quinta-feira, 11 de junho de 2026

GUERRA DOS SEXOS: A HISTÓRIA DA MISOGINIA, O ÓDIO CONTRA AS MULHERES

 




Um dos tristes efeitos colaterais da transição da era paleolítica (tempo dos caçadores-coletores, que terminou há 10.000 anos) para a era neolítica / revolução agrícola (surgimento da agricultura e da pecuária, das cidades e da convivência com estranhos), além da instalação do Superego em nós, foi o problema da guerra dos sexos, um tempo de desconfiança mútua entre homens e mulheres.

Um tempo de sofrimento ligado às negociações sexuais, sofrimento para ambas as partes, mas bem pior para as mulheres.

1. Como viviam as mulheres no tempo dos caçadores-coletores

Elas viviam muito bem, num clima de cooperação com a tribo: em termos mais simples (deixando de lado as exceções), elas coletavam frutos, vegetais, raizes, cogumelos, trocavam informações, partilhavam o cuidado com os filhos, revezavam-se na amamentação.

Não havia hierarquia, nem casamento, nem namoro, nem pudores sexuais. Não havia nem a ideia clara de que sexo e procriação estivessem ligados. Assim como o trabalho, o cuidado com as crianças, as tarefas, o sexo era uma brincadeira a mais, com ou sem ligação afetiva, com vários parceiros. Em algumas tribos, havia a crença de que as crianças eram geradas pelo acúmulo de várias inseminações, vindas de vários homens.


2. Ruptura com a Revolução Agrícola

Quando a fonte de alimentação passou a ser o cultivo e o pastoreio, a vida mudou radicalmente. As tribos nômades de 50-70 pessoas conhecidas foram se transformando em cidades fixas de mais de 500 estranhos. Surgiu a acumulação, a propriedade privada… e a herança. O que levou os homens a exigirem “filhos legítimos”, para que bastardos não pusessem as mãos em suas propriedades.

A partir daí, o corpo da mulher e sua sexualidade tornam‑se foco central de controle e vigilância: garantir a fidelidade sexual passa a ser condição para assegurar que a herança vá “para os meus filhos”, e não para filhos de outros homens.

Não só isso, mas também passou a haver “minhas mulheres”, casamento primitivo. A mulher deixou de ser parceira cooperativa e virou uma propriedade a mais. A mulher passou a ter um homem só, mesmo que o homem pudesse ter várias mulheres.

3. A mulher sob o patriarcado agrícola: sofrimento e desqualificação

A mulher, peça crucial na honra do homem, passa a ser vigiada, punida (se caísse sob suspeita de traição sexual). Ela vira um “perigo”, um ser sob suspeita permanente. Esse é o início da misoginia – a raiva contra as mulheres.

O pior disso é que a principal suspeita recai sobre as suas manifestações de desejo sexual. O desejo sexual feminino passa a ser visto como “impureza”. A mulher passa a ser valorizada pela suposta “falta de desejo” (daí vem a mitificação das virgens em várias religiões).

4. A “falta de desejo” vira poder

Como triste efeito colateral, as mulheres sentiram que seus poderes e sua valorização viriam desse aparente desapego ao sexo e ao desejo. Se ela parecia “pura”, tornava-se mais desejada no mercado matrimonial. Teria acesso a ela homem que pagasse mais. Foi assim que um regime de sutil “prostituição” foi instituído: quanto mais sem desejo visível, mais cara; quanto menos, mais barata.

5. A mulher como “leiloeira de si mesma” e juíza do valor do homem

Como mais uma triste contribuição à misoginia, a mulher passou a ser vista como alguém que também julgava o valor dos homens – uma reação natural de vingança ao dano que lhe causaram, à injustiça que lhe impuseram.

A Guerra dos Sexos estava instituída: de convivência cooperativa, o sapiens passou a uma convivência competitiva, cheia de suspeita: dormindo com o inimigo… desejado! Uma ambivalência de sentimentos que não existia entre nossos antepassados caçadores-coletores.

De um lado, o homem transforma o desejo sexual feminino em fonte de desvalorização. Do outro, a mulher passa a ter o poder de “leiloar” o acesso a seu corpo de acordo com o valor que ela atribui ao homem.
Se ela acha que seu homem não tem valor, ela pode ir se entregar a outro que ela valorize mais.
Se ela pode ser vista como uma puta, sua vingança é que ela pode categorizar o homem como um merda.
No senso comum pós agrícola, desde então as mulheres temem ser vistas como putas (desvalor feminino) e os homens temem ser vistos como merdas (desvalor masculino).

O feminicídio, o ápice da misoginia, é a caricatura dessa guerra: sistematicamente, ele é movido pelo ódio contra a mulher, à misoginia vinda da ideia de que a mulher pode trocá-lo (ou que já o trocou) por um outro homem que ela valorize mais. Ao ódio de ser “chamado de merda” pela mulher. Ao ponto que a gravidade do crime de feminicídio já foi atenuada nas leis antigas, porque ele era uma “legítima defesa da honra”.

Leis feitas pelos homens, claro. 


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