sexta-feira, 12 de junho de 2026

SOBRE O ID E SEU CONTEÚDO - O QUE MORA EM NOSSO INCONSCIENTE

 



## 1. Resumo do “algo em mim” (Id) - o Inconsciente 
Aquilo que Freud chamou de * das Es* – o famoso Id – pode ser traduzido, em bom português, como esse “algo em mim”, “algo em nós”, que não é o eu, não é uma pessoa, mas um motor interno que empurra, puxa, sabota, protege e complica a nossa vida.

Nesse “algo em mim” há quatro grandes conjuntos:
1. **Desejos** - todos os desejos são movidos por incômodos que buscam alívios.
   - O desejo de prazer, escrito no DNA para garantir sobrevivência e reprodução (cujos motores são o tesão, o apetite).  
   - Os desejos “acessórios” do prazer:  
     - desejo de justiça (cujo motor é a raiva de não aguentar ver injustiça e desigualdade escancarada),  
     - desejo epistemológico (cujo motor é a curiosidade, vontade de conhecer e entender como as coisas funcionam),  
     - desejo de controle e ordenação (cujo motor é a insegurança que o caos produz, precisar pôr ordem no mundo interno e externo).  
   - Tudo isso mora no Id, no “algo em mim”: eu não escolho ter esses desejos, eles já vêm no pacote.

2. **Medos**
   - Esse mesmo Id, esse “algo em mim” carrega medos que vêm com a máquina, cuja função é a sobrevivência:  
     - medo de desamparo (ficar sem proteção, sem quem cuide),  
     - medo de estranhos (desconfiar do que não é familiar),  
     - medo de altura, confinamento, escuridão, bichos perigosos, e outros medos que fizeram sentido na evolução e hoje, muitas vezes, viram fobia ou ansiedade “deslocada”.  
   - Os dois medos principais são os de desamparo e de estranhos. São eles que possibilitam o adestramento da pessoa para a instalação do Superego.

3. **Superego adestrado (parte inconsciente)**
   - O Superego não “vem com a máquina”; ele se forma pelo adestramento na infância, baseado na concentração de poder que os pais têm sobre os filhos, que farão qualquer coisa para não perderem o amparo deles.
   - Depois de formado, uma parte desse Superego desce para o porão e vira motor inconsciente que nos aplica choques a cada vez que “saímos da linha”:  
     - choques de angústia,  
     - choques de vergonha,  
     - choques de ridículo,  
     - choques de culpa.  
   - O sujeito só sente o choque; o comando que disparou aquilo (que pode ser resumido como “você está contrariando o senso comum da sua tribo! Vai perder o amparo!”) fica escondido no “algo em mim”.

4. **Reprimido (produto da briga desejo/superego)
   - Coisas que um dia chegaram perto da consciência, foram consideradas inaceitáveis e empurradas para baixo: fantasias, raivas, invejas, desejos considerados “proibidos” pelo superego e pela tribo.  
   - Esse material reprimido continua ativo, criando “manifestações conscientes do inconsciente reprimido”: sintomas, neuroses, vícios, sonhos, lapsos, formações reativas (como o “bonzinho demais”), sempre vindo de um “algo em mim” que o Eu não controla.
Em resumo, o Id é esse “algo em mim” que:
- quer prazer, justiça, conhecimento, controle;  
- tem medos ancestrais (desamparo, estranho, altura, etc.);  
- carrega choques de superego que viraram automáticos;  
- e guarda o reprimido da briga entre desejo e proibição. 


quinta-feira, 11 de junho de 2026

GUERRA DOS SEXOS: A HISTÓRIA DA MISOGINIA, O ÓDIO CONTRA AS MULHERES

 




Um dos tristes efeitos colaterais da transição da era paleolítica (tempo dos caçadores-coletores, que terminou há 10.000 anos) para a era neolítica / revolução agrícola (surgimento da agricultura e da pecuária, das cidades e da convivência com estranhos), além da instalação do Superego em nós, foi o problema da guerra dos sexos, um tempo de desconfiança mútua entre homens e mulheres.

Um tempo de sofrimento ligado às negociações sexuais, sofrimento para ambas as partes, mas bem pior para as mulheres.

1. Como viviam as mulheres no tempo dos caçadores-coletores

Elas viviam muito bem, num clima de cooperação com a tribo: em termos mais simples (deixando de lado as exceções), elas coletavam frutos, vegetais, raizes, cogumelos, trocavam informações, partilhavam o cuidado com os filhos, revezavam-se na amamentação.

Não havia hierarquia, nem casamento, nem namoro, nem pudores sexuais. Não havia nem a ideia clara de que sexo e procriação estivessem ligados. Assim como o trabalho, o cuidado com as crianças, as tarefas, o sexo era uma brincadeira a mais, com ou sem ligação afetiva, com vários parceiros. Em algumas tribos, havia a crença de que as crianças eram geradas pelo acúmulo de várias inseminações, vindas de vários homens.


2. Ruptura com a Revolução Agrícola

Quando a fonte de alimentação passou a ser o cultivo e o pastoreio, a vida mudou radicalmente. As tribos nômades de 50-70 pessoas conhecidas foram se transformando em cidades fixas de mais de 500 estranhos. Surgiu a acumulação, a propriedade privada… e a herança. O que levou os homens a exigirem “filhos legítimos”, para que bastardos não pusessem as mãos em suas propriedades.

A partir daí, o corpo da mulher e sua sexualidade tornam‑se foco central de controle e vigilância: garantir a fidelidade sexual passa a ser condição para assegurar que a herança vá “para os meus filhos”, e não para filhos de outros homens.

Não só isso, mas também passou a haver “minhas mulheres”, casamento primitivo. A mulher deixou de ser parceira cooperativa e virou uma propriedade a mais. A mulher passou a ter um homem só, mesmo que o homem pudesse ter várias mulheres.

3. A mulher sob o patriarcado agrícola: sofrimento e desqualificação

A mulher, peça crucial na honra do homem, passa a ser vigiada, punida (se caísse sob suspeita de traição sexual). Ela vira um “perigo”, um ser sob suspeita permanente. Esse é o início da misoginia – a raiva contra as mulheres.

O pior disso é que a principal suspeita recai sobre as suas manifestações de desejo sexual. O desejo sexual feminino passa a ser visto como “impureza”. A mulher passa a ser valorizada pela suposta “falta de desejo” (daí vem a mitificação das virgens em várias religiões).

4. A “falta de desejo” vira poder

Como triste efeito colateral, as mulheres sentiram que seus poderes e sua valorização viriam desse aparente desapego ao sexo e ao desejo. Se ela parecia “pura”, tornava-se mais desejada no mercado matrimonial. Teria acesso a ela homem que pagasse mais. Foi assim que um regime de sutil “prostituição” foi instituído: quanto mais sem desejo visível, mais cara; quanto menos, mais barata.

5. A mulher como “leiloeira de si mesma” e juíza do valor do homem

Como mais uma triste contribuição à misoginia, a mulher passou a ser vista como alguém que também julgava o valor dos homens – uma reação natural de vingança ao dano que lhe causaram, à injustiça que lhe impuseram.

A Guerra dos Sexos estava instituída: de convivência cooperativa, o sapiens passou a uma convivência competitiva, cheia de suspeita: dormindo com o inimigo… desejado! Uma ambivalência de sentimentos que não existia entre nossos antepassados caçadores-coletores.

De um lado, o homem transforma o desejo sexual feminino em fonte de desvalorização. Do outro, a mulher passa a ter o poder de “leiloar” o acesso a seu corpo de acordo com o valor que ela atribui ao homem.
Se ela acha que seu homem não tem valor, ela pode ir se entregar a outro que ela valorize mais.
Se ela pode ser vista como uma puta, sua vingança é que ela pode categorizar o homem como um merda.
No senso comum pós agrícola, desde então as mulheres temem ser vistas como putas (desvalor feminino) e os homens temem ser vistos como merdas (desvalor masculino).

O feminicídio, o ápice da misoginia, é a caricatura dessa guerra: sistematicamente, ele é movido pelo ódio contra a mulher, à misoginia vinda da ideia de que a mulher pode trocá-lo (ou que já o trocou) por um outro homem que ela valorize mais. Ao ódio de ser “chamado de merda” pela mulher. Ao ponto que a gravidade do crime de feminicídio já foi atenuada nas leis antigas, porque ele era uma “legítima defesa da honra”.

Leis feitas pelos homens, claro. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

AULA PARA MEUS ALUNOS DA PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Fiz um guia prático para que a pessoa conheça seus desejos e vá desmontando seu Superego.

Os alunos vão usar o roteiro tanto na clínica quando para eles mesmos.

ROTEIRO RESUMIDO PARA USO NA CLÍNICA:

1. DESADESTRAR O SUPEREGO
2. CONHECER SEUS DESEJOS

1. Desadestrando o Superego:

### Parte 1 – Quando bater culpa, vergonha, ridículo ou medo de julgamento

Sempre que você sentir um desses choques emocionais:

- culpa (“fiz algo imperdoável”)
- vergonha (“sou ridículo, não valho nada”)
- medo do ridículo (“vão rir de mim, vão me achar um lixo”)
- medo moral (“sou uma pessoa má por ter pensado/sentido isso”)

faça este pequeno exercício mental:

1. Pergunte: “Que lei estou supostamente transgredindo?”
- Coloque em frase simples:
“Homem não pode chorar.”
“Ser gay é errado.”
“Desejar outra pessoa é traição imperdoável sempre.”
“Filho decente nunca critica pai e mãe.”

2. Pergunte: “Do senso comum de que tribo vem essa lei?”
- É lei de qual ambiente?
- Da minha família?
- Da minha igreja?
- Do bairro onde cresci?
- De um senso comum de outra época (século XIX, moral vitoriana, patriarcado, etc.)?
- Diga para si mesmo:
“Essa lei é da tribo X, em tal época. Não é lei do universo, é lei dessa tribo.”

3. Pergunte: “Essa lei faz sentido para mim hoje?”
- Com o que eu sei hoje de vida, de gente, de ciência, de ética:
- Essa lei protege alguém?
- Ou só me machuca e me envergonha à toa?
- Se a resposta for “não faz sentido” ou “só me tortura”, você não é obrigado a obedecê‑la.
- Não é preciso “matar” a lei; basta dizer internamente:
“Eu sei de onde você vem. Você não manda mais em mim do mesmo jeito.”

Repita isso sempre. A repetição é o “comportamental”: você treina o reflexo de investigar o Superego, em vez de ajoelhar diante dele.

***

### 2. Conhecendo seus desejos

Aprendendo o perfil singular do seu desejo, quando ele se aplica aos encontros pessoais

Agora, o outro lado: aprender como é o seu desejo, do seu jeito, com a sua história. Pense em três tipos de encontro:

- Encontro afetivo
- Encontro intelectual
- Encontro erótico

Faça perguntas simples em cada área.

#### 2.1. Desejo afetivo

Pergunte a si mesmo:

- Com quem eu gosto de estar? Como gosto de cuidar e ser cuidado?
- Que tipo de “clima afetivo” me faz sentir vivo: brincalhão, terno, sério, de parceria, de proteção, de “paizinho”, de “mãezona”…?
- Que experiências da minha vida ajudaram a formar esse jeito de desejar?
- Faltas que doeram?
- Pessoas que me encantaram, reais ou de livros/filmes?

Escreva, se puder, em poucas frases:
“Meu desejo afetivo tem cara de…” (e descreva: pai, amigo, amante, parceiro, protetor, aluno, etc.).

#### 2.2. Desejo intelectual

Pergunte:

- Em que tipo de conversa eu me sinto em casa?
- Explicando?
- Discutindo?
- Contando histórias?
- Ouvindo?
- Que tipo de mente me atrai?
- Gente curiosa?
- Gente clara?
- Gente irônica?
- Que livros, filmes, figuras (professores, personagens) despertaram em mim o desejo de pensar “como eles” – ou “ser para alguém” o que eles foram para mim?

Escreva:
“Meu desejo intelectual tem cara de…” (mentor, aluno, par que pensa junto, debatedor, professor, etc.).

#### 2.3. Desejo erótico

Com cuidado e honestidade consigo mesmo, pergunte:

- Que tipo de corpo, gesto, voz, atitude me desperta?
- Em que clima eu me sinto erótico: ternura, jogo, humor, admiração, poder, entrega?
- Que cenas (da vida real, de filmes, de fantasias) marcaram o meu erotismo?
- O que é que eu busco, no fundo, quando desejo alguém: ser visto, ser acolhido, ser protegido, ser desejado, ser admirado, ser cuidado? Ou o contrário: ver, acolher, proteger, desejar, admirar e cuidar?
- Meu desejo é mais receptivo (passivo) ou mais fazedor (ativo)?
- No caso de misturas de características, qual o percentual de cada uma?

Escreva:
“Meu desejo erótico tem cara de…” (e descreva sem censura; é para você, não para mostrar para ninguém).

***

### Como usar as duas práticas juntas

- Sempre que o Superego te atacar (culpa, vergonha, ridículo), faça o exercício das leis e tribos (Parte 1).
- Regularmente (uma vez por semana, por exemplo), retome as perguntas sobre seu desejo afetivo, intelectual e erótico (Parte 2) e vá refinando as respostas.

A ideia é:

- Afrouxar cordéis que puxam você para uma vida obediente a leis idiotas.
- Fortalecer os cordéis do desejo que fazem sentido para você, com a sua história, com o seu jeito.

Com o tempo, a “resultante” – a direção geral da sua vida – vai ficando menos alinhada com a vontade da tribo e mais afinada com aquilo que realmente te faz sentido.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

A PSICANÁLISE DO SUPEREGO: GENÉTICA E CULTURA


Na psicanálise, o superego não é um “módulo inato”, mas uma forma de controle interno que só se torna possível porque o ser humano nasce extremamente frágil, vulnerável e dependente de amparo por muitos anos.

Essa fragilidade biológica – que podemos chamar de dado inato – levou a seleção natural a incluir como software inato um medo intenso de desamparo, que permanece como matriz afetiva básica ao longo da vida.

Ele vem junto com outros medos inatos (de estranhos; de altura, confinamento, escuro, grandes répteis, grandes felinos, grandes insetos voadores), mas o medo do desamparo associado ao medo de estranhos terá papel decisivo na absorção por adestramento desse novo software: o Superego (o poder de desamparo internalizado).

Na infância, esse medo do desamparo se combina com um fato social simples: o poder de amparo fica concentrado em poucas figuras, nossos “donos”, que controlam quase totalmente o acesso a proteção, alimento, carinho e pertencimento.

Para reduzir o próprio trabalho e garantir obediência, esses cuidadores/“donos” usam um repertório de recompensas e ameaças (amor, aprovação, castigos, rejeição, retirada de cuidado) que, pelo mecanismo de adestramento – muito semelhante ao que fazemos com cães – modela nosso comportamento.

Aos poucos, a criança, para se proteger do perigo máximo que é perder o amparo, internaliza esse sistema de comandos e proibições: passa a antecipar a punição, a culpa e a perda de amor antes mesmo que os pais intervenham.

O superego, nesse sentido, é a “instalação interna” do poder de amparo e de punição que antes estava só do lado de fora: um dispositivo psíquico que vigia, julga e pune o eu em nome da sobrevivência em um mundo em que o outro detém o poder de nos deixar ou não em desamparo.

Do ponto de vista genético, o que interessa aqui é que essa estrutura não nasce pronta: o que é herdado são condições biológicas – extrema imaturidade ao nascer, longa dependência, sistemas de medo e de necessidade de amparo, capacidade de aprender por reforço – que tornam a criança treinável por ameaça de desamparo.

O superego, então, pode ser visto como um produto cultural e relacional que se apoia em predisposições inatas muito específicas: fragilidade prolongada, pavor do desamparo e alta sensibilidade ao poder de quem detém o amparo.

Assim, o Superego vai modular pelo resto da vida todo o nosso comportamento na busca daquilo para que fomos programados: o prazer que leva à replicação do DNA.

Assim como “instalou nossos medos” (que servem à sobrevivência da “máquina” para que ela cumpra sua função de replicação), o DNA instalou em nós desejos, que levam à realização de sua meta replicante. O principal deles é o desejo de prazer, que é ajudado por outros desejos (epistemológico, controle / ordenação, justiça).

Esses desejos acessórios têm o objetivo de nos dar segurança para a situação de vulnerabilidade que é a prática sexual, tão desarmada quanto o sono e as excreções.

É nesse jogo de desejos e medos que o Superego vai imperar, causando conflito por atropelar nossos desejos e implementar nossos medos, o que resultará nas doenças psíquicas.

(Na foto, a mais destacada geneticista do país, Lygia da Veiga Pereira, é entrevistada pela Rita Lobo e mostra como esse comando funciona).


 

terça-feira, 2 de junho de 2026

SOBRE O EGO, NOSSO “EU”: O HABITUAL E O DESEJADO

 


Desde quando Freud desenhou o aparelho psíquico com três regiões (hoje se diria “softwares”), Ego, Id e Superego, muito se falou do Id (o inconsciente) e do Superego (o repressor/sedutor).

Mas sobre o Ego, muito pouco foi falado. No entanto, ele é o que nos define: nós somos o Ego, “eu sou eu”, em outras palavras. O Ego, o Eu é o dono da “empresa”: “Eu” quero saber os rumos que vou tomar na vida; “Eu” quero conhecer meus potenciais, meus desejos, meus problemas, quero poder gerenciar melhor isso tudo.

Por isso, vamos agora entender melhor como esse “programa” funciona.

. Nossa Identidade e nossas múltiplas facetas

A identidade é o que nós somos, mesmo que às vezes entremos num “personagem diferente da gente”.
Identidade não é ser “um homem de uma cara só”, nem se confundir com um papel único, por mais importante que ele seja.

Nossa Identidade é um conjunto de facetas que usamos de acordo com nossas interações com o mundo e com as pessoas: Eu me apresento de modos diversos em contextos diferentes: há uma faceta minha que fala inglês, mas eu não me reduzo a ela, ela é um dos meus instrumentos. É como o “dono da empresa” visitando e usando vários departamentos, sem que nenhum o defina.

Cada faceta é uma habilidade, um modo de falar, de amar, de trabalhar, de brincar, acionado conforme a situação.
Ela não define a pessoa, e o Eu saudável sabe que ela é uma parte sua, não o todo.

***

. Personagem: faceta que tomou o poder

“Personagem”: nessa história de lidar com o mundo, às vezes construímos um personagem para uma determinada situação mais difícil (um aluno desenvolveu um “personagem pegador”, para ir a festas, pois lidar com seu desejo pelas mulheres era um departamento difícil de “sua empresa”). Mas essa foi uma faceta que ganhou poder demais. Virou personagem.

Ela nasceu de algo real – uma capacidade, uma defesa necessária, um jeito de sobreviver ou se destacar – mas “ganhou poder” e passou a se comportar como se fosse o próprio dono da empresa.

O personagem pode ser extremamente funcional por um tempo:
- o empreendedor incansável que organiza toda a vida em torno do trabalho;
- o “cafajeste do bem” que permite ao rapaz inibido circular nas festas e viver experiências eróticas.

O problema não é o jeitão dessas facetas, e sim quem manda em quem:
- a pessoa se torna dependente daquele modo de funcionar para se sentir alguém. Ela acaba se definindo pelo personagem.
- sem o personagem, sente que “não sabe o que fazer” (como o idoso na aposentadoria) ou não sabe como lidar com a situação (como o jovem diante da moça com quem quer um vínculo verdadeiro);
- o personagem passa por cima de nós, de nosso Eu, e às vezes, vira tirano da própria pessoa (quando nos seduzimos para ser Superego dos outros, p.ex.).

Nesses casos, o que temos pela frente não é destruir o personagem como se fosse pura falsidade, mas “separar o bebê da água do banho”, para não jogar fora os dois juntos:
- preservar dele as qualidades que podem virar facetas (capacidade de empreender, de negociar, de se desinibir, de brincar, de seduzir);
- retirar dele o excesso de poder, a dependência e a rigidez, devolvendo o comando ao nosso Ego.

***

. Michelangelo, o Davi e o mármore

Dizem que uma vez perguntaram ao Michelangelo como ele tinha conseguido esculpir o Davi. Ele respondeu: “Ah, eu vi o bloco de mármore e sabia que o Davi estava lá dentro. Aí eu só fui tirando o excesso de mármore, para que ele aparecesse.

A metáfora de Michelangelo ilumina esse processo.

O bloco de mármore é a pessoa inteira: história, personagens, facetas, superego, doenças, hábitos, bugs.
O Davi é o seu Eu, a pessoalidade: aquilo que é próprio, vivo, consciente, aquilo que realmente se parece com você.

Do mesmo modo, o trabalho de entender nosso Ego e Superego não é inventar uma nova pessoa do zero, mas retirar o mármore que encobre o Davi:
- “Invasores” superegoicos: personagens tiranos, crenças herdadas sem exame, ideais impossíveis que não tem a ver conosco, defesas que perderam função.

Mas o nosso Davi é sempre percentual e inacabado. Ele é uma obra em permanente construção. Ele é um “eterno aprendiz” de si mesmo.

***

. Superego, bugs no sistema

Na Psicanálise do Superego, doenças e Superego não se confundem com a pessoa, com nosso Eu, nosso Ego: eles são bugs no sistema.

Eles são equivalentes ao mármore excedente: partes de nossa história que um dia tiveram função (proteger, disciplinar, adaptar), mas que hoje geram erros, travamentos, sofrimento.

É importante saber que o Superego não contém só bug e idiotices.
Ele contém tanto:
- puras bobagens e violências introjetadas (ser canhoto é errado, ser gay é errado, prazer é errado);
- valores que podem ser preciosos (honestidade, generosidade, cuidado), porém em forma deformada, do tipo “você tem que ser honesto, você tem que ser generoso, você tem que ser caridoso”.

Aqui entra a distinção conteúdo / forma:
- certos conteúdos são mármore puro e precisam ser jogados fora (preconceitos, leis idiotas, proibições sem sentido lógico);
- outros conteúdos são bons, seu problema não é a coisa em si, mas a forma como ela nos é imposta: “você tem que…, senão…” Ora, eu não “tenho que” ser honesto. Eu gosto de ser honesto.

O trabalho é transferir a propriedade:
- tirar esses valores do regime de “tem que” do Superego;
- passá los para o domínio do Eu, onde honestidade, generosidade e cuidado deixam de ser obediência por medo e viram gosto, convicção, valor assumido.

No exemplo da honestidade:
- bug: ser honesto apenas para não ser punido, para evitar culpa ou condenação;
- Davi: ser honesto porque isso expressa quem eu quero ser, porque isso combina com a imagem que tenho de mim, com o modo de vida que escolho.

***

. O Ego como “gerente da bagunça”

Seu Eu, seu Ego é pra ser dono da sua empresa psíquica.

Ele é o proprietário legítimo, o único que pode, em princípio, conhecer e coordenar todos os departamentos (id, superego, facetas, personagens, e sobretudo seus desejos).

Na prática, porém, ele está tonto, sobrecarregado:
- vive às voltas com incêndios, crises, conflitos entre departamentos;
- passa o tempo apagando fogo e cumprindo ordens do Superego ou demandas do Id, em vez de definir seu rumo;
- muitas vezes, nem sabe “como gostaria” de dirigir a empresa, porque nunca teve calma nem espaço para conhecer seus próprios desejos e transforma-los em projetos .

A diferença aqui é esta:
- ou um gerente atolado na bagunça: um ego que administra crises sem saber para onde quer levar a empresa;
- ou um dono que sabe um rumo: é um ego que, mesmo lidando com problemas, reserva energia para remover bugs, retirar mármore, redistribuir poder entre facetas e personagens, assumir para si valores bons que antes pertenciam só ao Superego.

***

. Meta do trabalho de “psicanalista do superego”

A meta que queremos para ela – clínica, teórica e pedagógica – pode ser formulada assim:

- atuar como retirador de mármore e depurador de bugs, não como destruidor de estruturas;
- ajudar o ego a distinguir, dentro do superego e dos personagens, o que é Davi (valores, competências, facetas legítimas) e o que é mármore/bug (medos, mandatos absurdos, tiranias internas);
- transferir para o domínio do Eu os elementos valiosos que estavam sequestrados pelo superego;
- desmontar “personagens dominadores”, transformando o que eles têm de bom em facetas a serviço da pessoalidade;
- desenvolver a clareza do Ego como dono da empresa: não um herói perfeito, mas um gestor em permanente construção, que vai aprendendo a dirigir a empresa enquanto conserta o próprio sistema e escolhe suas melhores circunstâncias.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

SONHO - SUA CONSTRUÇÃO E SUA FUNÇÃO | ONDE A BIOLOGIA ENCONTRA FREUD

 


1. A base inicial é orgânica: o ser humano deve ser pensado como uma máquina viva programada pelo DNA para continuar funcionando, preservar-se, regular-se e adaptar-se ao ambiente.

2. Essa máquina possui protetores e processadores biológicos que operam continuamente para manter sua estabilidade interna e sua capacidade de resposta ao mundo.

3. Durante a vigília, a máquina recebe estímulos, toma decisões, enfrenta conflitos, administra desejos, frustrações, medos, culpas e exigências externas.

4. Essa atividade diurna produz sobrecarga. O processamento começa a ficar mais lento, mais ruidoso e menos fluido, como acontece com qualquer máquina complexa submetida a excesso de informação.

5. O sono é um dos grandes protetores da máquina programada pelo DNA.

6. A função primordial do sono é permitir a resetagem da máquina durante a noite.

7. Essa resetagem não significa apagar a experiência vivida, mas esvaziar a sobrecarga, reorganizar os circuitos, reduzir o ruído acumulado e devolver fluidez ao funcionamento.

8. Para que essa resetagem aconteça, a máquina precisa manter o sono sem interrupções desnecessárias.
9. O sonho surge dentro do sono como um digestor das perturbações.

10. Essas perturbações podem vir da véspera: conflitos, desejos, aflições, culpas, medos, excitações, frustrações e restos emocionais do dia.

11. Elas também podem surgir durante o próprio sono, como fome, sede, vontade de urinar, ruídos externos ou desconfortos corporais.

12. A função primordial do sonho é digerir essas perturbações para que elas não interrompam o sono.
13. Por isso, o desejo mais básico realizado pelo sonho é o desejo de continuar dormindo.

14. O sonho pode satisfazer, apaziguar ou apenas acomodar uma perturbação.

15. Um exemplo é o sonho de urinar, que tenta responder à vontade de ir ao banheiro sem acordar imediatamente a pessoa.

16. Outro exemplo é o sonho de comer, quando alguém foi dormir com fome.

17. Nesses casos, o sonho transforma uma exigência corporal ou psíquica em cena onírica, permitindo que a máquina continue sua resetagem.

18. O sonho, portanto, não é apenas realização de desejo no sentido clássico, mas digestão funcional das perturbações que ameaçam o sono.

19. A realização de desejo é uma das formas possíveis dessa digestão, mas não a única.

20. Quando a digestão onírica funciona, há apaziguamento suficiente para que o sono prossiga.

21. Quando a carga perturbadora é excessiva, o sonho pode fracassar em sua função de manter o sono.

22. Isso acontece especialmente quando há uma sobrecarga intensa entre desejo e superego.

23. Nesses casos, a perturbação se torna indigerível.

24. O sonho então deriva para o pesadelo.

25. O pesadelo é a falência do sonho como digestor.

26. Em vez de preservar o sono, o pesadelo rompe o sono e acorda a pessoa.

27. Assim, a sequência básica é: máquina programada pelo DNA, vigília, sobrecarga, sono, resetagem, sonho, digestão das perturbações, manutenção do sono.

28. A fórmula central é: o sono reseta a máquina; o sonho digere as perturbações para que a resetagem não seja interrompida. 

PRAZER-DESPRAZER COMO BASE DA AVALIAÇÃO CUSTO- BENEFÍCIO

 


Ponto de vista neuroquímico

Ficou como crenca geral que a dopamina é o neurotransmissor do prazer. Mas… não é bem assim. Ela é o principal avaliador de prazer-desprazer (ou da relação custo-benefício que rege cada ato nosso, voluntário ou não, consciente ou não). Tanto “mais prazer” quanto “menos desprazer” liberam dopamina. Vamos ver como isso funciona:

A lógica central é que o cérebro não está tão voltado para picos de prazer, mas sim para o saldo mensal de liberação de dopamina ligado sobretudo ao alívio de desprazer.

Ao longo de um mês, a vida oferece pouquíssimos momentos de prazer intenso, com grandes picos de dopamina, mas oferece inúmeras situações em que um desconforto diminui, um risco é evitado, uma angústia baixa de intensidade é aliviada.

Cada pequeno alívio – da ansiedade, da culpa, da tensão ou do medo – produz uma liberação de dopamina suficiente para o sujeito sentir “melhorei”, e isso se repete dezenas, centenas de vezes. Assim, na soma, o alívio de desprazer rende muito mais dopamina acumulada do que os raros picos de prazer.

É aí que entra o custo‑benefício dopaminérgico: o sujeito, sem saber, escolhe caminhos que aumentam a quantidade de alívios possíveis e diminuem exposições a grandes dores, mesmo que isso envolva sintomas irracionais.

Como na fobia. Confrontar o pai amado‑temido, por exemplo, é uma aposta de altíssimo custo: ameaça de desamparo, culpa, conflito e perda do vínculo. O cérebro prevê um saldo de dopamina negativo: muita dor, pouco alívio. Já a fobia de barata é um “mal menor”: o medo é deslocado para um objeto pequeno e evitável, e cada vez que o sujeito consegue evitar a barata, pedir ajuda ou “escapar”, ele ganha uma dose de alívio.

Em um mês, esse ciclo medo‑evitação‑alívio se repete tantas vezes que a fobia gera, paradoxalmente, mais dopamina total do que o enfrentamento direto da fonte real de angústia. A fobia, então, é uma solução “dopamínica” de compromisso: conserva o vínculo com o pai, evita o desamparo absoluto e organiza o medo numa forma que permite muitos pequenos alívios, mesmo ao preço de um sofrimento irracional.


quinta-feira, 28 de maio de 2026

“RESPONSABILIDADE”, A CULPA QUE NÃO OUSA DIZER SEU NOME

 



De uns tempos pra cá venho ouvindo essa coisa de que, em psicanálise, tudo bem de não se culpar a pessoa, “mas ela precisa assumir a responsabilidade de seus atos”.

Ouvi isso com grande suspeição. Como assim? Como culpa e responsabilidade seriam tão diferentes? 
A culpa é um julgamento sumário feito pelo Superego: “você infringiu as minhas leis! Não quero saber, você é culpado!” 

Às vezes a lei é tão idiota que o Superego nem a menciona, só enquadra a pessoa. Se fosse mencionada, a lei seria algo como: “você teve pensamentos raivosos contra seu pai! Não sabe que isso é algo horrível?”

Ah, mas se fosse explicitada dessa forma, a culpa poderia ser questionada, a pessoa poderia se defender.
A alternativa que a Psicanálise do Superego oferece a questão da culpa é não aceitá-la em nenhuma hipótese. E sim verificar se houve ou não erro.

O erro não tem drama: avalia-se o dano e promove-se a reparação. 

E vida que segue, a pessoa não vai ficar se martirizando porque errou. O erro faz parte do fazer, e até do não fazer, pois há omissões erradas.

Mas o exame do erro contém aspectos de avaliações: você sabia que era erro? Foi acidental ou intencional? Causou pouco ou muito dano? Há atenuantes? O que pode ser feito para corrigir?

A culpa não, ela bate o martelo e não examina nada: é culpado e pronto! Basta dizer que existe culpa até de pensamento…

E a tal da responsabilidade? Ela é tão cuidadosamente avaliada como o erro o é? Ou a questão termina quando a pessoa se diz, “sou responsável”? Tudo leva a crer que quando alguém ouve “você é o responsável”, isso equivale completamente ao simplorismo do “você é culpado”.

Por isso digo que a tal da responsabilidade é uma acusação de culpa que não ousa dizer seu nome. É a “culpa com vaselina”…


segunda-feira, 25 de maio de 2026

COMO É A PSICANÁLISE DO SUPEREGO

 


Primeira síntese  

A psicanálise do Superego é um desenvolvimento, feito por Francisco Daudt, da psicanálise freudiana.
Freud estudou o inconsciente reprimido, que se manifesta através de doenças psíquicas mais comuns, como as neuroses e os vícios. Daudt desenvolve e busca complementar esse estudo ao investigar o inconsciente repressor, o Superego.

O Superego era visto por Freud como uma internalização na infância dos valores morais da sociedade. Freud o via como necessário e inevitável, ainda que gerando um “mal-estar na civilização”.

O Superego visto por Daudt é mais fonte de problema do que de solução. Nossos valores morais não precisam ser praticados por medo dele, eles podem ser absorvidos por gosto de cooperação, podem ser coisa do nosso Eu, do nosso Ego.

O Superego, nessa visão, é resultado de um adestramento da criança para absorver o senso comum de sua “tribo” – de sua comunidade que a ampara – justamente através do medo de ser desamparada, caso “se comporte mal” (isso significa “caso dê trabalho a seus cuidadores”).

O Superego fica então como um automático que não fala, e sim dá choques na pessoa: choques de culpa, de angústia, de vergonha, de ridículo. Ele não explica suas leis, nunca convence ninguém do bom produto lógico de suas leis. Ele só as impõe através desses choques.

Por isso, o Superego é principalmente inconsciente: porque funciona no automático, invisível, entre tantas outras coisas automáticas em nossa vida, porque, como vêm do senso comum, ele não causa estranhamento: “ah, a vida é assim mesmo, todo mundo sabe”.

Para dar um exemplo desse “todo mundo sabe”, houve um tempo em que o senso comum dizia que “era errado ser canhoto”. A criança canhota se sentia culpada, tinha vergonha, tinha angústia quando usava sua mão esquerda. Ou então a usava “em desafio”, ou escondida, como se estivesse fazendo algum crime.

Outro exemplo mais cruel, e esse foi o que deu a Freud a pista do inconsciente reprimido, era o do senso comum da época vitoriana de que as mulheres não poderiam sentir desejo sexual, que isso era coisa de depravadas, de prostitutas. Essa lei tosca, absorvida pelo Superego delas, produzia tal angústia quando o desejo aparecia, que o mecanismo de defesa da repressão fazia com que seu drama fosse deslocado para uma neurose histérica: “não, meu problema não é o desejo sexual, meu problema são os desmaios frequentes, a paralisia de minha mão”.

Mas Freud descobriu essa ligação, porém não questionou a “lei do senso comum” que proibia a mulher de ter desejo sexual. Ele não questionou o Superego da época.

É exatamente isso que faz a psicanálise do Superego. Ao examinar esse conflito interno, a gente pode dizer para a pessoa: “ah, seu problema não é ter desejo sexual; isso todo mundo tem, homens e mulheres, meninos e meninas. Seu problema é que essa lei idiota foi absorvida por você- e por todas as mulheres – através de adestramento na infância. Se você se mostrasse desejosa, perceberia que seus pais não iriam mais gostar de você, que eles iriam te desamparar. Foi assim que sua reação automática a qualquer manifestação de desejo era a culpa e a angústia. Foi isso que causou sua doença. A doença conta a história da injustiça que as mulheres sofrem com essa lei”. 

Portanto, a Psicanálise do Superego faz uma separação importante: nem a doença, nem o Superego são “a pessoa”, eles estão na pessoa, como um bug no sistema. O interessante é que eles estão intimamente ligados: a doença fala da história da pessoa; de como o senso comum de sua “tribo” entrou em choque com suas características singulares.

Exatamente como as clientes de Freud, cujos desejos sexuais entraram em choque com o Superego “anti-sexo” do senso comum de sua época. Elas não eram “histéricas”, elas sofriam de histeria, de neurose histérica.
Outra característica do Superego que essa psicanálise estuda é sua capacidade, não só de reprimir e impor, mas também de seduzir as pessoas a que ocupem lugar de Superego junto a outras. Algo assim: “está se sentindo mal de ser dominado? Espere seu tempo, que amanhã você será dominador”. As crianças dominadas pelos pais se tornarão futuras dominadoras de seus filhos… e passarão o Superego adiante.

Aí estão as primeiras bases para se entender o que é a Psicanálise do Superego. 


sexta-feira, 22 de maio de 2026

O AMIGO PERGUNTA SOBRE SONHOS

 




“Você diz aí que nós somos com os outros mamíferos, apenas mais complexos: máquinas programadas pelo DNA visando sua replicação, com programas de desejos e de medos que permitem a a condições em que o sexo possa ser praticado.

Ok, mas com os sonhos entram nesse programa?”

———

Francisco Daudt. Você notou bem: como todos os mamíferos, nós também sonhamos. Você já viu um cachorro sonhando? Eles fazem como nós: de vez em quando eles se mexem, se agitam, fazem ruídos. Na maior parte do tempo, dormem tranquilos.

Por aí podemos deduzir que o sonho faz parte do nosso programa animal, que ele desempenha funções vitais em nossa “máquina”.

Estou falando de máquina porque cada vez mais nos vejo – sobretudo ao nosso cérebro, nossa mente – como semelhante ao computador em geral, e às IA em particular.

Vamos fazer então um passo a passo que vai do DNA ao sonho:

A base inicial é orgânica: o DNA nos programou para preservar a continuidade da vida.
Essa programação não opera por ideias abstratas, mas por desejos, medos, alarmes, prazeres, desconfortos e mecanismos automáticos de proteção, todos “softwares que vêm com a máquina”.

O principal motor da máquina viva é o desejo de prazer, é ele que vai nos levar ao “propósito do programador”: a replicação do DNA.
Esse desejo de prazer vai da fome ao apetite, do tesão à satisfação, do alívio corporal ao prazer sexual.
Mas o desejo de prazer não pode operar sozinho. Para que o prazer aconteça, a máquina precisa de um ambiente suficientemente seguro. O prazer precisa de tranquilidade.

Esse ambiente seguro é aquilo que chamamos de paz: não uma paz moral ou idealizada, mas uma paz orgânica, uma tranquilidade mínima do ambiente em que estamos.
Essa paz é necessária porque os grandes prazeres e alívios do organismo envolvem uma situação vulnerável.
O sono é vulnerabilidade.
A eliminação de resíduos, como urinar e defecar, é vulnerabilidade.
O sexo é vulnerabilidade.

A reprodução exige vulnerabilidade. Portanto, a máquina precisa reduzir ameaças para permitir os momentos em que ela baixa a guarda.

Para proteger o desejo de prazer, o DNA nos equipou com medos inatos. Entre esses medos, um dos mais importantes é o medo do estranho.
O estranho, na base, é antes de tudo, o outro humano desconhecido.
A criança chora quando “estranha”. Um rosto estranho pode significar perda de proteção, ameaça, abandono ou intrusão.

Para o adulto primitivo (e para nós, atualmente, numa rua deserta), o outro desconhecido podia representar perigo de ataque, morte, roubo, sequestro ou invasão.
Por isso, o processo de tornar o estranho em familiar é uma função protetora fundamental. A familiarização reduz o risco.

Essa familiarização pode acontecer de várias formas: pelo parentesco, pela troca, pela nomeação, pelo ritual, pela oferenda, pela conversa, pela explicação ou pelo mito. Por exemplo, “ele também é flamenguista” diz que o outro é familiar, pois acredita no mesmo mito.

A máquina humana busca ampliar o território do familiar para se sentir tranquila. Quanto mais familiar o “mundo” se torna, menos ameaçador ele parece. Quanto menos ameaçador ele parece, mais o organismo pode se sentir tranquilo para dormir, comer, eliminar resíduos, fazer sexo, cuidar dos filhos e viver.

O desejo de prazer – nosso motor principal – precisa de desejos acessórios para criar esse campo de segurança.

Os principais desejos acessórios são o
a. desejo de conhecimento e entendimento,
b. o desejo de justiça,
c. o desejo de ordenação e controle.

a. O desejo de conhecimento e entendimento
Ele nasce da tensão da perplexidade. A perplexidade aparece quando a máquina encontra algo que não entende. O não entendido é ameaçador porque não pode ser previsto.
Para reduzir essa ameaça, a máquina inventa explicações. Em sua forma primitiva, essas explicações são mágicas, míticas e imediatas.
O trovão estranho vira a voz de um deus.
A doença estranha vira castigo.
A morte vira só passagem, pois “a vida continua em outro plano”.

O mito inventado transforma o fenômeno estranho em algo familiar, narrável e negociável.
A explicação mítica não nasce primeiro do amor à verdade, mas da necessidade de reduzir o terror. Depois, em níveis mais sofisticados, o desejo de conhecimento pode se transformar em ciência.
A ciência também tenta tornar o estranho familiar, mas aceita suportar o “não sei” por mais tempo. Foi por essa demora que ela precisou de milênios para aparecer, pois a investigação dá trabalho.
Já o mito é muito mais fácil: uma vez inventado, tranquiliza rapidamente.

b. O desejo de justiça nasce do incômodo da raiva.
A raiva, o ressentimento, o desconforto, a mágoa, a revolta, aparece quando há sentimento de injustiça por abuso de poder, invasão, humilhação ou diferenças intoleráveis.
A raiva é o alarme do desejo de justiça. A satisfação primitiva da raiva pode ser vingança, punição, retaliação ou destruição do agressor.
Em formas mais sofisticadas, a raiva é transformada em acerto de ponteiros, regra, reparação, limite, lei e justiça externa.
Diz-se que a forma mais sofisticada de operar a raiva em busca de justiça é a diplomacia.
A justiça reduz a ameaça porque impede que o outro possa tudo. Onde há justiça, há alguma previsibilidade nas relações.
Onde há previsibilidade, o organismo pode se expor e se tornar momentaneamente vulnerável com menos medo.

c. O desejo de ordenação e controle nasce da tensão da insegurança

A insegurança aparece diante do caos, do imprevisível, do desorganizado e do incontrolável. Logo, ordenar é reduzir ameaça, e controlar é tentar impedir a surpresa destrutiva.
Classificar, organizar, ritualizar e repetir são modos de diminuir a insegurança. O controle torna o estranho menos estranho. A ordem transforma o mundo em território manejável.

Esses três desejos acessórios trabalham a favor do desejo de prazer.
O conhecimento/entendimento reduz a perplexidade.
A justiça reduz a raiva diante da ameaça do outro.
O controle/ordenação reduz a insegurança diante do caos.

Quando perplexidade, raiva e insegurança diminuem, a máquina se aproxima da paz necessária ao prazer. Essa paz permite os estados de vulnerabilidade: A máquina pode então dormir; Pode eliminar resíduos; Pode fazer sexo, reproduzir, cuidar, repousar.
Pode entregar-se.

A capacidade de inventar mitos que “explicam tudo” nasce desse automático criador de familiaridade. A máquina humana cria mitos para tornar suportável aquilo que a ameaça.
Esse automático criador de mitos opera para fora e para dentro. Para fora, ele cria mitos que explicam sobre a natureza, os deuses, os mortos, as tempestades, as doenças e o destino.
Para dentro, ele cria sonhos, sintomas, fantasias, fobias e explicações íntimas.

O sonho pertence a essa mesma máquina mitológica:
Durante o dia, a máquina acumula estranhamentos, conflitos, desejos, raivas, perplexidades, inseguranças e restos emocionais. Ela fica sobrecarregada, funciona lenta e pesada.
À noite, o sono funciona como protetor da máquina. O sono permite resetagem, esvaziamento da sobrecarga e reorganização interna.

Mas esse “reset” precisa ser protegido: perturbações da véspera ou do próprio corpo podem ameaçar interromper o sono.
O sonho surge como meio de digerir essas perturbações.
O sonho transforma estranhamentos em cenas. Transforma tensões em fábulas, restos da véspera em narrativas. Transforma desejos em satisfações possíveis. Transforma ameaças em imagens mais assimiláveis.
Transforma as perturbações da véspera em algo momentaneamente sonhável, uma historinha codificada que não desperta a pessoa.

A função primordial do sonho é preservar o sono.

O sonho tenta manter a paz noturna necessária à resetagem.
Assim como o mito social torna familiar o trovão, o sonho torna familiar a perturbação íntima. Assim como a justiça tenta resolver a raiva no mundo externo, o sonho tenta dar alguma solução imaginária à raiva que sobrou da véspera. Assim como o conhecimento tenta resolver a perplexidade, o sonho inventa explicações narrativas para aquilo que ficou sem entendimento.Assim como a ordenação tenta resolver a insegurança, o sonho organiza o caos interno em cenas.

Quando o sonho consegue digerir a perturbação, o sono continua.
Quando não consegue, o sonho fracassa e se transforma em pesadelo.
O pesadelo é a falência da função digestiva do sonho. A perturbação ficou forte demais. O estranho não pôde ser suficientemente familiarizado. A tensão não pôde ser reduzida.
A máquina acorda.

Portanto, a mesma lógica liga a biologia ao mito, ao sonho e à cultura. Todos trabalhando em função do objetivo do programador:
a replicação do DNA.

TRANSTORNO DISMÓRFICO, UMA NOVA “FACE” DA NEUROSE OBSESSIVA

 


A neurose obsessiva é uma perturbação que vem do caráter obsessivo com o qual a pessoa nasce, completamente focada em controle e pureza.

Os sintomas comuns da neurose obsessiva são a pureza moral, a pureza da orientação sexual, a pureza dos “bons sentimentos” (bondade sem raiva), entre outros. Ou seja, uma obediência obsessiva ao senso comum de cada época, ou de cada “tribo social”.

A obsessão pela aparência perfeita também pode se transformar em neurose. Dessa forma, a neurose preserva sua estrutura, mas muda o conteúdo conforme muda o tribunal cultural.
O que permanece é a lógica:
• “Há algo em mim que me desqualifica.”
• “Preciso verificar se isso é verdade.”
• “Se for verdade, serei excluído, humilhado ou rebaixado.”
• “Tenho que neutralizar essa possibilidade.”
• “Mas a neutralização nunca basta.”

Antes, em determinados contextos culturais, a orientação sexual podia ocupar esse lugar de mácula. O pensamento invasivo “será que sou gay?” não era necessariamente expressão de desejo homossexual reprimido; muitas vezes era a forma obsessiva de uma pergunta superegóica: “há em mim algo que me torna impuro, inferior, condenável, excluível?”

À medida que a cultura vai reduzindo a força condenatória desse conteúdo, ele perde parte de sua eficácia patogênica. Não desaparece a estrutura obsessiva, mas ela procura outro significante carregado de ameaça narcísica. A aparência, hoje, tornou-se um desses grandes campos de captura.

A frase muda, mas a gramática é a mesma:
• “Será que sou gay?” vira “será que sou feio?”
• “Será que há algo errado com meu desejo?” vira “será que há algo errado com meu rosto?”
• “Será que os outros percebem minha mácula?” vira “será que todos estão vendo esse defeito?”
• “Preciso testar minha reação” vira “preciso checar o espelho, a câmera, a foto, o ângulo, a pele, o cabelo.”

As redes sociais funcionam como uma máquina de intensificação superegóica porque fazem três coisas ao mesmo tempo: multiplicam o olhar do outro, padronizam o ideal e tornam a comparação incessante. O sujeito não se compara mais apenas com os próximos da sua tribo imediata; compara-se com imagens editadas, filtradas, selecionadas, comercialmente otimizadas e repetidas milhares de vezes.

Então o ideal do Eu, do Ego, a face impositiva do Superego (“você tem que…”), se torna visual, algorítmico e inatingível. E o superego, em vez de dizer apenas “você deve ser moralmente puro”, passa a dizer: “você deve ser visivelmente impecável.”

A dismorfia corporal, nessa leitura, é uma neurose obsessiva voltada para a aparência. O corpo vira a superfície onde se inscreve a suspeita de indignidade. A “mácula” migra da orientação sexual, da culpa religiosa, da contaminação moral ou da dúvida ética para a pele, o nariz, o cabelo, a gordura, a musculatura, a simetria, a expressão facial.

O ponto decisivo é este: o obsessivo não sofre apenas porque encontrou um defeito; ele encontra um defeito porque precisa localizar a angústia em algum lugar. A cultura oferece os lugares disponíveis. Em outra época, a mácula podia ser pecado, impureza sexual, desvio moral. Hoje, pode ser inadequação estética.

Portanto, “eu tenho uma mácula na minha orientação sexual” e “eu tenho uma mácula na minha aparência” podem ser duas versões históricas da mesma operação psíquica. O conteúdo muda com o senso comum tribal; a máquina obsessiva permanece.




terça-feira, 19 de maio de 2026

PROBLEMAS EMOCIONAIS DA VELHICE




 

– sentimentos de perda / lutos


Luto: o sentimento que decorre da perda – objetiva ou subjetiva – de algo, ou de alguém, em quem, ou em que, a pessoa fez grande investimento de tempo, de afeto, de custos. Ou seja, algo, ou alguém muito importante para a pessoa.


O mais óbvio é o luto diante da morte de pessoa querida. Mas há outras formas de luto, como o de gente viva, de status social, de condições pessoais muito prezadas, de pets muito queridos etc.


Vamos ver aqui formas de lutos inerentes ao avanço da idade.


1. O ponto de partida: a velhice como acúmulo de lutos


Luto é o sentimento ligado a perdas de algo – ou de alguém – que foi alvo de muito investimento de valores pessoais, seja de tempo, de investimento emocional, de dinheiro etc.

Logo, luto = investimento + perda


O critério de velhice aqui usado não parte de uma idade objetiva, parte de uma visão de si mesmo, dentro da realidade vivida pela pessoa. Pois o luto ligado à idade acontece em diversos tempos da vida, inclusive a infância.


Um exemplo caricatural disso é o das profissões que dependem do corpo jovem, como a de modelo, bailarina, ginástica olímpica, ídolo infantil/adolescente, atleta de alto rendimento etc. Em todas elas haverá o momento de perda e sua dura transição.


A velhice é atravessada por múltiplos lutos sobrepostos. O luto da imortalidade (que bate forte em datas redondas como os 70 anos) é apenas um deles — e nem sempre o mais difícil.


2. O inventário ampliado dos lutos

Além dos lutos clássicos da idade (aparência, desejo, atratividade, funcionalidade, segurança financeira, independência, agilidade, memória), foram acrescentados:

• Papéis sociais (perda da identidade profissional)

• Parentalidade ativa (saída dos filhos, síndrome do ninho vazio)

• Pares afetivos e/ou profissionais (rarefação da rede social)

• Corpo erótico (deixar de desejar e de ser desejado)

• Futuro como horizonte aberto (o tempo vira “o que resta”)

• Utilidade (passar de quem dá para quem recebe)

• Reconhecimento social (invisibilidade do velho)

• Projeto de si (acerto de contas com o que se quis ser)


2. A leitura pelo Superego


Boa parte desses lutos atinge funções que o Superego transformou em condições de valor pessoal. É o chamado “luto do personagem”. A pessoa atribuía seu valor ao papel que desempenhava, seja como profissional quanto pessoal.

Quem se identificou rigidamente com ser produtivo, desejável ou indispensável sofre não só a perda objetiva, mas o desabamento da imagem que sustentava a autoestima.


4. A aposentadoria como luto da identidade

Caso emblemático: abre-se um vazio que a pessoa não sabe preencher, produzindo um tédio muito específico. Parece com o luto do personagem.


5. A semelhança com a adolescência

O tédio do aposentado é estruturalmente parecido com o do adolescente. Ambos foram expulsos de uma economia psíquica que funcionava e estão numa zona intermediária: “em que investir minha vontade, meus desejos e meu tempo?”.


6. A diferença crucial entre as duas crises

A adolescência é crise com um futuro vislumbrado, a “vida de gente grande”. A aposentadoria é crise sem roteiro — uma “adolescência sem turma”, sem rito de passagem, sem promessa cultural para vinte ou trinta anos de vida “sem rumo certo”.


7. O tédio da transição

Assim como na passagem da infância para a adolescência, quando frente à perda de graça dos velhos brinquedos, o desejo ainda não descobriu seus novos objetos, a aposentadoria pode trazer o mesmo tipo de tédio: “e agora? Onde haverá coisa interessante para fazer?” É uma transição que dá trabalho (e que deveria ser antecipada, antes que a aposentadoria chegasse).


9. O luto da atratividade sexual e como ele é cruel para as mulheres

A diferença entre os sexos nesse luto vem da biologia, não da cultura. Enquanto o desejo masculino é despertado pelos sinais visuais de fertilidade (que declinam na menopausa), o desejo feminino é despertado pela admiração (que pode aumentar com o tempo). Daí Sean Connery ter sido considerado sexy aos 80, sem que coisa semelhante aconteça com mulheres.


10. A injustiça biológica dupla para a mulher

A mulher perde a atratividade visual e perde também a própria capacidade de excitação, porque os hormônios da libido caem na menopausa. 



quarta-feira, 13 de maio de 2026

ADESTRAMENTO “DO BEM” x ADESTRAMENTO “DO MAL”

 


Tenho dito que o Superego é um automático instalado em nós através de um adestramento tosco baseado em ameaça de desamparo: se fazemos (ou pensamos) algo que o Superego condena, recebemos um “choque de desprazer” em forma de angústia, culpa, vergonha ou ridículo. É assim que ele nos manipula.

Mas isso não quer dizer que todos os adestramentos são “do mal”, pois nem todos os automáticos são “do mal”. Ao contrário: sem automáticos “do bem” não faríamos quase nada na vida. 

A parte de nossas ações comandadas de maneira consciente, a partir do nosso Eu, do nosso Ego, é muito pequena se comparada com nossas ações automáticas que servem às nossas escolhas.

Veja o que acontece agora: você, seu Ego, escolheu ler este texto. Entram em cena diversos automáticos “do bem” para tornar isso possível: o próprio aprendizado da língua portuguesa e o da leitura estão automatizados em você desde a infância, e estão armazenados no seu cérebro em uma área diferente do córtex pré-frontal (onde moram a consciência e o Eu que escolhe).

A mesma coisa ocorre quando você dirige um carro: o número de procedimentos automáticos que ocorrem, e que tornam a direção possível, é enorme… e todos “do bem”.

A Psicanálise do Superego visa tirar os automáticos “do mal” e fazer com que os “do bem” sejam incorporados pelo mesmo processo que incorporou a leitura: através do aprendizado por escolha. 
Aprendizado esse que não termina nunca, e essa é sua beleza: “a beleza de ser um eterno aprendiz” (Gonzaguinha, “O que é, o que é?”, 1982). 





segunda-feira, 11 de maio de 2026

DIFERENÇA ENTRE “LEVE” E “LEVIANO” - A ALTINHA

 


O Superego atrapalha a melhor característica de nossa espécie, que é “não se levar a sério”, ser criança brincando pela vida. Escolhi essa diferença entre o leve e o leviano como exemplo das duas coisas: a boa brincadeira e a influência indireta do Superego através do “dane-se”

A leveza é uma característica não dramática da brincadeira. O brincar pela vida afora é a marca registrada da melhor faceta de nossa espécie: a capacidade de se manter interminavelmente criança (cujo nome complicado é “neotenia”: do grego, “apego à juventude, à forma nova”).

A leviandade é o prazer imediatista que não leva em conta as consequências, que não tem consideração pelo outro, que “faz que não vê” os danos possíveis. A leviandade é um sinal de que o “dane-se, vou fazer” está operando. Ela não é “brincadeira”, é transgressão.

A brincadeira só tem uma coisa de “séria”: suas regras para funcionar. O resto é alegria.
Aqui no Rio temos um exemplo notável: a altinha.

A Altinha: um tipo de Leveza Estruturada

A altinha exemplifica perfeitamente essa distinção entre leveza e leviandade: uma brincadeira, um jogo, ancorada em regras básicas que a fazem funcionar bem. O jogo carioca, reconhecido como patrimônio cultural da cidade desde 2020, opera com uma regra fundamental - não deixar a bola cair no chão - e uma cooperação implícita: não há vencedores nem perdedores, a ideia é apenas manter a bola no alto e passá-la adiante.

### Regras que servem à Brincadeira

As leis mínimas da altinha - proibição do uso das mãos, objetivo compartilhado de manter a bola no ar, valorização do passe bonito - ajudam a criatividade sem atrapalhar o jogo. As regras servem a todos, ajudam na diversão e na cooperação, resultam da boa combinação prévia em que todos estão de acordo: a regra serve aos jogadores, não é o contrário, não são os jogadores escravos da regra.
É através das regras que a leveza se expressa: manobras criativas, passes bonitos, colaboração espontânea.

### Cooperação brincalhona de um lado, Competição do outro

Diferentemente dos jogos competitivos, onde há winners e losers (vencedores e perdedores), a altinha é um ótimo exemplo do "ganho generalizado e cooperativo". Todos trabalham para um objetivo comum, compartilham dificuldades, e a beleza do passe importa mais que a posse da bola.

A altinha é leve; não é leviana.