imaginação), e com esses elementos alcançar o orgasmo. 

É importante entender que o orgasmo é sempre uma experiência solitária da pessoa com as condições ótimas para atendimento de seu desejo: ele se passa no corpo e na mente ao mesmo tempo; ele precisa daquelas condições para que a entrega a ele se dê, pois não acontece através de comandos, e sim através do desligamento dos comandos.

Se o orgasmo não é alcançado na troca erótica, podemos ver se um ou mais dos itens acima está faltando, ou se está atrapalhado. Existe cobrança? Então os controles não estão desligados. Existem circunstâncias estressantes? As negociações são estressantes? A mesma coisa dos controles ligados, com o agravante dos ressentimentos (ruído do desejo de justiça, de bom acerto). Não há bom encontro de desejo misturado com cobrança? 

Aí mesmo é que não haverá prazer…





Experimente: drdaudtai.com



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

IMPOTÊNCIA POR FALTA DE PAZ

 


O desejo está lá, mas a ereção não. O desejo de prazer, que é o nosso principal desejo, conta com a ajuda de três outros desejos voltados para produzir a paz necessária para que o prazer se realize.

Como o prazer necessita de entrega para acontecer, e como a entrega precisa de paz e boas circunstâncias para acontecer, os outros prazeres precisam entrar em ação.

São eles:
a. Desejo de controle / ordenação: se o ambiente não está “sob controle”, se alguém pode aparecer, se a porta não está fechada, se o telefone não está no mudo, se o ar-condicionado não está funcionando, se você não deixou a casa em ordem, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo.
Lembrando: o desejo de controle se move pelo incômodo da insegurança.

b. Desejo de justiça: se você se sente injustiçado pela pessoa parceira, se você guarda mágoas e assuntos não resolvidos, se não há bom acerto entre vocês, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz para o sexo. Lembrando: o desejo de justiça se move pelo incômodo da raiva, da mágoa, da revolta, do ressentimento.

c. Desejo de conhecer / entender: se você não sabe qual é a da pessoa parceira, se há um grau de desconfiança nela, se você não sabe bem sobre o lugar onde vocês estão, se você não sabe bem sobre seus desejos e o que quer no sexo, se você não sabe bem negociar com o outro, sua cabeça vai ficar alugada e você não terá paz no sexo.

Lembrando: o desejo de conhecer / entender se move pela curiosidade, pela perplexidade e pela insegurança, ele anda em pareceria com o desejo de controle.





Experimente: drdaudtai.com


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

SOBRE O CHORO

 



“Como a psicanálise do Superego entende o choro?”

Francisco Daudt: Como uma revivência da nossa primeira maneira de expressar desconforto impotente.
Um bebê vive um ciclo muito básico de confortos e desconfortos. No conforto ele dorme ou até sorri. No desconforto, sua única maneira de reagir é chorando. O choro da criança causa desconforto nos pais, que buscam achar um jeito de atendê-la.

À medida que crescemos, vamos desenvolvendo maneiras de resolver nossos desconfortos e assim o choro vai-se tornando mais raro. Mas… há aqueles momentos em somos remetidos à impotência original diante de abalos sérios, como perdas irreparáveis, injustiças incorrigíveis, dores e desamparo, e aí só nos resta chorar.
Mas, você me perguntará, e o choro de felicidade, o choro diante da beleza da arte, do belo gesto, o choro da mãe que entrega a filha em casamento, o choro de orgulho dos pais na formatura do filho?

É o choro de alívio, de descanso. Um choro que chora tudo o que não foi chorado antes: “só deus sabe o trabalho que essa criança me deu, e agora minha missão está cumprida”.

Diante da beleza da arte, da música, da poesia etc., há um alívio diferente, o de nos vermos libertados momentaneamente da miséria e da pequenez da condição humana, que não nos é consciente o tempo todo, mas sabemos que está lá.

Isso tudo misturado ao encantamento e ao prazer que a estética nos produz, um momento em que nosso desejo de ordenação e paz se realiza.

A Psicanálise do Superego se vale de diversas fontes: da história da humanidade e da psicologia evolucionista inclusive. Sobre o choro, essas são essas as principais.
__________





Experimente: drdaudtai.com


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE A INTELIGÊNCIA

 






circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis

Inteligência, do latim “inter+legere”, é a capacidade de “ler entre” arquivos de memória, conectá-los e tirar deles um terceiro produto maior. Isso funciona para a nossa inteligência natural e para a artificial.

Para que issso funcione bem, é necessário:
1. Ter arquivos (quanto mais você aprendeu, mais terá o que ler e ligar).
2. Ter bom processador (isso vem com a máquina, não há escolha).
3. Cuidar bem do processador que se tem (mantê-lo livre de drogas, p.ex.).
4. Cuidar bem das circunstâncias para que ele trabalhe em paz, sem interferências que o atrapalhem.

Tirando o item 2, o resto está muito mais ao nosso alcance: quanto mais consciência tivermos do funcionamento da máquina, mais poderemos ampliar sua eficiência.

Como psicanalista, meu foco é no item 4, pois os mecanismos que causam as doenças psíquicas são os maiores atrapalhadores da nossa inteligência, principalmente o embate entre a cultura que nos criou e nossas singularidades, condensado num software adquirido chamado Superego.

Quanto à IAs, elas têm uma vantagem sobre nós: não lhes instalaram um Superego.

__________





Experimente: drdaudtai.com


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

SOBRE TÉDIO E APRENDIZADO DOS DESEJOS

 


A adolescência como “o momento de tédio”

Existe uma transição biológica entre os desejos de criança e os desejos da adolescência: os hormônios sexuais adentram à questão.

A criança tem um predomínio do desejo de conhecer e entender que é muito satisfeito em suas brincadeiras, e aplicado em sua criatividade de reencenar o que aprende. Portanto, uma criança dificilmente conhece o tédio, que é o vazio, o não encontro dos objetos de seu desejo.

Mas a entrada dos hormônios sexuais, na adolescência, muda tudo. A demanda de prazer não encontra seus objetos de satisfação, principalmente porque a pessoa não conhece seus desejos e não tem um fácil campo de pesquisa.

É quando entra o tédio, a resposta incômoda do desejo que não sabe como se satisfazer.

A tendência é ir para os prazeres imediatistas da comida, das drogas e das telinhas. O risco é o conflito com os pais que não entendem essa situação. O mau humor e a depressão rondam o adolescente. As cobranças dos “deveres” aumentam, o adolescente não vê sentido na escola, na família, nos antigos amigos. Não à toa existe o apelido de “aborrecente”. De fato, ele está aborrecido e aborrece por causa do seu estado de desorientação.





Cadastre-se em: drdaudtai.com



domingo, 4 de janeiro de 2026

COMPLEXO DE ÉDIPO X MARCAS NEGATIVAS DA NOSSA CRIAÇÃO

 


Freud percebeu nas histórias de seus clientes uma ligação apaixonada com a mãe e uma competição com o pai. Um viés erótico do grude. Mas eu não vejo assim.

Essa é uma das diferenças entre a psicanálise freudiana e a Psicanálise do Superego. Na época de Freud, havia essa coisa de filhos grudados nas mães e com medo do pai, o que o levou a ver nisso o conflito básico que levava à criação do Superego, à absorção das leis do mundo, a que ele chamou de “a dissolução do complexo de Édipo”.

Mas, em cinquenta anos de clínica, só encontrei um caso de cliente que teve fantasias eróticas com a mãe. Inúmeros casos de “grudados com a mãe e contra o pai”, mas não eroticamente.

De modo que concluí que, sim, a infância e a criação deixam marcas fortes e negativas que vão produzir doenças psíquicas mais tarde (ou mais cedo, já que as fobias atingem muito as crianças), mas que essas marcas não vêm de conflitos eróticos mãe / filhos (ou raramente vêm). 

Por isso tendo a chamar o tradicional complexo de Édipo de “as marcas negativas da criação”.