quarta-feira, 17 de junho de 2026

A LIBERDADE NA DEMOCRACIA - por KARL POPPER

 


“O preço da liberdade é a eterna vigilância”

A liberdade só sobrevive entre limites: sem controle, ela desaparece — com excesso, também.  
Seu preço inevitável não é a garantia, mas a vigilância constante.

“A máxima liberdade possível mora num ponto ótimo, não num absoluto, pois precisa ser restringida para poder existir. 

A intervenção governamental, que por si só pode garanti-la, é uma arma perigosa: sem ela, ou com muito pouca, a liberdade morre; mas com excesso dela, a liberdade também morre. 

Somos reconduzidos à inevitabilidade do controle — que deve significar, como condição sine qua non da democracia, a possibilidade de os governados derrubarem o governo.

Isso, contudo, embora necessário, não é suficiente. Não garante a preservação da liberdade, pois nada pode garanti-la: o preço da liberdade é a vigilância eterna.”




terça-feira, 16 de junho de 2026

“PACIENTE?” NÃO, PACIENTE É DE CIRURGIÃO. EU TENHO “CLIENTES”

 


Eu nunca chamo quem me procura de “paciente”; eu chamo de cliente.

“Paciente” é um ser passivo à intervenção de um agente. Como nas cirurgias: um deitado e o outro em pé.

E o cliente é alguém que se senta comigo, e comigo se inclina para ver o problema. É um parceiro de trabalho.

Exatamente o que eu desejaria fazer junto com Freud: parceria de pesquisa.


COM UM TIRANO NA CABEÇA | O SUPEREGO: UM SOFTWARE AUTO-REPLICADOR EM FORMA DE VÍCIO DE DOMÍNIO-SUBMISSÃO

 


O superego é um software cultural de **domínio e submissão**, instalado há cerca de 10.000 anos, que funciona como um vício auto‑replicador: ele não vive para nós, vive em nós e através de nós, buscando apenas se manter.  

1. Esse software se organiza em dois polos complementares: o da submissão (culpa, medo, vergonha, necessidade de aprovação) e o do domínio (prazer em mandar, julgar, punir, “botar ordem”).  

2. Como qualquer vício, ele se auto‑sustenta num circuito de dor–alívio–prazer:  
   - dói quando oprime (culpa, autoacusação, humilhação);  
   - alivia quando obedecemos (“fiz o certo, escapei da punição”);  
   - dá prazer quando podemos ocupar a posição de superego em relação a alguém (“agora mando eu”). 
 
3. O jogo obediência–transgressão é o meio vicioso da auto‑replicação:  
   - a obediência reforça o polo submissão, mantendo o sujeito preso ao medo e à busca de alívio;  
   - a transgressão vingativa (“foda‑se, vou fazer”) muitas vezes põe o sujeito na posição do tirano interno, replicando o mesmo padrão de domínio sobre si ou sobre outros.  

4. É por isso que o superego é ao mesmo tempo “mãe de todos os vícios” e um vício em si: suas leis idiotas e abusivas produzem necessidade de transgressão; e a transgressão, quando encarnada como tomada de poder, alimenta de novo o vício de domínio/submissão, garantindo que o software siga se copiando de geração em geração.

Como qualquer tirano, ele é odiado… e sedutor. 


sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOBRE O ID E SEU CONTEÚDO - O QUE MORA EM NOSSO INCONSCIENTE

 



## 1. Resumo do “algo em mim” (Id) - o Inconsciente 
Aquilo que Freud chamou de * das Es* – o famoso Id – pode ser traduzido, em bom português, como esse “algo em mim”, “algo em nós”, que não é o eu, não é uma pessoa, mas um motor interno que empurra, puxa, sabota, protege e complica a nossa vida.

Nesse “algo em mim” há quatro grandes conjuntos:
1. **Desejos** - todos os desejos são movidos por incômodos que buscam alívios.
   - O desejo de prazer, escrito no DNA para garantir sobrevivência e reprodução (cujos motores são o tesão, o apetite).  
   - Os desejos “acessórios” do prazer:  
     - desejo de justiça (cujo motor é a raiva de não aguentar ver injustiça e desigualdade escancarada),  
     - desejo epistemológico (cujo motor é a curiosidade, vontade de conhecer e entender como as coisas funcionam),  
     - desejo de controle e ordenação (cujo motor é a insegurança que o caos produz, precisar pôr ordem no mundo interno e externo).  
   - Tudo isso mora no Id, no “algo em mim”: eu não escolho ter esses desejos, eles já vêm no pacote.

2. **Medos**
   - Esse mesmo Id, esse “algo em mim” carrega medos que vêm com a máquina, cuja função é a sobrevivência:  
     - medo de desamparo (ficar sem proteção, sem quem cuide),  
     - medo de estranhos (desconfiar do que não é familiar),  
     - medo de altura, confinamento, escuridão, bichos perigosos, e outros medos que fizeram sentido na evolução e hoje, muitas vezes, viram fobia ou ansiedade “deslocada”.  
   - Os dois medos principais são os de desamparo e de estranhos. São eles que possibilitam o adestramento da pessoa para a instalação do Superego.

3. **Superego adestrado (parte inconsciente)**
   - O Superego não “vem com a máquina”; ele se forma pelo adestramento na infância, baseado na concentração de poder que os pais têm sobre os filhos, que farão qualquer coisa para não perderem o amparo deles.
   - Depois de formado, uma parte desse Superego desce para o porão e vira motor inconsciente que nos aplica choques a cada vez que “saímos da linha”:  
     - choques de angústia,  
     - choques de vergonha,  
     - choques de ridículo,  
     - choques de culpa.  
   - O sujeito só sente o choque; o comando que disparou aquilo (que pode ser resumido como “você está contrariando o senso comum da sua tribo! Vai perder o amparo!”) fica escondido no “algo em mim”.

4. **Reprimido (produto da briga desejo/superego)
   - Coisas que um dia chegaram perto da consciência, foram consideradas inaceitáveis e empurradas para baixo: fantasias, raivas, invejas, desejos considerados “proibidos” pelo superego e pela tribo.  
   - Esse material reprimido continua ativo, criando “manifestações conscientes do inconsciente reprimido”: sintomas, neuroses, vícios, sonhos, lapsos, formações reativas (como o “bonzinho demais”), sempre vindo de um “algo em mim” que o Eu não controla.
Em resumo, o Id é esse “algo em mim” que:
- quer prazer, justiça, conhecimento, controle;  
- tem medos ancestrais (desamparo, estranho, altura, etc.);  
- carrega choques de superego que viraram automáticos;  
- e guarda o reprimido da briga entre desejo e proibição. 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

GUERRA DOS SEXOS: A HISTÓRIA DA MISOGINIA, O ÓDIO CONTRA AS MULHERES

 




Um dos tristes efeitos colaterais da transição da era paleolítica (tempo dos caçadores-coletores, que terminou há 10.000 anos) para a era neolítica / revolução agrícola (surgimento da agricultura e da pecuária, das cidades e da convivência com estranhos), além da instalação do Superego em nós, foi o problema da guerra dos sexos, um tempo de desconfiança mútua entre homens e mulheres.

Um tempo de sofrimento ligado às negociações sexuais, sofrimento para ambas as partes, mas bem pior para as mulheres.

1. Como viviam as mulheres no tempo dos caçadores-coletores

Elas viviam muito bem, num clima de cooperação com a tribo: em termos mais simples (deixando de lado as exceções), elas coletavam frutos, vegetais, raizes, cogumelos, trocavam informações, partilhavam o cuidado com os filhos, revezavam-se na amamentação.

Não havia hierarquia, nem casamento, nem namoro, nem pudores sexuais. Não havia nem a ideia clara de que sexo e procriação estivessem ligados. Assim como o trabalho, o cuidado com as crianças, as tarefas, o sexo era uma brincadeira a mais, com ou sem ligação afetiva, com vários parceiros. Em algumas tribos, havia a crença de que as crianças eram geradas pelo acúmulo de várias inseminações, vindas de vários homens.


2. Ruptura com a Revolução Agrícola

Quando a fonte de alimentação passou a ser o cultivo e o pastoreio, a vida mudou radicalmente. As tribos nômades de 50-70 pessoas conhecidas foram se transformando em cidades fixas de mais de 500 estranhos. Surgiu a acumulação, a propriedade privada… e a herança. O que levou os homens a exigirem “filhos legítimos”, para que bastardos não pusessem as mãos em suas propriedades.

A partir daí, o corpo da mulher e sua sexualidade tornam‑se foco central de controle e vigilância: garantir a fidelidade sexual passa a ser condição para assegurar que a herança vá “para os meus filhos”, e não para filhos de outros homens.

Não só isso, mas também passou a haver “minhas mulheres”, casamento primitivo. A mulher deixou de ser parceira cooperativa e virou uma propriedade a mais. A mulher passou a ter um homem só, mesmo que o homem pudesse ter várias mulheres.

3. A mulher sob o patriarcado agrícola: sofrimento e desqualificação

A mulher, peça crucial na honra do homem, passa a ser vigiada, punida (se caísse sob suspeita de traição sexual). Ela vira um “perigo”, um ser sob suspeita permanente. Esse é o início da misoginia – a raiva contra as mulheres.

O pior disso é que a principal suspeita recai sobre as suas manifestações de desejo sexual. O desejo sexual feminino passa a ser visto como “impureza”. A mulher passa a ser valorizada pela suposta “falta de desejo” (daí vem a mitificação das virgens em várias religiões).

4. A “falta de desejo” vira poder

Como triste efeito colateral, as mulheres sentiram que seus poderes e sua valorização viriam desse aparente desapego ao sexo e ao desejo. Se ela parecia “pura”, tornava-se mais desejada no mercado matrimonial. Teria acesso a ela homem que pagasse mais. Foi assim que um regime de sutil “prostituição” foi instituído: quanto mais sem desejo visível, mais cara; quanto menos, mais barata.

5. A mulher como “leiloeira de si mesma” e juíza do valor do homem

Como mais uma triste contribuição à misoginia, a mulher passou a ser vista como alguém que também julgava o valor dos homens – uma reação natural de vingança ao dano que lhe causaram, à injustiça que lhe impuseram.

A Guerra dos Sexos estava instituída: de convivência cooperativa, o sapiens passou a uma convivência competitiva, cheia de suspeita: dormindo com o inimigo… desejado! Uma ambivalência de sentimentos que não existia entre nossos antepassados caçadores-coletores.

De um lado, o homem transforma o desejo sexual feminino em fonte de desvalorização. Do outro, a mulher passa a ter o poder de “leiloar” o acesso a seu corpo de acordo com o valor que ela atribui ao homem.
Se ela acha que seu homem não tem valor, ela pode ir se entregar a outro que ela valorize mais.
Se ela pode ser vista como uma puta, sua vingança é que ela pode categorizar o homem como um merda.
No senso comum pós agrícola, desde então as mulheres temem ser vistas como putas (desvalor feminino) e os homens temem ser vistos como merdas (desvalor masculino).

O feminicídio, o ápice da misoginia, é a caricatura dessa guerra: sistematicamente, ele é movido pelo ódio contra a mulher, à misoginia vinda da ideia de que a mulher pode trocá-lo (ou que já o trocou) por um outro homem que ela valorize mais. Ao ódio de ser “chamado de merda” pela mulher. Ao ponto que a gravidade do crime de feminicídio já foi atenuada nas leis antigas, porque ele era uma “legítima defesa da honra”.

Leis feitas pelos homens, claro. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

AULA PARA MEUS ALUNOS DA PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Fiz um guia prático para que a pessoa conheça seus desejos e vá desmontando seu Superego.

Os alunos vão usar o roteiro tanto na clínica quando para eles mesmos.

ROTEIRO RESUMIDO PARA USO NA CLÍNICA:

1. DESADESTRAR O SUPEREGO
2. CONHECER SEUS DESEJOS

1. Desadestrando o Superego:

### Parte 1 – Quando bater culpa, vergonha, ridículo ou medo de julgamento

Sempre que você sentir um desses choques emocionais:

- culpa (“fiz algo imperdoável”)
- vergonha (“sou ridículo, não valho nada”)
- medo do ridículo (“vão rir de mim, vão me achar um lixo”)
- medo moral (“sou uma pessoa má por ter pensado/sentido isso”)

faça este pequeno exercício mental:

1. Pergunte: “Que lei estou supostamente transgredindo?”
- Coloque em frase simples:
“Homem não pode chorar.”
“Ser gay é errado.”
“Desejar outra pessoa é traição imperdoável sempre.”
“Filho decente nunca critica pai e mãe.”

2. Pergunte: “Do senso comum de que tribo vem essa lei?”
- É lei de qual ambiente?
- Da minha família?
- Da minha igreja?
- Do bairro onde cresci?
- De um senso comum de outra época (século XIX, moral vitoriana, patriarcado, etc.)?
- Diga para si mesmo:
“Essa lei é da tribo X, em tal época. Não é lei do universo, é lei dessa tribo.”

3. Pergunte: “Essa lei faz sentido para mim hoje?”
- Com o que eu sei hoje de vida, de gente, de ciência, de ética:
- Essa lei protege alguém?
- Ou só me machuca e me envergonha à toa?
- Se a resposta for “não faz sentido” ou “só me tortura”, você não é obrigado a obedecê‑la.
- Não é preciso “matar” a lei; basta dizer internamente:
“Eu sei de onde você vem. Você não manda mais em mim do mesmo jeito.”

Repita isso sempre. A repetição é o “comportamental”: você treina o reflexo de investigar o Superego, em vez de ajoelhar diante dele.

***

### 2. Conhecendo seus desejos

Aprendendo o perfil singular do seu desejo, quando ele se aplica aos encontros pessoais

Agora, o outro lado: aprender como é o seu desejo, do seu jeito, com a sua história. Pense em três tipos de encontro:

- Encontro afetivo
- Encontro intelectual
- Encontro erótico

Faça perguntas simples em cada área.

#### 2.1. Desejo afetivo

Pergunte a si mesmo:

- Com quem eu gosto de estar? Como gosto de cuidar e ser cuidado?
- Que tipo de “clima afetivo” me faz sentir vivo: brincalhão, terno, sério, de parceria, de proteção, de “paizinho”, de “mãezona”…?
- Que experiências da minha vida ajudaram a formar esse jeito de desejar?
- Faltas que doeram?
- Pessoas que me encantaram, reais ou de livros/filmes?

Escreva, se puder, em poucas frases:
“Meu desejo afetivo tem cara de…” (e descreva: pai, amigo, amante, parceiro, protetor, aluno, etc.).

#### 2.2. Desejo intelectual

Pergunte:

- Em que tipo de conversa eu me sinto em casa?
- Explicando?
- Discutindo?
- Contando histórias?
- Ouvindo?
- Que tipo de mente me atrai?
- Gente curiosa?
- Gente clara?
- Gente irônica?
- Que livros, filmes, figuras (professores, personagens) despertaram em mim o desejo de pensar “como eles” – ou “ser para alguém” o que eles foram para mim?

Escreva:
“Meu desejo intelectual tem cara de…” (mentor, aluno, par que pensa junto, debatedor, professor, etc.).

#### 2.3. Desejo erótico

Com cuidado e honestidade consigo mesmo, pergunte:

- Que tipo de corpo, gesto, voz, atitude me desperta?
- Em que clima eu me sinto erótico: ternura, jogo, humor, admiração, poder, entrega?
- Que cenas (da vida real, de filmes, de fantasias) marcaram o meu erotismo?
- O que é que eu busco, no fundo, quando desejo alguém: ser visto, ser acolhido, ser protegido, ser desejado, ser admirado, ser cuidado? Ou o contrário: ver, acolher, proteger, desejar, admirar e cuidar?
- Meu desejo é mais receptivo (passivo) ou mais fazedor (ativo)?
- No caso de misturas de características, qual o percentual de cada uma?

Escreva:
“Meu desejo erótico tem cara de…” (e descreva sem censura; é para você, não para mostrar para ninguém).

***

### Como usar as duas práticas juntas

- Sempre que o Superego te atacar (culpa, vergonha, ridículo), faça o exercício das leis e tribos (Parte 1).
- Regularmente (uma vez por semana, por exemplo), retome as perguntas sobre seu desejo afetivo, intelectual e erótico (Parte 2) e vá refinando as respostas.

A ideia é:

- Afrouxar cordéis que puxam você para uma vida obediente a leis idiotas.
- Fortalecer os cordéis do desejo que fazem sentido para você, com a sua história, com o seu jeito.

Com o tempo, a “resultante” – a direção geral da sua vida – vai ficando menos alinhada com a vontade da tribo e mais afinada com aquilo que realmente te faz sentido.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

A PSICANÁLISE DO SUPEREGO: GENÉTICA E CULTURA


Na psicanálise, o superego não é um “módulo inato”, mas uma forma de controle interno que só se torna possível porque o ser humano nasce extremamente frágil, vulnerável e dependente de amparo por muitos anos.

Essa fragilidade biológica – que podemos chamar de dado inato – levou a seleção natural a incluir como software inato um medo intenso de desamparo, que permanece como matriz afetiva básica ao longo da vida.

Ele vem junto com outros medos inatos (de estranhos; de altura, confinamento, escuro, grandes répteis, grandes felinos, grandes insetos voadores), mas o medo do desamparo associado ao medo de estranhos terá papel decisivo na absorção por adestramento desse novo software: o Superego (o poder de desamparo internalizado).

Na infância, esse medo do desamparo se combina com um fato social simples: o poder de amparo fica concentrado em poucas figuras, nossos “donos”, que controlam quase totalmente o acesso a proteção, alimento, carinho e pertencimento.

Para reduzir o próprio trabalho e garantir obediência, esses cuidadores/“donos” usam um repertório de recompensas e ameaças (amor, aprovação, castigos, rejeição, retirada de cuidado) que, pelo mecanismo de adestramento – muito semelhante ao que fazemos com cães – modela nosso comportamento.

Aos poucos, a criança, para se proteger do perigo máximo que é perder o amparo, internaliza esse sistema de comandos e proibições: passa a antecipar a punição, a culpa e a perda de amor antes mesmo que os pais intervenham.

O superego, nesse sentido, é a “instalação interna” do poder de amparo e de punição que antes estava só do lado de fora: um dispositivo psíquico que vigia, julga e pune o eu em nome da sobrevivência em um mundo em que o outro detém o poder de nos deixar ou não em desamparo.

Do ponto de vista genético, o que interessa aqui é que essa estrutura não nasce pronta: o que é herdado são condições biológicas – extrema imaturidade ao nascer, longa dependência, sistemas de medo e de necessidade de amparo, capacidade de aprender por reforço – que tornam a criança treinável por ameaça de desamparo.

O superego, então, pode ser visto como um produto cultural e relacional que se apoia em predisposições inatas muito específicas: fragilidade prolongada, pavor do desamparo e alta sensibilidade ao poder de quem detém o amparo.

Assim, o Superego vai modular pelo resto da vida todo o nosso comportamento na busca daquilo para que fomos programados: o prazer que leva à replicação do DNA.

Assim como “instalou nossos medos” (que servem à sobrevivência da “máquina” para que ela cumpra sua função de replicação), o DNA instalou em nós desejos, que levam à realização de sua meta replicante. O principal deles é o desejo de prazer, que é ajudado por outros desejos (epistemológico, controle / ordenação, justiça).

Esses desejos acessórios têm o objetivo de nos dar segurança para a situação de vulnerabilidade que é a prática sexual, tão desarmada quanto o sono e as excreções.

É nesse jogo de desejos e medos que o Superego vai imperar, causando conflito por atropelar nossos desejos e implementar nossos medos, o que resultará nas doenças psíquicas.

(Na foto, a mais destacada geneticista do país, Lygia da Veiga Pereira, é entrevistada pela Rita Lobo e mostra como esse comando funciona).