Desde quando Freud desenhou o aparelho psíquico com três regiões (hoje se diria “softwares”), Ego, Id e Superego, muito se falou do Id (o inconsciente) e do Superego (o repressor/sedutor).
Mas sobre o Ego, muito pouco foi falado. No entanto, ele é o que nos define: nós somos o Ego, “eu sou eu”, em outras palavras. O Ego, o Eu é o dono da “empresa”: “Eu” quero saber os rumos que vou tomar na vida; “Eu” quero conhecer meus potenciais, meus desejos, meus problemas, quero poder gerenciar melhor isso tudo.
Por isso, vamos agora entender melhor como esse “programa” funciona.
. Nossa Identidade e nossas múltiplas facetas
A identidade é o que nós somos, mesmo que às vezes entremos num “personagem diferente da gente”.
Identidade não é ser “um homem de uma cara só”, nem se confundir com um papel único, por mais importante que ele seja.
Nossa Identidade é um conjunto de facetas que usamos de acordo com nossas interações com o mundo e com as pessoas: Eu me apresento de modos diversos em contextos diferentes: há uma faceta minha que fala inglês, mas eu não me reduzo a ela, ela é um dos meus instrumentos. É como o “dono da empresa” visitando e usando vários departamentos, sem que nenhum o defina.
Cada faceta é uma habilidade, um modo de falar, de amar, de trabalhar, de brincar, acionado conforme a situação.
Ela não define a pessoa, e o Eu saudável sabe que ela é uma parte sua, não o todo.
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. Personagem: faceta que tomou o poder
“Personagem”: nessa história de lidar com o mundo, às vezes construímos um personagem para uma determinada situação mais difícil (um aluno desenvolveu um “personagem pegador”, para ir a festas, pois lidar com seu desejo pelas mulheres era um departamento difícil de “sua empresa”). Mas essa foi uma faceta que ganhou poder demais. Virou personagem.
Ela nasceu de algo real – uma capacidade, uma defesa necessária, um jeito de sobreviver ou se destacar – mas “ganhou poder” e passou a se comportar como se fosse o próprio dono da empresa.
O personagem pode ser extremamente funcional por um tempo:
- o empreendedor incansável que organiza toda a vida em torno do trabalho;
- o “cafajeste do bem” que permite ao rapaz inibido circular nas festas e viver experiências eróticas.
O problema não é o jeitão dessas facetas, e sim quem manda em quem:
- a pessoa se torna dependente daquele modo de funcionar para se sentir alguém. Ela acaba se definindo pelo personagem.
- sem o personagem, sente que “não sabe o que fazer” (como o idoso na aposentadoria) ou não sabe como lidar com a situação (como o jovem diante da moça com quem quer um vínculo verdadeiro);
- o personagem passa por cima de nós, de nosso Eu, e às vezes, vira tirano da própria pessoa (quando nos seduzimos para ser Superego dos outros, p.ex.).
Nesses casos, o que temos pela frente não é destruir o personagem como se fosse pura falsidade, mas “separar o bebê da água do banho”, para não jogar fora os dois juntos:
- preservar dele as qualidades que podem virar facetas (capacidade de empreender, de negociar, de se desinibir, de brincar, de seduzir);
- retirar dele o excesso de poder, a dependência e a rigidez, devolvendo o comando ao nosso Ego.
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. Michelangelo, o Davi e o mármore
Dizem que uma vez perguntaram ao Michelangelo como ele tinha conseguido esculpir o Davi. Ele respondeu: “Ah, eu vi o bloco de mármore e sabia que o Davi estava lá dentro. Aí eu só fui tirando o excesso de mármore, para que ele aparecesse.
A metáfora de Michelangelo ilumina esse processo.
O bloco de mármore é a pessoa inteira: história, personagens, facetas, superego, doenças, hábitos, bugs.
O Davi é o seu Eu, a pessoalidade: aquilo que é próprio, vivo, consciente, aquilo que realmente se parece com você.
Do mesmo modo, o trabalho de entender nosso Ego e Superego não é inventar uma nova pessoa do zero, mas retirar o mármore que encobre o Davi:
- “Invasores” superegoicos: personagens tiranos, crenças herdadas sem exame, ideais impossíveis que não tem a ver conosco, defesas que perderam função.
Mas o nosso Davi é sempre percentual e inacabado. Ele é uma obra em permanente construção. Ele é um “eterno aprendiz” de si mesmo.
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. Superego, bugs no sistema
Na Psicanálise do Superego, doenças e Superego não se confundem com a pessoa, com nosso Eu, nosso Ego: eles são bugs no sistema.
Eles são equivalentes ao mármore excedente: partes de nossa história que um dia tiveram função (proteger, disciplinar, adaptar), mas que hoje geram erros, travamentos, sofrimento.
É importante saber que o Superego não contém só bug e idiotices.
Ele contém tanto:
- puras bobagens e violências introjetadas (ser canhoto é errado, ser gay é errado, prazer é errado);
- valores que podem ser preciosos (honestidade, generosidade, cuidado), porém em forma deformada, do tipo “você tem que ser honesto, você tem que ser generoso, você tem que ser caridoso”.
Aqui entra a distinção conteúdo / forma:
- certos conteúdos são mármore puro e precisam ser jogados fora (preconceitos, leis idiotas, proibições sem sentido lógico);
- outros conteúdos são bons, seu problema não é a coisa em si, mas a forma como ela nos é imposta: “você tem que…, senão…” Ora, eu não “tenho que” ser honesto. Eu gosto de ser honesto.
O trabalho é transferir a propriedade:
- tirar esses valores do regime de “tem que” do Superego;
- passá los para o domínio do Eu, onde honestidade, generosidade e cuidado deixam de ser obediência por medo e viram gosto, convicção, valor assumido.
No exemplo da honestidade:
- bug: ser honesto apenas para não ser punido, para evitar culpa ou condenação;
- Davi: ser honesto porque isso expressa quem eu quero ser, porque isso combina com a imagem que tenho de mim, com o modo de vida que escolho.
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. O Ego como “gerente da bagunça”
Seu Eu, seu Ego é pra ser dono da sua empresa psíquica.
Ele é o proprietário legítimo, o único que pode, em princípio, conhecer e coordenar todos os departamentos (id, superego, facetas, personagens, e sobretudo seus desejos).
Na prática, porém, ele está tonto, sobrecarregado:
- vive às voltas com incêndios, crises, conflitos entre departamentos;
- passa o tempo apagando fogo e cumprindo ordens do Superego ou demandas do Id, em vez de definir seu rumo;
- muitas vezes, nem sabe “como gostaria” de dirigir a empresa, porque nunca teve calma nem espaço para conhecer seus próprios desejos e transforma-los em projetos .
A diferença aqui é esta:
- ou um gerente atolado na bagunça: um ego que administra crises sem saber para onde quer levar a empresa;
- ou um dono que sabe um rumo: é um ego que, mesmo lidando com problemas, reserva energia para remover bugs, retirar mármore, redistribuir poder entre facetas e personagens, assumir para si valores bons que antes pertenciam só ao Superego.
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. Meta do trabalho de “psicanalista do superego”
A meta que queremos para ela – clínica, teórica e pedagógica – pode ser formulada assim:
- atuar como retirador de mármore e depurador de bugs, não como destruidor de estruturas;
- ajudar o ego a distinguir, dentro do superego e dos personagens, o que é Davi (valores, competências, facetas legítimas) e o que é mármore/bug (medos, mandatos absurdos, tiranias internas);
- transferir para o domínio do Eu os elementos valiosos que estavam sequestrados pelo superego;
- desmontar “personagens dominadores”, transformando o que eles têm de bom em facetas a serviço da pessoalidade;
- desenvolver a clareza do Ego como dono da empresa: não um herói perfeito, mas um gestor em permanente construção, que vai aprendendo a dirigir a empresa enquanto conserta o próprio sistema e escolhe suas melhores circunstâncias.

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