Somos adestrados, desde pequenos, para comportamentos que não se choquem com o senso comum nem deem trabalho aos pais. Esses comportamentos ficarão registrados no Superego, que os cobrará e os vigiará dando-nos choques da mal-estar a cada transgressão.
O senso comum contém diversas concepções de valores e de comportamentos “certos” que serão transferidos para o Superego, esse nosso “controle remoto”.
Entre essas concepções estão as de masculinidade e de feminilidade: as crianças serão adestradas para adquirir esses “comportamentos certos”, e para se sentirem angustiadas se deles se afastarem, pois nesses casos seus superegos lhes darão choques de adestramento (culpa, vergonha, ridículo e angústia, todos eles relacionados ao medo do desamparo).
Todo o adestramento do Superego para os dois sexos está voltado para a valorização sexual.
Os modelos masculinos visam que os meninos se tornem “machos alfa”, cobiçados sexualmente.
Os modelos femininos visam que as meninas se tornem “de um homem só”, inibindo a sexualidade delas para que elas possam garantir a seus machos uma prole legítima, não bastarda.
As concepções do senso comum para masculinidade e para feminilidade são baseadas em modelos e em antimodelos que visam esses resultados.
Vejamos então:
Superego da Masculinidade
Modelos
A ideia geral dos modelos em que os meninos devem se encaixar é totalmente sexual: “seja um macho alfa”
Força física e moral (“aguenta firme como um homem”)
Firmeza emocional (“homem não chora”)
Competitividade (“você é um vencedor ou um perdedor?”)
Coragem (“afinal, você é um homem ou um rato?”)
Ter grana / ser um vencedor (“que mulher vai te querer se você for pobre?”)
Desempenho (“tem que mandar bem, tem que performar, tem que ter pau duro”)
Dominação (“tem que ter pegada, tem que ser quem manda”)
Antimodelos
O principal antimodelo que o Superego tem para os homens é a mulher: “não se pareça com uma mulher”, diz o Superego.
Na infância, “mariquinha” e “mulherzinha” (nunca “viadinho”, que virá depois, no colégio)
Na adolescência, “viadinho”, e congêneres, como “boiola” etc. O curioso é que o termo não é sinônimo de gay, é sinônimo de gay afeminado. O gay másculo passa despercebido.
É importante entender que isso explica por que a homofobia é principalmente uma patrulha superegoica contra ter-se “coisas de mulher”, que ela não está ligada ao medo ou à aversão do contato erótico com outros homens.
SUPEREGO DA FEMINILIDADE
Totalmente voltado para a restrição da sexualidade e “valorização do passe” da mulher como fêmea exclusiva, “futura mãe dos meus filhos”, “casadoura”, “uma santa” etc.
A função histórica é ter-se certeza de não estar criando filhos bastardos que mais tarde herdarão seus bens.
Modelos
“Menina comportada” diz respeito à reserva e à modéstia, termo equivalente a “menina exemplar”, “santinha”, “delicada”, “recatada”
Mais tarde, o termo “mulher honesta” só significa uma coisa: não é devassa, não é puta. Quando se chama um homem de honesto, ninguém pensa em conduta sexual.
Antimodelos
Praticamente todos derivados de prostituta.
Na infância: “Menina sapeca”, “assanhada”, “oferecida”, “saliente”.
Mais tarde: “galinha”, “saidinha”, “leviana”, “piranha”, “mulher com um passado” (como se todos nós não tivéssemos um passado, mas no caso, os “pecados sexuais” estão implícitos), “mulher safada”, “rodada”.